O padre Nazarin vive em um quarto de pensão, rodeado por marginais, prostitutas e pessoas que vivem miseravelmente. O padre é desprezado pela dona da pensão e, quando descobre que foi roubado por uma das prostitutas, pede a ela apenas um pão. “Se eu não tiver, ou não quiser ter?” “Então não vou comer. Não seria a primeira vez, nem a última vez.”
Nazarin se recusa a denunciar a prostituta que o roubou. Ela é espancada por um homem e o padre a acolhe e cuida dela em seu quarto. Após ser confrontado pela comunidade, Nazarin parte em peregrinação pelo interior pobre, dominado por instituições que se aproveitam da miséria da população. Ele vive de donativos que muitas vezes redistribui com os mais pobres. Nazarin supostamente “cura” uma criança, é visto como santo e passa a ser acompanhado por fiéis em sua longa caminhada.
Nazarin marca uma reviravolta no estilo de Luis Buñuel que evita o surrealismo e trabalha com a estética neorrealista: imagens documentais em locações – ruas, casebres, estradas; trama centrada nas profundas injustiças sociais, colocando em evidência a miséria das classes menos favorecidas durante o ditadura de Porfírio Dias; a fotografia de Gabriel Figueroa como um retrato cru e realista da paisagem desértica, a sujeira e a poeira marcando a caminhada do protagonista.
O destaque da trama é a complexidade psicológica do padre Nazarin. Idealista, humilde, generoso e humanista, capaz de doar seu parco alimento, o padre vive em conflito com sua devoção, renega sua provável santidade e chega a ser ríspido com os seguidores que o veneram. O filme conquistou o Prêmio Internacional no Festival de Cannes de 1959 e levantou polêmicas pelas críticas às instituições religiosas.
O mensageiro do diabo (The night of the hunter, EUA, 1955), de Charles Laughton.
As crianças John Harper e Pearl Harper estão no quarto à noite, iluminadas apenas pela luz que entra pela janela e deixa suas marcas na parede. Pearl pede ao irmão que conte uma história. John começa a contar a história de um rei enquanto olha para a parede, as sombras da janela e de folhas da árvore demarcando a fotografia expressionista. De repente, a sombra de um homem com chapéu compõe as imagens da janela que jogam suas sombras dentro do quarto.
John chega até a janela e vê Harry Powell (Robert Mitchum) parado perto da cerca da rua, embaixo de um poste de luz. Harry caminha lentamente e sai de cena. John se deita ao lado de Pearl e diz: “Não se preocupe, é apenas um homem.”
Esse homem se passa por reverendo para conquistar jovens mulheres, geralmente viúvas, para ficar com o dinheiro que herdaram. O fim das mulheres remete à clássica história do Barba Azul. Harry cumpriu pena com o pai das crianças e descobriu que, depois de roubar um banco, ele escondeu o dinheiro na propriedade. O plano de Harry agora é conquistar Willa Harper (Shelley Winters) e se apossar do dinheiro. Somente as crianças sabem onde o pai, que morreu na prisão, escondeu o fruto do assalto.
O mensageiro do diabo é o único filme dirigido pelo lendário ator Charles Laughton. Um clássico do cinema noir, com fortes referências expressionistas que tomam conta de toda a narrativa, resultado do trabalho primoroso do diretor de fotografia Stanley Cortez.
Harry conquista não só a mãe das crianças, mas toda a comunidade, que passa a adorar seu fervor religioso, seu carisma e simpatia. As cenas diurnas, passadas em comunhão entre os moradores à beira do rio, nas ruas da cidade, nos estabelecimentos comerciais, é tomada pela luz natural do dia, representando a harmonia, a amizade e o romance que se inicia. Ao escurecer, o terror expressionista se anuncia nas sombras e na transformação do pastor no verdadeiro demônio.
“Mitchum interpreta aqui um vilão comprometido com seu ofício, fazendo hora-extra como serial killer de mulheres liberadas, mas sexualmente obcecado pelo dinheiro, do qual acredita precisar para custear sua cruzada sangrenta. A fuga noturno rio abaixo, com sua fotografia monocromática expressionista, é uma sequência mágica, com closes de uma estranha fauna e flora pantanosa.”
