Brincando de amor (Les jeux de l’amour, França, 1960), de Philippe de Broca.
A estreia de Philippe de Broca como diretor anuncia seu pendor para as comédias ágeis, baseadas em relacionamentos amorosos entre jovens irreverentes, abertos a às aventuras do cotidiano (veja O homem do Rio). Suzanne (Geneviève Cluny) e Victor (Jean-Pierre Cassel) moram juntos em uma bagunçada e abarrotada loja de antiguidades. Victor é ilustrador, especializado em desenhos de flores que são comercializados na loja.
Em frente à loja, mora François (Jean-Louis Maury), melhor amigo do casal de namorados. O clipe inicial, sequência de cenas em que os três se divertem em vários pontos da cidade, sugere que há algo mais do que amizade entre o trio.
O triângulo amoroso se concretiza quando Victor insiste na recusa em ter um filho, sonho da vida de Suzanne. François se aproveita da crise para seduzir a amiga, por quem é apaixonado, prometendo que, após o casamento, ela vai ser mãe.
Brincando de amor conquistou o Urso de Prata no Festival de Berlim. Jean-Pierre Cassel foi eleito melhor ator do Festival.
O surgimento da nouvelle-vague francesa, no final dos anos 50, incentivou diversos jovens cineastas na realização de seus primeiros filmes. Michel Deville começou com Agora ou nunca (Ce soir ou jamais, França, 1961), cuja narrativa acompanha Laurent (Claude Rich), diretor teatral, às voltas com a escolha de uma nova protagonista para a peça que está prestes a estrear.
A namorada do diretor, Valerie (Anna Karina), atriz iniciante, que, segundos os demais personagens, seria ideal para assumir a peça, é preterida por Laurent sem motivos aparentes. Em determinado momento, a inspiradíssima Anna Karina (que já começava a se consagrar como musa da nouvelle-vague), apresenta um número musical de canto e dança, sem convencer seu namorado.
O filme se passa todo dentro do apartamento de Valerie. A câmera de Deville transita entre os personagens do filme e da peça que esperam e tentam ajudar o diretor na escolha. Novas pretendentes entram no apartamento, fazem pequenos testes, tentam se mostrar sedutoras, até que uma delas é escolhida. A metalinguagem entre cinema e teatro é o destaque do filme, além de Anna Karina e sua dança descontraída e irreverente.
No final dos anos 60, os famosos críticos da Cahiers du Cinema se aventuraram pela realização cinematográfica. Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer e Jacques Rivette começaram com curtas-metragens. Claude Chabrol foi mais ousado, usou o dinheiro da herança que sua esposa recebeu e pulou o estágio do curta, realizando de cara dois longas num espaço de dois anos: Nas garras do vício (Le beau Serge, França, 1958) e Os primos (1959).
Nas garras do vício, portanto, é o ponto de partida da nouvelle vague francesa – La pointe courte (1955), de Agnès Varda, é citado por críticos como precursor do movimento. No filme de Chabrol, François (Jean-Claude Brialy) retorna a sua cidade natal para passar o inverno – ele está convalescendo de tuberculose. O encontro com Serge, seu amigo de infância, deflagra o conflito da narrativa.
Serge se tornou alcoólatra depois do falecimento do seu filho deficiente logo após o parto. Ele vive de trabalhos esporádicos, renega a esposa e credita a tragédia à situação paupérrima que vivem os moradores da cidade.
François se aproxima da família, tenta ajudar o amigo e se envolve sexualmente com Marie (Bernadette Lafont), cunhada de Serge, considerada uma jovem promíscua da região – Serge e Marie foram amantes. O relacionamento entre os amigos revela traumas do passado que repercutem em uma relação marcada por crises de consciência, inveja e violência.
“Nas Garras do Vício e Os Primos foram produzidos e roteirizados por Chabrol. O primeiro foi filmado em Sardent, vilarejo de Creuse, onde passou parte de sua juventude. É, entre seus filmes, o que tem raízes autobiográficas mais claras. Seu tom é realista, e até mesmo documental, visto que moradores da pequena vila participaram das filmagens. Diferentemente dos burgueses servidos com mesa farta presentes em seus filmes posteriores, os personagens de Sardent vivem sob duras condições de vida. A terra pouco produz, o inverno é rigoroso, faltam empregos, há tédio e desesperança. Dessa natureza árida, brota o mais humano dos dramas dirigidos por Chabrol.” – Carlo Oliveira
Yvonne (Michèle Meritz), esposa de Serge, é a personagem que funciona como um alento de esperança em meio à decadência física e psicológica de sua família, incluindo o pai, a irmã e Serge. No início ela repudia a amizade de François, mas depois entende que os dois amigos estão em busca de se ajudarem mutuamente. O final, durante o sofrido trabalho de parto de Yvonne, simboliza o renascimento dos jovens e da amizade.
