Tag: Luis Buñuel

  • Nazarin

    Nazarín (México, 1959), de Luis Buñuel. 

    O padre Nazarin vive em um quarto de pensão, rodeado por marginais, prostitutas e pessoas que vivem miseravelmente. O padre é desprezado pela dona da pensão e, quando descobre que foi roubado por uma das prostitutas, pede a ela apenas um pão. “Se eu não tiver, ou não quiser ter?” “Então não vou comer. Não seria a primeira vez, nem a última vez.”

    Nazarin se recusa a denunciar a prostituta que o roubou. Ela é espancada por um homem e o padre a acolhe e cuida dela em seu quarto. Após ser confrontado pela comunidade, Nazarin parte em peregrinação pelo interior pobre, dominado por instituições que se aproveitam da miséria da população. Ele vive de donativos que muitas vezes redistribui com os mais pobres. Nazarin supostamente “cura” uma criança, é visto como santo e passa a ser acompanhado por fiéis em sua longa caminhada. 

    Nazarin marca uma reviravolta no estilo de Luis Buñuel que evita o surrealismo e trabalha com a estética neorrealista: imagens documentais em locações – ruas, casebres, estradas; trama centrada nas profundas injustiças sociais, colocando em evidência a miséria das classes menos favorecidas durante o ditadura de Porfírio Dias; a fotografia de Gabriel Figueroa como um retrato cru e realista da paisagem desértica, a sujeira e a poeira marcando a caminhada do protagonista. 

    O destaque da trama é a complexidade psicológica do padre Nazarin. Idealista, humilde, generoso e humanista, capaz de doar seu parco alimento, o padre vive em conflito com sua devoção, renega sua provável santidade e chega a ser ríspido com os seguidores que o veneram. O filme conquistou o Prêmio Internacional no Festival de Cannes de 1959 e levantou polêmicas pelas críticas às instituições religiosas. 

  • O bruto

    O bruto (El bruto, México, 1953), de Luis Buñuel.

    Pedro – O Bruto (Pedro Armendáriz) é um simplório e ingênuo trabalhador de um matadouro na Cidade do México. Devido a seu porte físico avantajado, o velho Andrés Cabrera (Andrés Soler) seu antigo patrão (e possivelmente pai, pois a mãe de Pedro era empregada doméstica da residência), o contrata para intimidar familiares que moram em um conjunto habitacional de baixa renda. Andrés é dono do terreno e deseja vendê-lo para um empreendimento imobiliário, mas os moradores resistem em deixar o local. 

    Luis Buñuel se rendeu ao cinema comercial em um primeiro momento de sua fase mexicana. O próprio diretor disse que O bruto estava entre esses filmes feitos sob encomenda. A obra segue os princípios neorrealistas, com forte crítica social aos empresários e donos de imóveis que tratam os seus inquilinos pobres como mercadoria descartável. O tom melodramático do filme se evidencia quando Pedro golpeia e mata um dos inquilinos e, depois, se apaixona e é correspondido por Meche (Rosita Arenas) , filha de sua vítima.  

    Outra marca de Buñuel presente na narrativa é a obsessão sexual. Paloma (Katy Jurado), jovem esposa de Andrés, desenvolve uma paixão física arrebatadora por Pedro e desencadea um triângulo amoroso com consequências trágicas. O anti-herói Pedro, corroído pelo remorso e pelo amor a Meche, é o grande personagem do filme, uma mescla de personalidade ingênua, bondosa e agressiva, que não consegue conter seus instintos.  

  • O diário de uma camareira

    O diário de uma camareira (França, 1964), de Luis Bunuel.

    Céléstine (Jeanne Moreau) chega ao campo para trabalhar como camareira da rica, porém decadente, família Monteil.  Ela ganha a confiança do patriarca da família, velho mulherengo com fetiche por botas, é assediada pelo filho e se envolve com Joseph (Georges Géret), o jardineiro da propriedade. Joseph vai ser o principal suspeito do estupro, seguido de assassinato de uma criança da região. 

