Categoria: Nouvelle vague

  • Charlotte e seu bife

    Este curta experimental foi filmado em 1951 como um filme mudo. Quase dez anos depois, Éric Rohmer resgatou a película e sonorizou a narrativa, com dublagens de Stéphane Audran e Anna Karina, uma das musas da nouvelle-vague. Mas o grande destaque é a participação de Jean-Luc Godard, com 21 anos, interpretando Walter.

    Charlotte está esperando o horário do trem e, antes do embarque, vai até seu apartamento para preparar uma refeição rápida. Walter a acompanha e, enquanto Charlotte prepara um bife, fica o tempo todo encostado na parede. Os diálogos são curtos, os gestos se dividem entre a espera pelo bife (cujo tamanho impede de ser dividido entre os dois) e sugestões amorosas.  

    O curta é mais um exemplo de como jovens realizadores, no caso os ainda críticos da Cahiers Du Cinema, se envolvem em projetos colaborativos, trabalhando com ideias simples e fascinantes. 

    Charlotte e seu bife (Presentation ou Charlotte et son steak, França, 1960), de Éric Rohmer. 

  • Une Étudiante D’Aujourd’Hui

    O curta começa com planos fechados de mulheres caminhando pelas ruas, com destaque para livros e pastas em suas mãos. Voz over informa: “No ano acadêmico de 1964/65 houve 123.326 alunas femininas matriculadas nas universidades francesas, representando 43% de todos os alunos universitários. Trinta anos antes, na véspera da Segunda Guerra Mundial, havia apenas 21.136, menos de 30% do corpo estudantil. Atualmente, cada vez mais garotas escolhem entrar para a faculdade, determinadas a acompanhar os garotos o mais rápido possível.”

    O documentário, de cerca de dez minutos de duração, acompanha jovens mulheres em seu cotidiano nas universidades, em cafés, sempre com suas pastas e livros nas mãos, no trabalho. A narrativa transita entre universidades de Paris, destaque para a Sorbonne, e escolas nas províncias, demonstrando também o crescente investimento em universidades no interior. Outro ponto que determina a narração e as imagens é o contraponto entre a carreira acadêmica e a vida domiciliar das mulheres. 

    Éric Rohmer filmou este curta documental em paralelo com sua série Seis contos morais. Um intervalo no retrato ficcional do cotidiano de seus personagens, acompanhando agora jovens mulheres (que tanto marcam seus filmes) em sua vida real. 

    Une Étudiante D’Aujourd’Hui (França, 1966), de Éric Rohmer.

  • A carreira de Suzane

    O segundo filme da série Contos Morais, de Éric Rohmer, é um média-metragem, de cerca de 55 minutos de duração. A narrativa acompanha três jovens parisienses: Bertrand, o narrador da história, seu amigo Guillaume e Suzanne. Os três se conhecem em um café, Guillaume e Suzanne se tornam namorados, vivendo uma relação de conflitos, enquanto Bertrand assiste à relação com um misto de admiração e inveja. 

    Rohmer filmou A carreira de Suzane com uma câmera 16mm e elenco de atores amadores. As lentes acompanham as andanças dos três jovens e, eventualmente, outros amigos, pelos pequenos apartamentos, e pelas ruas de Paris. O olhar de Rohmer se volta sem escrúpulos para a vida boêmia da juventude, em relações movidas por entregas e abusos, um retrato desta conturbada década em questões sociais e culturais.

    A carreira de Suzane (La carrière de Suzanne, França, 1963), de Éric Rohmer. Com Catherine Sée (Suzane), Philippe Beuzen (Bertrand), Christian Charrière (Guillaume), Diane Wilkinson (Sophie). 

  • A padeira do bairro

    Este curta-metragem abre a série Contos Morais de Éric Rohmer. Um jovem estudante de direito se sente fascinado por Sylvie, uma mulher que cruza com ele em dias seguidos nas ruas do bairro. Quando Sylvie desaparece, ele passa a frequentar uma padaria, desenvolvendo uma atração pela atendente do estabelecimento. 

