Tag: Jonas Mekas

  • Williamsburg, Brooklyn

    Williamsburg, Brooklyn (EUA, 2003)  justapõe as primeiras filmagens que Jonas Mekas registrou em 16mm ao desembarcar em Nova York como refugiado de guerra (1950) com registros do mesmo bairro feitos duas décadas depois, em 1972.

    Ao chegar aos Estados Unidos em 1949, vindo de campos de trabalho forçado na Alemanha Nazista, Mekas comprou sua primeira câmera Bolex. Em Williamsburg, Brooklyn, testemunhamos os primeiros gestos do cineasta aprendendo a olhar através dessa lente. O ato de filmar o cotidiano das ruas não era apenas um exercício estético, mas uma necessidade existencial de pertencimento e liberdade para quem havia perdido a própria pátria.

    O curta ignora conflitos dramáticos convencionais para focar na beleza efêmera do dia a dia: crianças brincando nas calçadas e sorrindo surpresas para a câmera, o trem de metrô de superfície cortando a paisagem do Brooklyn, mercearias, imigrantes europeus, latino-americanos e o pulsar multicultural da classe trabalhadora da época.

    Lançado em 2003, quando Mekas revisitou suas latas de filme estocadas por meio século, a obra ganha uma camada melancólica. O choque entre as imagens de 1950 e 1972 revela a transformação inevitável do espaço urbano e o envelhecimento daquela comunidade. Sem narração falada, guiado apenas por um silêncio contemplativo e cartelas explicativas pontuais, o filme funciona como um portal do tempo lírico e antropológico.

  • Canção de Avignon

    Em Canção de Avignon (Song of Avignon, EUA, 1998), Jonas Mekas revisita o próprio passado para transformar dor pessoal em poesia visual. O curta-metragem é uma meditação intimista sobre uma viagem feita à cidade francesa de Avignon em 1966 — um momento decisivo em que o cineasta enfrentava uma profunda crise existencial.

    Como é característico no cinema diário de Mekas, o filme recusa a narrativa tradicional. Em vez de articular uma crônica linear, o cineasta opera com a textura tátil da película de 16mm: fotogramas acelerados, cortes abruptos, iluminação instável e uma câmera em constante movimento. A imagem não documenta Avignon de forma factual, mas registra a percepção sensorial do espaço e a efemeridade das impressões acumuladas durante a travessia.

    Na faixa de áudio, excertos dos diários de Mekas daquele período são lidos pelo músico e poeta Angus MacLise (cofundador do The Velvet Underground). A narração de MacLise sobrepõe-se às imagens como um sussurro distante, criando um descompasso poético entre a voz que rememora a dor e as imagens que buscam consolo. O som não descreve a imagem; ele ressoa ao lado dela.

  • Canções de viagens

    Canções de viagem (Travel Songs, EUA, 1981), reúne imagens captadas por Jonas Mekas em suas andanças por Assis, Ávila, Estocolmo, Moscou e Itália. O curta-metragem segue a estrutura e estética marcantes do diretor: as cenas, fragmentos de lugares e pessoas, entram de forma acelerada, quase como se fossem rajadas de imagens. Luzes estouradas, desfoques propositais e o grão pulsante do 16mm transformam lugares reais em cartões-postais abstratos e emocionais.

    A edição cria um ritmo acelerado que mimetiza o funcionamento da própria memória — espasmódica, não linear e marcada por impressões sensoriais fugazes. O som opera em sintonia com a aceleração visual, sobrepondo ruídos ambientes, fragmentos de diários lidos em narração e trechos musicais que ancoram a experiência poética.

    Texto com IA

  • Walden ou Diaries, notes and sketches

    Walden ou Diaries, Notes and Sketches (EUA, 1969) é o primeiro longa-metragem de Jonas Mekas, consagrando o formato de filme-diário que o diretor já experimentara nos curtas anteriores. Com três horas de duração, o documentário, filmado com a tradicional Bolex 16mm do cineasta, é uma montagem lírica de momentos do cotidiano de Jonas Mekas, sua família e amigos. Cenas marcantes retratam momentos da galeria de artistas da cena cultural de vanguarda dos anos 60, em Nova York, que se reuniam em torno de Andy Warhol, como Allen Ginsberg, George Maciunas, John Lennon e Yoko Ono. 

    O filme é estruturado em seis capítulos, denominados seis rolos. O estilo vanguardista de Jonas Mekas se destaca: cortes abruptos; imagens aceleradas; uso de imagens em preto e branco e coloridas; sequências frenéticas quase indistintas, embaladas por uma estridente trilha eletrônica. O próprio Jonas Mekas narra trechos do documentário, pontuando momentos, memórias, em um tom suave e poético.   

    O filme é dedicado aos Irmãos Lumiere e o título faz referência ao livro de memórias Walden, de Henry David Thoreau. Jonas Mekas insere durante a narrativa trechos de seus curtas filmados em 1966: Notas sobre o circo, Hare Krishna e Cassis

  • Cenas da Vida de Andy Warhol

    Cenas da Vida de Andy Warhol (Scenes from the Life of Andy Warhol: Friendships and Intersections, 1990), de Jonas Mekas, é uma imersão poética e fragmentada no cotidiano e no ecossistema criativo do maior nome da Pop Art. Longe das convenções dos documentários tradicionais — sem entrevistas formais, narradores explicativos ou cronologias rígidas —, o filme se estrutura como um diário em película de 16mm. Em cerca de 35 minutos, Mekas reúne registros gravados entre os anos 1960 e 1980, oferecendo um olhar íntimo, afetuoso e desprovido de glamour artificial sobre o universo de Warhol.

