• O dinheiro

    Em seu último filme, Robert Bresson retoma princípios básicos de seu cinema, em termos narrativos e estéticos. A trama tem semelhanças com seu clássico extremo, O batedor de carteiras.

    Um jovem, em Paris, pede adiantamento da mesada ao seu pai. O pedido é negado, o jovem recorre a um amigo e os dois resolvem passar adiante uma nota falsa de 500 francos. O crime se dá em uma loja de equipamentos fotográficos. No mesmo dia, o dono da loja repassa a nota como pagamento a Yvon, um bombeiro que acaba de prestar serviços na loja. 

    Essa trama aparentemente simples, de uma nota falsa que circula de mão em mão na cidade, ganha contornos trágicos quando Yvon, sem saber da falcatrua, paga suas despesas em uma lanchonete com a nota. Ele é preso, julgado, perde seu emprego e, sem dinheiro, envereda pelo mundo do crime. 

    Bresson aplica em O dinheiro (adaptado de um conto de Tolstoi) seu famoso radicalismo na direção de atores. Os personagens agem quase como autômatos, sem demonstrar emoções como tristeza ou raiva. Yvon aceita seu destino trágico com uma resignação fria, sua transformação em um honesto trabalhador, em um adorável pai de família, no mais cruel assassino, acontece de forma natural. A decupagem simples, direta, os cortes secos, uma imagem sucedendo à outra como fotos que passam diante de nossos olhos – estamos diante, pela derradeira vez, da genialidade simples de Robert Bresson. 

    O dinheiro (L’Argent, França, 1983), de Robert Bresson. Com Christian Patey (Yvon Targe), Vincent Ristenucci (Lucien), Caroline Lang (Elise). 

  • O amor dos leões

    Agnès Varda realizou este filme durante sua estada em Los Angeles, em 1969, centrando a narrativa em um triângulo amoroso, formado por Viva (a atriz de Andy Warhol, interpretando ela mesma), Jim e Jerry. Sexo a três, amor livre, viver os dias entre o mar, o sol e as piscinas, tudo indica o aclamado verão do amor que marcou a rebeldia juvenil dos anos 60. 

    Em meio a esta utopia, a diretora insere imagens dos astros e estrelas de Hollywood: fotos, cartazes, a famosa calçada da fama, citações, segundo Viva “a pressão aqui em Hollywood é tão grande, vinda de todas aquelas pessoas mortas.”

    Como pano de fundo, a própria Agnès Varda participa da trama, pois está tentando terminar um filme com a estrela Shirley Clarke, que passa por uma crise profissional e pessoal que resulta em uma overdose de remédios. 

    O amor dos leões é um retrato utópico e realista (os três protagonistas vivem em frente à TV acompanhando os impactos políticos do assassinato de Rober Kennedy) do final dos anos 60, quando parece que todo a rebeldia caminha para o erro.

    O amor dos leões (Lions love (…and lies), EUA, 1969), de Agnès Varda. Com Viva (Viva), James Rado (Jim), Gerome Ragni (Jerry), Shirley Clarke (Shirley). 

  • Muriel

    Hélène é viúva e, para sobreviver, vende antiguidades de seu apartamento. O fotógrafo Bernard, seu enteado, vive no apartamento, dividindo seu tempo entre o seu precário estúdio e com uma namorada imaginária, Muriel. A rotina dos dois, que anuncia uma atração secreta e mútua, é perturbada com a chegada de Alphonse, antigo namorado de Hélène, e sua sobrinha Françoise (que depois revela ser amante de Alphonse). 

    O cultuado Alains Resnais realizou Muriel logo após a obra-prima O ano passado em Marienbad. A trama de Muriel também envereda pelos meandros de memória, de passados traumáticos – Muriel é uma jovem que foi torturada por soldados franceses, com a participação de Bernard, durante a guerra da Argélia. Hélène e Alphonse buscam reviver um amor acabado através da lembranças de pequenos encontros, de planos que ficaram pelas ruas, pelas praias, de gestos abandonados no último instante. A edição fragmentada, feita de cortes súbitos, quase frames inseridos ao acaso, demarca o estilo de Resnais e da própria nouvelle-vague em seus primeiros filmes. 

    Muriel (França, 1963), de Alain Resnais. Com Delphine Seyrig (Hélène Aughain), Jean-Pierre Kérien (Alphonse Noyard), Nita Klein (Françoise), Jean-Baptiste Thíérrée (Bernard). 

