Brincando de amor (Les jeux de l’amour, França, 1960), de Philippe de Broca.
A estreia de Philippe de Broca como diretor anuncia seu pendor para as comédias ágeis, baseadas em relacionamentos amorosos entre jovens irreverentes, abertos a às aventuras do cotidiano. Suzanne (Geneviève Cluny) e Victor (Jean-Pierre Cassel) moram juntos em uma bagunçada e abarrotada loja de antiguidades. Victor é ilustrador, especializado em desenhos de flores que são comercializados na loja.
Em frente à loja, mora François (Jean-Louis Maury), melhor amigo do casal de namorados. O clipe inicial, sequência de cenas em que os três se divertem em vários pontos da cidade, sugere que há algo mais do que amizade entre o trio.
O triângulo amoroso se concretiza quando Victor insiste na recusa em ter um filho, sonho da vida de Suzanne. François se aproveita da crise para seduzir a amiga, por quem é apaixonado, prometendo que, após o casamento, ela vai ser mãe.
Brincando de amor conquistou o Urso de Prata no Festival de Berlim. Jean-Pierre Cassel foi eleito melhor ator do Festival.
No final dos anos 60, os famosos críticos da Cahiers du Cinema se aventuraram pela realização cinematográfica. Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer e Jacques Rivette começaram com curtas-metragens. Claude Chabrol foi mais ousado, usou o dinheiro da herança que sua esposa recebeu e pulou o estágio do curta, realizando de cara dois longas num espaço de dois anos: Nas garras do vício (Le beau Serge, França, 1958) e Os primos (1959).
Nas garras do vício, portanto, é o ponto de partida da nouvelle vague francesa – La pointe courte (1955), de Agnès Varda, é citado por críticos como precursor do movimento. No filme de Chabrol, François (Jean-Claude Brialy) retorna a sua cidade natal para passar o inverno – ele está convalescendo de tuberculose. O encontro com Serge, seu amigo de infância, deflagra o conflito da narrativa.
Serge se tornou alcoólatra depois do falecimento do seu filho deficiente logo após o parto. Ele vive de trabalhos esporádicos, renega a esposa e credita a tragédia à situação paupérrima que vivem os moradores da cidade.
François se aproxima da família, tenta ajudar o amigo e se envolve sexualmente com Marie (Bernadette Lafont), cunhada de Serge, considerada uma jovem promíscua da região – Serge e Marie foram amantes. O relacionamento entre os amigos revela traumas do passado que repercutem em uma relação marcada por crises de consciência, inveja e violência.
“Nas Garras do Vício e Os Primos foram produzidos e roteirizados por Chabrol. O primeiro foi filmado em Sardent, vilarejo de Creuse, onde passou parte de sua juventude. É, entre seus filmes, o que tem raízes autobiográficas mais claras. Seu tom é realista, e até mesmo documental, visto que moradores da pequena vila participaram das filmagens. Diferentemente dos burgueses servidos com mesa farta presentes em seus filmes posteriores, os personagens de Sardent vivem sob duras condições de vida. A terra pouco produz, o inverno é rigoroso, faltam empregos, há tédio e desesperança. Dessa natureza árida, brota o mais humano dos dramas dirigidos por Chabrol.” – Carlo Oliveira
Yvonne (Michèle Meritz), esposa de Serge, é a personagem que funciona como um alento de esperança em meio à decadência física e psicológica de sua família, incluindo o pai, a irmã e Serge. No início ela repudia a amizade de François, mas depois entende que os dois amigos estão em busca de se ajudarem mutuamente. O final, durante o sofrido trabalho de parto de Yvonne, simboliza o renascimento dos jovens e da amizade.
Referência; Novos cinemas do mundo. Filmes essenciais. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Video, 2023.
Clément (Jean-Louis Trintignant) é filho de um rico industrial. Ele recusa participar das decisões da empresa, pois suas visões progressistas não são aceitas pelo pai e irmão. Clément faz parte de uma organização clandestina formada por jovens que se preparam para o combate armado contra o governo. Os jovens são liderados e treinados por liderada por Serge (Pierre Asso), veterano militante combativo de esquerda.
Paixões e duelo (Le combat dans l’ile, França, 1962), primeiro filme de Alain Cavalier, produzido por Louis Malle, entremeia ações de um thriller policial, romance marcado por um triângulo amoroso, e debates éticos sobre os conflitos que se anunciam na sociedade francesa nos anos 60, motivados, em grande parte, pela Guerra da Argélia. Serge e Clement praticam um atentado contra um político, que se revela uma armação praticada pelo próprio Serge para incriminar seu jovem pupilo.
Caçado pela polícia, Clément e sua esposa Anne (Romy Schneider) se escondem em um moinho no arredores de Paris. O moinho serve como casa e oficina do impressor Paul (Henri Serre), amigo de infância de Clément. Quando Clément se ausenta para caçar e matar Serge, o triângulo amoroso se concretiza: Anne e Paul se apaixonam e passam a viver juntos em Paris.
Alfred Hitchcock terminou seu filme Topázio (1968) com um duelo de pistolas entre os antagonistas em um estádio de futebol. Nas sessões de pré-testes, esse final foi criticado pelo público, motivando Hitchcock a filmar uma nova cena. “Os jovens americanos tornaram-se tão materialistas e cínicos que não podem mais aprovar, na tela, uma conduta cavalheiresca. Que um traidor do seu país aceite um duelo e se deixe matar, isso ultrapassa o seu entendimento.” desabafou o mestre do suspense.
Alain Cavalier trabalhou com uma proposta semelhante na narrativa de Paixões e duelo: corroído pelo ciúme, Clément desafia Paul para um duelo. Como o cinema francês evita sessões de pré-testes, o violento embate entre os ex-amigos acontece no final, enquanto Anne ouve os tiros angustiada no moinho – referência ao final de No tempo das diligências (1939), de John Ford.