Categoria: Cinema clássico americano

  • Maldição

    Acossado (1959), de Jean-Luc Godard traz uma inscrição inusitada na abertura: “Este filme é dedicado à Monogram Pictures”. O estúdio independente fez parte do chamado “corredor da pobreza” (poverty row), de Hollywood, junto com outras, como Producers Releasing Corporation e Republic Pictures, produtora de Maldição (House by the river, EUA, 1950), de Fritz Lang. 

    As empresas se especializaram na produção dos chamados Filmes B, feitos para completar as sessões duplas das salas de cinema. Eram filmes de baixíssimo orçamento, entre cinco e cinquenta mil dólares; rodados em tempo recorde – no máximo uma semana; feitos com reaproveitamento de cenários e sobras de rolos de filmes; com elencos compostos por atores amadores ou já na fase decadente, como Bela Lugosi. O Brasil se apropriou desta estratégia na famosa Boca do Lixo Paulista, onde foram produzidos filmes do Cinema Marginal e da Pornochanchada. 

    No final dos anos 1940, Fritz Lang “caiu no corredor da pobreza”, assim como outros diretores, atores e atrizes – a grande Hollywood sempre despreza, em algum momento, os gênios que criaram e consolidaram o sistema de estúdios. O que esperar do mestre do expressionismo alemão e dos filmes noir rodando um filme nessas condições precárias de produção?

    Maldição narra a história de um escritor fracassado, Stephen Byrne, que assedia Emily, jovem empregada da casa em que mora, à beira do rio (atenção para uma cena de puro erotismo, pernas femininas descendo a escada da casa, repetida duas vezes). Rejeitado, o escritor mata Emily por meio de um estrangulamento acidental. Seu irmão John chega na casa logo após o assassinato e é convencido por Stephen a ocultarem o crime. Os dois colocam o corpo em um saco de lenha e jogam no rio, amarrado na âncora do barco. 

    Em menos de 85 minutos, Fritz Lang tece uma trama de ambição, suspense e intrincado jogo psicológico motivado pela culpa. Para completar, um triângulo amoroso: o honesto e bondoso John é apaixonado por Marjorie, a bela esposa do irmão. Tudo indica que Marjorie corresponde à paixão, que se intensifica à medida que Stephen usa do alarde midiático em torno do desaparecimento de Emily para ganhar notoriedade e vender seus livros. 

    O rio é um dos protagonistas da trama. Corpos putrefatos de animais mortos, lixo e, por fim, o saco de lenha com o corpo, passam boiando em frente às mansões burguesas. “Eu odeio esse rio.” – diz uma velha senhora, vizinha do escritor. 

    O grande embate do filme acontece entre Stephen e o rio. Stephen se sente assombrado pelas visões do corpo de Emily e passa a escrever uma espécie de livro-confissão sentado em uma mesa perto das águas. A sequência em que o escritor persegue de barco o saco de lenha boiando é um primor do cinema expressionista, noir e drama psicológico. É a resposta de Fritz Lang, exilado no “corredor da pobreza”, aos grandes estúdios de Hollywood. 

    Elenco: Louis Hayward (Stephen Byrne), Lee Bowman (John Byrne), Jane Wyatt (Marjorie Byrne), Dorothy Patrick (Emily Gaunt), Ann Shoemaker (Mrs. Ambrose), Jody Gilbert (Flora Bantam).

  • O mensageiro do diabo

    O mensageiro do diabo (The night of the hunter, EUA, 1955), de Charles Laughton. 

    As crianças John Harper e Pearl Harper estão no quarto à noite, iluminadas apenas pela luz que entra pela janela e deixa suas marcas na parede. Pearl pede ao irmão que conte uma história. John começa a contar a história de um rei enquanto olha para a parede, as sombras da janela e de folhas da árvore demarcando a fotografia expressionista. De repente, a sombra de um homem com chapéu compõe as imagens da janela que jogam suas sombras dentro do quarto. 

    John chega até a janela e vê Harry Powell (Robert Mitchum) parado perto da cerca da rua, embaixo de um poste de luz. Harry caminha lentamente e sai de cena. John se deita ao lado de Pearl e diz: “Não se preocupe, é apenas um homem.”

