Categoria: Filme

  • A Marquesa D’O

    É uma das raras incursões de Éric Rohmer, o cronista da vida cotidiana francesa, pelos filmes de época. A narrativa se passa em 1799. A Marquesa D’O, jovem viúva, cai nas mãos de soldados russos durante um conflito na Lombardia. Quando está prestes a ser estuprada, a marquesa é salva por um oficial russo, o Conde F. Após o fim do conflito, o Conde pede a Marquesa em casamento, mas tem sua vontade negada. 

    O filme é um profundo estudo sobre a natureza dos relacionamentos amorosos, ditados por desejos obscuros e validação moral da sociedade puritana. Quando descobre que está grávida, a Marquesa, mesmo jurando inocência, pois concebeu possivelmente vítima de abuso quando desacordada, é expulsa de casa e das relações sociais. 

    A fotografia de Nestor Almendros, filmada com luz natural, é um dos grandes destaques da narrativa, passada quase inteiramente no interior da mansão da família, com algumas incursões pelos campos. Éric Rohmer adaptou fielmente o conto do alemão Heinrich Von Kleist, mas imprimiu seu toque peculiar de retratar personagens marcados pelos acasos. 

    A marquesa D’O (Die Marquise Von O…, França, 1976), de Éric Rohmer. Edith Clever (Marquesa), Bruno Ganz (Conde), Edda Seippel (Coronela), Peter Luhr (Coronel). 

  • A carreira de Suzane

    O segundo filme da série Contos Morais, de Éric Rohmer, é um média-metragem, de cerca de 55 minutos de duração. A narrativa acompanha três jovens parisienses: Bertrand, o narrador da história, seu amigo Guillaume e Suzanne. Os três se conhecem em um café, Guillaume e Suzanne se tornam namorados, vivendo uma relação de conflitos, enquanto Bertrand assiste à relação com um misto de admiração e inveja. 

    Rohmer filmou A carreira de Suzane com uma câmera 16mm e elenco de atores amadores. As lentes acompanham as andanças dos três jovens e, eventualmente, outros amigos, pelos pequenos apartamentos, e pelas ruas de Paris. O olhar de Rohmer se volta sem escrúpulos para a vida boêmia da juventude, em relações movidas por entregas e abusos, um retrato desta conturbada década em questões sociais e culturais.

    A carreira de Suzane (La carrière de Suzanne, França, 1963), de Éric Rohmer. Com Catherine Sée (Suzane), Philippe Beuzen (Bertrand), Christian Charrière (Guillaume), Diane Wilkinson (Sophie). 

  • Conto da primavera

    É o primeiro filme da série Contos das Quatro Estações de Eric Rohmer. Nada mais delicado do que começar com a primavera. Jeanne, uma professora de filosofia, conhece Natacha, estudante de música, em uma festa. As duas se sentem deslocadas ali e vão para o apartamento de Natacha, Jeanne vive temporariamente sem pouso, pois seu apartamento está emprestado para uma prima. As duas passam alguns dias juntas, quando o pai da jovem música chega, um possível relacionamento amoroso com Jeanne se insinua. 

    A metáfora da primavera é visível nas situações que se colocam: florescimento da amizade, do romance, tudo de forma sutil e, às vezes, temporária. As cenas na casa de campo ao ar bucólico da estação embalam os personagens em seus diálogos, flertes, beijos… O olhar de Éric Rohmer é sempre delicado e apaixonado por seus jovens personagens. 

    Conto da primavera (Conte de printemps, França, 1990), de Éric Rohmer. Com Anne Teyssèdre (Jeanne), Hugues Quester (Igor), Florence Darel (Natacha), Eloise Bennett (Ève). 

  • As 4 aventuras de Reinette e Mirabelle

    Mirabelle está passeando no campo e conhece Reinette, moradora da região. As duas passam uma noite na casa de Mirabelle e resolvem alugar um apartamento juntas em Paris. As quatro aventuras do título são narradas em episódios. No primeiro, Reinette tenta mostrar a Mirabelle a encantadora hora azul, quando por alguns segundos na madrugada o silêncio toma conta da paisagem campestre. Os três outros episódios acontecem em Paris. 

