Tag: Chantal Akerman

  • Eu, tu, ele, ela

    Eu, tu, ele, ela (Je, tu, il, elle, França, 1974), de Chantal Akerman.

    O primeiro longa-metragem de Chantal Akerman é puro cinema experimental. A própria diretora interpreta Julie que, na primeira parte do filme, está sozinha em seu apartamento. Ela escreve longas cartas, consome doses elevadas de açúcar, anda nua pelo apartamento sem se preocupar em ser vista pelos transeuntes. 

    Na segunda parte, Julie vai para a estrada  e pega carona com um caminheiros. Os dois vagueiam pelas estradas e lanchonetes, ela praticamente silenciosa, ele cada vez mais se enveredando pelas confidências, principalmente sexuais. 

    Na terceira parte, Julie chega ao apartamento de sua ex-namorada. A princípio, Julie é expulsa de casa pela namorada. Deposi, as duas se entregam a um ousado jogo erótico. 

    A película é um estudo vigoroso sobre o vazio existencial, sobre o tédio. Chantal Akerman destila ousadia em diversas cenas: a nudez pura de Julie no apartamento, a revelação do motorista que sente desejos pela filha, a entrega sem pudor entre as namoradas no apartamento. O experimento de Chantal Akerman é feito para a entrega contemplativa e reflexiva do espectador.

  • Jeanne Dielman

    Em 2022, a respeitada Revista Sight & Sound atualizou a lista dos 100 melhores filmes da história (publicada de dez em dez anos). Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23 Quai Du Commerce, 1080, Bruxelles, Bélgica/França, 1975), a obra prima de Chantal Akerman assumiu o topo da lista. 

    O filme tem mais de três horas de duração e acompanha três dias na vida da protagonista. Jeanne (Delphine Seyrig) mora com o filho adolescente e, para o sustento, recebe homens durante o dia em seu apartamento. Prepare-se para uma imersão na vida cotidiana: a câmera sempre estática, à distância e ligeiramente baixa (a lá Ozu) acompanha as tarefas da dona de casa na cozinha, na mesa de jantar, tomando banho, limpando o banheiro. Tudo em longos planos, quase sem cortes. É um filme silencioso e perturbador pela duração das cenas. No final, um ato inesperado encerra essa trama sem trama, um primor estético e de linguagem do cinema não-narrativo. 

    “Por mais difícil que seja o filme, traz recompensas consideráveis que estão, muitas vezes, inexoravelmente ligadas à sua duração. Por um lado, a tese feminista de Akerman é transmitida com urgência por conta de sua decisão de mostrar a vida de Jeanne em seus mínimos detalhes. Não basta para Akerman sugerir o tédio da existência abnegada de sua protagonista – em vez disso, ao apresentar explicitamente sua insípida rotina em tempo real, Akerman habilmente transmite o vazio sufocante que, no final das contas, é o que impulsiona Jeanne em direção a seu trágico ato final.”

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.