    Mekas utiliza sua marca registrada: câmeras na mão, cortes rápidos, oscilações de luz e alterações na velocidade da imagem. Essa montagem quase frenética transforma cenas banais em flashes líricos de memória. O curta captura momentos espontâneos de Warhol ao lado de personalidades marcantes que orbitavam seu círculo, como Lou Reed, John Cale, Allen Ginsberg, Edie Sedgwick, John Lennon, Yoko Ono, Mick Jagger e George Maciunas.

    Texto com IA

  • Zefiro Torna ou cenas da vida de George Maciunas

    Zefiro Torna or Scenes from the Life of George Maciunas (EUA, 1982), de Jonas Mekas, é um diário cinematográfico. O filme compila imagens em 16mm registradas entre 1952 e 1978, oferecendo um retrato intimista de George Maciunas, fundador do movimento vanguardista Fluxus e grande amigo de Mekas.

    O filme estrutura-se como uma elegia afetiva: registros cotidianos de encontros, piqueniques, performances de rua do Fluxus e momentos banais ganham peso poético ao som da música renascentista de Monteverdi. A justaposição entre a energia primaveril do madrigal e a ausência física de Maciunas transforma memórias corriqueiras em um monumento à amizade e ao impulso criativo.

    A narrativa culmina nos últimos dias de Maciunas, registrando sua batalha contra o câncer e seu famoso “Casamento Fluxus” com Billie Hutching, onde os noivos trocaram de roupas. Mekas documenta o sofrimento sem cair no apelo dramático, mantendo o espírito bem-humorado e desafiador que definiu a vida do artista.

    Texto com IA

  • As armas das árvores

    As armas das árvores (Guns of the trees, EUA, 1961) é o primeiro longa-metragem de ficção de Jonas Mekas. A narrativa acompanha dois casais. Gregory e Frances enfrentam crises depressivas e refletem sobre a desilusão política e a apatia da sociedade diante dos acontecimentos. A jovem insinua a todo momento a intenção de cometer suícidio.

    Anita e Ben tentam resistir à apatia por meio do amor, do engajamento e do ativismo social. Anita está grávida e Ben trabalha como corretor de seguros. A narrativa não segue uma estrutura linear convencional, funcionando como um mosaico de memórias, discussões filosóficas e fragmentos poéticos narrados em voice-over pelo próprio Mekas e com versos do poeta Allen Ginsberg.

    Um dos destaques do filme é a perturbadora trilha sonora, composta por ruídos das ruas, de choros de bebês, latidos de cães e um estridente som agudo que penetra nos ouvidos como um uivo lancinante. Jonas Mekas segue seu estilo de vanguarda, utilizando cortes abruptos e a fotografia em preto e branco de contraste agressivo.

  • Cassis

    Cassis (EUA, 1966), de Jonas Mekas. 

    “Um farol, uma colina, o porto de Cassis, o mar. O filme foi rodado fotograma a fotograma, cobrindo o período de um dia inteiro, do amanhecer ao anoitecer. O tempo passa.” — Jonas Mekas, no catálogo da The Film-Makers’ Cooperative

    A câmera 16mm de Jonas Mekas retrata, durante um dia, do amanhecer ao final da tarde, Cassis, cidade costeira localizada na Provence, França. Filmado quadro a quadro, o curta-metragem traduz a charmosa paisagem e o clima de verão em um jogo de luzes e transformações estéticas. 

    A escolha técnica, um único plano, espécie de plano sequência interrompido pelo ligar e desligar da câmera aleatoriamente, transforma a experiência de assistir ao filme em uma completa entrega visual. Cassis representa aquilo que perdemos: a atitude de contemplar e deixar o corpo e a mente vagarem em meditações.   

  • Hare Krishna

    Hare Krishna (EUA, 1967), de Jonas Mekas, tem apenas cerca de quatro minutos de duração. O documentário foca em uma manifestação de rua do Hare Krishna, nos Estados Unidos, em 1966. Foi a primeira aparição pública do grupo no Tompkins Square Park e contou com a presença de artistas adeptos da seita, entre eles o poeta Allen Ginsberg. 

    Mekas filmou durante uma tarde no Lower East Side de Manhattan, região onde residia, usando sua tradicional câmera Bolex 16mm. O estilo marcante do artista de vanguarda permanece: fragmentação intensa e acelerada, jogo de luz natural que intensifica o ritmo das cantorias. A montagem coloca as imagens na cadência da dança dos religiosos. Sobre suas intenções, Jonas Mekas escreveu: “A dança, os cantos, a alegria da rua.”

  • Notas sobre o circo

    “O verdadeiro cineasta corta na câmera.” – Jean-Luc Godard.

    Jonas Mekas, influente cineasta da vanguarda experimental, levou essa assertiva de Godard ao pé da letra em Notas sobre o circo (Notes on the circus, EUA, 1967). Durante três sessões, o cineasta filmou apresentações do Circo Ringling Brothers usando uma câmera 16mm.

    A edição do documentário aconteceu direto na câmera, sem montagem posterior, resultando em um filme de ritmo acelerado, com cortes secos e variações de velocidade adquiridas de forma instantânea, ao ligar e desligar da câmera durante as apresentações, uma espécie de quebra e volta repentina da ação. 

    A trilha sonora é outro destaque. A música estrutura os quatro episódios do curta-metragem, acompanhando os números circenses, ajudando o espectador a entrar nesse fascinante universo artístico, que depende de complexas metamorfoses corporais. A tradição do circo e a vanguarda do cinema de Jonas Mekas se completam para o pleno deslumbre.