Referência; Novos cinemas do mundo. Filmes essenciais. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Video, 2023.
Paixões e duelo (Le combat dans l’ile, França, 1962), de Alain Cavalier.
Clément (Jean-Louis Trintignant) é filho de um rico industrial. Ele recusa participar das decisões da empresa, pois suas visões progressistas não são aceitas pelo pai e irmão. Clément faz parte de uma organização clandestina formada por jovens que se preparam para o combate armado contra o governo. Os jovens são liderados e treinados por liderada por Serge (Pierre Asso), veterano militante combativo de esquerda.
O primeiro filme de Alain Cavalier, produzido por Louis Malle, entremeia ações de um thriller policial, romance marcado por um triângulo amoroso, e debates éticos sobre os conflitos que se anunciam na sociedade francesa nos anos 60, motivados, em grande parte, pela Guerra da Argélia. Serge e Clement praticam um atentado contra um político, que se revela uma armação praticada pelo próprio Serge para incriminar seu jovem pupilo.
Caçado pela polícia, Clément e sua esposa Anne (Romy Schneider) se escondem em um moinho no arredores de Paris. O moinho serve como casa e oficina do impressor Paul (Henri Serre), amigo de infância de Clément. Quando Clément se ausenta para caçar e matar Serge, o triângulo amoroso se concretiza: Anne e Paul se apaixonam e passam a viver juntos em Paris.
Alfred Hitchcock terminou seu filme Topázio (1968) com um duelo de pistolas entre os antagonistas em um estádio de futebol. Nas sessões de pré-testes, esse final foi criticado pelo público, motivando Hitchcock a filmar uma nova cena. “Os jovens americanos tornaram-se tão materialistas e cínicos que não podem mais aprovar, na tela, uma conduta cavalheiresca. Que um traidor do seu país aceite um duelo e se deixe matar, isso ultrapassa o seu entendimento.” desabafou o mestre do suspense.
Alain Cavalier trabalhou com uma proposta semelhante na narrativa de Paixões e duelo: corroído pelo ciúme, Clément desafia Paul para um duelo. Como o cinema francês evita sessões de pré-testes, o violento embate entre os ex-amigos acontece no final, enquanto Anne ouve os tiros angustiada no moinho – referência ao final de No tempo das diligências (1939), de John Ford.
Sempre aos domingos (Les dimanches de Ville d’Avray, França, 1962), de Serge Bourguignon.
A abertura do filme foca em um piloto francês dentro do avião, atirando em uma aldeia, durante a Guerra da Indochina. Uma criança está encostada em uma árvore e grita por socorro, aparentando estar na mira do piloto.
Corta para Pierre (Hardy Kruger) sentado em uma estação de trem, à noite. Um homem desembarca junto com sua filha Françoise (Patrícia Gozzi). Pierre brinca com a criança, mas é repreendido pelo olhar contestador do pai. Os dois saem da estação e Pierre passa a segui-los até a porta de um colégio de freiras. O pai deixa Françoise no colégio e corre desesperado pelas ruas.
Sempre aos domingos é difícil assistir devido à melancolia que permeia toda a narrativa. Pierre perdeu a memória após voltar da guerra, traumatizado por possivelmente ter matado uma criança. Ele mora na Ville d’Avray com sua namorada Madeleine (Nicole Courcel), enfermeira que o acompanhou no hospital durante a convalescença. Quando descobre que Françoise foi abandonada pelo pai, Pierre passa a visitá-la sempre aos domingos, se passando pelo pai da menina.
O relacionamento entre os dois se desenvolve de forma afetuosa, cada um suprindo a perda do outro. As cenas dos passeios à beira do lago são belas, sensíveis e enternecedoras. No entanto, os moradores da cidade começam a reparar na proximidade perigosa entre um homem e uma menina e a amizade pode ter um desfecho trágico.
O filme conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e trata de temas complexos e ameaçadores: a crueldade da guerra que não distingue suas vítimas; o trauma infindável que soldados carregam quando voltam para casa; a ingenuidade das crianças, cujo olhar carente e apaixonado por seu protetor pode ser confundido por testemunhas; o preconceito moral da sociedade que não entende ou aceita a amizade carinhosa entre um homem e uma menina. Um filme difícil de assistir, mas que deixa marcas indeléveis no olhar do espectador.
