Não matarás (Broken Lullaby, EUA, 1932), é um filme atípico de Ernst Lubitsch, famoso por suas comédias. O melodrama, com forte teor humanista, acompanha a jornada de Paul Renard, músico que lutou na primeira guerra mundial. Em uma trincheira, Paul mata um soldado alemão, Walger Holderlin, e lê a carta da vítima que seria enviada para sua noiva, Elsa.
Atormentado pelo assassinato, Paul parte para a Alemanha disposto a pedir perdão aos pais de Walger. É 1919 e os resquícios da guerra ainda pairam assustadoramente no ar, o ódio mútuo entre alemães e franceses impede relacionamentos. Isto fica claro logo no primeiro encontro entre Paul e o Dr. Holderlin, pai de Walger.
O filme, feito em 1932, é um forte manifesto de Lubitsch contra a ascensão do fascismo na Europa e os indícios de um novo conflito. Atenção para o desabafo humanista do Dr. Holderlin, em atuação magistral de Lionel Barrymore, em um bar repleto de “homens velhos” que destilam ódio, motivado pelas perdas de filhos na guerra: “Éramos velhos demais para lutar, mas não velhos demais para odiar e mandar nossos filhos para a guerra”
Elenco: Lionel Barrymore (Dr. H. Holderlin), Nancy Carroll (Elsa), Phillips Holmes (Paul Renard), Louise Carter (Madame Holderlin), Tom Douglas (Walger Holderlin).
O diabo disse não (Heaven can wait, EUA, 1943), de Ernst Lubitsch.
O rico e aristocrático Henry Van Cleve (Don Ameche) morre aos 70 anos. Em seu caminho para a eternidade ele é recebido por Sua Excelência O Diabo, Henry tem certeza que deve pagar por seus pecados de forma cruel.
O diabo disse não é uma deliciosa comédia de Ernst Lubitsch, o mestre do gênero no cinema clássico hollywoodiano. Lubitsch conseguia tratar com leveza e bom humor as situações mais dramáticas, como nesta história marcada por abandono dos pais, adultério, frustrações nos relacionamentos amorosos e morte.
O próprio Henry conta sua história ao diabo, tentando mostrar que não merece ir para o reino dos céus. Foi um jovem relapso na escola, só se interessando pelas meninas, passou a juventude em noitadas, aproveitando o dinheiro dos país sem se preocupar com trabalho. A vida de Henry muda quando conhece Martha (Gene Tierney), noiva de seu primo. Os dois se apaixonam e, nessa mesma noite, durante a festa de noivado, fogem, provocando um escândalo na família.
Durante cerca de 30 anos, o relacionamento do casal é marcado pelas idas e vindas, frustrações e incertezas diante do relacionamento que se esperava para a vida inteira. A abordagem revela muito da ideologia de Hollywood, cujos filmes, amparados pelo Código Hays, aceitavam e perdoavam atitudes machistas e dominadoras dos homens, enquanto às mulheres cabia perdoar e voltar para os braços dos maridos. Atenção para a cena no início do filme quando o diabo abre o alçapão, jogando uma senhora no inferno porque ela não tem mais pernas bonitas.
O pecado de Cluny Brown (Cluny Brown, EUA, 1946) é o último filme dirigido por Ernst Lubitsch. O diretor marcou o cinema clássico americano com suas comédias e se consagrou por uma marca conhecida por “toque Lubitsch” que influenciou outros grandes nomes do cinema, principalmente Billy Wilder.
Cluny Brown (Jennifer Jones) é uma jovem de classe baixa, irreverente, ingênua e atrevida que, após protagonizar uma hilária intervenção em uma aristocrática festa londrina, é enviada por seu tio para trabalhar em uma suntuosa casa de campo no interior da Inglaterra. Como empregada, ela reencontra o refugiado escritor theco Adam Belinski (Charles Boyer) – a narrativa se passa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Os dois passam por um relacionamento marcado pela irreverência de ambos e por situações de confronto com a conservadora e preconceituosa sociedade inglesa.
Um dos grandes momentos do filme é quando Cluny Brown é apresentado ao casal Carmel, donos da residência. Confundida com uma ilustre visitante, Cluny é tratada com regalias durante o chá até que se anuncia como a nova empregada. A reação do casal, evidenciada pela sutileza visual do “toque Lubitsch”, demarca o grande tema dessa comédia recheada de críticas sociais.
Caminhando com o amor e a morte (A walk with love and death, EUA, 1969), de John Huston.
Anjelica Huston debutou no cinema sob a direção de seu pai. A narrativa de Caminhando com o amor… se passa na França, século XIV, durante a revolta dos camponeses. O caminho de Claudia (Anjelica Huston), uma adolescente cuja família é da nobreza francesa, se cruza com o do andarilho Heron (Assaf Dayan), um estudante do interior que sonha em conhecer o mar. A revolta entre camponeses e nobres explode, a família de Claudia é assassinada e os dois jovens, apaixonados, empreendem uma fuga por regiões marcadas pela violência.
