O órfão (Brasil, 2018), de Carolina Markowicz, ganhou o prêmio Queer Palm no Festival de Cannes. A narrativa acompanha a jornada do menino Jonathas (Kauan Alvarenga). Ele vive em um orfanato e um jovem casal se dispõe a adotá-lo. Durante o período de experiência, já na sua nova casa, Jonathas revela seu jeito afetivo e delicado, provocando conflitos com seus novos pais. Após um breve período, Jonathas é devolvido ao orfanato e volta a lidar com o sentimento de rejeição.
O órfão retrata com uma sensibilidade dolorosa as questões identitárias na infância, negadas pelo preconceito arraigado na estrutura familiar; mesmo um casal formado por jovens não consegue lidar com as sutis descobertas de Jonathas sobre sua sexualidade.
Mimi – O metalúrgico (Mimi metallurgico, ferito nell’ onore, Itália, 1972), de Lina Wertmuller.
Perto do final do filme, Mimi (Giancarlo Giannini) tenta justificar os atos que cometeu forçado pela máfia siciliana. Ele grita para Fiorenna: “Eles são todos primos.”
Com esse filme, indicado ao prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, Lina Wertmuller ganhou o reconhecimento internacional, demarcando seu estilo de críticas políticas e sociais, ancoradas em narrativas de um humor agressivo, feito para chocar a sociedade.
Mimi é um operário, recém-casado, que é ameaçado por integrantes da máfia ao se recusar a votar no candidato apoiado por eles. Perde o emprego e vai para Turim, onde conhece Fiorella (Mariangela Melato), uma ativista política. Os dois se apaixonam, passam a viver juntos, têm um filho, Mimi consegue emprego como metalúrgico e adere ao comunismo. No entanto, seu caminho se cruza novamente com os mafiosos e é obrigado a voltar para a Sicília, onde se defronta com sua esposa, que também tem um amante.
A virada da narrativa após a volta para casa tece uma contundente crítica, com desfecho trágico, sobre as tradições italianas que insistem em colocar a família sob a custódia do patriarcado, do machismo exacerbado e agressivo. O protagonista, mesmo com ideais políticos avançados, capaz até mesmo de enfrentar a máfia, sucumbe diante de si mesmo, incapaz de vencer sua vaidade masculina, colocando, como é típico, a honra do homem acima de tudo.
A italiana Lina Wertmuller, discípula de Fellini, foi a primeira mulher a ser indicada ao Oscar de Direção pelo filme Pasqualino Sete Belezas (1977). O cinema anárquico da diretora demarca Amor e anarquia, cujo extenso título original resume a obra: Filme de amor e anarquia, ou: esta manhã às 10, na Via dei Fiori, no famoso bordel.
Tunin (Giancarlo Giannini), um jovem ingênuo da região campestre, chega a esse bordel com uma ideia fixa: assassinar Benito Mussolini. A história é ambientada na Itália dos anos 30, o governo fascista caça e executa anarquistas, o que aconteceu com um grande amigo de Tunin. No bordel, seu contato com o grupo que planeja o assassinato é com a prostituta Salomê (Mariangela Melato). No entanto, Tunin se apaixona por Tripolina (Lina Polito), jovem prostituta que pode mudar o destino da trama.
O grande trunfo da película é a mistura de gêneros, uma das marcas do cinema dos anos 70. A curta odisseia de Tunin em Roma alterna momentos de drama, comédia, um belo e sensível romance, crítica política e social, cujo clímax é uma tragédia anunciada. O idílio amoroso de dois jovens ingênuos e sonhadores termina de forma brutal, nada surpreendente, afinal são os anos fascistas na Europa.
Pérolas das profundezas (Perlicky na dne, República Tcheca, 1965), de Jiri Menzel, Jan Nemec, Evald Schorm, Jaromil, Vera Chytilová.