    Esse homem se passa por reverendo para conquistar jovens mulheres, geralmente viúvas, para ficar com o dinheiro que herdaram. O fim das mulheres remete à clássica história do Barba Azul. Harry cumpriu pena com o pai das crianças e descobriu que, depois de roubar um banco, ele escondeu o dinheiro na propriedade. O plano de Harry agora é conquistar Willa Harper (Shelley Winters) e se apossar do dinheiro. Somente as crianças sabem onde o pai, que morreu na prisão, escondeu o fruto do assalto. 

    O mensageiro do diabo é o único filme dirigido pelo lendário ator Charles Laughton. Um clássico do cinema noir, com fortes referências expressionistas que tomam conta de toda a narrativa, resultado do trabalho primoroso do diretor de fotografia Stanley Cortez. 

    Harry conquista não só a mãe das crianças, mas toda a comunidade, que passa a adorar seu fervor religioso, seu carisma e simpatia. As cenas diurnas, passadas em comunhão entre os moradores à beira do rio, nas ruas da cidade, nos estabelecimentos comerciais, é tomada pela luz natural do dia, representando a harmonia, a amizade e o romance que se inicia. Ao escurecer, o terror expressionista se anuncia nas sombras e na transformação do pastor no verdadeiro demônio. 

    “Mitchum interpreta aqui um vilão comprometido com seu ofício, fazendo hora-extra como serial killer de mulheres liberadas, mas sexualmente obcecado pelo dinheiro, do qual acredita precisar para custear sua cruzada sangrenta. A fuga noturno rio abaixo, com sua fotografia monocromática expressionista, é uma sequência mágica, com closes de uma estranha fauna e flora pantanosa.”

    A segunda parte do filme, quando Harry mata a esposa e as crianças fogem descendo de barco o rio, transforma a película em um thriller, colocando duas ingênuas crianças na mira de um psicopata assassino. A entrada em cena de outra lenda do cinema, Lillian Gish, que interpreta Rachel Cooper, idosa que usa sua casa para abrigar crianças órfãs, provoca o embate entre o bem e o mal, Rachel x Harry, em ações repletas de tensão, com sugestões, inclusive, de pedofilia, ousadia de Charles Laugton para a época. 

    Outra cena ousada, que levantou polêmicas, aconteceu quando Harry está na plateia de um teatro, assistindo a uma performance erótica de uma dançarina. Ele tem no bolso dianteiro da calça a sua faca que dispara como um canivete. Em determinado momento do show, o mecanismo da faca aciona a lâmina. A imagem a seguir é a lâmina da faca que levantou e rasgou a calça de Harry, claramente simulando a ereção.  

    A cena mais impactante do filme é um exercício de terror gótico. Harry mata a mãe das crianças quando ela está deitada na cama, os braços cruzados como a esperar o ato final. Harry, em pé, olha para o teto com o braço disposto como em uma oração divina. Ele se debruça sobre a mulher e levanta novamente o braço, agora com a faca na mão. Corta para folhagens esvoaçando debaixo d ‘água, como se fossem longos cabelos. Em segundo plano, aparece o corpo de Rachel, os cabelos também esvoaçando, o volante do carro à frente. O gancho de uma linha de pesca se prende no retrovisor, a câmera sobe lentamente e mostra o reflexo de um barco na superfície do rio. 

    “Além de um bálsamo aos ouvidos, O mensageiro do Diabo é também um colírio para os olhos, pois apresenta o que talvez seja o melhor uso do preto e branco em alto contraste da história do cinema. Sua fotografia barroca, assinada por Stanley Cortez, que também colaborou com Orson Welles em Soberba (1942) explora no limite da perfeição as sombras e ângulos do expressionismo alemão, de onde o corpo lânguido de Robert Mitchum acaba por mimetizar movimentos afetados, assinalando a tendência ao fantástico em detrimento do realismo que marca toda a projeção. Cortez chegou a afirmar que Welles e Laughton foram os únicos diretores com quem colaborou que sabiam exatamente como utilizar a luz nas filmagens.” Vinicius Lins

    Elenco: Robert Mitchum (Harry Powell), Shelley Winters (Willa Harper). Lillian Gish (Rachel Cooper), James Gleason (Tio Birdie), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper). 

    Referências: 

    100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. 

    O mensageiro do diabo. Livreto do blu-ray da Versátil Home Vídeo.

  • Escândalo

    Escândalo (Scandal sheet, EUA, 1952), de Phil Karlson. 