    A virada acontece quando Célestine decide investigar o crime e se envolve de forma sedutora, usando sua sofisticação e beleza para se aproveitar da família cheia de “podres” para quem trabalha. O final é revelador do imenso desprezo que Luis Buñuel tratou a burguesia em grande parte de sua obra. 

    O diretor espanhol, contando com a colaboração do consagrado roteirista Jean-Claude Carriere, tentou ser fiel ao livro homônimo de Octave Mirbeau. O tema, a decadência da burguesia e os conflitos de classe, é um dos favoritos de Buñuel. Destaque para a fascinante atuação de Jeanne Moreau cuja transformação é trabalhada com sutileza, deixando à mostra uma ambição que se constrói à medida que ela conhece, e não julga, o deplorável estilo de vida da família Monteil. 

  • Simão do deserto

    Simão do deserto (Simón del desierto, México, 1965) faria parte de um filme conjunto entre Luis Bunuel e outros cineastas. No entanto, só o diretor espanhol filmou sua parte, colocando o filme na categoria de curta ou média-metragem, com cerca de 45 minutos de duração. 

    Simão (Claudio Brook) é um fanático religioso que vive no topo de uma coluna no deserto e é adorado pelos habitantes da região (os representantes legais constroem, inclusive, uma coluna muito mais alta para abrigá-lo). Em alguns de seus intermináveis dias na coluna, Simão é assediado pelo próprio Diabo, interpretado por Silvia Pinal em diversas caracterizações. 

    A ousadia surrealista de Luis Buñuel confronta os valores religiosos, desnudando a hipocrisia que permeia as atitudes da igreja. Filmado em uma única locação, a coluna e seus arredores áridos, os pontos fortes da película são a relação entre Simão e o Diabo, que assume diferentes formas, entre elas uma jovem mulher que destila erotismo e uma sedutora adolescente.  

  • Terra sem pão

    Terra sem pão (Las Hurdes, Espanha, 1933) foi o terceiro filme de Luis Buñuel, um curta-metragem documental que retrata a vida miserável dos habitantes de Las Hurdes, aldeia localizada no norte da Espanha. Assim como outros documentários, como o clássico Nanook – O esquimó (1922), o diretor espanhol encenou, com a colaboração dos habitantes, grande parte das situações retratadas.

    O fato triste e totalmente reprovável dessa estratégia é que a equipe de filmagem provocou as mortes de dois animais – um burro foi lambuzado de mel para que as abelhas o picassem até a morte e um bode foi jogado de um penhasco. As cenas estão no filme. 

    O curta é uma experiência terrível de se assistir pois retrata a miséria total de homens, mulheres e crianças, muitos com doenças mentais devido à desnutrição (Buñuel filma essas crianças). Mesmo encenado, o retrato é verdadeiro, o documentário foi baseado no estudo etnográfico Las Hurdes: Étude de Géographie Humaine (1927), de Maurice Legendre. Terra sem pão foi banido da Espanha fascista e praticamente não foi exibido no resto do mundo, seguindo a sina do filme anterior de Luis Buñuel, A idade do ouro (1931), que também foi censurado. 

  • O alucinado

    Luís Buñuel volta suas lentes para a hipocrisia social no México, contando a história de um aristocrata religioso, admirado pela sociedade e pelos membros da igreja católica. Dom Francisco Galván posa de justo, movido pelos valores cristãos, mas revela pouco a pouco uma personalidade agressiva. 

    Após um breve idílio amoroso, Dom Francisco conquista Gloria, que estava de casamento marcado com um engenheiro. O casamento entre os dois é um evento na Cidade do México, mas, durante a viagem de núpcias, o aristocrata passa a ser corroído por um ciúme doentio que cresce assustadoramente. 

    A contundente crítica de Buñuel coloca em cheque a conservadora sociedade mexicana: importantes membros da igreja, o círculo social do casal e até mesmo a mãe de Gloria, fazem vistas grossas à violência de Francisco, que passa a agredir fisicamente sua esposa. 

    O ponto forte da narrativa é a ousada elipse que acontece após um beijo ardoroso entre o casal de enamorados, antes do casamento. Em uma rua, durante a noite, Gloria encontra seu ex-namorado e relata passo a passo seu tormento durante o casamento. 

