Tag: Polônia

  • Filhos da guerra

    Filhos da guerra (Europa, Europa, Polônia, 1992), de Agnieszka Holland.

    Perto do final do filme, o adolescente Solomon Perel (Marco Hofschneider), vestido com o uniforme de guerra alemão, está prisioneiro dos aliados. Ele diz ser judeu, mas os soldados não acreditam. O oficial, acreditando estar diante de um nazista, coloca a arma na mão de um judeu e diz: “Ele é seu. Faça o que quiser. Mate-o como um cão se quiser.” O judeu aponta a arma para a cabeça de Solomon. 

    Nesse momento, o adolescente vê seu irmão Isaac (René Hofschneider) , recém-libertado de um campo de concentração. O longo abraço entre os dois é emocionante

    Os irmãos caminham abraçados por uma pequena estrada. Narração em off do protagonista: “Daquele momento em diante, decidi ser apenas um judeu. Deixei a Europa e emigrei para a Palestina. E quando tive meus filhos, hesitei apenas um segundo antes de circuncidá-los.”

    Corta para cena do verdadeiro Solomon Perel, agora um idoso, entoando um cântico religioso em frente a um lago: “Como é bom estar com seus irmãos, para se viver em paz juntos. Como é bom estar com seus irmãos para se viver em paz juntos…” 

    O filme da polonesa Agnieszka Holland, filha de pai judeu, é baseado no livro autobriográfico I was Hitler youth Solomon. A narrativa começa com Solomon aos treze anos de idade, na cidade de Peine, Alemanha, onde nasceu e mora com os pais e irmãos. Após A Noite dos Cristais, a família se muda para a Polônia. Quando começa a guerra, Solomon e Isaac fogem, obedecendo às ordens do pai. Os dois se separam acidentalmente durante uma travessia de barco em um rio. 

    A partir daí, a história de Solomon, apelidado de Jugg, se transforma em uma verdadeira jornada cinematográfica. Ele é salvo de se afogar no rio por um soldado russo. É encaminhado para um orfanato russo, onde recebe a doutrinação soviética, aprendendo o culto a Stalin. O orfanato é bombardeado, na fuga, Jugg é resgatado por uma tropa de soldados alemães. Uma série de mentiras ajuda Jugg a sobreviver. Ele diz aos soldados do reich que é alemão, escondendo sua condição judaica. Como é fluente em russo, é adotado pelos soldados que o usam como tradutor. 

    Durante uma batalha, Jugg supostamente rende a guarnição inimiga, quando na verdade queria se juntar a ela. Condecorado como herói, o jovem soldado é enviado para uma escola militar em Berlim, passando a fazer parte da Juventude Hitlerista.

    Agnieszka Holland mescla essa narrativa trágica, de fuga, troca de identidade e luta pela sobrevivência, evitando o melodrama. Entre as cenas dramáticas, a diretora insere situações bem-humoradas, lembrando o espectador que ele está diante de um adolescente, que em meio aos escombros da guerra tem direito a se divertir, se apaixonar (por Leni, uma adolescente obcecada por Hitler), descobrir o sexo – atenção para a cena da perda da virgindade de Jugg com uma oficial nazista dentro do trem. 

    Solomon Perel escondeu essa história durante quase toda a sua vida. Morador de Israel, nem mesmo sua esposa e filhos sabiam da verdade. Suas memórias narram: “Meus pais e todos os vizinhos foram mortos duas semanas depois da minha partida de Lódz. Isaak permaneceu ali até a liquidação do gueto e depois foi levado a um campo de concentração. Enquanto eu estava gritando ‘Heil Hitler” e cortejando Leni, minha família estava sendo morta.”

    Após sofrer um infarto em 1980, Solomon revelou a todos como sobreviveu ao Holocausto e publicou sua autobiografia. Filhos da Guerra venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e Agnieszka Holland foi indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. 

  • A sombra de Stalin

    A sombra de Stalin (Mr. Jones, Polônia, 2019), de Agnieszka Holland, abre com imagens de porcos, em plano fechado, se alimentando. Corta para um grande celeiro, o trigo à frente, oscilando ao vento. A câmera recua, passa pelo umbral da janela, ouve-se o som da máquina de escrever. 