Agnès Varda define o processo de criação de Cléo das 5 às 7 (França, 1962), clássico da nouvelle vague francesa. “O produtor me disse: vou fazer um filme com você, como fiz com Godard e Demi, mas tem que ser barato. Então, como faríamos? Podíamos filmar em Paris. Não gastaríamos com viagens e hotéis. A ação poderia se passar em um dia, limitando os cenários e locações. Também me ocorreu diminuir o tempo do filme. Filmaria uma hora e meia na vida dela. Noventa minutos, o tempo de um filme.”
Esses noventa minutos transcorrem durante a angústia de Florence Victoire (Corinne Marchand) à espera do resultado de um exame médico que pode indicar a incidência de um câncer. Florence é uma cantora de sucesso, seu nome artístico é Cléo, de Cleópatra. Ela perambula pelas ruas de Paris e se relaciona rapidamente com uma cartomante, uma antiga amiga, seu namorado e com um soldado prestes a embarcar para a Argélia.
As ruas de Paris ganham uma perspectiva feminina sob o olhar apaixonado e angustiante de Cléo. Em determinado momento, a personagem entra na cabine de projeção de um cinema e assiste ao curta Os amantes da Ponte Mac Donald, filmado por Agnès Varda em 1961, com participações de Anna Karina e Jean-Luc Godard. Em outro momento, ela encontra tempo para interpretar a bela canção Sans toi,acompanhada por um jovem pianista.
“Precursora da nouvelle-vague francesa com seu longa de estreia, La Point-Courte (1956), em Cléo de 5 às 7 a diretora Agnès Varda se concentra na figura de uma cantora francesa (Corinne Marchand) que aguarda o resultado de um exame médico que pode mudar sua vida. Como está claro no título, Varda escolheu acompanhar a angústia de Cléo praticamente em tempo real, levando em conta, portanto, a emergência e as técnicas do ‘cinema direto’. A casualidade da narrativa permite que a ficção se funda ao documentário enquanto a jovem vaga pela Rive Gauche de Paris, principalmente pelos arredores da estação de trem de Montparnasse, acompanhada por atordoantes travellings. Mas o realismo de Varda também é capaz de gerar emoções poderosas ao mostrar em um crescendo os sinais da lenta agonia gravada no rosto de sua protagonista.”
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
As praias de Orouet (Du côté d’Orouet, França, 1971), de Jacques Rozier.
Caroline, Joelle e Kareen chegam a Orouet, sul da França, para passar as férias de verão. Elas ficam na casa da família de Kareen, um velho sobrado de frente para o mar. Pouco depois, Gilbert, colega de trabalho de Joelle, se junta ao grupo.
A narrativa é demarcada por inserts que anunciam os dias e as horas do mês de setembro. As jovens se aventuram diariamente pelas praias, fazendas da região, um cassino que mais parece uma vila de pescadores. A virada amorosa acontece quando elas conhecem Patrick, um velejador da região (atenção para a espetacular sequência de Patrick, Caroline e Joelle velejando, o vento fustigando o barco e as velas – um primor de filmagem em mar aberto).
O diretor Jacques Rozier experimentara esse tipo de narrativa, jovens que se deliciam ao mar e ao sol, no curta Blue Jeans (1958). Em As praias de Orouet, o diretor se consagra com um estilo de filmagens livres, improvisadas, quase como se a câmera também se deixasse levar pelos dias de verão. “Rozier começava a filmar as jovens na praia à tarde, continuava até ao anoitecer e terminava com algumas sequências à luz dos faróis dos carros. Um filme dele é um mosaico, uma invenção permanente, algo muito raro no cinema – Jean-François Stévenin, ator e realizador.
Nada de surpreendente acontece nas quase três horas de duração do filme. Cada sequência acompanha momentos do grupo marcados pela extroversão, pelas brincadeiras em casa e nas praias, pelas refeições, por momentos de melancolia. São as férias de verão em que tudo, ou nada, pode acontecer.
Elenco: Caroline Cartier (Caroline), Daniele Croisy (Joelle), Françoise Guégan (Kareen), Patrick Verde (Patrick), Bernard Menez (Gilbert).
A noiva estava de preto (La mariée était en noir, França, 1968), de François Truffaut.
No início do filme, Julie (Jeanne Moreau) tenta pular da janela do edifício onde mora. A tentativa de suícidio é impedida pela mãe da jovem. Pouco depois, Julie deixa sua casa e, por meio de diversos disfarces, começa a eliminar os cinco homens que ela julga serem responsáveis pela morte do marido, na porta da igreja, logo após o casamento.