  • Mulheres diabólicas

    Um dos diretores da primeira geração da nouvelle-vague francesa, Claude Chabrol sempre foi o mais apegado ao filme de gênero. Mulheres diabólicas é um thriller psicológico, regado a altas doses de violência. Sophie trabalha como empregada doméstica para Catherine em uma casa campestre. Ela desenvolve uma estranha amizade com Jeanne, funcionária dos correios local. Quando as duas começam a frequentar a casa, promovendo ruidosos e inconvenientes encontros, Catherine demite a empregada. 

    Isabelle Huppert é o destaque da trama, sua personagem se revela cada vez mais e mais perigosa, a princípio com ideias subversivas, em uma espécie de ajuste de contas entre classes. O violento final, com as duas amigas de cartucheiras em punho, é de revirar os sentidos do espectador. 

    Mulheres diabólicas (La cérémonie, França, 1995), de Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert (Jeanne), Sandrine Bonnaire (Sophie) Jacqueline Bisset (Catherine), Jean-Pierre Cassel (Georges), Virginie Ledoyen (Melinda), Valentin Merlet (Gilles).  

  • Mommy

    A narrativa se passa em um futuro indefinido. No Canadá, o governo implantou um projeto de lei para serviços de saúde. O S18 permite que os filhos com deficiência possam ser deixados pelos pais em um hospital público, sem um processo legal. É o abandono permitido. 

    O adolescente Steve se enquadra nessa categoria: é psicótico, violento, sujeito a instabilidades emocionais imprevisíveis. Sua mãe, Diane, tenta cuidar dele em casa e, em determinado momento, conta com a ajuda de Kyla, sua nova vizinha. 

    Os três protagonistas sofrem com questões emocionais severas, cada um tentando compensar suas frustrações sentimentais, emocionais, cuidando uns dos outros. O diretor canadense Xavier Dolan conquistou seu primeiro prêmio em Cannes com Mommy, finalizado no dispositivo quadrado 1:1 e carregado com uma trilha sonora psicodélica e fascinante. O final pessimista, de uma tristeza imensa, reflete esses conturbados meandros das relações familiares. 

    Mommy (Canadá, 2014), de Xavier Dolan. Com Anne Dorval (Diane), Antoine Olivier Pilon (Steve), Suzanne Clément (Kyla). 

  • Como fera encurralada

    Prepare-se para uma das cenas mais tristes do cinema noir, quando Abel Davos, sua esposa e filhos, e o comparsa Raymond Naldi desembarcam, à noite, em uma praia da Espanha. 

    A primeira parte do filme é um road-movie acelerado. Abel e Raymond roubam dois guardas na saída de um banco, na Itália. A fuga acontece pelas estradas italianas, de carro e moto, depois de ônibus, por fim de barco. O destino é Paris. A virada de roteiro na praia provoca um rumo inesperado, principalmente para Abel.

    Na segunda parte, Abel se defronta com seus antigos amigos em Paris, em uma jornada de vingança. Como fera encurralada tem uma das mais extensas e variadas galerias de personagens noir. Abel, pivô da trama, é movido a amizade e lealdade aos amigos, apesar de seu caráter cruel (atenção para um assassinato a sangue frio). O jovem Erik Stark é romântico e delicado com as crianças, mal parece um bandido. O grupo de Paris tenta se desprender do passado, oscilando entre a lealdade e a traição. 

    O ator Lino Ventura, que ficou marcado pelos seus papéis de gangsters, traz a amargura e a tristeza estampada no rosto. Seu resignado gesto final traz a carga simbólica daqueles que não esperam a redenção através da punição, apenas se entregam ao destino. Um elegante, belo e triste filme noir

    Como fera encurralada (Classe tous risques, França, 1960), de Claude Sautet. Com Lino Ventura (Abel Davos), Sandra Milo (Liliane), Jean-Paul Belmondo (Erik Stark), Michel Ardan (Riton), Simone France (Thérèse Davos), Stan Krol (Raymond Naldi),

  • O soldado que não existiu

    Em 1943, os aliados planejavam a libertação da Itália, ocupada pelos nazistas. O desembarque das tropas deveria acontecer pela Sicília, fortemente defendida pelos alemães. Para minar a resistência, os aliados plantaram informações falsas que invadiriam a Grécia. Assim nasceu a famosa Operação Mincemeat, criada por um pequeno grupo de estrategistas formado por civis e militares: o cadáver de um oficial inglês jogado na costa da Espanha com informações sigilosas sobre o desembarque na Grécia. 

    A operação é considerada um dos maiores estratagemas de dissimulação da história das guerras. É a base narrativa de O soldado que não existiu. O filme começa pela montagem invertida, no dia do desembarque da Sicília, com narração em off do escritor Ian Fleming, que participou da operação, discorrendo sobre verdades e mentiras, realidade e ficção em tempos de guerra.