    Steve McCreary (John Derek) é um jovem e ambicioso jornalista, disposto a transformar o pequeno e decadente jornal em que trabalha em um sucesso de vendas. Seu mentor e espécie de ídolo na profissão é o editor Mark Chapman (Broderick Crawford). Sob a liderança de Mark e a obstinação jornalística de Steve, o jornal começa a publicar notícias sensacionalistas de crimes e assassinatos. 

    O jornal promove um baile na cidade, evento promocional para lucrar com as fotos e histórias dos moradores. Na manhã seguinte, uma das participantes do baile é encontrada assassinada na pensão onde mora. Steve resolve investigar o caso, certo que será notícia de primeira página. Passo a passo, o jornalista descobre e segue as pistas que podem levá-lo ao assassino que está mais perto do que ele imagina. 

    Escândalo é uma forte denúncia sobre a mídia sensacionalista que explora e lucra com tragédias pessoais, produzindo matérias escandalosas e estampando fotos dos envolvidos.  O contraponto ético da trama é Julie Allison (Donna Reed), jornalista idealista que não concorda com os rumos que o jornal está tomando e luta para resgatar as relações humanistas da profissão. Quando Steve descobre o assassino, em uma tensa e empolgante noite na redação do jornal, sua crença profissional desaba. 

    Apesar do pouco destaque no rol dos filmes noir, Escândalo tem uma importante contribuição: o roteiro é baseado em um livro do mestre Samuel Fuller que, antes de escrever e dirigir, foi repórter policial. 

    Elenco: John Derek (Steve McCleary), Donna Reed (Julie Allison), Broderick Crawford (Mark Chapman), Rosemary DeCamp (Charlotte Grant), Henry O’Neill (Charlie Barnes). 

  • Cidade cativa

    Cidade cativa (The captive city, EUA, 1952), de Robert Wise. 

    Um casal está dirigindo em alta velocidade em uma estrada, perseguido por outro carro. Eles conseguem chegar à delegacia de polícia e invadem o ambiente assustados. O jornalista James T. Austin (John Forsythe) diz ao oficial que ele e Marge Austin (Joan Camden), sua esposa, precisam de proteção, pois podem ser assassinados pelos homens que os perseguem. 

    O jornalista precisa chegar ao Capitólio para depor no Comitê do Senado para Investigação de Crimes no Comércio Interestadual. O oficial sugere que eles esperem o xerife chegar. James Austin então pede para usar um gravador da delegacia e, com o microfone em mãos, começa a contar a história que os levou a esse desfecho perigoso. Claro, a referência é Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder. 

    O título Cidade cativa resume o tema do filme: uma pequena cidade do interior está sob o comando de criminosos que agem no comércio de apostas ilegais em todo o estado. Estabelecimentos da cidade servem de fachada para as casas de jogos. James Austin é dono do jornal local e recebe uma denúncia de um casal sobre esse mercado. O jornalista passa a investigar e descobre uma intrincada rede, formada por gangsters dos grandes centros, moradores locais e autoridades. 

    A película é um grande estudo sobre o jornalismo investigativo e a ética profissional. James passa a denunciar nas páginas do jornal a relação entre o crime e importantes moradores da cidade, assumindo o risco que justifica o início do filme: ser assassinado para se calar. O final em aberto, com o casal entrando no capitólio para depor, deixa no ar aquilo que todos sabem: a possibilidade de impunidade é real.  

    Elenco: John Forsythe (Jim Autin), Joan Camden (Marge Austin), Harold J. Kennedy. (Don Carey), Marjorie Crossland (Mrs. Sirak), Victor Sutherland (Murray Sirak), Ray Teal (Xerife Gillette).

  • Extorsão

    Extorsão (Shakedown, EUA, 1950), de Joseph Pevney, alerta para uma questão importante ainda nos dias de hoje: o envolvimento em atividades ilícitas, inclusive com manipulação de informações e imagens, para ascender no universo profissional  das mídias e ganhar muito, muito dinheiro. 

    Jack Early (Howard Duff) é um fotógrafo iniciante cujo sonho é ingressar em um grande jornal. A chance acontece quando, por acaso, ele flagra e tira fotos de um atentado criminoso na rua. A fotografia tem potencial para estampar as primeiras páginas dos tablóides, devido ao seu caráter sensacionalista. Jack não só vende a foto para um jornal, mas consegue uma vaga de estagiário.