    O escritor George Orwell (Joseph Mawle) está sentado na escrivaninha, de frente para a janela, escrevendo: “Eu não quero comentar a obra. Se ela não fala por si só, é um fracasso. Eu queria contar uma história que qualquer um pudesse entender. Uma história tão simples que até uma criança entenderia. (…) Monstros estão invadindo o planeta, mas acho que você não quer saber. (…) Mas se eu usar animais da fazenda para contar a história do monstro talvez você dê atenção e então entenderá. O futuro está em jogo, portanto, leia com atenção, nas entrelinhas. O Sr. Jones, proprietário da Granja do Solar fechou o galinheiro à noite.”

    Corta para o jovem Gareth Jones (James Norton) diante de um grupo de políticos, falando sobre a entrevista que fez com Adolph Hitler, no avião do Fuhrer. A ligação entre Jones, George Orwell e o livro A fazenda dos animais será revelada perto do final do filme.

    A diretora polonesa Agnieszka Holland se baseou nos fatos reais vivenciados pelo jornalista Gareth Jones durante uma breve viagem à Rússia, em 1933. Jones, ex-consultor para assuntos internacionais de um político britânico, conseguiu um visto de jornalista para visitar Moscou e tentar entrevistar Stalin. O jornalista estava intrigado com o fato do Kremlin estar falido e, mesmo assim, continuar a investir uma fortuna na industrialização do país. 

    O faro jornalístico de Jones o levou à verdade aterradora em sua viagem clandestina pela Ucrânia: parte do dinheiro vinha da agricultura da Ucrânia, cujos grãos eram inteiramente destinados à exportação soviética. O caso é conhecido como Holodomor, junção de termos em ucraniano com o significado de fome e extermínio. Toda a produção agrícola era confiscada pelo regime. Os “grãos de ouro”, como Stalin gostava de dizer, eram destinados à exportação.

    Cerca de três milhões de ucranianos morreram de fome no período em que esse sistema vigorou, entre 1932 e 1933. Atenção para a cena em que o jornalista, faminto, divide pedaços de carne com um grupo de crianças e se depara, pouco depois, com a origem do alimento. 

    Depoimento de Agnieszka Holland: “Um dos temas principais do filme é contar esse grande crime de Stalin, esse crime comunista contra a humanidade que, como muitos crimes contra a humanidade ou como muitos crimes, simplesmente, cometidos por Stalin ou outros, nunca entraram no consciente coletivo da humanidade. A opinião pública se esqueceu deles ou ignorava esses eventos por ter sido mantida sob censura durante toda a existência da URSS. Mas na Rússia de hoje também não se fala disso. Ou negam essas realidades. E pensei em retratar várias das atrocidades do século XX. Sinto que tenho esse dever e sinto que devo lançar luz sobre as vítimas esquecidas anônima e sem voz para refletirmos ao que levou essa ideologia tão autoritária e totalitária, ao mesmo tempo que quer decidir não só o destino do indivíduo, mas o de toda a nação, de toda a população.” 

    A investigação jornalística de Gareth Jones revelou outra faceta tenebrosa da história. Walter Duranty (Peter Sarsgaard), jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer e editor do The New York Times em Moscou, colaborou com o governo soviético para encobrir o genocídio, publicando matérias na imprensa internacional que desacreditivam a história relatada por Gareth Jones. 

    A sombra de Stalin, assim como a série Chernobyl, reconstitui momentos trágicos da dominação soviética na Ucrânia. Escondidos do mundo, encobertos pela mídia, milhões de pessoas morreram de fome no Holodomor e os resquícios mortais da explosão da Usina Nuclear de Chernobyl repercutem ainda hoje.   

  • Sem fim

    Sem fim (Bez końca, Polônia, 1985), marca um momento decisivo na carreira de Krzysztof Kieślowski: o encontro com Krzysztof Piesiewicz, advogado que trabalhava como defensor público em Varsóvia. Após a implantação da Lei Marcial na Polônia, cujas consequências resultaram em assassinatos políticos, prisões, torturas, Piesiewicz trabalhou na defesa de alguns presos políticos. Quando conheceu Kieslowski, ele teve a ideia de adaptar para o cinema um desses julgamentos. 