Durante a New Wave Tcheca, cinco integrantes do movimento se uniram na realização de Pérolas das profundezas, filme composto por cinco curta-metragens. As narrativas seguem os estilos próprios de cada realizador, em comum, a crítica social e política demarcada na filmografia deste período no país, dominado pelo autoritário e repressor regime comunista. Os cinco curtas são baseados em contos do escritor Bohumil Hrabal.
A morte do Sr. Baltazar, de Jiri Menzel. O curta de produção mais elaborada segue um casal em seu carro rumo a uma corrida de estrada. Enquanto o casal assiste à disputa, os personagens se cruzam: pilotos, moradores de beira de estrada, espectadores que se deleitam com possíveis acidentes, o que acontece com Balthazar.
Impostores, de Jan Nemec. Dois homens idosos dividem o mesmo quarto no hospital, ambos estão próximos da morte. Os dois fazem uma espécie de disputa de criação de personagens, inventando histórias fictícias sobre a vida de cada um. Um deles, afirma que foi um cantor de ópera, o outro, um jornalista de sucesso. Os diálogos determinam a convicção sobre a realidade da vida que inventaram.
Casa da Alegria, de Evald Schorm. A história de um artista que passa todo o tempo pintando as paredes de sua casa beira o surrealismo. Dois corretores de seguros visitam o pintor, que mora com a mãe, com intenção de vender apólices para eles. Os dois são guiados pelos cômodos. Admirados pela arte expostas em cada canto, se esquecem até mesmo do motivo da visita, enquanto o pintor e a mãe empreendem uma disputa verbal agressiva.
No café do mundo, de Vera Chytilová. O filme é um deslumbrante exercício estético da consagrada diretora tcheca. Uma recepção de casamento acontece na cafeteria e os convidados se entregam ao idílio do momento. A sequência do casal correndo em câmera lenta na chuva e na escuridão é o destaque da narrativa: a fotografia em preto e branco, a chuva, a jovem ainda com seu vestido de noiva. Surrealismo e fantasia se misturam neste deslumbre cinematográfico.
Romance, de Jaromil Jires. Um jovem da classe operário conhece uma garota cigana que se prostitui. Após o encontro sexual, o jovem se apaixona e os dois começam um intenso relacionamento, aflorando os preconceitos sociais.
Letícia, Monte Bonito, 04 (Brasil, 2020), de Julia Regis.
É uma tarde quente de verão em uma “venda” de beira de estrada no interior do Rio Grande do Sul. Laís (Eduarda Bento) está sentada no banco da entrada do sobrado, esperando o pai. Ela ouve música no andar de cima e, curiosa, entra pela casa. Letícia (Maria Galant) a surpreende, depois a convida para conhecer o quarto.
O curta de Julia Regis, vencedor do Prémio do Público no Mix Brasil, acompanha com lentidão o relacionamento entre as duas jovens. Elas se divertem em brincadeiras inocentes com bichos de pelúcia, ouvem CDs, dançam ao som de MPB, tentam se refrescar no ventilador. Passo a passo o flerte, leves toques e insinuações delineiam uma sensível e delicada descoberta.
Algo diferente (República Tcheca, 1963) é o primeiro filme da premiada diretora Vèra Chytilová, lançado no movimento conhecido como Nouvelle Vague Tcheca. A narrativa, mescla de documentário e ficção, acompanha duas histórias paralelas.
Vera (Vera Uzelacová) é uma dona de casa que vive uma vida comum, cuida do filho, tem um relacionamento estável com seu marido, mas um dia conhece um homem na rua e começa e mantém um caso extraconjugal. Mesmo fascinada, ela não aceita se separar do marido.
A segunda narrativa, um documentário, acompanha o dia-a-dia de treinamento de Eva Bosakova, uma ginasta olímpica medalhista de ouro olímpica. É uma maratona de exercícios que destaca o sofrimento físico e psicológico da atleta, pressionada pelo treinador, Eva se entrega quase à exaustão e segue em frente, quase atingindo os limites do corpo.