    Reinette tem um confronto com um garçom de um mau humor hilário. As jovens amigas, em andanças por Paris, se deparam com um mendigo, uma pedinte de dinheiro na estação de metrô, e uma cleptomaníaca que rouba alimentos de um supermercado. Por fim, a história mais engraçada e cativante: Reinette, com a ajuda de Mirabelle, tenta vender um de seus quadros a um marchand, dono de uma pequena galeria de arte. 

    O humor dita o tom das narrativas nas quatro aventuras. Mirabelle e Reinette se cruzam com uma galeria de personagens bem ao estilo Rohmer, motivando reflexões e diálogos sobre esse fascinante cotidiano dos jovens. 

    As 4 aventuras de Reinette e Mirabelle (4 aventures de Reinette et Mirabelle, França, 1987), de Éric Rohmer. Com Joelle Miguel (Reinette), Jessica Forde (Mirabelle), Fabrice Luchini (Marchand).

  • Os Panteras Negras

    O curta-metragem de Agnès Varda foi filmado durante o verão de 1968, quando os Panteras Negras se reuniram em manifestações em Oakland, Califórnia. O motivo das manifestações foi chamar a atenção para o julgamento de Huey Newton, um dos fundadores da organização. Huey Newton respondia pela acusação de homicídio de um policial branco durante uma batida policial em um bairro negro de Oakland.

    Agnès Varda não se isenta de tomar partido, focando nas manifestações de rua e nos discursos dos líderes dos Panteras Negras. É um documentário sóbrio, tradicional, mas provocativo. A câmera a serviço do real, a edição pontuada por imagens e frases precisas, transformaram o filme em um dos mais importantes registros históricos deste revoltante contexto racista da década de 60 nos EUA. 

    Os panteras negras (Black panthers, França, 1968), de Agnès Varda.

  • Amor bandido

    No início do filme, o detetive Galvão está em uma boate de streaptease observando duas jovens dançarinas em uma apresentação lésbica. Chega em casa, pega o telefone e liga para um número de ajuda aos ouvintes. Seu desabafo revela como expulsou de casa sua filha adolescente após descobrir seus casos sexuais.

    O diretor Bruno Barreto constrói esse drama social com um olhar na pornochanchada. Sandra, a filha do detetive, é a dançarina da abertura. Se prostitui com os clientes da boate e desenvolve uma relação amorosa com Toninho, jovem que ganha a vida saindo com travestis. Narrativa paralela coloca Galvão e a polícia no encalço de um assassino de taxistas. 

    Amor bandido foi realizado logo após o estrondoso sucesso (uma das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro) de Dona Flor e seus dois maridos, também de Bruno Barreto. A narrativa mescla o erotismo aberto da pornochanchada com thriller policial, cinema noir  e drama social – o cenário é o submundo das noites cariocas, recheado de personagens que vivem à margem da sociedade tradicional. Sandra e Toninho representam esses jovens que entendem que é preciso viver como se não houvesse amanhã. 

    Amor bandido (Brasil, 1979), de Bruno Barreto. Com Cristina Aché (Sandra), Paulo Gracindo (Galvão), Paulo Guarnieri (Toninho).

  • A padeira do bairro

    Este curta-metragem abre a série Contos Morais de Éric Rohmer. Um jovem estudante de direito se sente fascinado por Sylvie, uma mulher que cruza com ele em dias seguidos nas ruas do bairro. Quando Sylvie desaparece, ele passa a frequentar uma padaria, desenvolvendo uma atração pela atendente do estabelecimento. 

    Érick Rohmer apresenta neste curta as características que vão demarcar seus filmes seguintes, separados por séries temáticas: jovens se encontram nas ruas das cidades, nos bares e cafés, no campo, nas belas praias francesas e desenvolvem relações que oscilam entre a amizade e o romance. Debates, reflexões em primeira pessoa, diálogos, enquanto se movem incessantemente, os personagens de Rohmer conversam, divagam, seguem movidos por questionamentos e relações ao acaso. 

    A padeira do bairro (La boulangère de Monceau, França, 1963), de Éric Rohmer. Barbet Schroeder, Claudine Soubrier (Jacqueline), Michèle Girardon (Sylvie). 

