O belo terror de Erik Blomberg é inspirado nas crenças do povo sámi, seminômades que vagem pelas terras geladas da Lapônia. A jovem Pirita se casa completamente apaixonada pelo caçador Aslak. Ela fica a maior parte do tempo sozinha, a solidão combinada com saudade leva Pirita a um xamã, ermitão que vive no topo da geleira.
A jovem, sedenta de amor e sexo, toma uma poção que a torna desejável por todos. Mas saciar o desejo, desperta o terror da rena branca.
É um conto sobre a necessidade de sobrevivência na paisagem desolada, fria, que só agrava a solidão e desperta o desejo de amor e afeto nas pessoas. Pirita se entrega de alma e corpo que se transmuda à luta por seus desejos, cujo destino estava traçado pela gélida canção.
Menininha, criança da Lapônia / Nascida na neve / Passou a infância /Com os sapatos recheados de palha / Como uma rena / Por ser criança não sabia / Nem quando se casaria /Nem que ela nasceu bruxa / Com o demônio em sua barriga / Ela ofereceu ao deus de pedra / E à Madder-Akka / Uma rena branca / Caminhou nas colinas como uma rena / Na hora marcada / A lança atravessou a rena branca / Então a menina lapona dormiu / A neve fria como cobertor / Uma pilha de neve como travesseiro
A rena branca (Valkoinen peura, Finlândia, 1952), de Erik Blomberg. Com Mirjami Kuosmanen (Pirita), Kalervo Nissilä (Aslak), Åke Lindman (Metsänhoitaja).
O angustiante filme de Antonioni acompanha um dia e uma noite na vida do escritor Giovanni e sua esposa Lídia. O ponto de partida é a visita do casal ao hospital, onde o amigo Tommaso está internado – ele sofre com uma doença terminal.
A crise do relacionamento do casal se evidencia ao correr das horas, pontuada por uma sucessão de encontros casuais: a ninfomaníaca que seduz Giovanni no hospital; o longo passeio de táxi de Lídia pela periferia da cidade; o editor de Giovanni que anuncia também uma crise profissional; por fim, a festa em uma mansão à noite, frequentada pelos fúteis membros da alta sociedade.
O encontra final que desencadeia a frustração dos protagonistas é o pretenso relacionamento entre Giovanni e Valentina, a jovem filha do anfitrião da festa. Destaque para as atuações perturbadoras de Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni e para a arrebatadora entrada em cena de Monica Vitti.
A noite (1961) faz parte da trilogia de Antonioni sobre a alienação, o tédio que domina a vida dos integrantes da alta sociedade. Os outros filmes são A aventura (1960) e O eclipse (1962).
A noite (La notte, Itália, 1961), de Michelangelo Antonioni. Com Marcello Mastroianni (Giovanni), Jeanne Moreau (Lídia), Monica Vitti (Valentina), Bernhard Wicki (Tommaso Garani).
Xavier Maréchal acorda de madrugada com o toque da campainha de casa. É seu amigo Philippe Dubaye, importante político francês. Dubaye revela que acabou de cometer um assassinato. A vítima tinha em mãos um caderno com nomes de vários políticos franceses, envolvidos em esquemas de corrupção, e estava chantageando Dubaye.
A morte deste corrupto é o ponto de partida para uma intrincada trama de suspense – o caderno é o famoso “MacGuffin” de Hitchcock, pois passa a ser questão de vida ou morte para preservar os importantes políticos envolvidos. Policiais e bandidos contratados entram em ação, assassinatos acontecem, no centro de tudo está Maréchal, envolvido acidentalmente nesta intrincada rede de crimes políticos. Um filme noir de prender o fôlego e instigar a reflexões sobre a perpetuação do poder.
A morte de um corrupto (Mort d’un pourri, França, 1977), de Georges Lautner. Com Alain Delon (Xavier Maréchal), Ornella Muti (Valérie), Klaus Kinski (Nicolas Tomski), Maurice Ronet (Philippe Dubaye), Daniel Ceccaldi (Lucien Lacor), Julien Guiomar (Fondari), Stéphane Audran (Christiane), (Mireille Darc (Françoise).
A corda da romã foi mais um dos grandes filmes soviéticos censurados pelo regime. Coisas dos ditadores que nomeiam a arte, principalmente o cinema, como inimigos do governo.
O diretor Sergei Parajanov faz um retrato lírico, poético, surrealista, de Sayat Nova, poeta armênio do século XVII, apelidado de o “Rei da Canção.” Sem narrativa, a obra é uma sucessão de poesia visual lírica, com fortes ressonâncias religiosas. Experiência estética bem ao estilo do novo cinema dos anos 60 que correu o mundo com ousadia, o cinema rebelde que reverbera até hoje.