    “No entanto, Kieslowski já estava muito amargurado com as suas recentes experiências na produção de documentários. Houve pelo menos dois filmes, ‘O ponto de vista de um porteiro noturno’ e ‘Estação’, de 1980, em que ele sentiu que talvez tivesse ultrapassado os limites. No primeiro caso, julgar o personagem principal com muita severidade e, assim, abri-lo ao escárnio público e, no segundo caso, algumas das filmagens que ele fez para o filme foram usadas pela milícia estatal para rastrear uma pessoa que eles estavam procurando. Então ele sentiu que estava envolvido e contribuiu involuntariamente para a pressão do Estado.” – Michal Oleszczuk.

    Esse sentimento fez com que Kieslowski recusasse trabalhar em um projeto que abordasse fatos reais. Os dois passaram a conversar longamente, iniciando uma amizade e parceria profissional, sobre os casos que Piesiewicz trabalhara. Resolveram, então, escrever um roteiro juntos, tendo como ponto de partida um advogado (assim como Piesiewicz) que começa o filme morto, observando sua esposa na cama e narrando para o espectador a história.

    Antek Zyro (Jerzy Radziwiłowicz) estava trabalhando no caso de um operário preso, acusado de incitar uma greve de trabalhadores. O subtexto indica uma possível filiação ao movimento Solidariedade, principal motivo para o governo comunista implantar a Lei Marcial. Urszula Zyro (Grażyna Szapołowska), esposa de Antek,  passa a ajudar a esposa do acusado, Joanna Stach (Maria Pakalnis) a conseguir um novo advogado e se envolve cada vez mais na trama que aponta para uma conspiração do governo, disposto a incriminar o réu sem fazer dele um mártir para o movimento. 

    O fantasma do advogado guia Urszula por meio de pistas, levando-a a descobrir questões obscuras sobre o processo. Piesiewicz e Kieslowski usam o subtexto para retratar o momento político conturbado da Polônia. A Lei Marcial é citada de passagem em apenas um momento do filme e não há qualquer alusão às atrocidades provocadas pelo governo ao exigir o cumprimento da lei. O movimento Solidariedade também é citado em uma conversa rápida, mas os poloneses entenderam as associações narrativas com a realidade. 

    A escolha em inserir na história “um fantasma” resultou em críticas severas ao filme, mas, segundo Michal Oleszczuk, dessa forma Kieslowski pode se desligar da realidade, inserindo um elemento ficcional considerado absurdo naquele momento de crueldade real. “O filme foi recebido de forma brutalmente negativa em sua abertura. Os críticos odiaram o filme, críticas cruéis, rejeições muito ácidas e bruscas por todos os lados políticos. Os principais críticos do regime opuseram-se violentamente até mesmo ao aspecto espiritual da história que era, de alguma forma, metafísica e vagamente cristã. A imprensa da oposição, ou pelo menos crítica, também se opôs violentamente à ideia de apresentar a lei marcial desta forma específica, sem se refeir à tortura ou aos tanques nas ruas.”

    A protagonista do filme também recebeu críticas contundentes. A estrela Grażyna Szapołowska interpreta uma bela viúva que se “esconde” em um apartamento confortável de classe média alta, decorado com aparatos ocidentais, sem se envolver com as questões políticas, quase uma alienada. Em uma conversa, Joanna a acusa de não estar preocupada com a realidade do país. Urszula responde: “Sim, é verdade.”

    Hoje, mesmo com todas as polêmicas levantadas quando do lançamento, Sem fim é considerado um filme referencial para entender o complexo momento da Polônia no início dos anos 80. A estrutura narrativa, basicamente a inserção do fantasma de Antek, influenciou outros filmes, como Sombras da vida (2017), de David Lowery, e o mega sucesso Ghost (1990). 

    Polêmicas à parte, em um ponto todos concordam: Zbigniew Preisner criou para o filme uma música espetacular, com um tom de amargura, intensificado pelas melodias repetitivas que marcam momentos importantes da narrativa, como na bela e triste abertura em um cemitério iluminado pelas velas – a celebração do Dia dos Santos pelos poloneses. Poesia visual e sonora que anuncia um filme triste, tristeza que permeia os mortos e os vivos.

  • Pussy

    Pussy (Cipka, Polônia, 2016), de Renata Gasiorowska. 