O lirismo dos apaixonados dá o tom da narrativa: eles cruzam bosques, se abrigam em um mosteiro, em um castelo prestes a ser invadido e, em todos os lugares, se entregam ao amor carnal. O melodramático final se anuncia em cada encruzilhada, em cada decisão de Claudia e Heron.
Elenco: Com Anjelica Huston (Claudia), Heron of Fois (Assaf Dayan) Anthony Higgins (Robert of Loris), John Hallam (Sir Merles), John Huston (Robert the Elder).
O diabo riu por último (Beat the devil, EUA, 1953), de John Huston. Com Humphrey Bogart (Billy Dannreuther), Jennifer Jones (Gwendolen Chelm), Gina Lollobrigida (Maria Dannreuther), Robert Monley (Peterson), Peter Lorre (Julius O’Hara), Edward Underdown (Harry Chelm), Ivor Barnard (Major Jack Ross).
A incursão do eclético John Huston pela comédia resultou em um filme irônico e ousado. O cenário é uma cidade paradisíaca da Itália à beira-mar. Um grupo de turistas espera o navio zarpar, cujo capitão está doente, entre eles os casais formados por Billy e Maria Dannreuther e Harry e Gwendolen Chelm. Quatro trapaceiros têm negócios obscuros a tratar com Billy e também se encontram na cidade. Tudo se complica quando um assassinato, praticado em outra cidade, envolve os protagonistas da narrativa.
Esqueça o tom simplista da narrativa policial. O mérito do filme é o tom ousado da comédia, incluindo uma divertida e consentida troca de casais. A sequência do acidente de carro na estrada à beira-mar é deliciosa, assim como os imprevistos que esse acidente provoca. Bogar e Gina Lollobrigida dominam o elenco, ele, com a ironia e o sarcasmo estampados em cada cena; ela com uma pretensa ingenuidade que eleva o tom de erotismo da narrativa. O major fascista Jack Ross está hilário em suas explosões de violência.
Elenco: Humphrey Bogart (Billy Dannreuther), Jennifer Jones (Gwendolen Chelm), Gina Lollobrigida (Maria Dannreuther), Robert Monley (Peterson), Peter Lorre (Julius O’Hara), Edward Underdown (Harry Chelm), Ivor Barnard (Major Jack Ross).
A noite de 23 de maio (Mystery street, EUA, 1950), de John Sturges.
O detetive Peter Morales (Ricardo Montalbán) está encarregado de investigar o assassinato de uma jovem, Vivian Heldon (Jan Sterling). A princípio, a vida da vítima, assim como a forma que morreu são desconhecidas. O detetive, então, recorre ao Departamento de Medicina da Universidade de Boston. O Dr. McAdoo passa a ajudá-lo examinando o cadáver e promovendo reconstituições a partir de suas descobertas.
O filme é praticamente o precursor dos famosos seriados de TV, como CSI e Law & Order, que utilizam a ciência forense nas tramas policiais. A investigação do detetive e do médico orientam o caso na direção de um suspeito incomum: um pacato pai de família, casado, com dois filhos, que estava sendo chantageado pela vítima. As viradas de roteiro elevam o tom do thriller, principalmente após a entrada em cena da Senhora Smerrrling (Elsa Lancaster), dona da pensão onde Vivan morou.
Justiça injusta (The sound of fury/Try and get me, EUA, 1950), de Cy Endfield.
Howard Tyler (Frank Lovejoy), um homem de meia idade, está desempregado e sofre com esta condição, principalmente ao chegar em casa e ser “cobrado” pela mulher, pois precisam de dinheiro para o sustento do filho. Uma noite, ele conhece Gil Stanton (Richard Carson), misterioso personagem que o ajuda e, logo depois, faz uma proposta: os dois podem se ajudar, fazendo pequenos assaltos em lojas e casas.
A virada da trama provoca uma transformação surpreendente do protagonista. Os dois comparsas sequestram um jovem rico com a intenção de pedir resgate ao pai, mas Gil Stanton assassina de forma brutal o herdeiro. Começa então uma caçada policial que termina com a prisão dos dois.
O filme é baseado em um evento real, retratado também em Fúria (1936), de Fritz Lang. O clímax da narrativa, julgamento e condenação à morte dos assassinos, é assustador sob dois aspectos: o terror da morte estampado em Gil Stanton e o arrependimento de Howard, pacato cidadão de família que se vê enredado em um círculo criminoso, que aceita a condenação como forma de punição e sacrifício necessários para a redenção.
