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  • Lancelot do Lago

    O início de Lancelot do Lago (Lancelot du Lac, França, 1974) determina o tom melancólico e decadente que Robert Bresson impõe a lenda de Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Em um bosque, um grupo de cavaleiros de armadura duela com outro grupo, também vestidos com as armaduras da cabeça aos pés. Os movimentos são determinados pelo peso das vestimentas e das espadas. Quando um cai ajoelhado, é atingido pela espada na cabeça e o sangue jorra, manchando a limpidez metálica. No final da batalha, um cavaleiro esgotado caminha e cai sobre uma pilha de homens de lata mortos. 

    Bresson, fiel ao seu método, escalou elenco não profissional. Lancelot é interpretado pelo pintor Luc Simon; Guinevere pela estudante Laura Duke Condominas; Gawain por Humberto Balsan; o Rei Arthur por Vladimir Antolek-Oresek – nenhum deles seguiu na atuação.

    A base da narrativa é a consagrada história do amor trágico entre Lancelot e a Princesa Guinevere. Os encontros dos amantes em um moinho perto do castelo rendem cenas de um frio erotismo, permeado pelos famosos diálogos não-interpretados, marca dos filmes de Bresson.

    Nas batalhas e no famoso Torneio de Justas, a montagem visual e sonora desconstrói o idealismo dessas disputas. A câmera foca nas patas dos cavalos, nas mãos dos cavaleiros, em detalhes das armaduras, acompanhadas por um som metálico. A repetição dos movimentos domina a edição, em uma representação da decadência e do fracasso dos míticos Cavaleiros da Távola Redonda.   

  • As damas dos Bois de Boulogne

    As damas dos Bois de Boulogne (Les dames du Bois de Boulogne, França, 1945), de Robert Bresson, é adaptado de um trecho do romance Jacques, o fatalista, de Denis Diderot. No início do filme, Hélène (Maria Casares), uma rica mulher residente em Paris, ouve a revelação de seu amante Jean (Paul Bernard): “Eu não a amo mais.”

    Hélène finge aceitar com naturalidade o rompimento e, sem demonstrar nenhum sofrimento, continua a manter Jean em seu círculo de relacionamentos na alta sociedade, arquitetando em silêncio uma vingança. A dama encontra uma antiga amiga, cuja filha Agnès (Élina Labourdette) é dançarina de cabaré e acompanhante de homens endinheirados. Jean se apaixona por Élina e Hélène induz os dois ao casamento, esperando o momento certo de revelar para a sociedade que Jean se casou com uma prostituta. 

    O roteiro de As damas dos Bois de Boulogne foi enriquecido pelo célebre Jean Cocteau, que escreveu os diálogos, ponto mais forte da narrativa. Em seu segundo filme, Robert Bresson ainda se rendeu a trabalhar com elenco profissional – Maria Casares já era uma das divas do cinema europeu.  A partir daí, Bresson implantou nos filmes seu famoso método que dependia de atores e atrizes amadores, os chamados “modelos” que não podiam interpretar, deveriam agir diante das câmeras com neutralidade e uma certa frieza. 

    O filme foi recebido sem entusiasmo pela crítica e pelo público, principalmente devido à abordagem cáustica da aristrocracia parisiense. Isso colaborou para que Robert Bresson seguisse seu caminho na construção de um estilo marcante que influencia gerações de cineastas.