A segunda parte do filme, quando Harry mata a esposa e as crianças fogem descendo de barco o rio, transforma a película em um thriller, colocando duas ingênuas crianças na mira de um psicopata assassino. A entrada em cena de outra lenda do cinema, Lillian Gish, que interpreta Rachel Cooper, idosa que usa sua casa para abrigar crianças órfãs, provoca o embate entre o bem e o mal, Rachel x Harry, em ações repletas de tensão, com sugestões, inclusive, de pedofilia, ousadia de Charles Laugton para a época.
Outra cena ousada, que levantou polêmicas, aconteceu quando Harry está na plateia de um teatro, assistindo a uma performance erótica de uma dançarina. Ele tem no bolso dianteiro da calça a sua faca que dispara como um canivete. Em determinado momento do show, o mecanismo da faca aciona a lâmina. A imagem a seguir é a lâmina da faca que levantou e rasgou a calça de Harry, claramente simulando a ereção.
A cena mais impactante do filme é um exercício de terror gótico. Harry mata a mãe das crianças quando ela está deitada na cama, os braços cruzados como a esperar o ato final. Harry, em pé, olha para o teto com o braço disposto como em uma oração divina. Ele se debruça sobre a mulher e levanta novamente o braço, agora com a faca na mão. Corta para folhagens esvoaçando debaixo d ‘água, como se fossem longos cabelos. Em segundo plano, aparece o corpo de Rachel, os cabelos também esvoaçando, o volante do carro à frente. O gancho de uma linha de pesca se prende no retrovisor, a câmera sobe lentamente e mostra o reflexo de um barco na superfície do rio.
“Além de um bálsamo aos ouvidos, O mensageiro do Diabo é também um colírio para os olhos, pois apresenta o que talvez seja o melhor uso do preto e branco em alto contraste da história do cinema. Sua fotografia barroca, assinada por Stanley Cortez, que também colaborou com Orson Welles em Soberba (1942) explora no limite da perfeição as sombras e ângulos do expressionismo alemão, de onde o corpo lânguido de Robert Mitchum acaba por mimetizar movimentos afetados, assinalando a tendência ao fantástico em detrimento do realismo que marca toda a projeção. Cortez chegou a afirmar que Welles e Laughton foram os únicos diretores com quem colaborou que sabiam exatamente como utilizar a luz nas filmagens.” Vinicius Lins
Elenco: Robert Mitchum (Harry Powell), Shelley Winters (Willa Harper). Lillian Gish (Rachel Cooper), James Gleason (Tio Birdie), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper).
Escândalo (Scandal sheet, EUA, 1952), de Phil Karlson.
Steve McCreary (John Derek) é um jovem e ambicioso jornalista, disposto a transformar o pequeno e decadente jornal em que trabalha em um sucesso de vendas. Seu mentor e espécie de ídolo na profissão é o editor Mark Chapman (Broderick Crawford). Sob a liderança de Mark e a obstinação jornalística de Steve, o jornal começa a publicar notícias sensacionalistas de crimes e assassinatos.
O jornal promove um baile na cidade, evento promocional para lucrar com as fotos e histórias dos moradores. Na manhã seguinte, uma das participantes do baile é encontrada assassinada na pensão onde mora. Steve resolve investigar o caso, certo que será notícia de primeira página. Passo a passo, o jornalista descobre e segue as pistas que podem levá-lo ao assassino que está mais perto do que ele imagina.
Escândalo é uma forte denúncia sobre a mídia sensacionalista que explora e lucra com tragédias pessoais, produzindo matérias escandalosas e estampando fotos dos envolvidos. O contraponto ético da trama é Julie Allison (Donna Reed), jornalista idealista que não concorda com os rumos que o jornal está tomando e luta para resgatar as relações humanistas da profissão. Quando Steve descobre o assassino, em uma tensa e empolgante noite na redação do jornal, sua crença profissional desaba.
Apesar do pouco destaque no rol dos filmes noir, Escândalo tem uma importante contribuição: o roteiro é baseado em um livro do mestre Samuel Fuller que, antes de escrever e dirigir, foi repórter policial.
Elenco: John Derek (Steve McCleary), Donna Reed (Julie Allison), Broderick Crawford (Mark Chapman), Rosemary DeCamp (Charlotte Grant), Henry O’Neill (Charlie Barnes).
Cidade cativa (The captive city, EUA, 1952), de Robert Wise.