    O alucinado (El, Mèxico, 1953), de Luis Buñuel. Com Arturo de Córdova (Francisco Galván), Delia Garcês (Gloria Vilalta), Carlos Martínez Baena (Padre Velasco), Manuel Dondé (Pablo), Luis Beristáin (Raúl Conde). 

  • A adolescente

    A trama começa acompanhando a fuga de Traver, jovem negro, músico de jazz, pelas ruas de uma pequena cidade. Ele foi acusado de estupro por uma mulher branca. Traver rouba um bote e chega a uma ilha particular, reserva de caça, com apenas três habitantes: a adolescente Evelyn, seu avô (que morre logo no início) e Miller, protetor da ilha.  

    Luis Buñuel realiza um filme denso, com fortes cenas de racismo e e pedofilia para compor uma crítica severa à sociedade sulista americana. Evelyn desenvolve uma amizade ingênua por Traver, livre de preconceitos e julgamentos. Ao contrário, Miller e Traver partem para um relacionamento ostensivo, espécie de jogo de gato e rato, movido apenas pelas diferenças raciais, que pode terminar em tragédia.   

    A adolescente é uma coprodução entre EUA e México, ambientando em uma ilha da Carolina do Sul. A ousadia de Luis Buñuel é tratar destes temas, racismo e pedofilia, em 1960, em um estado sulista. Com apenas cinco personagens em cena, Buñuel escancara o horror: Traver já está condenado apenas por ser negro, enquanto Miller, um homem branco, está isento por sua cruel pedofilia. 

    A adolescente (The young woman, México/EUA, 1960), de Luís Buñuel. Com Key Meersman (Evelyn), Zachary Scott (Miler), Bernie Hamilton (Traver), Crahan Denton (Jackson), Claudio Brook (Rev. Fleetwood). 

  • O rio e a morte

    Luís Buñuel se rendeu ao cinema comercial em sua temporada vivida no México, atendendo a pedidos dos produtores. O rio e a morte é a incursão do diretor surrealista pelo western, gênero também importante para o cinema mexicano. 

    Gerardo Anguiano é um jovem médico que vive na cidade do México. Ele é atormentado pela insistência de sua mãe, Mercedes, que exige que ele volte à sua vila natal para resolver uma antiga pendência da família. Seu pai foi assassinado em um duelo com o patriarca da família Menchaca, que também morreu no tiroteio. Pela tradição do vilarejo, Gerardo tem que enfrentar Rômulo, herdeiro da família Menchaca.

    A história de vingança e reconquista da honra é tradicional no faroeste. Buñuel usa este mote para criticar a sociedade patriarcal mexicana e o costume dos homens, assim como os americanos, de ostentarem revólveres na cintura, mesmo que não tenham dinheiro sequer para comprar comida. O final, otimista, vai na contramão do estilo do aclamado diretor espanhol e demonstra que nesta fase de sua carreira ele estava disposto a fazer concessões ao cinema de entretenimento. 

    O rio e a morte (El río y la muerte, México, 1954), de Luis Buñuel. Com Miguel Torruco (Felipe Anguiano), Joaquín Cordero (Gerardo Anguiano), Jaime Fernández (Romulo Menchaca), Columba Domínguez (Mercedes).  

  • Esse obscuro objeto do desejo

    O último filme de Luis Buñuel é uma perturbadora incursão pelos desejos carnais humanos. Mathieu, um francês rico de meia-idade, representante da rígida sociedade patriarcal e do conservadorismo masculino, se apaixona por sua camareira de 19 anos. Conchita toma as rédeas do relacionamento, manipulando o amante, praticando um subversivo jogo sexual em benefício de seus interesses. 

    O próprio Mathieu conta a história de seu relacionamento com Conchita, durante uma viagem de trem, a dois passageiros, que se sentem mais e mais intrigados pelo desfecho do caso amoroso, marcado por sexo, agressões e provocações mútuas. O filme inclui uma ousada experimentação de Luís Buñuel: Conchita é interpretada por duas atrizes, uma loira, a outra morena, dubladas pela mesma voz, confundindo o espectador. 

