Categoria: 2011 a 2020

  • A sombra de Stalin

    A sombra de Stalin (Mr. Jones, Polônia, 2019), de Agnieszka Holland, abre com imagens de porcos, em plano fechado, se alimentando. Corta para um grande celeiro, o trigo à frente, oscilando ao vento. A câmera recua, passa pelo umbral da janela, ouve-se o som da máquina de escrever. 

    O escritor George Orwell (Joseph Mawle) está sentado na escrivaninha, de frente para a janela, escrevendo: “Eu não quero comentar a obra. Se ela não fala por si só, é um fracasso. Eu queria contar uma história que qualquer um pudesse entender. Uma história tão simples que até uma criança entenderia. (…) Monstros estão invadindo o planeta, mas acho que você não quer saber. (…) Mas se eu usar animais da fazenda para contar a história do monstro talvez você dê atenção e então entenderá. O futuro está em jogo, portanto, leia com atenção, nas entrelinhas. O Sr. Jones, proprietário da Granja do Solar fechou o galinheiro à noite.”

    Corta para o jovem Gareth Jones (James Norton) diante de um grupo de políticos, falando sobre a entrevista que fez com Adolph Hitler, no avião do Fuhrer. A ligação entre Jones, George Orwell e o livro A fazenda dos animais será revelada perto do final do filme.

    A diretora polonesa Agnieszka Holland se baseou nos fatos reais vivenciados pelo jornalista Gareth Jones durante uma breve viagem à Rússia, em 1933. Jones, ex-consultor para assuntos internacionais de um político britânico, conseguiu um visto de jornalista para visitar Moscou e tentar entrevistar Stalin. O jornalista estava intrigado com o fato do Kremlin estar falido e, mesmo assim, continuar a investir uma fortuna na industrialização do país. 

    O faro jornalístico de Jones o levou à verdade aterradora em sua viagem clandestina pela Ucrânia: parte do dinheiro vinha da agricultura da Ucrânia, cujos grãos eram inteiramente destinados à exportação soviética. O caso é conhecido como Holodomor, junção de termos em ucraniano com o significado de fome e extermínio. Toda a produção agrícola era confiscada pelo regime. Os “grãos de ouro”, como Stalin gostava de dizer, eram destinados à exportação.

    Cerca de três milhões de ucranianos morreram de fome no período em que esse sistema vigorou, entre 1932 e 1933. Atenção para a cena em que o jornalista, faminto, divide pedaços de carne com um grupo de crianças e se depara, pouco depois, com a origem do alimento. 

    Depoimento de Agnieszka Holland: “Um dos temas principais do filme é contar esse grande crime de Stalin, esse crime comunista contra a humanidade que, como muitos crimes contra a humanidade ou como muitos crimes, simplesmente, cometidos por Stalin ou outros, nunca entraram no consciente coletivo da humanidade. A opinião pública se esqueceu deles ou ignorava esses eventos por ter sido mantida sob censura durante toda a existência da URSS. Mas na Rússia de hoje também não se fala disso. Ou negam essas realidades. E pensei em retratar várias das atrocidades do século XX. Sinto que tenho esse dever e sinto que devo lançar luz sobre as vítimas esquecidas anônima e sem voz para refletirmos ao que levou essa ideologia tão autoritária e totalitária, ao mesmo tempo que quer decidir não só o destino do indivíduo, mas o de toda a nação, de toda a população.” 

    A investigação jornalística de Gareth Jones revelou outra faceta tenebrosa da história. Walter Duranty (Peter Sarsgaard), jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer e editor do The New York Times em Moscou, colaborou com o governo soviético para encobrir o genocídio, publicando matérias na imprensa internacional que desacreditivam a história relatada por Gareth Jones. 

    A sombra de Stalin, assim como a série Chernobyl, reconstitui momentos trágicos da dominação soviética na Ucrânia. Escondidos do mundo, encobertos pela mídia, milhões de pessoas morreram de fome no Holodomor e os resquícios mortais da explosão da Usina Nuclear de Chernobyl repercutem ainda hoje.   

  • Isto não é um filme

    Isto não é um filme (Irã, 2011), de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahasebi.

