Categoria: 2011 a 2020

  • Namoro à distância

    Namoro à distância (Brasil, 2017), de Carolina Markowicz. 

    No início da narrativa, voz em off discorre sobre algumas fobias comuns entre as pessoas, como medo de avião, e revela: “Não tenho medo de nada. Não odeio nada. Não tenho grandes ambições. O meu único desejo é poder, um dia, praticar atividade sexual com um extraterrestre.”

    O curta, de apenas cinco minutos de duração, acompanha o protagonista, que se muda para Varginha (claro), após se inscrever em um programa de disk sexo com Ets. Carolina Markowicz compõe um universo absurdo e surrealista, por meio de um estilo que transita entre animação, live-action e uma forte referência da estética noir.

    Namoro à distância consolida o talento da diretora com uma narrativa curta, potente e provocativa, abordando os inconfessáveis desejos humanos.

  • Edifício Tatuapé Mahal

    Edifício Tatuapé Mahal (Brasil, 2014), de Fernanda Salloum e Carolina Markowicz. 

    A premiada Carolina Markowicz estreou na direção com este curta de animação provocador, instigante, realizado em coautoria com Fernanda Salloum. O espectador está diante de uma maquete de um típico show room de lançamento imobiliário. O boneco argentino Javier trabalha como corretor neste empreendimento e sua jornada passa por conflitos com os clientes, com seus patrões e por seus relacionamentos amorosos. 

    A animação em stop-motion trata de temas como exploração do trabalhador. Em determinado momento, narração em off de Javier reclama de suas longas jornadas de trabalho, pois é exposto na maquete de sol a sol. Javier relata o sofrimento de um companheiro de trabalho que é obrigado a andar de bicicleta por tempo indefinido na área do prédio.Frustrado com sua realidade, Javier viaja pela Europa e, na Polônia, se entrega a experiências de um grupo de cirurgiões especializados em transformar bonecos de maquete.

    Edifício Tatuapé Mahal conquistou 20 prêmios em diversos festivais mundo afora. É mais um reconhecimento da potência dos filmes de animação produzidos no Brasil.

  • O órfão

    O órfão (Brasil, 2018), de Carolina Markowicz, ganhou o prêmio Queer Palm no Festival de Cannes. A narrativa acompanha a jornada do menino Jonathas (Kauan Alvarenga). Ele vive em um orfanato e um jovem casal se dispõe a adotá-lo. Durante o período de experiência, já na sua nova casa, Jonathas revela seu jeito afetivo e delicado, provocando conflitos com seus novos pais. Após um breve período, Jonathas é devolvido ao orfanato e volta a lidar com o sentimento de rejeição. 

    O órfão retrata com uma sensibilidade dolorosa as questões identitárias na infância, negadas pelo preconceito arraigado na estrutura familiar; mesmo um casal formado por jovens não consegue lidar com as sutis descobertas de Jonathas sobre sua sexualidade.

  • Da eternidade

    Da eternidade (About endlessness, Suécia, 2019), de Roy Andersson. 

    A abertura do filme é puro cinema de poesia. Um casal abraçado flutua entre as nuvens. O homem enlaça a mulher por trás, como a protegê-la. Ela acaricia os braços dele. Corta para um casal sentado em um banco, olhando para a cidade. 

    O filme do subversivo diretor sueco é uma série de curtas, retratando momentos comuns do cotidiano: um pai amarra os cadarços da filha, adolescentes dançam em frente a um café, um exército marcha para um campo de prisioneiros, um homem conversa com a câmera na saída do metrô sobre um desafeto que nunca o cumprimenta. O tempo se confunde entre o passado e o presente, uma narradora enigmática diz sobre esses momentos: “Eu vi um homem que queria surpreender sua esposa com um bom jantar.”

    O cinema de Roy Andersson é assim, subversivo, deslumbrante, formado por imagens que parecem saídas dos sonhos. Assim como a poesia. 

  • Terra abençoada

    Terra abençoada (Mot khu dat tot, Vietnã, 2019), de Pham Ngoc Lan. Com Hoàng Hà, Minh Chau, Thuy Anh, Huy Tien. 

    Uma mulher, junto com seu filho adolescente, visita um antigo cemitério, percorrendo-o em vão em busca do túmulo de seu marido. Um pedaço do cemitério foi demolido para dar lugar a um luxuoso campo de golfe, a outra parte está abandonada: os túmulos em estado de decomposição convivem com pântanos e areais. Um pastor também está no local, aproveitando o terreno para alimentar suas vacas. 

    A narrativa curta tece críticas sociais sobre a desigualdade social e sobre como o progresso interfere no meio ambiente e nas tradições sociais. Enquanto a mulher e o filho percorrem o terreno abandonado, do outro lado da colina, um homem joga golfe, acompanhado de sua amante bem mais jovem. O conflito entre as classes é demarcado pela forma como se relacionam com o meio-ambiente, com os recursos naturais, com o terreno que serve de moradia para os mortos e, ao mesmo tempo, como deleite para os homens endinheirados. 

  • O verão e todo o resto

    O verão e todo o resto (L’été et tout le reste, Holanda, 2018), de Sven Bresser. 

    Marc-Antoine (Marc Antoine Innocenti) e Mickael (Mickael Danguis Fasolo) trabalham em uma ilha que, durante o verão, fica repleta de turistas. Com o fim da temporada, a ilha fica vazia e os jovens planejam rumar para o continente em busca de outro tipo de trabalho. O conflito se anuncia quando Marc, contrariando seu amigo, revela que pretende ficar no local. 