    “Foi provavelmente em seu último filme, Esse obscuro objeto do desejo, feito em 1977, que ele (Buñuel) conseguiu sua mais assombrosa façanha de prestidigitação. Enquanto escrevíamos o roteiro, consideramos a hipótese de dar o papel da jovem ardilosa (Conchita) a duas atrizes diferentes, alternadamente, sem aviso, sem comunicação e sem dar importância ao fato. Sentíamos que certas cenas se adaptavam melhor a uma mulher elegante e um tanto distante, enquanto outras pareciam ter sido escritas para uma atriz menos sofisticada, mais franca – e capaz de dançar o flamenco.” – Jean-Claude Carríére

    A estratégia narrativa faz com o que o espectador não perceba a alternância das atrizes, pois elas trocam de papéis até mesmo durante uma caminhada pelas ruas, a continuidade discursiva manipulando o espectador: em determinada cena, Mathieu e Conchita-loira estão entrando pela porta da casa, do lado de dentro a Conchita-morena assume a sequência. 

    Em outro momento, quando Conchita parece que vai se entregar a Mathieu, as duas atrizes alternam entre a entrada e a saída do banheiro, quando Conchita se prepara para o ato.  

    “Nessa sequência, percebe-se a função específica de cada uma das atrizes – divisão de personalidade de uma única mulher entre seu lado mais ardente e seu lado mais frio. Angela Molina interpreta, na maioria das vezes, os momentos mais ousados de Conchita – como no apartamento, quando se despe em frente a Mathieu, ou quando dança flamenco nua para os japoneses, ou faz amor com El Morenito. Carole Bouquet interpreta os momentos em que Conchita se faz de distante e o repudia – embora ambas Conchitas (loira ou morena) sejam igualmente cruéis e sádicas com Mathieu.” – Erika Savernini

    Esse obscuro objeto do desejo (Cet obscur objet du désir, França/Espanha, 1977), de Luis Buñuel. Com Fernando Rey (Mathieu Faber), Carole Bouquet (Conchita), Ângela Molina (Conchita).

     Referência: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Erika Savernini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004

  • O discreto charme da burguesia

    A fase final da carreira de Luis Buñuel apresenta três obras-primas que funcionam como trilogía: Via láctea (1969), O discreto charme da burguesia (1972) e O fantasma da liberdade (1974). 

    A comédia O discreto charme da burguesia traz a marca surrealista de Buñuel em uma trama aparentemente banal: três casais de amigos burgueses tentam jantar juntos por vários dias, mas são interrompidos por acontecimentos inusitados. Estão sentados à mesa quando chega um pelotão do exército, entra na casa e anuncia que estão em treinamento na região. Vão a conhecido restaurante e antes de serem servidos, descobrem que o dono do estabelecimento está sendo velado na sala ao lado. Estão em casa de um dos anfitriões e, pouco antes do jantar, descobrem que o casal proprietário fugiu, repentinamente, todos fogem com temor que a polícia está para chegar. Em meio aos jantares, situações absurdas acontecem, mistura de sonho e realidade dos personagens. 

    “A estrutura narrativa é minuciosamente construída por interrupções: do ato de comer, do ato amoroso e do ato da fala. As personagens encontram-se tão impedidas em suas ações quanto as de O anjo exterminador, com a diferença de que não se encontram confinadas em um único espaço. O discreto charme da burguesia prenuncia a frustração causada em O fantasma da liberdade, em que a câmara passeia de um núcleo dramático para outro, abandonando-o antes de sua conclusão. Ao final da narrativa de O discreto charme, não se sabe a partir de que momento Acosta começou a sonhar – tanto pode ter sido durante toda a narrativa quanto apenas na sequência final. O imbricamento entre sonho e realidade é levado ao ponto de não se poder diferenciá-los.” – Erika Savernini. 

    O discreto charme da burguesia (Le charme discret de la bourgeoisi, França/Itália/Espanha, 1972), de Luis Buñuel. Com Fernando Rey, Paul Frankeur, Delphine Seyrig, Bulle Ogier, Stéphane Audran, Jean-Pierre Cassel, Julien Bertheau, Milena Vukotic, Michel Piccoli. 

    Referência: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004