    Jafar Panahi está tomando um chá na cozinha de sua casa. Olha para a câmera, manuseada por Mojtaba Mirtahasebii. Segue o diálogo entre os dois: “Por isso pedi que viesse para me ajudar, neste local, para conseguir contar o roteiro. Com a câmera me acompanhando, em vez de ficar num triplê, consigo contar o roteiro com mais facilidade.” “Então você vai contar o seu último roteiro que não foi realizado?” “Sim, mas não aqui. Se eu sentar aqui e ler, vai entediar a todos. Mas se formos para aquela área lá, podemos criar as condições para explicar mais facilmente. Ótimo. Então vamos para o outro lado. Muito bem, corta.” “Você não está dirigindo. É uma infração. Só vai ler o roteiro.” “Então não sou mais diretor. A propósito, atuar e ler o roteiro vão ser considerados infrações? Até agora consta: proibição de 20 anos de fazer filmes, proibição de 20 anos de escrever roteiros, de deixar o país, de dar entrevistas. Atuar e ler roteiros não foram mencionados. Graças a Deus!”

    Driblando as imposições impostas pelo regime iraniano, Jafar Panahi filmou um dia de sua vida em casa, cumprindo a prisão domiciliar. O amigo e documentarista Mojtaba Mirtahasebi cuidou da câmera, deixando Jafar à vontade em suas reflexões sobre as condições do país, a sociedade e, principalmente, sobre o processo de fazer cinema.

    No final, Jafar parece não resistir e, quando se despede do amigo na porta, pega a câmera e passa a filmar o jovem zelador do prédio, que para de andar em andar recolhendo o lixo. Agora é o zelador quem reflete sobre seu dia, sua profissão, seus sonhos estudantis. 

    Jafar Panahi contou com amigos para contrabandear o filme para o Festival de Cannes de Cinema. Isto não é um filme conquistou o prêmio Carrosse d’Or no festival, se consagrando como uma das mais importantes obras que usa da metalinguagem para refletir sobre a arte e o artista, sobre fazer cinema. 

  • Cortinas fechadas

    Cortinas fechadas (Pardé, Irã, 2013), de Jafar Panahi e Kambuzia Partovi. Com Kambuzia Partovi, Maryam Moghadam e Jafar Panahi. 

    Em 2010, Jafar Panahi foi condenado pelo regime iraniano a seis anos de prisão. A acusação: “propaganda contra o sistema” e “atividades contra a segurança nacional.” Panahi apoiou a oposição nas eleições de 2009 e tentou filmar os protestos que se seguiram. 

    Em prisão domiciliar, o diretor burlou a proibição de não realizar filme durante o período com duas obras: o premiado Isto não é um filme (2011) e Cortinas fechadas (2010), ambos realizados totalmente dentro das casas onde cumpria a pena. 

    Cortinas fechadas abre com o morador recebendo clandestinamente um cachorro – o regime considera os cães impuros. Em uma cena de gelar o coração, o cão adotado está em frente à TV, onde passam cenas com cães agonizando nas ruas, após serem violentamente agredidos. 

    O homem, um escritor, passa os dias em atividades rotineiras dentro de casa até que, uma noite, dois jovens em fuga da polícia invadem sua residência. A jovem é deixada aos seus cuidados e ela revela conhecer bem o passado do escritor. Em determinado momento, o diretor Jafar Panahi entra em quadro para consertar as cortinas, revelando que está fazendo um filme sobre a clausura do escritor – e também do cineasta. 

    O filme é um poderoso manifesto contra as injustiças do regime iraniano, que pune artistas por suas atividades profissionais, jovens que buscam diversão ou protestam nas ruas e os inocentes animais, violentamente chacinados por serem “impuros”. Cortinas fechadas demarca também um dos principais temas das obras de Jafar Panahi: sempre é necessário e possível fazer um filme, pois a verdade deve ser revelada. 

  • Mundo invisível

    Mundo invisível (Brasil, 2012) é um experimento cinematográfico dividido em onze episódios dirigidos por cineastas de vários países. A ideia surgiu de Leon Cakoff, organizador da Mostra Internacional de São Paulo, e Renata de Almeida, diretora da mostra. A proposta apresentada aos diretores foi abordar a invisibilidade social, retratando personagens de São Paulo, onde todos os curtas foram realizados, a exceção de um, realizado na Armênia. 