    Em seu cotidiano nas ruas, o fotógrafo consegue outras fotos de sucesso, na maioria das vezes, manipulando os personagens envolvidos. Passo a passo, ele se sente mais ousado e passa a usar do seu talento para chantagear importantes pessoas do submundo do crime. Jack tem uma ascensão meteórica e julga ter em suas mãos figuras poderosas. 

    Extorsão é a estreia do diretor Joseph Pevney, que se tornaria famoso, pelo menos para esse trekker, por dirigir alguns episódios da clássica série Jornada nas estrelas (1966 a 1969). A atmosfera noir ronda o ambiente do filme, incluindo a femme fatale: Jacky se apaixona Anne (Nita Palmer), jovem esposa do gangster a quem está chantageando. O filme antecipa clássicos que também se debruçaram sobre esse tema: A montanha dos sete abutres (1951) e Rede de intrigas (1976). 

    O final antecipa também um fato que se tornou corriqueiro nos dias atuais, atingindo digitais influencers e pessoas comuns que arriscam a vida por uma foto e acabam registrando a própria morte. 

    Elenco: Howard Duff (Jack Early), Peggy Dow (Ellen Bennett), Brian Donlevy (Nick Palmer), Lawrence Tierney (Harry Colton), Bruce Bennett (David Glover), Anne Vernon (Nita Palmer).

  • O homem dos olhos esbugalhados

    O homem dos olhos esbugalhados (Stranger on the third floor, EUA, 1940), de Boris Ingster. 

    O sonho de Michael Ward, jovem jornalista, é um primor estético expressionista. Vários homens são mostrados em closes, apenas os rostos iluminados, acusando Michael de ter assassinado um homem. A cena se funde com edições de jornais em ângulos distorcidos, seguida de Michael na prisão, o cenário quadriculado ao fundo, o guarda sentado em uma cadeira alta, diante de um imenso relógio. Fusões sobre fusões se sucedem, com o jornalista sentado em um cenário escuro, luzes entrando pela diagonal e se estendendo por toda a parede e pelo chão.

    A sequência expressionista termina no tribunal, com todos os personagens diante de um cenário lúgubre, gótico, com sombras e símbolos refletindo nas paredes e nos rostos do júri. Após o veredito, Michael é encaminhado para a cadeira elétrica. 

    O homem dos olhos esbugalhados é considerado o filme que anuncia o cinema noir nos Estados Unidos. O diretor Boris Ingster e o diretor de fotografia Nicholas Musuraca foram fortemente influenciados pelo expressionismo alemão, inaugurado no cinema americano com o clássico Aurora (1929), de Murnau. 

    O jornalista Michael Murnau é testemunha num caso de assassinato do dono de um bar e seu depoimento incrimina Joe Briggs. Briggs jura inocência, alegando ter entrado no bar logo após o assassinato. Durante o julgamento, Michael encontra seu vizinho de apartamento morto e vê um estranho descer correndo as escadas. Tudo se complica, pois ele pode ajudar a levar à morte um homem inocente. 

    A narrativa curta, pouco mais de sessenta minutos de duração, tem como marca o estilo visual sombrio, demarcando as questões psicológicas que rondam os principais personagens. Quando o estranho entra em cena – Peter Lorre em mais uma interpretação de um criminoso assolado por problemas psíquicos (como em M. o vampiro de Dusseldorf -1931) a trama ganha a tradicional reviravolta dos filmes noir. 

    O destaque do filme é a sequência do pesadelo que alerta para os intrincados jogos psicológicos e o quase macabro sistema judiciário que pode levar inocentes à morte num piscar de olhos. 

    Elenco: Peter Lorre (O estranho), John McGuire (Michael Ward), Margaret Tallichet (Jane), Elisha Cook Jr. (Joe Briggs).

  • Sob o manto da intriga

    Sob o manto da intriga (The underworld story, EUA, 1950), de Cy Endfield, trata da mesma temático do clássico A montanha dos sete abutres (1951), de Billy Wilder: a exploração dos tablóides na cobertura de tragédias pessoais, expondo de forma desumana e, até mesmo ilegal, as pessoas envolvidas no caso. 