A taverna do caminho (Road house, EUA, 1948), de Jean Negulesco. Com Ida Lupino (Lily Stevens), Richard Widmark (Jefferson T.), Cornel Wilde (Pete Morgan), Celeste Holm (Susie Smith).
Jefferson T. é o proprietário de uma casa de shows em uma pequena cidade americana. Ele contrata Susie, cantora por quem está apaixonado e com quem pretende se casar. Pete Morgan, o gerente do local e amigo de infância de Jefferson, tenta tirar a cantora da cidade, mas os dois se apaixonam e a trama caminha para um trágico triângulo amoroso.
Ida Lupino é o grande destaque do filme, suas interpretações musicais são encantadoras, revelando um novo talento para a star system e uma das únicas mulheres diretoras do machista sistema de estúdios. O final do filme, quando os quatro personagens principais são levados pelo ciumento Jefferson para uma casa no bosque, é um thriller de tirar o fôlego, com atuação surpreendente de Robert Widmark.
Warren Quimby é um pacato funcionário de farmácia. Admirado pelos seus colegas de trabalho, trata com gentileza todos os clientes e, após o final do expediente, ruma tranquilamente para sua casa, onde espera encontrar Claire (Audrey Totter), sua esposa. Desde o início o espectador sabe que é um casamento praticamente de fachada por parte de Claire que trata o marido com indiferença e agressividade, enquanto se diverte à noite com outros homens.
O casamento termina quando Claire resolve assumir seu amante. Acontece então uma radical mudança de personagem: Warren se disfarça fisicamente e planeja assassinar seu oponente.
A femme fatale vivida por Audrey Totter é o grande destaque da trama. Após o assassinato, ele tenta virar o jogo e voltar para o marido, mas agora é ela quem enfrenta uma oponente: Mary (Cyd Charisse), jovem que se apaixona por Warren e é correspondida. No entanto, a polícia agora está no encalço do farmacêutico, sob acusação de um assassinato que ele planejou mas não cometeu. Ótimo noir de John Berry, responsável por um clássico do gênero: Por amor também se mata (1951).
Almas perversas (Scarlet street, EUA, 1945), de Fritz Lang.
Christopher Cross (Edward G. Robinson) é um homem passivo, dominado pela forte personalidade de sua esposa, uma viúva que ainda mantém, quase como uma ameaça, o retrato de seu primeiro marido na sala de estar. É um casamento de conveniência, cabendo a Chris abaixar a cabeça e seguir em frente com suas frustrações. Tudo muda quando ele conhece Kitty (Joan Bennet), uma prostituta, a tradicional e irresistível femme fatalle dos fimes noir.
Almas perversas é um remake de A cadela (1931), de Jean Renoir. A temática dos dois filmes é a mesma: a opressão que o sistema capitalista, burguês, impõe a seus servos, que caminham resignados enquanto sonham com uma vida diferente, talvez pela arte, talvez vivendo uma paixão. Chris é pintor em suas horas livres, mas não faz nada para seguir nessa carreira, deixa até mesmo roubarem a autoria de seus quadros. Tem admiração por seu chefe, que tem uma amante muito mais nova. Kitty entra em sua vida e a transformação do protagonista é impactante: ele pratica um assassinato e não se importa em ver um inocente pagar pelo seu crime.
“A mudança no local em que se passam os dois filmes serve como parâmetro para a mudança de gênero deles. Em Paris, desejo é poesia; em Nova Iorque, é dinheiro. Chris Cross desliga-se da esposa, é demitido do trabalho, assassina uma mulher, incrimina um homem, transforma-se em um mendigo, mas, ao contrário de Simon, não alcança liberdade alguma. Lang vai, assim, além de Renoir. Os atos do protagonista agora não são contrários ao mundo onde vive, mas impulsionados por ele, pois esse mundo é regido pelo desejo, e desejo, repito, é capital. Desde o início, esta relação fica clara. Na primeira vez em que aparecem juntos, um longo plano mostra Chris, sentado, de costas, enquanto seu chefe, em pé, de frente para a tela, discursa. Pouco depois, Chris comenta que gostaria de ter alguma amante jovem e bonita apaixonada por ele, como tem seu chefe, e como nunca, em sua vida, teve. Quando se apaixona por Kitty, o desejo que sente é apenas fruto daquilo que gostaria de ser: seu chefe, portanto. Mas Lang não deixa dúvidas; a paixão custa caro, em qualquer sentido, e não é qualquer um que tem o direito de desejar. Se para o patrão a questão moral não se coloca (e seria um tanto hipócrita pensar que Chris tem mau destino porque “peca”, quando o chefe também o faz, e mais naturalmente) é porque ele tem dinheiro e poder para comprá-la, como afirma a cena em que assegura a liberdade de seu funcionário subornando os guardas com uma caixa de charutos cubanos.” – Leonardo Levis – Contracampo