“O uso notável do enquadramento similar ao de uma pintura evoca o espaço restrito de filmes feitos há cerca de um século, ao passo que o uso magnífico da cor e os extravagantes conceitos poéticos e metafóricos parecem originários de algum cinema utópico do futuro. Não temos, entretanto, que decifrar as imagens de modo sistemático para experimentar o seu assombroso poder. Os planos da abertura mostram três romãs que espalham seu suco vermelho sobre uma toalha de mesa branca, um punhal manchado de sangue, pés descalços esmagando uvas, um peixe (que imediatamente vira três peixes) se agitando entre duas tábuas de madeira e água caindo sobre livros. Ao mesmo tempo ‘difíceis’ e imediatas, enigmáticas e encantadoras, as imagens perfeitas em todo o filme nos lembram miniaturas persas infundidas em ecstasy.”
A cor da romã (Rússia, 1969), de Sergei Parajanov.
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
Em 1994, três exploradores descobriram uma caverna, perto do Rio Ardèche, sul da França, que contém as pinturas rupestres mais antigas – remontam a 32 mil anos atrás. Foi uma das descobertas mais importantes da arqueologia, com pinturas rupestres tão preservadas que, a princípio, suspeitou-se de fraude. Pesquisas comprovaram a autenticidade da arte.
A Caverna de Chauvet é fechada à visitação pública, só é permitida a entrada de profissionais e pesquisadores altamente qualificados. O diretor alemão Werner Herzog conseguiu autorização do Ministério da Cultura Francês para, com uma equipe reduzida, assim como o mínimo de equipamentos necessários, filmar a caverna e suas inscrições.
O resultado é um dos documentários mais fascinantes, quase um tratado sobre artes plásticas e cinema, finalizado em 3D. Segundo Herzog, “a caverna é como um momento congelado no tempo.”
As pinturas ocupam imensos painéis de pedra, representando animais como bisões e cavalos. As imagens de Herzog, acompanhadas de suas reflexões, mostram a tentativa dos artesãos de reproduzir imagens em movimento, retratar momentos como a caçada ou a debandada de animais.
“Para estes pintores paleolíticos, a interação da luz e das sombras de suas tochas devia ter esta aparência. Para eles, os animais deveriam parecer vivos e em movimento. Devemos atentar que o artista pintou este bisão com 8 pernas, indicando movimento, quase uma forma de proto-cinema.” – Werner Herzog
Jean-Michel Geneste, Director of the Chauvet Cave Research Project analisa o que sempre impulsionou a humanidade em sua busca pela representação. “A sociedade humana precisa adaptar-se à paisagem, aos outros seres, aos animais e aos outros grupos humanos. E a comunicar algo, a comunicar e registrar memória em coisas muito específicas como paredes, pedaços de madeira, ossos. É a invenção da representação figurativa de animais, de homens, de objetos É uma forma de comunicação entres os seres humanos, além de evocar o passado para transmitir informação, que é melhor do que a linguagem, do que a comunicação verbal. E esta invenção continua idêntica em nosso mundo atual. Como esta câmera, por exemplo.”
Dentro da caverna, os quatro integrantes da equipe de Herzog se moviam em fila indiana (portanto, a equipe de filmagem faz parte do documentário), em caminhos que deveriam ser rigorosamente respeitados. Para captar imagens mais próximas, os técnicos usavam longas hastes para as pequenas câmeras, com baixíssima iluminação. O tempo da equipe dentro da caverna era limitado ao extremo. Tudo confere ao documentário uma rara impressão de realidade de cenas vividas pelo homem há quase 30.000 anos. É o encontro de duas magias, dois sonhos: as pinturas rupestres e o cinema.
“Estas imagens são lembranças de sonhos há muito esquecidas. Esta é a batida do coração deles ou da nossa? Seremos capazes de compreender a visão dos artistas através desse abismo de tempo?” – Werner Herzog
A caverna dos sonhos esquecidos (Cave of forgotten dreams, EUA/Alemanha, 2010), de Werner Herzog.
O diretor turco Nuri Bilge já se consagrou pelas narrativas longas, reflexivas, o tipo de cinema contemplativo que exige entrega do espectador. Ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo belo Sono de Inverno. Em A árvore dos frutos esquecidos, Nuri Bilge tece uma trama envolvendo um aspirante a escritor, Sinan, que volta para casa após terminar seus estudos superiores.
Os conflitos do filme passam pelas frustrações literárias de Sinan e sua difícil relação com o pai, viciado em jogos de azar. A árvore dos frutos esquecidos é o título de seu primeiro livro, metáfora delicada para a simples, pacata e também contemplativa vida em pequenas comunidades, que às vezes se perde na busca por grandes aspirações. A volta para casa, para o seio da família, apesar de todos os problemas, provoca a reflexão, detona o gatilho das emoções simples do dia-a-dia.
