Categoria: Anos 40

  • O pecado de Cluny Brown

    O pecado de Cluny Brown (Cluny Brown, EUA, 1946) é o último filme dirigido por Ernst Lubitsch. O diretor marcou o cinema clássico americano com suas comédias e se consagrou por uma marca conhecida por “toque Lubitsch” que influenciou outros grandes nomes do cinema, principalmente Billy Wilder.

    Cluny Brown (Jennifer Jones) é uma jovem de classe baixa, irreverente, ingênua e atrevida que, após protagonizar uma hilária intervenção em uma aristocrática festa londrina, é enviada por seu tio para trabalhar em uma suntuosa casa de campo no interior da Inglaterra. Como empregada, ela reencontra o refugiado escritor theco Adam Belinski (Charles Boyer) – a narrativa se passa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Os dois passam por um relacionamento marcado pela irreverência de ambos e por situações de confronto com a conservadora e preconceituosa sociedade inglesa. 

    Um dos grandes momentos do filme é quando Cluny Brown é apresentado ao casal Carmel, donos da residência. Confundida com uma ilustre visitante, Cluny é tratada com regalias durante o chá até que se anuncia como a nova empregada. A reação do casal, evidenciada pela sutileza visual do “toque Lubitsch”, demarca o grande tema dessa comédia recheada de críticas sociais. 

  • Que se faça luz

    Que se faça luz (Let there be light, EUA, 1980), de John Huston.

    Durante a Segunda Guerra Mundial, cinco grandes diretores de Hollywood embarcaram para a Europa: John Huston, William Wyler, John Ford, George Stevens e Frank Capra.  O objetivo era participar do esforço de guerra, documentando os combates no continente europeu.  A série Five came back narra a odisseia dos diretores e traz depoimentos de importantes cineastas contemporâneos sobre o processo e as obras documentais criadas sobre a guerra.

    O documentário Que se faça luz, filmado em 1946, se destaca devido à temática e às polêmicas suscitadas. John Huston visitou hospitais psiquiátricos e coletou depoimentos de veteranos da guerra que enfrentavam transtornos psicológicos devido às experiências em frentes de combates. A partir dos anos 70, a doença foi denominada de transtorno do estresse pós-traumático. 

    John Huston contou com a colaboração de médicos e pacientes, que permitiram que algumas sessões fossem gravadas, incluindo práticas de hipnose. O que se vê nas telas é um retrato doloroso e cruel dos traumas causados pela guerra, não permitindo, às vezes, a reintegração dos soldados à sociedade e à vida familiar.

    O governo americano considerou o documentário impróprio para veiculação, alegando que mostrava a condição dos soldados de forma desmoralizante. O filme foi censurado durante mais de 40 anos, ganhando uma restauração em 1980, quando finalmente veio a público como uma contundente denúncia da guerra e seus efeitos permanentes.

  • Em nome da lei

    Em nome da lei (Itália, 1949), de Pietro Germi.

    O diretor Pietro Germi, nome menos referenciado do aclamado cinema neorrealista italiano, faz uma incursão pelo gênero do faroeste (as influências de John Ford estão presentes na obra), ambientando a trama na Sicília do início do século XX. O juiz Guido Schiavi chega a uma pequena cidade controlada pelo Barão Vasto e pela máfia. Os mafiosos substituem a justiça, cobrando para proteger os nobres da cidade. O juiz, de apenas 26 anos, tem ideais humanistas e justos e tenta impor a lei, se defrontando de forma perigosa com os poderosos que controlam a região com violência, praticando assassinatos impiedosos.  

    O estilo neorrealista de Em nome da lei é demarcado por algumas características comuns ao movimento: a forte crítica social, retratando uma população miserável e faminta subjugada de forma violenta pelo barão e pela máfia; a narrativa linear, demarcada pela bela fotografia em preto e branco que destaca a aridez e a miséria da ilha; o sentimentalismo, quase melodramático do drama social, com direito a uma história de amor entre os protagonistas Guido e Teresa. O final, após um assassinato triste e doloroso, imprime uma certa esperança pela continuidade da luta por justiça social. 

    Elenco: Massimo Girotti (Guido Schiavi), Charles Vanel (Massaro Turi), Jone Salinas (Baronesa Teresa), Camillo Mastrocinque (Barão Vasto), Bernardo Indelicato (Paolino). 

  • Angelina, a deputada

    Quando Luigi Zampa realizou Angelina, a deputada (L’onorevole Angelina, Itália, 1947), o neorrealismo italiano estava em sua melhor fase e comprova que trabalhar com atores não-profissionais não era uma marca do movimento. Anna Magnani interpreta Angelina, moradora de uma favela de Roma que passa a liderar as mulheres em uma cruzada contra a fome e a falta de habitação. Sua liderança ganha as manchetes dos jornais e incomoda os magnatas imobiliários quando os moradores da favela ocupam um prédio em construção. 