Um casal está dirigindo em alta velocidade em uma estrada, perseguido por outro carro. Eles conseguem chegar à delegacia de polícia e invadem o ambiente assustados. O jornalista James T. Austin (John Forsythe) diz ao oficial que ele e Marge Austin (Joan Camden), sua esposa, precisam de proteção, pois podem ser assassinados pelos homens que os perseguem.
O jornalista precisa chegar ao Capitólio para depor no Comitê do Senado para Investigação de Crimes no Comércio Interestadual. O oficial sugere que eles esperem o xerife chegar. James Austin então pede para usar um gravador da delegacia e, com o microfone em mãos, começa a contar a história que os levou a esse desfecho perigoso. Claro, a referência é Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder.
O título Cidade cativa resume o tema do filme: uma pequena cidade do interior está sob o comando de criminosos que agem no comércio de apostas ilegais em todo o estado. Estabelecimentos da cidade servem de fachada para as casas de jogos. James Austin é dono do jornal local e recebe uma denúncia de um casal sobre esse mercado. O jornalista passa a investigar e descobre uma intrincada rede, formada por gangsters dos grandes centros, moradores locais e autoridades.
A película é um grande estudo sobre o jornalismo investigativo e a ética profissional. James passa a denunciar nas páginas do jornal a relação entre o crime e importantes moradores da cidade, assumindo o risco que justifica o início do filme: ser assassinado para se calar. O final em aberto, com o casal entrando no capitólio para depor, deixa no ar aquilo que todos sabem: a possibilidade de impunidade é real.
Elenco: John Forsythe (Jim Autin), Joan Camden (Marge Austin), Harold J. Kennedy. (Don Carey), Marjorie Crossland (Mrs. Sirak), Victor Sutherland (Murray Sirak), Ray Teal (Xerife Gillette).
Extorsão (Shakedown, EUA, 1950), de Joseph Pevney, alerta para uma questão importante ainda nos dias de hoje: o envolvimento em atividades ilícitas, inclusive com manipulação de informações e imagens, para ascender no universo profissional das mídias e ganhar muito, muito dinheiro.
Jack Early (Howard Duff) é um fotógrafo iniciante cujo sonho é ingressar em um grande jornal. A chance acontece quando, por acaso, ele flagra e tira fotos de um atentado criminoso na rua. A fotografia tem potencial para estampar as primeiras páginas dos tablóides, devido ao seu caráter sensacionalista. Jack não só vende a foto para um jornal, mas consegue uma vaga de estagiário.
Em seu cotidiano nas ruas, o fotógrafo consegue outras fotos de sucesso, na maioria das vezes, manipulando os personagens envolvidos. Passo a passo, ele se sente mais ousado e passa a usar do seu talento para chantagear importantes pessoas do submundo do crime. Jack tem uma ascensão meteórica e julga ter em suas mãos figuras poderosas.
Extorsão é a estreia do diretor Joseph Pevney, que se tornaria famoso, pelo menos para esse trekker, por dirigir alguns episódios da clássica série Jornada nas estrelas (1966 a 1969). A atmosfera noir ronda o ambiente do filme, incluindo a femme fatale: Jacky se apaixona Anne (Nita Palmer), jovem esposa do gangster a quem está chantageando. O filme antecipa clássicos que também se debruçaram sobre esse tema: A montanha dos sete abutres (1951) e Rede de intrigas (1976).
O final antecipa também um fato que se tornou corriqueiro nos dias atuais, atingindo digitais influencers e pessoas comuns que arriscam a vida por uma foto e acabam registrando a própria morte.
Elenco: Howard Duff (Jack Early), Peggy Dow (Ellen Bennett), Brian Donlevy (Nick Palmer), Lawrence Tierney (Harry Colton), Bruce Bennett (David Glover), Anne Vernon (Nita Palmer).
Sob o manto da intriga (The underworld story, EUA, 1950), de Cy Endfield, trata da mesma temático do clássico A montanha dos sete abutres (1951), de Billy Wilder: a exploração dos tablóides na cobertura de tragédias pessoais, expondo de forma desumana e, até mesmo ilegal, as pessoas envolvidas no caso.