    Érick Rohmer apresenta neste curta as características que vão demarcar seus filmes seguintes, separados por séries temáticas: jovens se encontram nas ruas das cidades, nos bares e cafés, no campo, nas belas praias francesas e desenvolvem relações que oscilam entre a amizade e o romance. Debates, reflexões em primeira pessoa, diálogos, enquanto se movem incessantemente, os personagens de Rohmer conversam, divagam, seguem movidos por questionamentos e relações ao acaso. 

    A padeira do bairro (La boulangère de Monceau, França, 1963), de Éric Rohmer. Barbet Schroeder, Claudine Soubrier (Jacqueline), Michèle Girardon (Sylvie). 

  • O joelho de Claire

    É, talvez, o filme mais polêmico da antológica série Seis Contos Morais, de Éric Rohmer. Jerôme e Aurora, dois amigos de meia-idade, perto dos 40 anos, se reencontram às margens do belo Lago de Annecy. A adolescente Laura se apaixona por Jerôme e Aurora tenta convencer o amigo a se entregar à experiência (ela é escritora e assim teria inspiração para uma história). No entanto, Jerôme começa um jogo de sedução em torno da também adolescente Claire, após ficar completamente fascinado pela visão de seu joelho.  

    Os debates a respeito de sedução e infidelidade entre Jerôme e Aurora ditam os rumos da narrativa. “Por que me prenderia a uma mulher se outras ainda me enteressassem?”. Diz Jérôme, revelando seu estilo de vida, mesmo estando prestes a se casar com a filha de um embaixador. No entanto, é a sedutora presença de Claire quem domina a película. O fetiche de Jérôme em torno de seus joelhos é simbólico, apresenta um desejo arrebatador e proibido.

    O joelho de Claire (Le genou de Claire, França, 1970), de Éric Rohmer. Com Jan Claude Brialy (Jérôme), Aurora Cornu (Aurora), Béatrice Romand (Laura), Laurence de Monaghan (Claire). Michèle Montel (Madame Walter). 

  • A colecionadora

    Três prólogos apresentam os protagonistas. Haydée, uma jovem que vive seus amores de forma liberta, sem amarras, dormindo com os homens que a interessam, a colecionadora do título. Daniel, um pintor centrado em seu próprio mundo arrivista. Adrien, um comerciante de artes pretensioso, arrogante, espécie de bon vivant sem recursos que passa seus dias entre o ócio e a necessidade de ganhar dinheiro. 

    Os três se encontram durante as férias de verão em uma casa na Riviera francesa e passam seus dias entre conflitos e entregas amorosas. O primeiro filme a cores de Éric Rohmer (da série Contos Morais) é um retrato da vida dos jovens de St. Tropez, que vivem entre o sexo e o glamour, como se nada importasse a não ser debates banais e noites na cama.

    A colecionadora (La collectionneuse, França, 1967), de Éric Rohmer. Com Haydée Politoff (Haydée), Patrick Bauchau (Adrien), Daniel Pommereulle (Daniel), Seymour Hertzberg (Sam). 

  • Mouchette – A virgem possuída

    A adolescente Mouchette vive no campo. Seu dia é dividido entre cuidar da mãe, que tem uma doença terminal, e frequentar a escola, onde pratica atos delinquentes, como jogar torrões de terra nas colegas, escondida abaixo da estrada. Um dia, ao sair da escola, resolve ir para casa pelo bosque e é surpreendida por uma tempestade. Ela se abriga na cabana do caçador Arsène, que acabara de ter um confronto com o guarda florestal Mathieu que pode ter terminado em morte.

    A trágica narrativa de Robert Bresson evoca sentimentos inerentes à natureza humana das personagens: desejos ardentes, entrega aos vícios, provocações mútuas que levam a agressões. Mouchette participa e se entrega a estas experiências com ousadia e agressividade, quase ciente de seu destino trágico. A obra-prima de Robert Bresson é instigante e perturbadora.

    Mouchette, a virgem possuída (Mouchette, França, 1967), de Robert Bresson. Com Nadine Nortier (Mouchette), Jean-Claude Gilbert (Arsène), Jean Vimenet (Mathieu), Marie Cardinal |(Mãe de Mouchette). 

