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  • Sob o manto da intriga

    Sob o manto da intriga (The underworld story, EUA, 1950), de Cy Endfield, trata da mesma temático do clássico A montanha dos sete abutres (1951), de Billy Wilder: a exploração dos tablóides na cobertura de tragédias pessoais, expondo de forma desumana e, até mesmo ilegal, as pessoas envolvidas no caso. 

    Mike Reese (Dan Duryea) trabalha como repórter policial, uma reportagem que publicou é tida como responsável pelo atentado a tiros na porta do tribunal. O tiroteio vitimou um criminoso e feriu o promotor público. Mike perde o emprego e a credibilidade nos grandes jornais. Sem um tostão, Mike pede dinheiro emprestado a um agiota e compra sociedade de um pequeno jornal no interior, cuja proprietária, Catty Harris (Gale Storm) mantém o idealismo da prática do jornalismo ético. 

    O diretor Cy Endfield implanta na narrativa vários elementos do cinema noir e aborda de forma severa a tensão política que assolava os Estados Unidos, incentivada e explorada pela mídia sensacionalista. Endfield seria vítima desses mecanismos: investigado pelo macarthismo, o diretor entrou na Lista Negra de Hollywood, devido ao seu suposto envolvimento com atividades comunistas. 

    O jornalista Mike Reese tem a chance de retomar sua carreira de forma gloriosa quando a jovem esposa de Ralph Munsey, (Michael O’Shea), filho do magnata das comunicações E. J. Stanton (Herbert Marshall), é assassinada. A principal suspeita é Molly, empregada da vítima, de ascendência negra. No entanto, o autor do crime não é segredo para o espectador: em um momento de raiva e ciúmes, Ralph assassinou a esposa e confessou o crime para o pai. 

    A descoberta do criminoso não apresenta grandes reviravoltas, passo a passo o próprio Ralph cuida de se delatar. O que move a trama são as questões sociais e raciais na comunidade. Os endinheirados homens da cidade participam de uma trama para condenar Molly, acobertando a família do poderoso Stanton (que é corroído pelo remorso de proteger o verdadeiro criminoso, seu filho). 

    Os filmes noir eram praticamente obrigados a punir os criminosos no final, seguindo determinações do famigerado Código Hays. Portanto, não é surpresa a redenção de Eddie e o trágico fim de Ralph. Diferente do mundo real quando se trata dos poderosos homens da mídia.

  • Justiça injusta

    Justiça injusta (The sound of fury/Try and get me, EUA, 1950), de Cy Endfield.

    Howard Tyler (Frank Lovejoy), um homem de meia idade, está desempregado e sofre com esta condição, principalmente ao chegar em casa e ser “cobrado” pela mulher, pois precisam de dinheiro para o sustento do filho. Uma noite, ele conhece Gil Stanton (Richard Carson), misterioso personagem que o ajuda e, logo depois, faz uma proposta: os dois podem se ajudar, fazendo pequenos assaltos em lojas e casas. 

    A virada da trama provoca uma transformação surpreendente do protagonista. Os dois comparsas sequestram um jovem rico com a intenção de pedir resgate ao pai, mas Gil Stanton assassina de forma brutal o herdeiro. Começa então uma caçada policial que termina com a prisão dos dois. 

    O filme é baseado em um evento real, retratado também em Fúria (1936), de Fritz Lang. O clímax da narrativa, julgamento e condenação à morte dos assassinos, é assustador sob dois aspectos: o terror da morte estampado em Gil Stanton e o arrependimento de Howard, pacato cidadão de família que se vê enredado em um círculo criminoso, que aceita a condenação como forma de punição e sacrifício necessários para a redenção.