    Uma jovem está em sua casa sozinha, à noite. Ela começa a se acariciar, entra na banheira e continua se entregando ao prazer. Uma reviravolta surreal, à princípio assustadora para a jovem, transforma sua busca em um auto conhecimento dos seus desejos e de seu corpo de forma livre, selvagem, rebelde. 

    Os trabalhos de animação da diretora polonesa Renata Gasiorowska, incluindo filmes e clipes, são sempre muito bem recebidos pela crítica em diversos festivais de cinema. Pussy foi premiado no Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand. A narrativa é ousada, com cenas e insinuações provocativas em relação ao prazer feminino. A passagem da personagem do mundo real para o imaginário, o surrealismo, é um convite à plena libertação. 

  • O-Bi, O-Ba – O fim da civilização

    O-Bi, O-Ba – O fim da civilização (O-Bi, O Ba. Koniec cywilizacji, Polônia, 1984), de Piotr Szulkin.

    O filme apocalíptico de Piotr Szulkin se passa em uma terra destruída pela explosões nucleares. Cerca de oitocentos sobreviventes vivem em um abrigo chamado de A Cúpula, que ameaça desmoronar a qualquer momento. Resta apenas uma esperança: a chegada da Arca para levar os sobreviventes para um lugar que possivelmente ainda é seguro. 

    A lenda da Arca é mantida por meio de um rigoroso sistema de doutrinação, cujos responsáveis, entre eles Soft (Jerzy Stuhr), controlam de forma até mesmo violenta. A fome, doenças, revoltas, sabotagens, frio extremo, fazem parte do cotidiano dos habitantes da Cúpula. Piotr Szulkin continua com seu olhar crítico e severo sobre a Polônia dominada pelos regimes autoritários, compondo um ambiente opressivo, com tons fortes dos estilos expressionistas e cyberpunk.

    O diretor polonês se consagrou com uma espécie de tetralogia futurista com claras alusões ao regime político de seu país: Golem (1979), A guerra dos mundos: próximo século (1981), O-Bi, O-Ba: o fim da civilização (1985) e Ga-ga: glória aos herois (1986).

  • A guerra dos mundos: próximo século

    O diretor polonês Piotr Szulkin dedicou A guerra dos mundos: próximo século (Wojna światów – Następne stulecie, Polônia, 1981) a H. G. Wells e Orson Welles. O motivo é uma homenagem à célebre narração que Orson Welles realizou em uma emissora de rádio em 1938 (30 de outubro, noite de Halloween) interpretando trechos do livro de Wells. O estilo de interpretação de Orson Welles provocou pânico em milhares de ouvintes que acreditaram que a terra estava sendo invadida pelos marcianos. 

    A narrativa de A guerra dos mundos: próximo século acontece na Polônia, véspera do ano novo. Um grupo de marcianos domina o país, necessitando de sangue dos terráqueos para viver. O protagonista Iron Ide (Roman Wilhelmi), um locutor de TV de programa sensacionalista, se vê envolvido em uma trama que envolve os marcianos e o poder do estado. As consequências envolvem censura, delação de colegas de trabalho, acirramento do controle do estado por meio do controle midiático, violência praticada pelos marcianos, sequestro e desaparecimento de pessoas. 

    O filme, claramente uma alegoria do poder do estado comunista na Polônia, segue a prática consagrada durante a guerra fria de inserir fortes questões ideológicas em filmes do gênero ficção científica. A fotografia noir acentura o estado de opressão e terrorismo que acompanha a narrativa, com um final que deixa em aberto essas obscuras tramas políticas. 

  • Golem

    Golem (Polônia, 1979), de Piotr Szulkin, abre com uma narração, sustentada por imagens de explosões nucleares: “Em 1941, após a catástrofe nuclear, numa sociedade cuja existência estava seriamente ameaçada, surgiram rumores de pessoas produzidas artificialmente. Uma das fontes desses rumores talvez fosse uma lenda arcaica do homem feito de barro, trazido à vida ao colocarem um papel com uma fórmula mágica em sua boca. As crenças populares até hoje de que tais experimentos fizeram parte do programa de reconstrução da humanidade são só superstições.”