    A luta de classes e a miséria, incluindo crianças famintas, é o tema do filme. As moradoras da favela formam um partido e tentam convencer Angelina a se lançar deputada. A narrativa tem um forte teor feminista, as mulheres é que vão à luta, enquanto seus maridos são retratados como ociosos, com sugestões inclusive de violência doméstica. 

    O final do filme resvala para a esperança, sugerindo uma união entre um dos magnatas imobiliários e os membros da favela. No entanto, a sequência final, que em estrutura circular, recria o movimento da abertura derruba esse sentimento. No início, a câmera entra na casa de Angelina, percorrendo os cômodos onde dormem os cinco filhos até enquadrar Angelina e seu marido na cama, discutindo sobre as precariedades econômicas que levam à incerteza de alimentação da família no dia seguinte. No final, a câmera enquadra o casal discutindo o mesmo assunto do início e a câmera, em movimento contrário, percorre os ambientes até sair da casa.  

  • Pai e filha

    Há uma sequência em Pai e filha (Banshun, Japão, 1949), de Yasujiro Ozu, que simboliza muito do prestigiado cineasta japonês e do cinema clássico como um todo. Noriko (Setsuko Hara) está assistindo a uma peça de teatro Nô, ao lado do seu pai viúvo, Shukichi (Chishu Ryu). Ele olha para a plateia do outro lado e, sorrindo, acena a cabeça. Noriko também olha e repete o gesto do pai. Vemos a Sra. Miwa (Kuniko MIyake), uma mulher também viúva que retribui os cumprimentos. A câmera agora está centrada em Noriko e Shukichi. Ela volta a olhar para a senhora, depois para seu pai. Agora seu olhar é melancólico, pois ela entendeu que seu pai tem uma pretendente. Ela abaixa a cabeça e os olhos. Essa pura e bela narrativa visual, com a câmera bem ao estilo de Ozu, levemente baixa, dura cerca de sete minutos, sem diálogos, ouvimos somente o cântico dos atores no palco. 

    Pai e filha trata de um tema recorrente nos filmes de Ozu: a dissolução da família no Japão que adentra a modernidade. Noriko está decidida a cuidar do pai durante toda a vida, recusa inclusive as propostas de casamento arranjadas por sua tia. O pai não aceita essa decisão e insiste para que ela se case. A cena do teatro, quando Noriko sente as trocas de olhares do pai e da Sra. Miwa, é um sinal que o pai pretende se casar novamente e não precisa mais dos cuidados da filha. 

    “A consternação de Noriko na cena citada, resume seu dilema. Não quer casar porque não quer se distanciar do pai, porque é feliz com ele. Talvez passe por aí uma série de outras questões, desde o desinteresse por casamentos arranjados até o comodismo em como vive, especialmente depois da instabilidade que foi a guerra; pouco importa. Noriko vê no casamento o fim de seu relacionamento com o pai, a dissolução completa de sua família. Ozu filmou diferentes formas de dissolução, do casamento à sua instabilidade, da mudança de residência à morte de algum parente. Em Pai e Filha, o casamento de Noriko equivale à morte. Não é à toa que Ozu se interessa tanto por esse tema, porque talvez seu cinema possa, afinal, ser resumido a isso, ao ato de filmar as ausências, não somente pelas escolhas formais, mas também como maneira de representar o que há de mais inevitável na vida. Se a morte é a ausência, o casamento de Noriko também o é. Não a vemos se casar, não a vemos depois disso. Vemos apenas seu quarto sem sua presença, vemos o que ficou para trás. Vemos Shukichi só. Ausência, vale dizer, não é o mesmo que vazio, como pode parecer. Ausência é não presença, são equivalentes. Por isso, Noriko reluta tanto, ela antevê o fim e não quer se desapegar. Sentimos sua ausência assim como sua presença.” – Gabriel Carneiro.

    Referência: Mestres japoneses. Dez filmes essenciais do cinema clássico nipônico. Fernando Brito (org.). Versátil Home Vídeo: São Paulo, 2022.

  • Paisá

    Paisà (Itália, 1946), de Roberto Rossellini, retrata, em seis episódios, os últimos momentos da guerra, destacando os horrores cometidos pelos nazistas e a ocupação americana na Itália.