    Mike Reese (Dan Duryea) trabalha como repórter policial, uma reportagem que publicou é tida como responsável pelo atentado a tiros na porta do tribunal. O tiroteio vitimou um criminoso e feriu o promotor público. Mike perde o emprego e a credibilidade nos grandes jornais. Sem um tostão, Mike pede dinheiro emprestado a um agiota e compra sociedade de um pequeno jornal no interior, cuja proprietária, Catty Harris (Gale Storm) mantém o idealismo da prática do jornalismo ético. 

    O diretor Cy Endfield implanta na narrativa vários elementos do cinema noir e aborda de forma severa a tensão política que assolava os Estados Unidos, incentivada e explorada pela mídia sensacionalista. Endfield seria vítima desses mecanismos: investigado pelo macarthismo, o diretor entrou na Lista Negra de Hollywood, devido ao seu suposto envolvimento com atividades comunistas. 

    O jornalista Mike Reese tem a chance de retomar sua carreira de forma gloriosa quando a jovem esposa de Ralph Munsey, (Michael O’Shea), filho do magnata das comunicações E. J. Stanton (Herbert Marshall), é assassinada. A principal suspeita é Molly, empregada da vítima, de ascendência negra. No entanto, o autor do crime não é segredo para o espectador: em um momento de raiva e ciúmes, Ralph assassinou a esposa e confessou o crime para o pai. 

    A descoberta do criminoso não apresenta grandes reviravoltas, passo a passo o próprio Ralph cuida de se delatar. O que move a trama são as questões sociais e raciais na comunidade. Os endinheirados homens da cidade participam de uma trama para condenar Molly, acobertando a família do poderoso Stanton (que é corroído pelo remorso de proteger o verdadeiro criminoso, seu filho). 

    Os filmes noir eram praticamente obrigados a punir os criminosos no final, seguindo determinações do famigerado Código Hays. Portanto, não é surpresa a redenção de Eddie e o trágico fim de Ralph. Diferente do mundo real quando se trata dos poderosos homens da mídia.

  • O relógio verde

    O início de O relógio verde (The big clock, EUA, 1948), de John Farrow, define bem a estrutura narrativa comum dos filmes noir. É noite. O jornalista George Stroud (Ray Milland) está no saguão do prédio onde trabalha e se esconde do vigia. A escuridão toma conta do ambiente, com pequenos flashes iluminando o personagem. Voz interior de George: “Essa foi por pouco. E se eu entrar no relógio e o vigilante estiver lá? Pense rápido, George. Que sorte. Ele está de folga.” O jornalista sobe as escadas e entra no enorme relógio que decora o salão do prédio. “Mais guardas. O saguão está sendo vigiado e há ordens de atirar para matar. Matar você, George. Você. Como me meti nessa corrida de ratos? Eu não sou bandido. O que aconteceu? Quando começou? Apenas 36 horas atrás eu estava lá embaixo, atravessando o saguão para ir trabalhar, cuidando de minha vida, ansioso pelas primeiras férias que eu teria em anos. Há 36 horas eu era um cidadão decente, respeitável e que respeitava a lei, com uma esposa, um filho e um bom emprego. Há apenas 36 horas, de acordo com o grande relógio.”

    Corta para flashback que narra os acontecimentos a partir de exatos 36 horas antes. A voz interior que remete ao que aconteceu até aquele momento é marca do cinema noir. Basta citar o clássicos dos clássicos do gênero: Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder. 

    George Stroud é reconhecido por sua perícia no jornalismo investigativo – ele descobre o paradeiro de suspeitos de crimes antes da própria polícia. George se envolve em uma intrincada teia quando conhece no bar a sedutora Pauline York (Rita Jonson ) – a femme fatalle

    Pauline é amante de Earl Janoth (Charles Laughton), dono do império de comunicações onde George trabalha. Sem crime não há filme noir. Pauline é assassinada em seu apartamento por Janoth, atingida na cabeça por um relógio verde de porcelana. Para tentar encobrir o crime, o magnata conta com seu funcionário de confiança Steve Hagen (George Macready). 

    No entanto, uma série de pequenos incidentes pode incriminar Janoth. A solução é obrigar o jornalista George Stroud a descobrir o criminoso antes da polícia. O problema é que o principal suspeito é o próprio jornalista: foi ele quem comprou o relógio verde e o esqueceu no apartamento de Pauline, onde esteve minutos antes do assassinato.  