    Corta para plano fechado de médicos em um processo cirúrgico, comentando sobre o ser que estão criando/modificando geneticamente. Pernat (Marek Walczewski), o experimento, foge aos padrões definidos: na sociedade, ele apresenta uma personalidade marcada pela compreensão e pela bondade. Monitorado, ele é considerado um espécie defeituoso e deve ser eliminado. 

    O primeiro filme do diretor polonês Piotr Szulkin apresenta um mundo distópico que teria sido criado por explosões nucleares durante a Segunda Guerra Mundial. A narrativa se passa em uma cidade escura e decrépita, prédios destruídos, becos sujos, apartamentos deformados, seguindo a estética expressionista/noir. O olhar gótico e pessimista do diretor sobre essa sociedade (a Polônia controlada pelo regime comunsta?) não deixa margem para esperanças. 

  • EO

    EO (Polônia, 2022), de Jerzy Skolimowski, acompanha a jornada de um burro cujo olhar triste enternece os espectadores. O veterano diretor polonês se inspirou abertamente no clássico A grande testemunha (1966), de Robert Bresson. 

    EO começa a trama como animal de um circo, amado e cuidado com carinho por sua jovem treinadora. Quando  o burro é confiscador por agentes da lei, devido à proibições sobre o uso de animais em circo, começa a sua peregrinação pelo interior da Polônia e pela Itália. Essa jornada é pontuada por gestos de carinho, tentativas de resgate, brutalidade, retratando as diversas facetas do relacionamento dos humanos com seus animais. EO é um burro de carga que deve suportar os sofrimentos físicos inerentes ao trabalho a que é destinado. 

    O destaque é a narrativa visual, quase desprovida de diálogos, com um trabalho sonoro, incluindo a trilha, marcante. O mundo passa diante dos olhos tristes de EO, testemunha silenciosa e sensível. De cortar o coração.

  • Sinais de identificação: nenhum

    Sinais de identificação: nenhum (Identification marks: none, Polônia, 1965), de Jerzy Skolimowski.

    O filme de estreia do diretor polonês Jerzy Skolimowski é exemplar como referência ao novo cinema dos anos 60 que dominou a cinematografia mundial, na Polônia, conhecido como Nova Onda Polonesa. Andrzej (interpretado pelo próprio Skolimowski) é um estudante em crise que vaga durante um dia (tempo da narrativa) pela cidade. Nesse curto espaço de tempo, ele termina seu relacionamento com a namorada, desiste dos estudos, decide entrar para o exército e encontra uma mulher que considera ser o amor de sua vida. 

    A narrativa segue o formato não-linear, fragmentado, filmado com uso de câmera portátil, inovando no aspecto intimista. A fragmentação e a montagem repercutem o momento confuso e ansioso pelo qual o protagonista passa nesse dia. Sinais de identificação…  lançou o diretor polonês como um nome promissor no mercado internacional, promessa que se concretizou com seus aclamados filmes posteriores. 

  • Constans

    Após dar baixa em seu treinamento no exército, o jovem Witold consegue emprego como eletricista. No primeiro dia de trabalho, ele revela à Marius, seu chefe imediato, que tem pouca experiência na função. Marius responde que “basta ele ser honesto.” É o tema do mais famoso filme de Zanussi, ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Cannes. 

    A honestidade de Witold passa a ser confrontada por seus próprios colegas de trabalho, incluindo Marius, que exigem que o jovem faça pequenas negociações escusas no ambiente de trabalho, proporcionando lucro extra aos trabalhadores.

    Em outro ambiente, um hospital, Witold também se depara com a corrupção. Sua mãe é internada devido a um câncer terminal e conseguir vaga em um quarto, assim como medicamentos, depende de “contribuições” para os funcionários do hospital. 

    Constans é o retrato frio e cruel do fim do sonho comunista na Polônia. Em determinado momento, Marius pergunta a Witold: “Qual o seu preço?”, afirmando que mais dia menos dia o jovem idealista também será corrompido. Witold resiste, sua moral e ética prevalecem, talvez um ingênuo como Cândido, que infelizmente só existam na literatura e no cinema.  

    Constans (Polônia, 1980), de Krzysztof Zanussi. Com Tadeusz Bradecki (Witold), Zofia Mrozowska (Mãe de Witold), Małgorzata Zajączkowska (Grażyna), Witold Pyrkosz (Marius)