    A narrativa debate a busca dos anseios da juventude. Michael não hesita em partir e enfrentar os desafios que se apresentam em uma nova sociedade, enquanto Marc hesita, prefere naquele momento continuar com sua rotina solitária. A sequência da aclamada festa na ilha, frequentada por Marc e meia dúzia de amigos, é o sintoma dessa relação conflituosa entre o esplendor das temporadas de verão e o vazio do dia-a-dia dessas cidades que vão se perdendo no tempo. 

  • Letícia, Monte Bonito, 04

    Letícia, Monte Bonito, 04 (Brasil, 2020), de Julia Regis.

    É uma tarde quente de verão em uma “venda” de beira de estrada no interior do Rio Grande do Sul. Laís (Eduarda Bento) está sentada no banco da entrada do sobrado, esperando o pai. Ela ouve música no andar de cima e, curiosa, entra pela casa. Letícia (Maria Galant) a surpreende, depois a convida para conhecer o quarto. 

    O curta de Julia Regis, vencedor do Prémio do Público no Mix Brasil, acompanha com lentidão o relacionamento entre as duas jovens. Elas se divertem em brincadeiras inocentes com bichos de pelúcia, ouvem CDs, dançam ao som de MPB, tentam se refrescar no ventilador. Passo a passo o flerte, leves toques e insinuações delineiam uma sensível e delicada descoberta. 

  • Vaga carne

    Vaga carne (Brasil, 2019), de Grace Passô e Ricardo Alves Jr.

    A peça Vaga Carne, escrita e encenada por Grace Passô, foi apresentada ao público em 2016. A própria autora trabalhou na adaptação para o cinema, em conjunto com Ricardo Alves Jr.. O princípio conceitual é basicamente o mesmo: uma estranha voz toma posse do corpo de uma mulher. O monólogo, uma interação entre voz e corpo, percorre a narrativa, transitando entre reflexões sobre pertencimento, papeis dentro da sociedade, questões estruturais de gênero e preconceito racial. 

    “Ao levar a peça para o Cinema, em 2018, (…) Grace, por outro lado, possuía uma diferente forma de provocação: uma dramaturgia própria a se traduzir em roteiro para audiovisual; quarenta e cinco minutos de uma protagonista invisível – a voz – falando a frente de uma tela-imagem. A dualidade, porém, cai por terra à medida que o choque entre personagem-cenário se mostra mais homogêneo do que oposicionista, afinal, se a voz invisível quer ser ouvida, o corpo da mulher negra ali estampado também quer ser visto.” – Antonio Pedroni

    Vaga Carne seria exibido em sessões duplas, junto com outro média-metragem Sete anos em maio (Brasil, 2019), de Affonso Uchoa. No entanto, o isolamento social provocado pela pandemia não permitiu essa estratégia e cada filme foi lançado de forma isolada no streaming. 

    Referência: Vaga carne e a intermidialidade teatro-cinema na história do cinema brasileiro. Antonio Pedroni. Monografia apresentada como trabalho de conclusão de curso. PUC MINAS: Curso de Cinema e Audiovisual, 2021. 

  • Estrela cadente

    Estrela cadente (Comme une comète, Canadá, 2020), de Ariane Louise-Seize. Com Marguerite Bouchard (Chloé), Patrick Hivon (Christopher), Whitney Lafleur (Nathalie).

    Chloé é uma adolescente retraída que passa por uma fase introspectiva. Nathalie, sua mãe, ao contrário é irreverente e descontraída, aproveitando com intensidade e atrevimento seu namoro com Christopher. Os três fazem uma viagem para o litoral com intenção de observar as estrelas. A jornada de Chloé durante o passeio a leva a uma descoberta fascinante e perigosa: ela se sente atraída pelo namorado da mãe. 

    O filme da diretora canadense foi premiado em festivais, incluindo Melhor Curta-Metragem Canadense no prestigiado Festival de Cinema de Whistler. A narrativa aborda essa perigosa fase da adolescência com sensibilidade e ousadia. A história é narrada pela adolescente que passa os dias desenhando (imagens que resvalam para o erotismo). Ela começa relembrando: “você deixou o carro velho na nossa garagem, aquele do nosso final de semana na praia, quando tudo começou e terminou ao mesmo tempo.” A cena em que Chloé e Christopher estão deitados, rostos quase colados, observando o céu noturno, encanta, fascina e provoca.

  • Não chore na mesa de jantar

    Não chore na mesa de jantar (No crying at the dinner table, Canadá, 2019), de Carol Nguyen. Com Thao Nguyen, Ngoc Nguyen, Michelle Nguyen. 

    O filme abre em plano fechado dos três membros da família de Carol Nguyen em uma pequena mesa de cozinha. A diretora explica a eles em off:, Mamãe, papai e Michelle (sua irmã). Na quinta-feira, cada um de vocês fez entrevistas individuais. Quando vocês concordarem em fazer este projeto, todos sabiam que todos ouviremos as entrevistas da nossa família.  Mas hoje quero reproduzir as entrevistas para vocês. Então, vamos ouvir.”

    A abertura revela o tom intimista, corajoso e desafiador do documentário. Em uma mesa de jantar, os três vão se defrontar com lembranças, revelações simples de uma família que provocam o emocional. 

    Neste ano de 2019, Carol Nguyen teve dois filmes  incluídos na lista dos dez melhores curtas do Canadá: Nanitic e Não chore na mesa de jantar