  • Um casamento perfeito

    O provérbio que abre a narrativa é “Qual o espírito que não divaga? Quem não constrói castelos na Espanha?” Quem divaga sobre castelos na Espanha é Sabine, estudante de arte, que, logo no início, tem uma desilusão amorosa com seu amante, um pintor casado. Ela decide então se casar, mesmo sem um pretendente. Quando o advogado Edmond, charmoso e livre, entra em cena, Sabine tem certeza de ter encontrado seu noivo. 

    O centro da trama é Sabine, personagem que age motivada por seus desejos, mesmo sabendo da impossibilidade de realizá-los plenamente. A comédia dita o tom da narrativa, Sabine oscila entre atitudes ingênuas e impulsivas para conquistar Edmond e entre momentos de tristeza e depressão. É mais uma personagem da galeria de rostos fascinantes de Éric Rohmer, que vivem de encontros fortuitos na vida cotidiana das cidades, se deixando levar de forma despretensiosa, natural, pelos acasos. Em Um casamento perfeito esse acaso se manifesta de forma apaixonante na estrutura circular da narrativa: o início e o final com Sabine dentro de um trem. 

    Um casamento perfeito (Le beau mariage, França, 1982), de Éric Rohmer. Com Béatrice Romand (Sabine), André Dussollier (Edmond), Arielle Dombasle (Clarisse), Sophie Renoir (Lise), Féodor Atkine (Simon). 

  • White building

    No início da narrativa, três jovens amigos percorrem a noite de Phnom Penh, apresentando seu número de dança em bares. É a forma de ganhar dinheiro, mantendo o sonho de vencer um concurso de dança. No entanto, um dos amigos abandona o grupo para morar em Paris. 

    Esse início, espécie de road movie suave e silencioso de moto pelas ruas da cidade, simboliza o sonho desses jovens, que será desfeito diante da dura realidade. Nag mora no Edifício Branco, cujos moradores são, em sua maioria, artistas desempregados (como o pai de Nang). Um novo empreendimento será erguido no lugar e os moradores devem aceitar a irrisória oferta de indenização. 

    White building foi co-produzido pelo icônico diretor chinês Jia Zhangke e segue os preceitos deste novo cinema asiático. A câmera acompanha os personagens pelas ruas e pelos claustrofóbicos interiores das moradias paupérrimas.As imagens dão o tom da narrativa, acompanhadas por um silêncio perturbador, como se a única alternativa que resta aos personagens fosse contemplar a gradativa destruição de seu modo de vida. 

    White building (Bodeng sar, Camboja, 2021), de Kavich Neang. Com Piseth Chhun (Nang), Hout Sithorn (Líder), Chinnaro Soem (Ah Kha), Sovann Tho (Tol). 

  • O joelho de Claire

    É, talvez, o filme mais polêmico da antológica série Seis Contos Morais, de Éric Rohmer. Jerôme e Aurora, dois amigos de meia-idade, perto dos 40 anos, se reencontram às margens do belo Lago de Annecy. A adolescente Laura se apaixona por Jerôme e Aurora tenta convencer o amigo a se entregar à experiência (ela é escritora e assim teria inspiração para uma história). No entanto, Jerôme começa um jogo de sedução em torno da também adolescente Claire, após ficar completamente fascinado pela visão de seu joelho.  

    Os debates a respeito de sedução e infidelidade entre Jerôme e Aurora ditam os rumos da narrativa. “Por que me prenderia a uma mulher se outras ainda me enteressassem?”. Diz Jérôme, revelando seu estilo de vida, mesmo estando prestes a se casar com a filha de um embaixador. No entanto, é a sedutora presença de Claire quem domina a película. O fetiche de Jérôme em torno de seus joelhos é simbólico, apresenta um desejo arrebatador e proibido.

    O joelho de Claire (Le genou de Claire, França, 1970), de Éric Rohmer. Com Jan Claude Brialy (Jérôme), Aurora Cornu (Aurora), Béatrice Romand (Laura), Laurence de Monaghan (Claire). Michèle Montel (Madame Walter).