    O recuo no tempo, seis meses antes, narra passo a passo o estratagema. Romance, bom-humor, drama e suspense se entrelaçam na história. Em um momento, um oficial diz, se dirigindo a Ian Fleming: “estamos cercados pelos nazistas e pelos escritores.” 

    O filme não tem surpresas, todo mundo que se interessa pelo tema sabe que os alemães não ofereceram resistência ao desembarque na Sicília. O trunfo do roteiro são mesmo as combinações de gêneros, centrando na estratégia, sem necessidade das tradicionais sequências de guerra. 

    O soldado que não existiu (Operation Mincemeat, EUA, 2021), de John Madden. Com Colin Firth (Ewen Montagu), Matthew Macfadyen (Charles Cholmonde), Kelly Macdonald (Jean Leslie), Johnny Flynn (Ian Fleming). 

  • Código desconhecido

    O primeiro filme de Michael Haneke na França explora as narrativas cruzadas. É manhã em uma avenida movimentada de Paris. O jovem Jean caminha com Anne pela calçada, discutindo sobre ele ficar ou não na cidade. Eles se despedem, Jean assiste por alguns segundos a um grupo de músicos de rua e joga um pedaço de papel amassado no colo de uma pedinte. Amadou, um jovem negro, vê o ato e aborda Jean, exigindo que ele peça desculpas. 

    A partir deste encontro, o filme assume a estrutura fragmentada, sem coerência narrativa. Os fragmentos exploram momentos do cotidiano das pessoas envolvidas, principalmente Anne, uma atriz, seu namorado Georges, um fotógrafo de guerra, Amadou, um negro imigrante, e Irina, a pedinte também imigrante. 

    A temática do filme é a grande distinção social, exacerbada pelo racismo e pela xenofobia, que se evidencia em situações cotidianas da cidade: nas ruas, em cafés, nos metrôs (atenção para a longa sequência de abordagem de um jovem marginal a Anne). Juliette Binoche domina, como sempre, mais um filme.

    Código desconhecido (Code inconnu: récit incomplet de divers voyages, França, 2000), de Michael Haneke. Com Juliette Binoche (Anne), Thierry Neuvic (Georges), Josef Bierbichler (O fazendeiro), Alexandre Hamidi (Jean), Ona Lu Yenke (Amadou), Grenguta Hariton (Irina), 

  • Planeta fantástico

    A obra cult de René Laloux usa a fascinante animação de recortes, criada por Roland Topor , e uma fascinante trilha sonora de jazz psicodélico. A narrativa se passa no planeta Ygam, habitado pelos gigantes Draags, cuja pele tem coloração azul. Os Draags vivem em processo de meditação constante, mas, apesar deste avanço psicológico, têm seu lado cruel: eles escravizam humanos, adotando-os como animais de estimação. No entanto, humanos “selvagens”, que vivem escondidos, planejam uma rebelião. 

    Planeta fantástico segue uma tendência narrativa comum a partir do final dos anos 60, iniciada com o clássico Planeta dos macacos: os humanos é que são tratados como animais, como escravos. Logo na primeira sequência da animação, a crítica severa dá o tom da narrativa: um grupo de crianças Draags mata, como uma brincadeira, uma humana que foge com seu bebê nos braços. Esse menino, narrador da história, será o líder da rebelião.  

    Planeta Fantástico (La Planète Sauvage, França, 1973), de René Laloux.

  • Comizi D’Amore

    Pasolini busca opiniões sobre sexo em uma das suas raras experiências pela narrativa documental. De microfone em punho, o diretor aborda grupos de crianças, jovens, trabalhadores, mulheres, prostitutas, em várias cidades do país, da Sicília à Milão. 

    Os temas variam sobre o sexo como solução para o matrimônio, sobre a polêmica legalização do divórcio na Itália católica, sobre prostitução e homossexualismo. Na parte final do documentário, Pasolini abre espaço para um debate que ganhou as ruas de Nápoles: a Lei Merlin, que proibiu o funcionamento de bordéis e, segundo os moradores, principalmente os homens, incentivou a prostituição nas ruas o que aumentou a incidência de doenças venéreas. 

    Entre os depoimentos, intelectuais do porte de Alberto Moravia e Cesare Musatti dialogam com o diretor sobre o sexo na vida cotidiana das pessoas. Pasolini, ateu e homossexual, é ferino em suas perguntas, não poupando nem mesmo as crianças de pensar e comentar sobre o assunto. Em vários momentos, a edição recorre ao corte do som, com a inscrição “autocensura”. Na ficção ou no documentário, Pier Paolo Pasolini não deixa pedra sobre pedra em suas abordagens sobre tabus.  

    Comizi D’Amore (Itália, 1964), de Pier Paolo Pasolini.