    No final de cada curta, lettering reflete sobre a proposta do realizador: “Enquanto observava os grafites de São Paulo, Theo Angelopoulos se deparou com um pastor especialmente performático. Quase imperceptível aos olhos da multidão, o pregador se contrapõe à melancolia do mundo exterior, colorido e sem redenção.”

    Os destaque da obra são os filmes:

    Céu inferior. O filme de Theo Angelopoulos abre espaço para o pregador performático que se apresenta no metrô de São Paulo, utilizando técnicas teatrais, desenvolvendo gestos e falas para criar e exagerar o melodrama religioso. 

    O ser transparente. Laís Bodanzky reflete sobre o trabalho do ator, com depoimentos de atores, atrizes, uma monja budista e o ator e diretor Yoshi Oida, que escreveu o livro O ator invisível. 

    Ver ou não ver. Wim Wenders coloca em cena crianças que têm apenas um resquício da visão e passaram por um processo de ensinamento para aprenderem a ver. O curta acompanha três crianças que foram atendidas pelo pioneiro projeto desenvolvido pela Dra. Sílvia Veitzman, do departamento de oftalmologia da Santa Casa – São Paulo.  

    Os demais curtas são:

    Do visível ao invisível, Manoel de Oliveira. Tributo ao público de cinema, Jerzy Stuhr. Gato colorido, Guy Maddin. Fábula, Gian Vittorio Baldi. Tekoha, Marco Bechis. Aventuras de um homem invisível, Maria de Medeiros. Kreuko, Beto Brant e Cisco Vasques. Yerevan – O visível, Atom Egoyan

  • Pussy

    Pussy (Cipka, Polônia, 2016), de Renata Gasiorowska. 

    Uma jovem está em sua casa sozinha, à noite. Ela começa a se acariciar, entra na banheira e continua se entregando ao prazer. Uma reviravolta surreal, à princípio assustadora para a jovem, transforma sua busca em um auto conhecimento dos seus desejos e de seu corpo de forma livre, selvagem, rebelde. 

    Os trabalhos de animação da diretora polonesa Renata Gasiorowska, incluindo filmes e clipes, são sempre muito bem recebidos pela crítica em diversos festivais de cinema. Pussy foi premiado no Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand. A narrativa é ousada, com cenas e insinuações provocativas em relação ao prazer feminino. A passagem da personagem do mundo real para o imaginário, o surrealismo, é um convite à plena libertação. 

  • Harry Dean Stanton: em parte ficção

    Harry Dean Stanton: em parte ficção (Harry Dean Stanton: partly fiction, Suiça, 2012), de Sophie Huber. 

    O diretor Wim Wenders comenta para o documentário que, quando pensou em Harry Dean Stanton (1926 / 2017) para o papel principal de Paris, Texas (1984), se viu diante de um ator que  “esteve nos cinemas por cerca de 30 anos e nunca foi o protagonista”.

    O documentário de Sophie Huber se debruça sobre a carreira do enigmático ator e cantor de músicas folk. A narrativa trabalha com colagem de imagens, trechos das centenas de filmes das quais participou, gravações de Harry em sua casa e no bar que frequentou durante toda a vida e, para completar, depoimentos de importantes profissionais do cinema americano: David Lynch, Wim Wenders, Kris Kristofferson, Sam Shepard, Kris Kristofferson, Debbie Harry.

    Entre depoimentos e colagens, Harry Dean Stanton interpreta canções que, de certa forma, têm relação com a sua história. Ainda segundo Wim Wenders, o grande mérito de Harry como ator foi interpretar ele mesmo: “Harry se permitiu ser bem vulnerável naquele papel e nos deixou olhar para a sua alma. E Harry é frágil. Harry é vulnerável. As pessoas não estão acostumadas com um protagonista que se abre tanto. Acho que Harry tocou o coração de muita gente, porque ele ousou ser frágil.” 