A árvore dos frutos esquecidos (Ahlat agaci, Turquia, 2018), de Nuri Bilge Ceylan. Com Dogu Demirkol (Sinan Karasu), Murat Cemcir (Idris Karasu), Serkan Keskin (Suleyman)
No dia 19 de abril de 1913, o carro que transportava os dois filhos da dançarina Isadora Duncan caiu no Rio Sena, em Paris. As crianças, de 4 e 6 anos, faleceram no acidente. Como processo de luto que durou toda a sua vida, Isadora criou e performou a coreografia Mother, cujos temas eram a perda e o vazio.
Em Os filhos de Isadora, o diretor Damien Manivel faz uma espécie de docudrama, colocando em cena três mulheres que reconstituem a célebre coreografia. Agathe Bonitzer recria e ensaia de forma solitária, tentando compreender, em frente ao espelho, a imensa dor desta perda. A professora Marika Rizz ensaia a coreografia com sua aluna Manon Carpentier, uma adolescente que sofre de síndrome de down.
No término da apresentação de Manon, a câmera enquadra em travelling os espectadores, até parar em Elsa Wolliaston. A terceira parte é o grande destaque do filme. A câmera segue Elsa até a sua casa, em um lento e silencioso processo reflexivo sobre a arte. A lentidão e o imenso silêncio colocam o espectador em um estado contemplativo e reflexivo, quase uma imersão irrecuperável na dor de Isadora Duncan.
Os filhos de Isadora (Les enfants D’Isadora, França, 2019), de Damien Manivel. Com Agathe Bonitzer, Manon Carpentier, Marika Rizzi, Elsa Wolliaston.
O filme abre com Franck Poupart em um terreno baldio, o rádio no capô de seu carro. Ele ensaia uma coreografia que mistura dança e representação de luta de facas, em um momento de total descontração. O que Franck não sabe é que o destino está prestes a jogá-lo em uma trama que envolve a paixão por uma adolescente – a femme fatale do cinema noir, que pode terminar em assassinato.
Frank trabalha como vendedor ambulante e cobrador de dívidas para um agiota. Ele bate na casa de uma velha senhora e, após oferecer seus produtos, é surpreendido pela oferta da proprietária: sexo com Mona, sua sobrinha adolescente, em troca de um casaco.
Assim como em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese, há uma premissa de justiça. Franck resolve livrar a menina das garras da cafetina, mas novamente é surpreendido: Mona vira o jogo, revelando que a tia tem muito dinheiro guardado em casa e os dois começam a arquitetar o assassinato da cafetina.
Série negra apresenta personagens que se cruzam em cenas às vezes ingenuamente cômicas – a relação entre Frank e Tikedes, outras vezes em cenas que anunciam a tragédia de quem oscila entre o bem e o mal – o conflito entre Frank e Jeanne no banheiro. O final deixa em aberto as incompreensíveis reações de mentes doentias.
Série negra (Série noire, França, 1979), de Alain Corneau. Com Patrick Dewaere (Frank Poupart), Myriam Boyer (Jeanne), Marie Trintignant (Mona), Bernard Blier (Staplin), Jeanne Herviale (La tante), Andreas Katsulas (Andreas Tikedes).
O cenário é um velho apartamento de dois pavimentos, cuja estrutura ostenta a necessidade de reformas: fios elétricos aparentes, paredes mofadas, luz oscilante, teto ameaçando deixar pedaços pelo chão. A família Blake está reunida para o Dia de Ação de Graças. Durante a noite, marcada por conflitos, revelações, crises depressivas, a família tenta, quase inutilmente, reatar laços.
As paredes decrépitas do apartamento, as lâmpadas semi mortas, sugerem, ameaçam, insinuam lentamente que a narrativa caminha para o suspense e o terror. Coisas de uma casa que reflete seus moradores.
The humans (EUA, 2021), de Stephen Karam. Com Richard Jenkins (Erik), Jayne Houdyshell (Deirdre), Amy Schumer (Aimee), Beanie Feldstein (Brigid), Steven Yeun (Richard), June Squibb (Momo).
Em 1988, um ano antes da queda do Muro de Berlim, Tilda Swinton e a diretora Cynthia Beatt se uniram em um documentário. A atriz, em um road-movie de bike, percorreu o Muro de Berlim do lado ocidental, buscando vislumbres da outra Alemanha além das paredes.
21 anos depois, a ideia é a mesma, agora sem a demarcação cruel da fronteira. Tilda Swinton percorre livremente vários pontos, em um passeio contemplativo, reflexivo, por ruas, avenidas, parques que outrora foram demarcados pelo muro. A beleza do documentário está neste gesto de liberdade que um passeio de bike representa, deixando o vento ondular os cabelos, o olhar cair livremente sobre estruturas e pessoas, a mente vagar sem amarras.
The invisible frame (Alemanha, 2009), de Cynthia Beatt.