O fascínio de Truffaut por Alfred Hitchcock ganha contornos nesta clara homenagem. A noiva estava de preto é um thriller de suspense, com boas doses de bom humor, humor negro, claro, além de manter a irreverência comum à nouvelle-vague francesa.
O filme foi produzido logo depois da série de entrevistas que Truffaut realizou com Hitchcock, cujo resultado é um dos melhores livros sobre cinema já escritos: Hitchcock Truffaut. Entrevistas. Para completar, o cineasta francês usou como base para o filme o romance A noiva estava de preto, de Cornell Woolrich, mesmo autor de Janela indiscreta, que deu origem a uma das obras-primas de Hitchcock.
Elenco: Jeanne Moreau (Julie), Claude Rich (Bliss), MIchel Bouquet (Robert), Michael Sonsdale (Clement), Charles Denner (Fergus), Daniel Boulanger (Delvaux).
Blue jeans (França, 1958), de Jacques Rozier. Com Rene Ferro (Rene), Francis De Peretti (Francis), Elizabeth Klar (Elisabeth), Laure Coretti (Laure).
O final dos anos 50 ficou demarcado na França por filmes que finalmente dialogaram com o público jovem que perambulava pelas ruas de Paris e pelas praias e campos: La Pointe Courte (1955), de Agnés Varda, Os primos (1959), de Claude Chabrol, Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. Em todos esses filmes, o objetivo diário dos jovens é se divertir, alguns inocentemente, outros praticando pequenos delitos ou, no caso de Michel, um assassinato acidental.
Jacques Rozier não ficou tão famoso quanto seus contemporâneos que lançaram e consolidaram a nouvelle-vague francesa, mas dirigiu pelo menos um clássico deste período: Adieu Philippine (1963). No curta Blue jeans, aclamado por Godard, Francis e Rene, dois jovens de 17 anos, passam as férias de verão em Cannes e redondezas, andando de Vespa pelas praias, tentando desajeitadamente conquistar garotas. Até que conhecem duas meninas e os quatro passam alguns dias despretensiosamente em cafés, bares e praias.
Não há nada a fazer a não ser perambular entre carícias, beijos e romantismo, portanto, nada acontece no filme de Jacques Rozier. O espectador se entrega ao deleite puro de contemplar a beleza dos quatros jovens, emoldurados por uma beleza ainda mais estonteante. Os amigos não têm dinheiro sequer para abastecer as Vespas, mas pouco se preocupam, se preciso largam as motonetas para trás, Querem apenas viver as garotas e vice-versa, aproveitar o sol e os dias luminosos.
Não é difícil imaginar o impacto que esses primeiros filmes da nouvelle-vague francesa provocaram nos jovens que cresceram com os traumas da segunda guerra, que estavam sendo convocados para a Guerra da Argélia enquanto saíam para as ruas em protesto. Viver a cada dia, salve Blue Jeans.
O desprezo (Le mépris, França/Itália, 1963), de Jean-Luc Godard. O filme abre com uma sequência icônica, das mais famosas relacionadas ao erotismo feminino. Camille (Brigitte Bardot) está nua, enquanto a câmera percorre seu corpo, ela pergunta ao marido, o roteirista Paul Javal (MIchel Piccoli), se ele gosta desta e daquela parte de seu corpo.
A trama segue a crise conjugal do casal. Eles estão na Itália, Paul tenta fechar um contrato para escrever a adaptação para o cinema do romance Odisseia, de Homero. O diretor será Fritz Lang, que interpreta a si mesmo, em participação especial. A crise do casal se expõe definitivamente quando Jerry Prokosch (Jack Palance), produtor do filme, entra em cena. Camille se entrega em um jogo de sedução e traição com o produtor que resultará em um desfecho trágico, após uma bela carta de despedida ao marido.
O desprezo é um filme sobre o cinema, bem ao estilo rebelde de Godard que anos depois romperia com a narrativa tradicional (após a criação do Grupo Dziga Vertov).
“Ainda mais porque se trata aqui de suscitar (e excitar) o dito cinema tradicional no momento mesmo da sua dissolução: os últimos suspiros das grandes produções, as ruínas do sistema de estúdio. Décadas mais tarde, em suas Histoire(s) du cinéma (1988-1998), Godard dirá que nada pode ser chamado de arte até o fim de sua época (e que a única coisa que sobrevive a uma época é justamente a arte criada por ela). De certa forma, pois, O desprezo realiza o ‘filme tradicional’ como arte justamente ao decretar a morte de sua época. Há assim, ao mesmo tempo, uma euforia juvenil (delírio da linguagem) e uma certa melancolia nessa realização.” – Felipe de Moraes.
Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro.