• Teu mundo não cabe nos meus olhos

    Vitório perdeu a visão na infância. Vive feliz com sua condição: é pizzaiolo de sucesso, se diverte com amigos, frequenta estádios de futebol. Clarisse, sua esposa, insiste que ele faça uma operação para recuperar a visão. Vitório reluta, mas cede aos apelos. 

    O filme faz interessante abordagem sobre escolhas, mesmo que seja manter a deficiência que, para muitos, significa estar de olhos fechados para o mundo. O egoísmo também está presente nas relações: para a família, o melhor é Vittório voltar a enxergar. O tom de comédia está na relação entre Vitório e seu assistente Cleomar. 

    Como outros filmes – Perfume de mulherO milagre de Anne SullivanUm clarão nas trevasPor trás de seus olhos, a película de Paulo Nascimento trata com sensibilidade a questão da deficiência visual.  

    Teu mundo não cabe no meus olhos (Brasil, 2018), de Paulo Nascimento. Com Edson Celulari (Vitório), Leonardo Machado (Cleomar), Giovana Echeverria (Alicia), Soledad Villamil (Clarisse), Roberto Birindelli (Dr. Jantzen).

  • Todo clichê do amor

    A trama segue a tradicional estrutura de histórias paralelas que podem se cruzar. São quatro, envolvendo diversos personagens: ator de filme pornô discute ao telefone com a mulher, garota de programa; motoboy se apaixona por atendente de lanchonete; casal discute a relação; madrasta e enteada colocam em debate a relação, enquanto velam o corpo do homem responsável pela convivência forçada das duas. A ousadia da trama está na leitura de trechos de um romance que está também sendo encenado em novela de rádio e pode ser o ponto de união das histórias.

    O destaque do filme é Marjorie Estiano (das grandes estrelas do cinema nacional) como garota de programa, vestida a caráter para a prática de atos sadomasoquistas. Ao mesmo tempo, ela se entrega ao programa e discute a relação com o marido no telefone. As quatro histórias oscilam entre o drama e a comédia.   

    Todo clichê do amor (Brasil, 2017), de Rafael Primot. Com Débora Falabella, Eucir de Souza, Clarissa Kiste, Maria Luísa Mendonça, Marjorie Estiano. 

  • Um lugar silencioso

    Tramas ambientadas em mundo apocalíptico, no qual a humanidade foi praticamente dizimada, dominam a ficção científica do cinema contemporâneo. Basta dar uma passada pelo catálogo da Netflix para achar uma dúzia de filmes do tipo. A inovação em Um lugar silencioso está na escolha do plot que movimenta a narrativa: a terra foi invadida por seres que não enxergam, mas caçam suas vítimas, os humanos, através do apurado senso auditivo. Casal, interpretado por John Krasinski e Emily Blunt, vive com os dois filhos em cabana na floresta. Só podem se comunicar através de sinais, vivem no mundo silencioso. O problema é que a mulher está grávida, terá seu filho sem anestesia. 

    A primeira sequência do filme apresenta de forma perturbadora o que vem pela frente. A luta dos humanos contra o desconhecido, que pode surgir do nada ao menor ruído, rende ótimas cenas de suspense. Em sua estreia como diretor, o ator John Krasinski promete ser dos grandes nomes por trás da câmera. 

    Um lugar silencioso (A quiet place, EUA, 2018), de John Krasinski. Com Emily Blunt, Noah Jupe, Millicent Simmonds, Cade Woodward, Leon Russom, John Krasinski. 

  • Aos teus olhos

    Filmes recentes do cinema brasileiro exploram o impacto virtual na vida dos jovens, incluindo YonluBenzinho e Aos teus olhos. No longa de Carolina Jabor a temática é o linchamento virtual a partir de denúncia não-comprovada. Rubens (Daniel de Oliveira), jovem professor de natação, é acusado de ter beijado um aluno na boca. A acusação parte da própria criança. O menino afirma que o fato aconteceu quando eles estavam sozinhos no vestiário, ou seja, sem testemunhas e sem câmeras de segurança (trama similar ao ótimo Infâmia, de William Wyler). 

    O que se segue são acusações dos pais, a mãe postando em redes sociais, provocando o linchamento virtual e disseminando a revolta em outros pais. O professor de natação não tem como se defender e, em determinado momento, é ameaçado fisicamente. O filme é baseado na peça O princípio de Arquimedes e a opção de Carolina Jabor é não fechar a questão, deixando todos na dúvida. O instigante plano final do filme provoca no espectador o desejo de entrar na mente de Rubens e descobrir a verdade.

    Aos teus olhos (Brasil, 2017), de Carolina Jabor. Com Daniel de Oliveira, Marco Ricca, Malu Galli, Stella Rabello, Gustavo Falcão.  

  • Lírio partido

    O pai adotivo de Lucy (Lilian Gish) pede a ela um sorriso. Lucy é incapaz de sorrir devido aos sofrimentos constantes por que passa, uma vida miserável, implacável, sentida nas frequentes surras que leva do pai, lutador de boxe que descarrega sua raiva e frustrações com chicotadas na filha. Temendo desapontar o pai e ganhar nova surra, Lucy coloca os dedos indicador e médio nos cantos dos lábios, como se fizesse o V, e estica a boca, simulando um sorriso que permanece alguns segundos em seu rosto.

    Este gesto acabou se tornando a marca de Lírio partido (Broken blossoms, EUA, 1919) de D. W. Griffith. Lucy usa os dedos em V em outras cenas para abrir seu sorriso melancólico. A menina fora abandonada recém-nascida e adotada pelo Lutador. Violento, bêbado e descontrolado, ele usa a filha como saco de pancadas ao menor sinal de contrariedade. Lucy se arrasta pelas ruas de Londres até que conhece o Chinês, jovem que abandonou o oriente para difundir as ideias do Buda, mas rapidamente conheceu o mundo miserável e se entregou ao vício de narcóticos, enquanto busca sentido para a vida. Os dois se apaixonam e vivem um trágico romance.

    Lírio partido é dos primeiros e mais contundentes melodramas do cinema. Lilian Gish conta que o famoso gesto dos lábios aconteceu por acaso. A atriz contraíra a gripe espanhola e ficara alguns dias sem filmar. Chegou ao set abatida. Griffith pediu a ela um sorriso. Sem motivos para isso, ela intuitivamente levou os dedos aos lábios, esticando-os. O diretor gostou e esse gesto se transformou no aspecto simbólico do sofrimento da jovem Lucy. Reflete também a sensibilidade de Griffith, seu domínio pioneiro da narrativa cinematográfica. A importância de Griffith consiste na capacidade de articular os planos e movimentos de câmera a favor da narrativa, criando suspense, motivando o espectador a antecipar e sofrer com a sequência das ações.

    Em O nascimento de uma nação (1915), seu primeiro clássico, Griffith cria espetacular sequência final de suspense e angústia para o espectador ao contrapor planos da cabana sendo atacada com cavaleiros correndo para salvar os refugiados. À medida que os atacantes vencem a resistência dos sitiados, entrando na cabana, tentando derrubar a porta do quarto, entrando pelas janelas, o diretor corta estas cenas, alternando para o galope desenfreado dos salvadores, tornando os planos cada vez mais ágeis. A alternância das cenas retarda o tempo de tomada da cabana, criando a cada corte angústia e suspense no espectador.

    Impossível desconsiderar nesta sequência, e neste filme, que os atacantes são um grupo de negros e os heróis são a ku klux Khan. Griffith despejou em O nascimento de uma nação sua verve racista. Você assiste ao filme com sentimentos contrastantes: admiração pelas inovações linguísticas e revolta pela abordagem abertamente racista.

    Lírio partido tem outra sequência exemplar para entender a importância do cinema de Griffith: a luta de boxe entre o Lutador e o Tigre, perto do clímax do filme. Lucy, depois de sofrer mais uma surra do pai, foge pelas ruas de Londres e é resgatada pelo oriental que a coloca no andar de cima de sua loja. Aos poucos, Lucy se recupera, surge entre os dois um clima de romance. Um dos amigos do Lutador descobre e conta a ele que a menina está refugiada na casa do oriental. Revoltado, o pai diz que vai acertar as contas com os dois, mas antes tem que derrotar o Tigre em uma revanche de boxe.

    É outro aspecto importante das inovações introduzidas por Griffith: através do fluxo narrativo da história, ele prepara o espectador para o clímax. A violência do confronto entre o Lutador e o Tigre, no ringue, se alterna com o idílio romântico entre Lucy e o Oriental. Troca de socos e agressões se contrapõem à troca de olhares, de gestos carinhosos. A alternância e o ritmo das cenas paralelas sugerem de forma dramática ao espectador o que está por vir: assim que a luta terminar, vai explodir a verdadeira violência. O espectador imagina que o resultado do confronto pode influenciar tragicamente no destino dos dois amantes, afinal, o Lutador já demonstrara do que é capaz em momentos de frustração, ódio e vingança.

    Esta sequência exemplifica  uma das características fundamentais do jogo narrativo cinematográfico, praticamente definido por Griffith: o espectador se sente impotente, preso à cadeira de cinema, angustiado, tenso, capaz de se projetar em um final trágico ou feliz, com sentimentos suscetíveis, abertos às maravilhosas surpresas que grandes filmes proporcionam.

  • Da biblioteca da filha

    Não sou leitor assíduo de livros policiais. Comprei, há muitos anos, coleção da Agatha Christie e os livros ficaram empoeirados nas estantes. Até que minha filha descobriu o gênero e leu um por um. De Agatha Christie ela passou a Arthur Connan Coyle, entusiasmada com Sherlock Holmes. Acabou como leitora voraz de romances policiais, uma vez por semana aparece com livro novo, incluindo exemplares da Coleção Negra, livros sedutores, belas encadernações de variados autores do gênero.

    O livro do assassino, de Jonathan Kellerman, cumpre com precisão as promessas de uma envolvente narrativa policial. O psicólogo Alex Delaware recebe pelo correio álbum repleto de fotos de cenas de crimes, destas que fazem parte dos arquivos policiais, tiradas logo após os assassinatos. Delaware mostra as fotos para um amigo policial, Milo Sturgis. Ao ver as fotos de uma jovem estuprada e assassinada, o policial se recorda do caso: Jane Ingalls, 17 anos, violentada, estrangulada, queimada e retalhada. Um caso de 20 anos atrás não resolvido por Milo Sturgis e seu parceiro.

    O livro fora enviado de propósito, como motivação para Milo reabrir, por conta própria, as investigações. Boa parte das 524 páginas de O livro do assassino transcorre com a dupla investigando o passado das pessoas possivelmente envolvidas no crime. O ângulo principal da narrativa acontece pelos olhos do psicólogo que narra em primeira pessoa o rumo das investigações. Em outros momentos, a terceira pessoa assume a narração para seguir os passos de Milo Sturgis. Este interessante recurso aumenta o suspense, pois provoca no espectador a sensação de montagem paralela, como no cinema.

    A técnica é importante também para sugestionar como a homossexualidade do detetive Milo Sturgis poderia ter interferido nas primeiras investigações do assassinato, revelando o preconceito agressivo dentro da polícia de Los Angeles. As revelações caminham para questões comuns no gênero policial: corrupção na polícia, atos criminosos motivados por drogas, o mundo sem limites dos jovens endinheirados na meca do cinema, prostituição e abuso sexual de menores.

    A princípio, o leitor fica confuso pois personagens aparecem e desaparecem durante as investigações. Aos poucos, porém, as peças vão se juntando e, se você tiver memória acostumada a este tipo de narrativa, percebe que as conexões são bem maiores do que se imaginava para um crime sexual. Por isso, o clímax não é tão revelador, vale mais pela ação desencadeada nos últimos momentos.

    Aí sim, este leitor desacostumado pode ser fisgado pelo gênero que já proporcionou obras primas para o cinema e se tornar frequentador da biblioteca da filha.

  • Memórias do subsolo

    Memórias do subsolo, novela publicada em 1864, é narrada em primeira pessoa por um anônimo. O personagem revela com ironia e desprezo a amargura em que vive. Dostoiévski usa o narrador para caracterizar a decadência de uma geração. Na introdução, o autor alerta:

    “Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários. Todavia, pessoas como o seu autor não só podem, mas devem existir em nossa sociedade, desde que consideremos as circunstâncias em que, de um modo geral, ela se formou. O que pretendi foi apresentar ao público, de modo mais evidente que o habitual, um dos caracteres de um tempo ainda recente. Trata-se de um dos representantes da geração que vive os seus dias derradeiros.”

    Essa geração derradeira é representada por um homem sem esperanças a respeito do mundo e de si mesmo. Começa sua história apresentando-se: “Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado.”

    Dostoiévski colocou na mente de seu personagem indagações perturbadoras. O narrador reflete:

    “Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui. Pelo menos, eu mesmo só recentemente me decidi a lembrar as minhas aventuras passadas, e, até hoje, sempre as contornei com alguma inquietação. Mas agora, que não apenas lembro, mas até mesmo resolvi anotar, agora quero justamente verificar: é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral?”

    Essa dúvida fecha o longo desabafo inicial do personagem, quando ele resolve contar a sua história. Uma história sobre personagens do subsolo (Érico Veríssimo fez incursão parecida em Noite). Talvez nem uma história, crueldades do mundo jogadas no papel. Narradas desse jeito profundo e simples que fazem de Dostoiévski porto-seguro na escolha de boa leitura.

    “Agora está nevando, uma neve quase molhada, amarela, turva. Ontem nevou igualmente e dias atrás, também. Tenho a impressão de que foi justamente a propósito da neve molhada que lembrei esse episódio que não quer agora me deixar em paz. Pois bem, aí vai uma novela. Sobre a neve molhada.”

  • Ressureição

    Ressurreição, primeiro romance de Machado de Assis, foi publicado em 1872. Nas primeiras páginas, já se percebe o estilo: o romantismo, a conversa com o leitor, a refinada ironia, as descrições sedutoras de personagens e situações.

    “Félix contemplou-lhe longo tempo aquele rosto pensativo e grave, e involuntariamente foram-lhe os olhos descendo ao resto da figura. O corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos delicados e graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio túrgido, comprimido pelo cetim; o braço esquerdo, atirado molemente no regaço, destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido, como um fragmento de estátua sobre o musgo de uma ruína. Félix recompôs na imaginação a estátua toda, e estremeceu. Lívia acordou da espécie de letargo em que estava. Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão. Félix apressou-se em apanhar-lho.”

    O que mais me impressiona neste início da leitura de Ressurreição é o posfácio. Machado de Assis, então com 33 anos, se dirige com humildade à crítica literária, pedindo benevolência e compreensão na leitura de seu primeiro romance.

    “Não sei o que deva pensar deste livro; ignoro sobretudo o que pensará dele o leitor. A benevolência com que foi recebido um volume de contos e novelas, que há dous anos publiquei, me animou a escrevê-lo. É um ensaio. Vai despretensiosamente às mãos da crítica e do público, que o tratarão com a justiça que merecer.”

    Não sei se a crítica, o público (e o próprio Machado de Assis) tinham já a noção de estar diante do desenvolvimento de um gênio da literatura. Seria Machado de Assis ainda um autor titubeante, tentando esconder sua insegurança na modéstia? Ou estaria já ensaiando uma de suas marcas literárias: a ironia com seu próprio trabalho e com os dos outros.

    “A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar as graças naturais. Eu fujo e benzo-me três vezes quando encaro alguns desses prefácios contritos e singelos, que trazem os olhos no pó da sua humildade, e o coração nos píncaros da sua ambição. Quem só lhes vê os olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou, e da justiça que pediu.”

    “Ora pois, eu atrevo-me a dizer à boa e sisuda crítica, que este prólogo não se parece com esses prólogos. Venho apresentar-lhe um ensaio em gênero novo para mim, e desejo saber se alguma qualidade me chama para ele, ou se todas me faltam, – em cujo caso, como em outro campo já tenho trabalhado com alguma aprovação, a ele volverei cuidados e esforços. O que eu peço à crítica vem a ser – intenção benévola, mas expressão franca e justa. Aplausos, quando os não fundamenta o mérito, afagam certamente o espírito, e dão algum verniz de celebridade; mas quem tem vontade de aprender e quer fazer alguma cousa, prefere a lição que melhora ao ruído que lisonjeia.”

    Se a crítica leu este prólogo, deve ter se sentido incapaz até mesmo de emitir julgamentos. Deve ter simplesmente manifestado reverência ao nascimento do maior escritor da língua brasileira ou a um operário, como Machado de Assis se definiu.

    “Não quis fazer romance de costumes; tentei de uma situação e o contraste de dous caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro. A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e sobretudo se o operário tem jeito para ela.”

  • A imprensa e o caos na ortografia

    Eu gostaria de falar com a Srª Enyr.

    – O Sr. Enyr não está.

    – Quem está falando?

    – Anna, a esposa dele.

    Meu pai, Enyr com y. Minha mãe, Anna com dupla consoante. Essa situação aconteceu diversas vezes na minha casa e a mãe sempre se divertiu com o nome feminino de meu pai.

    Segundo Marcos de Castro, autor do livro A imprensa e o caos na ortografia, essas estranhas grafias de nomes são resultado da “orgia ortográfica dos cartórios brasileiros” que se submetem aos caprichos dos pais e registram nomes próprios com letras que não existem na língua portuguesa (y e w – ou não existiam antes da reforma ortográfica), nomes com dupla consoante ou os nomes mais esquisitos: “Em Uberaba, no Triângulo Mineiro, vivia nos anos 1930 um casal em que o marido se chamava Guiomar e a mulher Euclides…”

    As críticas mais contundentes do autor são dirigidas à imprensa que cedeu a essa orgia. Marcos de Castro informa que antes de 1970 havia um compromisso respeitado por todos os jornais brasileiros em escrever os nomes próprios de acordo com a língua portuguesa. Assim, nomes como Ulysses Guimarães (com y na certidão de nascimento) eram rigorosamente escritos na imprensa com i, Ulisses Guimarães. Isso evitava perguntas comuns como: “- Fulano, esse Luís é com s ou com z?”

    Com o tempo, esse acordo deixou de existir e os jornais passaram a registrar os nomes nas matérias e entrevistas da forma que constam nas certidões, ou como as pessoas querem ser chamadas. Marcos de Castro cita um fato marcante no final da década de 70 como provável mudança desse comportamento:

    “Um dia o general (Golbery do Couto e Silva) se queixou ao amigo (o jornalista Elio Gaspari), que diabo, o nome dele era com y no final, e o jornal grafava ‘Golberi’. (…) O General, acostumado desde 1964 ao arbítrio e a subverter o estabelecido, a desconhecer normas que não fossem as dele e de sua tropa no poder, sem dúvida insistiu. Tanto que um dia, por essa época, o copidesque recebeu uma ordem do editor-chefe (…): daquela data em diante, o nome do general passava a ser grafado Golbery, com y final.”

    O livro é uma instrutiva coletânea de erros cometidos pela imprensa na grafia e verbalização de palavras e expressões. Na primeira parte, “A desordem da escrita”, o autor cita erros comuns cometidos pela imprensa e por órgãos públicos ao escrever: Ary Barroso, Theatro Municipal, chopp (marca da cerveja Brahma) ao invés de chope, Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro).

    “A desordem da fala” é o título da segunda parte da livro. Os locutores e repórteres de TV são criticados abertamente neste item, por pronunciarem futê-bol, por exemplo. O mais interessante é o capítulo siglas em inglês:

    “A marca mais famosa era de uma empresa americana conhecida como RCA Victor, ou simplesmente RCA. Pois não havia desde o início um único brasileiro que dissesse ar-ci-ei. (…) A IBM (…) nunca foi ai-bi-ém, mas i-bê-eme. (…) A emissora BBC de Londres – e ninguém dizia bi-bi-ci. O FBI nunca foi éf-bi-ai.”

    “Mas nos anos 90, um canal de televisão (…) resolveu transmitir os jogos de basquete da liga profissional dos Estados Unidos, a NBA. Só que ao ouvir a sigla em inglês ele se entusiasmou (o locutor da TV). E começou a falar ene-bi-ei para o público brasileiro.”

    Marcos de Castro completa afirmando que a farra descambou de vez com a implantação da TV a cabo no Brasil:

    “O canal de televisão da Metro (MGM) se anuncia como em-dgi-ém. Mas ainda não se chegou ao pior de todos, que é um certo canal eitch-bi-ou. Nesse caso, um único brasileiro em mil entenderá essa sigla. Pois bem sabe o caro leitor, que não é obrigado a aprender o alfabeto em inglês, que a tradução disso (HBO) soaria bem simplesinha aos nossos ouvidos, agá-bê-ó. (…) Não vamos nem falar no nome dos programas: i-ar (plantão médico), Ló & Order (Lei e Ordem), dezenas de outros. Realmente, não se fala mais português na rede de TV por assinatura, no Brasil.”

    Na terceira parte, Marcos de Castro edita um pequeno dicionário de batatadas da imprensa.

    “Não se enterra a alma. Ninguém que creia na existência dela discute isso. Por que então a Rede Globo teima em perturbar a paz dos que são enterrados usando a fórmula esdrúxula ‘o corpo de Fulano foi enterrado em…’”

    A imprensa e o caos na ortografia brasileira é um livro que merece um lugar na escrivaninha como material de consulta. Mas em alguns casos é dar murro em ponta de faca. Os termos em inglês invadiram a língua portuguesa sem a menor cerimônia. Após ler o livro, fiz uma pequena pesquisa e percebi o óbvio: não existe mais nenhum título de séries de TV traduzido: Lost, Crossing Jordan, Heroes, Smallville, Star Trek, True Blood, Mad Men, American Idol, Brothers & Sisters, Desperate Housewives, Grey’s Anatomy, Breaking Bad, Game of Thrones…

    Marcos de Castro afirma no seu livro que muito dessa “orgia” se deve a pretensas estratégias de marketing. E critica os publicitários:

    “Tudo previsível, uma vez que os publicitários nunca se deram bem com a língua portuguesa”.

    “E a língua da publicidade, como se sabe, não pode contar muito no espectro dos falantes, pois esse mundo é um mundo fechado, com linguagem própria – e inexpressiva exatamente por ser restrita, uma vez que no círculo específico dos publicitários se fala o portinglês.”

    “Os publicitários não contam quando a referência é o vernáculo”.

    Críticas sérias. É o caso de indagar: quem está exagerando, Marcos de Castro em seus ataques? ou os publicitários/profissionais de marketing em usar descaradamente o inglês para se comunicar com brasileiros

    Referência: A imprensa e o caos na ortografia. Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 2008

  • Leitura de aeroporto

    Sou um mineiro exagerado. O voo estava marcado para as cinco da tarde. Cheguei às duas horas. Fui para a livraria procurar uma revista de cinema para passar o tempo. Não sei o que está acabando, livrarias ou revistas de cinema. Livros de autoajuda e misticismo, guias de viagem despencavam pelas prateleiras, nada de revista de cinema. Um ou outro Saramago, Clarice Lispector, é verdade, mas eu queria leitura de aeroporto, sem pretensão, daquelas que você pode levantar o olho para o movimento.

    Lá no canto da livraria, a salvação, uma pilha de pocket-books. E deleite dos deleites para mais de três horas de espera, Assassino Metido a Esperto, livro de contos policiais de Raymond Chandler.

    Raymond Chandler (1888-1959) foi, ao lado de Dashiell Hammett, o mais expressivo dos escritores da geração pulp-fiction. Os personagens de seus contos e romances viviam em prostíbulos, bares, casas de jogos, apartamentos pequenos e bagunçados nas ruas e becos de Los Angeles. Os detetives fumavam e bebiam às vias de fato (o próprio Chandler era alcoólatra), entravam em todo tipo de enrascada por uma bela mulher e cobravam entre 5 e 10 dólares de honorários para resolver os crimes.

    Philip Marlowe, o detetive mais famoso de Chandler, era pouco mais nobre, fez curso superior, gostava de bebida, de mulheres e de trabalhar sozinho. Era um romântico e, às vezes, perdoava a vítima por puro sentimentalismo. Uma mulher com quem passara a noite perguntou-lhe certa vez:

    – Como pode um homem tão duro ser assim tão delicado? – Marlowe respondeu.

    – Se eu não fosse duro, não estaria vivo. Se eu não fosse delicado, não merecia estar vivo.

    Marlowe protagonizou sete romances de Raymond Chandler. O detetive soturno e dúbio gerou pelo menos um clássico no cinema, À Beira do Abismo (1946), de Howard Hawks, interpretação primorosa de Humphrey Bogart. Era o melhor do gênero noir que influencia escritores e diretores de cinema até hoje. Exemplos: Acossado (1959), Chinatown (1974), Corpos Ardentes (1981), Blade Runner – O Caçador de Andróides(1982), Pulp Fiction (1994). Em cada um desses filmes, os personagens resvalam entre o crime e a lei, a violência e a compaixão, a ambição e a falta de perspectiva no dia-a-dia. Humanos, como todos nós.