Categoria: 2024

  • Hayao Miyazaki e a garça 

    Hayao Miyazaki e a garça (Hayao Miyazaki ante heron, Japão, 2024), de Kaku Arakawa.

    Miyazaki acaba seu banho, caminha pelo corredor da casa, abre a porta de Toshio Suzuki e pergunta se o amigo está dormindo: “Só queria conversar um pouco.” A câmera foca Miyazaki deitado, com os olhos fechados. Ele diz: “Sabe. É isto o que acontece. Quando fecho os olhos e penso eu não vejo imagens, mas é como se eu pegasse meu cérebro e o agitasse. Talvez não meu cérebro. Eu pego fragmentos do filme de uma névoa sombria e de alguma forma eu consigo conectá-los.” Corta para insert de uma página em branco com a frase “parece que estou ficando maluco” escrita à mão. 

    O diretor Kaku Arakawa, acompanhou, durante sete anos, o mestre japonês da animação durante o processo de criação e produção de O menino e a garça (2023) – Oscar de Melhor Animação. O documentário traz reflexões importantes sobre o trabalho de Miyazaki e o detalhista controle que ele exerce sobre os profissionais que trabalham com ele, geralmente, uma equipe reduzida. 

    No entanto, o destaque do filme são as reflexões de Miyazaki sobre a idade, a finitude da vida e o luto. Em determinado momento, Miyazaki questiona o fato de ainda estar vivo, aos 80 anos, enquanto alguns de seus amigos e colaboradores estão mortos. 

    Emocionante acompanhar como a morte de seu amigo Isao Takahata, com quem dividiu a fundação do Studio Ghibli,  se reflete na criação do personagem Tio-Avô. Takahata é autor da obra-prima O túmulo dos vagalumes (1988). 

    A relação entre Miyazaki e o produtor Toshio Suzuki, também fundador do Studio Ghibli, ocupa parte considerável do documentário. O lendário estúdio japonês se consolidou por meio da gestão de Suzuki, responsável pela direção estratégica e financeira bem sucedidas que possibilitou liberdade criativa aos outros dois sócios.

    A cartela com a frase “acho que estou ficando louco” na abertura do documentário se completa com outra assertiva de Miyazaki: “A animação é algo que consome a sua vida.”

  • Dahomey

    by Robertson Mayrink

    Dahomey (França/Senegal, 2024), de Mati Diop, abre com plano fechado em miniaturas de Torres Eiffel piscando as luzes, dispostas em um tecido em alguma calçada de Paris – trabalho de rua de muitos africanos, oriundos talvez de ex-colônias da França no continente. Entra lettering sobre imagem do Rio Sena à noite: “9 de novembro de 2021. 26 tesouros reais do Reino de Daomé devem deixar Paris, retornando à sua terra de origem, a atual República do Benim. Estes artefatos estavam entre os milhares saqueados pelas tropas coloniais francesas durante a invasão de 1892. Para eles, 130 anos de cativeiro estão chegando ao fim.”

    O documentário acompanha a trajetória desses artefatos: o empacotamento no museu, o desembarque das peças na República do Benim, o esforço de colocá-las em um lugar que não representasse exatamente um museu, mas sim um local onde os habitantes pudessem transitar entre seus antigos símbolos roubados. Grande parte do documentário abre espaço para um debate entre pesquisadores, estudantes, membros de tribos, sobre o significado do retorno dos artefatos e, sobretudo, sobre a imposição cultural francesa – incluindo a substituição da língua nativa pelo francês – durante o período de colonização/escravidão. 

    Volto ao início do filme, quando uma voz em off, sobre tela negra, reflete sobre o longo período de cativeiro, de exílio. Em outros momentos, essa voz volta à narrativa: é o lamento de um dos desterrados que viveu mais de um século na escuridão. 

    “Desde que me conheço por gente, nunca houve uma noite tão profunda e opaca. Aqui, essa é a única realidade possível. O início e o fim. Viajei por tanto tempo, na minha mente, mas esse lugar estranho era tão escuro que me perdi em meus sonhos, unindo-me a essas paredes. Isolado da terra onde nasci, como se estivesse morto. Há milhares de nós nesta noite. Todos temos as nossas cicatrizes. Desenraizados. Arrancados. Espólios do enorme saque. Hoje, é a mim que escolheram, como sua melhor e mais legítima vítima. Eles me chamaram de 26. Não 24. Não 25. Não 30. Só 26.”