    Perguntado pela diretora do documentário sobre como se preparou para o papel de Travis (Paris, Texas), seu mais aclamado personagem, Harry Dean Stanton respondeu: ““Ele não fala durante cerca de meia hora do filme. Então eu não fiz nada. Eu não me preparei, só não falei. Não dizer nada é um posicionamento impactante. Não falar. Ficar em silêncio. O silêncio é muito poderoso.”

  • Batimentos por Mizu

    Batimentos por Mizu (Japão, 2019), de Miki Tomita.  

    Sumiko (Ruka Ishikawa) está no último ano da universidade, mas se apresenta como caloura. Ela tem um dom: ouve e consegue mensurar os batimentos cardíacos por minuto de quem está por perto. Durante um show de uma banda pop, ela conhece Mizu (Endo Fumiya)  e passa a ouvir e contar os seus próprios BPM.

    A direção de fotografia e a direção de arte são o destaque do curta. As cores, as ambientações, a fotografia se aproveitando do tom azulado dos dias e da piscina, transmitem um ar de jovialidade estética. A jovem Sumiko não só ouve, mas vê e sente os batimentos cardíacos que mudam de acordo com os encontros, as relações – as sensação da juventude. 

  • Pacarrete

    Pacarrete (Brasil, 2019), de Allan Deberton.

    Pacarrete (Marcélia Cartaxo), 70 anos, é uma professora de balé aposentada. Ele vive com sua irmã, a cadeirante Chiquinha (Zezita Matos), em Russas, pequena cidade do interior do Ceará. A prefeitura está preparando uma grande festa em comemoração ao aniversário da cidade e Pacarrete insiste, junto aos organizadores, em fazer uma apresentação solo de balé. Sua proposta é rejeitada, sob o argumento de ser uma festa planejada somente com atrativos populares.

    A interpretação de Marcélia Cartaxo é o grande trunfo do filme. Sua personagem carrega um rancor cotidiano, irrompendo aos impropérios com todos à sua volta. A exceção é o dono de mercearia Miguel (João Miguel), por quem nutre uma paixão secreta.

    O filme ganhou inúmeros prêmios, incluindo o de Melhor Filme e de Melhor Atriz no Festival de Gramado. Baseado em fatos reais, a narrativa acompanha a jornada de Pacarrete em defesa de sua arte. Por trás de uma mulher amargurada (algo em seu passado como professora na capital), raivosa e agressiva, está a bailarina apaixonada pela dança. 

  • Um dia de verão

    Um dia de verão (Taiwan, 2020), de Wang Yan-ping. Com Min-Hsien Jen (Hsuan), Ting-Yi Lin (Chi), Chien-yu Chou (Yei). . 

    O filme de graduação da diretora Wang Yan-ping se passa durante o verão. Três jovens dividem seu tempo entre os estudos, um parque de diversão e a piscina da cidade. Os irmãos Hsuan e Yei trabalham no parque, passam por pequenos conflitos, principalmente em relação à amiga deles, Chi. 

    O foco central da trama é a amizade entre as duas jovens, até o momento em que Hsuan não consegue mais esconder sua paixão por Chi. A delicadeza, os olhares e gestos sutis, conduzem as revelações que provocam conflitos, como em todas as descobertas adolescentes. 

  • Postergados

    Postergados (Brasil, 2016), de Carolina Markowicz. 

    Três pessoas são entrevistadas em diferentes locais: um médico corrupto que será responsável pela morte de um motorista; um homem já morto que foi induzido por sua esposa a tomar um remédio que provocou sua morte;  uma cartomante charlatã que descobre que pode fazer uma única pergunta antes da passagem para a vida após a morte. 

    A edição fragmentada, cuja montagem alternada confunde o espectador com as histórias dos personagens que transitam entre a vida, a morte e a pós-morte é o grande trunfo do filme. O curta foi filmado em Porto Alegre, com intérpretes uruguaios de renome nos papéis principais: César Bordon, Mirella Pascual e José Luis Arias.  

    O destaque é a história envolvendo a cartomante, que anuncia a Edna, uma cliente,  que ela vai morrer no dia 16 de junho. Durante a consulta, conversando sobre as possibilidades da morte, a cartomante diz a Edna: “Somos cadáveres postergados, como dizia Fernando Pessoa.” Atenção para o belo e sensível conjunto de imagens ao som de Gracias a La Vida.