  • Masculino-Feminino

    O filme abre com plano fechado em Paul lendo pausadamente um texto. Ele pega um cigarro e o joga na boca, gesto que se torna característico durante o filme. Abre o plano, na mesa ao lado, em um café, está Madeleine, folheando uma revista de moda. Paul trabalha em um instituto de pesquisa, mas tem interesse em ser jornalista, Madeleine aspira a carreira de cantora. A narrativa (ou não-narrativa) se desenvolve em 15 sequências nas quais os personagens dialogam, ou tecem monólogos, sobre questões que marcam a carreira do diretor: os conflitos bélicos – Vietnã e Argélia, filosofia, sociologia, consumismo, sexo…

    A inspiração de Jean-Luc Godard para a trama vem de dois contos de Guy de Maupassant, um deles sobre a depressão que assola o personagem quando descobre que sua mulher tem um caso com outra mulher. Como ponto de vista, Godard escolhe Paul, que despeja durante o filme frases e atos sexistas ou reflexões rasas sobre questões políticas, O filme levantou polêmicas e foi alvo de críticas ácidas de cineastas como Bergman e Truffaut. 

    Masculino-Feminino (Masculin Féminin: 15 faits precis, França, 1966), de Jean-Luc Godard. Com Jean-Pierre Léaud (Paul), Chantal Goya (Madeleine). 

  • Lola – A flor proibida

    O filme é dedicado a Max Ophuls, autor do clássico Lola Montés, claramente a inspiração para o primeiro filme do francês Jacques Demy. Roland Cassard é um jovem desencantado com seus dias, frustrado com o trabalho. Quando chega atrasado para um dia de trabalho é repreendido pelo chefe e declara, citando a frase de um romance que está lendo: “Não há dignidade possível, não existe vida real para um homem que trabalha doze horas por dia sem saber por que ele trabalha.” É despedido e, em suas andanças pela cidade, reencontra Cecile, paixão de infância, que agora trabalha como dançarina com o nome de Lola. 

    A narrativa é feita destes encontros, paixões do passado se contrapondo a outras que aflora – uma mulher de meia-idade, mãe de uma garota também chamada Cécile, se apaixona por Roland, enquanto Cecile se apaixona por um jovem marinheiro americano que por sua vez é amante de Lola. Tudo enquadrado pela câmera sensível, bela, que explora em cada frame a deliciosa vida cotidiana quando entregue aos flertes, aos amores possíveis ou não. 

    Lola – A flor proibida (Lola, França, 1961), de Jacques Demy. Com Anouk Aimée (Lola), Marc Michel (Roland Cassard), Jacques Harden (Michel), Alan Scott (Frankie), Elina Labourdette (Madame Desnoyers). 

  • Uma tão longa ausência

    Os consagrados diretores da nouvelle-vague francesa tiveram certa resistência em aceitar Uma tão longa ausência como parte do movimento. Para eles, o filme se assemelhava ao “cinema de qualidade” tão criticado por Truffaut, Godard e companhia ainda nos tempos de críticas da Cahiers du cinema

    O fato é que a obra de Henri Colpi, com roteiro de Marguerite Duras, conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Thérèse administra um café nos subúrbios de Paris. Vive um romance com Fernand, mas passa seus dias com um ar sombrio, triste, assombrada pelo passado – seu marido desapareceu durante a Segunda Guerra Mundial. Todos os dias pela manhã, um mendigo passa pelo seu café cantarolando músicas clássicas. Quando o vê de perto, Thèrèse acredita que ele é o seu marido. 

    Os temas da ausência e da memória permeiam toda a narrativa. Os horrores da guerra fizeram com que o mendigo perdesse sua memória. A tristeza expressa nos semblantes, olhares, gestos e diálogos de Thérèse e seu provável marido exigem do espectador aquela entrega contemplativa que atinge os sentimentos de forma inexplicável. Afinal, todos temos memórias que não gostaríamos de relembrar. 

    Uma tão longa ausência (Une aussi longue absence, França, 1961), de Henri Colpi. Com Alida Valli (Thérèse Langlois), Georges Wilson (O cantador), Charles Blavette (Fernand).