    O jogo de gato e rato apresenta algumas reviravoltas, a principal: todos ficam detidos no prédio à noite, pois uma testemunha vê o provável criminoso – George  entrando no prédio. O grande embate acontece entre George e Janoth, dois atores consagrados que, dizem, não se deram bem durante as filmagens. Relatos indicam que Ray Milligan, notório galã e ultra conservador, não aceitava a homossexualidade de Charles Laughton. 

    O grande destaque do filme é o roteiro, com reviravoltas precisas e personagens coadjuvantes que são decisivos no decorrer da trama. Atenção para a participação de Elsa Lanchester como a pintora Louise Patterson: ela insere humor em suas interações, principalmente ao interpretar os diálogos, verdadeiras tiradas, outra marca dos filmes noir

  • A trágica farsa

    O lendário ator Humphrey Bogart faleceu em 14 de janeiro de 1957, vítima de câncer no esôfago. Meses antes, ele estava filmando A trágica farsa (The harder they fall, EUA, 1956), de Mark Robson. Relatos indicam que Bogart, já bastante debilitado, tinha dificuldades em cumprir a jornada de trabalho nos sets, mas persistiu até a última tomada. 

    Ele interpreta Eddie Willis, um famoso jornalista esportivo que se vê desempregado. Precisando de dinheiro, Eddie aceita a proposta de um promotor de lutas de boxe, que precisa descobrir e criar um novo talento no esporte. A tarefa de Eddie é atuar como relações públicas e promover o lutador. 

    O gigante argentino Toro Moreno (Mike Lane), com músculos assustadores mas uma ingenuidade infantil, é o escolhido. A promoção do lutador rapidamente se torna um trabalho quase impossível: Toro não tem talento algum, é derrubado pelo mais franzino dos atletas. 

    O filme é baseado no romance de Budd Schulberg, que escreveu também Sindicato de ladrões. O escritor se baseou na história real de Primo Carrera para denunciar a criminalidade que movia os eventos de boxe: assim como Carrera, o empresário compra os adversários de Toro Moreno que vão caindo um a um em rounds determinados. 

    Eddie Willis participa da farsa, mas se consume pelo remorso, por uma certa humanidade ao entender o destino de Toro Moreno, cujo único sonho é ganhar dinheiro para comprar uma casa para sua mãe. O final revela o que todos sempre souberam: vida e dignidade dos lutadores são destruídas no submundo das lutas manipuladas, enquanto os promotores enriquecem sem o menor escrúpulo. Atenção para a sequência quando Eddie Willis cobra o dinheiro ganho por Toro, que deseja voltar para casa.

  • O homem do braço de ouro

    O homem do braço de ouro (The man with golden arm, EUA, 1955), de Otto Preminger. 

    Frankie Machine (Frank Sinatra) sai da prisão e retorna ao bairro onde ganhava a vida como crupiê e se viciou no consumo de heroína. Durante a reabilitação, ele aprendeu a tocar bateria e pretende se tornar músico profissional, mas o traficante e seus antigos comparsas no jogo o espreitam minuto a minuto, provocando a inevitável volta ao submundo das drogas e das jogatinas. 

    O diretor Otto Preminger enfrentou o Código Hays na abordagem de um tema “proibido” pelos censores: o vício em drogas. As cenas explícitas de Frank injetando heroína na veia e a sequência em que está preso em um pequeno quarto, sofrendo com a crise de abstinência, apresentam a cruel realidade desta doença.

    O filme, totalmente rodado em estúdio, traz as características do cinema noir, incluindo uma inusitada femme fatale: Zosch (Eleanor Parker), esposa de Franckie, que finge estar presa a uma cadeira de rodas após um acidente de carro, e praticamente força o marido a desistir da carreira de músico e voltar para a profissão de crupiê. Molly (Kim Novak) é a única esperança neste mundo habitado pela marginalidade. 

    O homem do braço de ouro é famoso na história do cinema por três aspectos: os inovadores créditos de Saul Bass, durante a abertura; a música de Elmer Bernstein – indicada ao Oscar; uma das melhores atuações de Frank Sinatra – também indicado ao Oscar. 

    Elenco: Frank Sinatra (Frankie Machine), Kim Novak (Molly), Eleanor Parker (Zosch Machine), Arnold Stang (Sparrow), Darren McGavin (Louie), Robert Straus (Schwiekfa).