Mike Reese (Dan Duryea) trabalha como repórter policial, uma reportagem que publicou é tida como responsável pelo atentado a tiros na porta do tribunal. O tiroteio vitimou um criminoso e feriu o promotor público. Mike perde o emprego e a credibilidade nos grandes jornais. Sem um tostão, Mike pede dinheiro emprestado a um agiota e compra sociedade de um pequeno jornal no interior, cuja proprietária, Catty Harris (Gale Storm) mantém o idealismo da prática do jornalismo ético.
O diretor Cy Endfield implanta na narrativa vários elementos do cinema noir e aborda de forma severa a tensão política que assolava os Estados Unidos, incentivada e explorada pela mídia sensacionalista. Endfield seria vítima desses mecanismos: investigado pelo macarthismo, o diretor entrou na Lista Negra de Hollywood, devido ao seu suposto envolvimento com atividades comunistas.
O jornalista Mike Reese tem a chance de retomar sua carreira de forma gloriosa quando a jovem esposa de Ralph Munsey, (Michael O’Shea), filho do magnata das comunicações E. J. Stanton (Herbert Marshall), é assassinada. A principal suspeita é Molly, empregada da vítima, de ascendência negra. No entanto, o autor do crime não é segredo para o espectador: em um momento de raiva e ciúmes, Ralph assassinou a esposa e confessou o crime para o pai.
A descoberta do criminoso não apresenta grandes reviravoltas, passo a passo o próprio Ralph cuida de se delatar. O que move a trama são as questões sociais e raciais na comunidade. Os endinheirados homens da cidade participam de uma trama para condenar Molly, acobertando a família do poderoso Stanton (que é corroído pelo remorso de proteger o verdadeiro criminoso, seu filho).
Os filmes noir eram praticamente obrigados a punir os criminosos no final, seguindo determinações do famigerado Código Hays. Portanto, não é surpresa a redenção de Eddie e o trágico fim de Ralph. Diferente do mundo real quando se trata dos poderosos homens da mídia.
O lendário ator Humphrey Bogart faleceu em 14 de janeiro de 1957, vítima de câncer no esôfago. Meses antes, ele estava filmando A trágica farsa (The harder they fall, EUA, 1956), de Mark Robson. Relatos indicam que Bogart, já bastante debilitado, tinha dificuldades em cumprir a jornada de trabalho nos sets, mas persistiu até a última tomada.
Ele interpreta Eddie Willis, um famoso jornalista esportivo que se vê desempregado. Precisando de dinheiro, Eddie aceita a proposta de um promotor de lutas de boxe, que precisa descobrir e criar um novo talento no esporte. A tarefa de Eddie é atuar como relações públicas e promover o lutador.
O gigante argentino Toro Moreno (Mike Lane), com músculos assustadores mas uma ingenuidade infantil, é o escolhido. A promoção do lutador rapidamente se torna um trabalho quase impossível: Toro não tem talento algum, é derrubado pelo mais franzino dos atletas.
O filme é baseado no romance de Budd Schulberg, que escreveu também Sindicato de ladrões. O escritor se baseou na história real de Primo Carrera para denunciar a criminalidade que movia os eventos de boxe: assim como Carrera, o empresário compra os adversários de Toro Moreno que vão caindo um a um em rounds determinados.
Eddie Willis participa da farsa, mas se consume pelo remorso, por uma certa humanidade ao entender o destino de Toro Moreno, cujo único sonho é ganhar dinheiro para comprar uma casa para sua mãe. O final revela o que todos sempre souberam: vida e dignidade dos lutadores são destruídas no submundo das lutas manipuladas, enquanto os promotores enriquecem sem o menor escrúpulo. Atenção para a sequência quando Eddie Willis cobra o dinheiro ganho por Toro, que deseja voltar para casa.
Amores de apache (Casque d’or, França, 1952), de Jacques Becker.
O roteiro original do filme versava sobre uma disputa de gangues em Paris, conhecidas como “apaches”. O estilo se assemelhava aos westerns americanos, com cenas de embates violentos a tiros. Quando Charles Becker assumiu o projeto, que seria dirigido por Julien Duvivier, trabalhou com o roteirista Jacques Companeez em uma história de amor – um melodrama, ambientada no submundo do crime de Paris.