    1. Na Sicília, um soldado americano é encarregado de ficar de vigília em uma caverna. Na mesma caverna está escondida uma jovem da aldeia e os dois não conseguem se comunicar.  O fim trágico deles é uma dolorosa abordagem da crueldade da guerra, que dá fim de forma abrupta e repentina à solidariedade e esperança de jovens que não se entendem e não entendem os motivos de estarem ali. 
    2. Este episódio aborda, ao mesmo tempo, a miséria que toma conta de uma sociedade que vive nos escombros da guerra e as questões raciais. Um soldado negro perambula bêbado por Nápoles, com a ajuda de um garoto. Em determinado momento, o garoto avisa: “Não durma, senão vou roubar suas botas.” É o que acontece. Dias depois o soldado revê o garoto e o persegue, exigindo suas botas de volta. Quando o soldado se vê diante da miséria na qual o menino vive, lembranças de sua infância, talvez em um gueto, marcada também pela miséria e pelo preconceito racial, vêm à tona. 
    3. Em Roma, uma prostitua leva um soldado americano bêbado para seu quarto. Ele não consegue se relacionar com ela e diz em determinado momento: “Roma está cheia de garotas como você. Era diferente quando chegamos. As moças estavam felizes, sorridentes.” Ele conta, então, sua história com a jovem Francesca, por quem se enamorou, sendo correspondido. O soldado não se lembra, mas Francesa é a prostituta que tenta seduzi-lo agora. Este curta evidencia outra espécie de crueldade da guerra: a impossibilidade dos relacionamentos amorosos durante conflitos que não apontam para um amanhã e o triste e cruel destino das mulheres durante a guerra. 
    4. Florença. Uma mulher atravessa a cidade, procurando seu marido que luta com a resistência. Um soldado americano tenta ajudá-lo e os dois atravessam barricadas e regiões da cidade que se encontram em confrontos, com tiros e explosões acontecendo a todo momento. No fim, o que resta é o sentimento de inutilidade de ajudar um ao outro em meio a tiros que não poupam ninguém. 
    5. Em um monastério secular, na chamada linha gótica,  um grupo de padres vive em orações, agradecendo por terem sido poupados da guerra. Três capelães americanos chegam ao convento, deslumbrados com a imponência da arquitetura do lugar, construído “quando a América ainda não tinha sido descoberta.” Os capelães são convidados para jantar, mas não há comida para todos. O relacionamento durante esta noite envereda para as diferenças ideológicas, espirituais e raciais. Quando os padres descobrem que um dos capelães é judeus, o medo se instaura entre eles. Nesta história, não há ações no front de batalhas, tudo fica por conta do terror psicológico, do preconceito que motivou uma das maiores tragédias da história da humanidade.  
    6. Muitos críticos e teóricos apontam este episódio como o mais neorrealista de todos os filmes de Roberto Rossellini. Começa com um cadáver sendo levado pela correnteza sustentando por uma boia onde está escrito: partisan. Nas margens, soldados americanos, mulheres e crianças veem o cadáver se afastar. Os membros da resistência estão escondidos nos juncos e resolvem arriscar a vida para buscar o amigo. Outras duas sequências aterradoras compõem essa história de crueldade desmedida. Um menino de cerca de três anos chora em meio aos cadáveres de aldeões executados pelos nazistas por ajudarem a resistência. Os alemães capturam os soldados americanos e membros da resistência. Os americanos são prisioneiros de guerra, os membros da resistência não. Eles são enfileirados na borda de um barco com as mãos amarradas. São empurrados um a um para dentro do rio. É a realidade, nada mais do que a realidade.
  • A taverna do caminho

    A taverna do caminho (Road house, EUA, 1948), de Jean Negulesco. Com Ida Lupino (Lily Stevens), Richard Widmark (Jefferson T.), Cornel Wilde (Pete Morgan), Celeste Holm (Susie Smith). 

    Jefferson T. é o proprietário de uma casa de shows em uma pequena cidade americana. Ele contrata Susie, cantora por quem está apaixonado e com quem pretende se casar. Pete Morgan, o gerente do local e amigo de infância de Jefferson, tenta tirar a cantora da cidade, mas os dois se apaixonam e a trama caminha para um trágico triângulo amoroso. 

    Ida Lupino é o grande destaque do filme, suas interpretações musicais são encantadoras, revelando um novo talento para a star system e uma das únicas mulheres diretoras do machista sistema de estúdios. O final do filme, quando os quatro personagens principais são levados pelo ciumento Jefferson para uma casa no bosque, é um thriller de tirar o fôlego, com atuação surpreendente de Robert Widmark. 

  • Tensão

    Tensão (Tension, EUA, 1949), de John Berry.

    Warren Quimby é um pacato funcionário de farmácia. Admirado pelos seus colegas de trabalho, trata com gentileza todos os clientes e, após o final do expediente, ruma tranquilamente para sua casa, onde espera encontrar Claire (Audrey Totter), sua esposa. Desde o início o espectador sabe que é um casamento praticamente de fachada por parte de Claire que trata o marido com indiferença e agressividade, enquanto se diverte à noite com outros homens. 

    O casamento termina quando Claire resolve assumir seu amante. Acontece então uma radical mudança de personagem: Warren se disfarça fisicamente e planeja assassinar seu oponente. 

    A femme fatale vivida por Audrey Totter é o grande destaque da trama. Após o assassinato, ele tenta virar o jogo e voltar para o marido, mas agora é ela quem enfrenta uma oponente: Mary (Cyd Charisse), jovem que se apaixona por Warren e é correspondida. No entanto, a polícia agora está no encalço do farmacêutico, sob acusação de um assassinato que ele planejou mas não cometeu. Ótimo noir de John Berry, responsável por um clássico do gênero: Por amor também se mata (1951). 

  • Almas perversas

    Almas perversas (Scarlet street, EUA, 1945), de Fritz Lang.

    Christopher Cross (Edward G. Robinson) é um homem passivo, dominado pela forte personalidade de sua esposa, uma viúva que ainda mantém, quase como uma ameaça, o retrato de seu primeiro marido na sala de estar. É um casamento de conveniência, cabendo a Chris abaixar a cabeça e seguir em frente com suas frustrações. Tudo muda quando ele conhece Kitty (Joan Bennet), uma prostituta, a tradicional e irresistível femme fatalle dos fimes noir. 

    Almas perversas é um remake de A cadela (1931), de Jean Renoir. A temática dos dois filmes é a mesma: a opressão que o sistema capitalista, burguês, impõe a seus servos, que caminham resignados enquanto sonham com uma vida diferente, talvez pela arte, talvez vivendo uma paixão. Chris é pintor em suas horas livres, mas não faz nada para seguir nessa carreira, deixa até mesmo roubarem a autoria de seus quadros. Tem admiração por seu chefe, que tem uma amante muito mais nova. Kitty entra em sua vida e a transformação do protagonista é impactante: ele pratica um assassinato e não se importa em ver um inocente pagar pelo seu crime. 

    “A mudança no local em que se passam os dois filmes serve como parâmetro para a mudança de gênero deles. Em Paris, desejo é poesia; em Nova Iorque, é dinheiro. Chris Cross desliga-se da esposa, é demitido do trabalho, assassina uma mulher, incrimina um homem, transforma-se em um mendigo, mas, ao contrário de Simon, não alcança liberdade alguma. Lang vai, assim, além de Renoir. Os atos do protagonista agora não são contrários ao mundo onde vive, mas impulsionados por ele, pois esse mundo é regido pelo desejo, e desejo, repito, é capital. Desde o início, esta relação fica clara. Na primeira vez em que aparecem juntos, um longo plano mostra Chris, sentado, de costas, enquanto seu chefe, em pé, de frente para a tela, discursa. Pouco depois, Chris comenta que gostaria de ter alguma amante jovem e bonita apaixonada por ele, como tem seu chefe, e como nunca, em sua vida, teve. Quando se apaixona por Kitty, o desejo que sente é apenas fruto daquilo que gostaria de ser: seu chefe, portanto. Mas Lang não deixa dúvidas; a paixão custa caro, em qualquer sentido, e não é qualquer um que tem o direito de desejar. Se para o patrão a questão moral não se coloca (e seria um tanto hipócrita pensar que Chris tem mau destino porque “peca”, quando o chefe também o faz, e mais naturalmente) é porque ele tem dinheiro e poder para comprá-la, como afirma a cena em que assegura a liberdade de seu funcionário subornando os guardas com uma caixa de charutos cubanos.” – Leonardo Levis – Contracampo

  • Legião invencível

    Legião invencível (She wore a yellow ribbon, EUA, 1949), de John Ford, é o segundo faroeste da Trilogia da Cavalaria, que se completa com Forte Apache (1948) e Rio Grande (1950). O Capitão Nathan Brittles (John Wayne) está a dias de se aposentar quando recebe uma perigosa missão: escoltar a mulher e a sobrinha do comandante do forte em território controlado pelos índios. 

    A trama é um tributo de Ford ao exército americano, ressaltando a nobreza do Capitão, os laços emocionais que se criam entre os soldados, com a camaradagem aflorando a cada sequência. O tom de melancolia e saudosismo permeia a trajetória de Nathan – as cenas mais sensíveis do filme acontecem quando o Capitão coloca seu banquinho ao lado do túmulo de sua esposa e conversa com ela. 

    A película foi realizada, como de costume nos filmes de Ford, no Monument Valley, com bela fotografia (vencedora do Oscar daquele ano) em Technicolor de Winton C. Hoch. John Wayne, eterno colaborador de Ford, tem uma de suas atuações mais sensíveis e contidas, emanando sentimentos ternos para seus comandados, para as mulheres que escolta, para o velho índio a quem respeita.