O cenário são os subúrbios de Paris durante a Belle Époque, final do século XIX. Marie (Simone Signoret), conhecida como Casque d’or, é uma garota da noite que se relaciona com membros da gangue chefiada por Félix Leca (Claude Dauphin). Em um salão de dança às margens do rio, ela conhece Manda, um ex-criminoso que passou sete anos na cadeia, e agora tenta se regenerar, trabalhando como carpinteiro. A paixão entre os dois é imediata, explosiva, despertando a ira do atual amante de Marie, um membro da gangue de Félix.
Amores de apache marca a transição do realismo poético francês para o novo cinema dos anos 60. O filme foi um fracasso de bilheteria, mas foi elogiado pelos jovens críticos da Cahiers Du Cinema, que defendiam um cinema mais realista e moderno, filmado nas ruas, assim como o filme de Jacques Becker – um melodrama com toques de modernidade.
A história de amor de Marie e Manda, cujos destinos caminham para a tragédia, é narrada com belas cenas do romance, com destaque para a beleza e talento de Simone Signoret. É também uma história de amizade, dois amigos que cumpriram pena juntos e agora se veem em lados opostos, mas sacrificam tudo em nome da cumplicidade que construíram.
Pedro – O Bruto (Pedro Armendáriz) é um simplório e ingênuo trabalhador de um matadouro na Cidade do México. Devido a seu porte físico avantajado, o velho Andrés Cabrera (Andrés Soler) seu antigo patrão (e possivelmente pai, pois a mãe de Pedro era empregada doméstica da residência), o contrata para intimidar familiares que moram em um conjunto habitacional de baixa renda. Andrés é dono do terreno e deseja vendê-lo para um empreendimento imobiliário, mas os moradores resistem em deixar o local.
Luis Buñuel se rendeu ao cinema comercial em um primeiro momento de sua fase mexicana. O próprio diretor disse que O bruto estava entre esses filmes feitos sob encomenda. A obra segue os princípios neorrealistas, com forte crítica social aos empresários e donos de imóveis que tratam os seus inquilinos pobres como mercadoria descartável. O tom melodramático do filme se evidencia quando Pedro golpeia e mata um dos inquilinos e, depois, se apaixona e é correspondido por Meche (Rosita Arenas) , filha de sua vítima.
Outra marca de Buñuel presente na narrativa é a obsessão sexual. Paloma (Katy Jurado), jovem esposa de Andrés, desenvolve uma paixão física arrebatadora por Pedro e desencadea um triângulo amoroso com consequências trágicas. O anti-herói Pedro, corroído pelo remorso e pelo amor a Meche, é o grande personagem do filme, uma mescla de personalidade ingênua, bondosa e agressiva, que não consegue conter seus instintos.
O homem do braço de ouro (The man with golden arm, EUA, 1955), de Otto Preminger.
Frankie Machine (Frank Sinatra) sai da prisão e retorna ao bairro onde ganhava a vida como crupiê e se viciou no consumo de heroína. Durante a reabilitação, ele aprendeu a tocar bateria e pretende se tornar músico profissional, mas o traficante e seus antigos comparsas no jogo o espreitam minuto a minuto, provocando a inevitável volta ao submundo das drogas e das jogatinas.
O diretor Otto Preminger enfrentou o Código Hays na abordagem de um tema “proibido” pelos censores: o vício em drogas. As cenas explícitas de Frank injetando heroína na veia e a sequência em que está preso em um pequeno quarto, sofrendo com a crise de abstinência, apresentam a cruel realidade desta doença.
O filme, totalmente rodado em estúdio, traz as características do cinema noir, incluindo uma inusitada femme fatale: Zosch (Eleanor Parker), esposa de Franckie, que finge estar presa a uma cadeira de rodas após um acidente de carro, e praticamente força o marido a desistir da carreira de músico e voltar para a profissão de crupiê. Molly (Kim Novak) é a única esperança neste mundo habitado pela marginalidade.
O homem do braço de ouro é famoso na história do cinema por três aspectos: os inovadores créditos de Saul Bass, durante a abertura; a música de Elmer Bernstein – indicada ao Oscar; uma das melhores atuações de Frank Sinatra – também indicado ao Oscar.
Elenco: Frank Sinatra (Frankie Machine), Kim Novak (Molly), Eleanor Parker (Zosch Machine), Arnold Stang (Sparrow), Darren McGavin (Louie), Robert Straus (Schwiekfa).