Algo diferente foi sucesso de público e de crítica. Vera Chytilová anuncia de imediato o cinema feminista e contestador que vai marcar a sua carreira, principalmente em dois aclamados filmes: As pequenas margaridas(1966) e Fruto do paraíso (1970) – após esse fllme a cineasta foi banida durante oito anos pelo governo de seu país.
As herdeiras (Orokseg, Hungria, 1980), de Márta Mészáros.
Budapeste, 1936. Szilvia (Lili Monori) é uma mulher rica que se vê pressionada pelo pai, empresário, a ter um filho. É a condição para ela herdar a fortuna da família. No entanto, Szilvia é estéril e oferece dinheiro a Irene (Isabelle Huppert), jovem judia, a conceber um filho com seu marido.
O triângulo amoroso que se forma a partir deste acordo deflagra os conflitos da narrativa que beira a tragédia quando explode a Segunda Guerra Mundial e começam as perseguições aos judeus. Isabelle Huppert, em um de seus primeiros papeis no cinema, domina a trama. Sua personagem luta pelo seu amor e por seus filhos, mas não se esconde dos nazistas, encarando com altivez o seu destino. O cinema feminista de Márta Mészáros lança um olhar cruel sobre a divisão de classes e a conivência da burguesia europeia com os crimes cometidos pelos nazistas e seus aliados.
Elenco: Isabelle Huppert (Irène), Lili Monori (Szilvia), Jan Nowicki (Ákos), Zita Perczel (Teréz), Sándor Szabó (Komáromi).
Vaga carne (Brasil, 2019), de Grace Passô e Ricardo Alves Jr.
A peça Vaga Carne, escrita e encenada por Grace Passô, foi apresentada ao público em 2016. A própria autora trabalhou na adaptação para o cinema, em conjunto com Ricardo Alves Jr.. O princípio conceitual é basicamente o mesmo: uma estranha voz toma posse do corpo de uma mulher. O monólogo, uma interação entre voz e corpo, percorre a narrativa, transitando entre reflexões sobre pertencimento, papeis dentro da sociedade, questões estruturais de gênero e preconceito racial.
“Ao levar a peça para o Cinema, em 2018, (…) Grace, por outro lado, possuía uma diferente forma de provocação: uma dramaturgia própria a se traduzir em roteiro para audiovisual; quarenta e cinco minutos de uma protagonista invisível – a voz – falando a frente de uma tela-imagem. A dualidade, porém, cai por terra à medida que o choque entre personagem-cenário se mostra mais homogêneo do que oposicionista, afinal, se a voz invisível quer ser ouvida, o corpo da mulher negra ali estampado também quer ser visto.” – Antonio Pedroni
Vaga Carne seria exibido em sessões duplas, junto com outro média-metragem Sete anos em maio(Brasil, 2019), de Affonso Uchoa. No entanto, o isolamento social provocado pela pandemia não permitiu essa estratégia e cada filme foi lançado de forma isolada no streaming.
Referência: Vaga carne e a intermidialidade teatro-cinema na história do cinema brasileiro. Antonio Pedroni. Monografia apresentada como trabalho de conclusão de curso. PUC MINAS: Curso de Cinema e Audiovisual, 2021.
Incêndios cobrem o horizonte. É agosto, Lúcia (Badu Morais), uma jovem enfermeira, está grávida. Em uma festa, ela ouve o som lamentoso de um pássaro que, logo a seguir, cai morto diante dela. O sinal de mau agouro a coloca em alerta e, à medida que consulta médicos, frequenta uma igreja evangélica, descobre que algo pode estar errado em sua gravidez. A narrativa segue Lùcia em sua jornada de entendimento de sua gravidez tardia e a atração que ela sente por uma amiga, também frequentadora da igreja da comunidade.
A roteirista e diretora Jasmin Tenucci diz que teve a inspiração para o filme em um dia que nuvens de fumaça escureçam a cidade de São Paulo. O curta-metragem recebeu vários prêmios em 2021, entre eles a Menção Especial no Festival de Cannes.
Elenco: Badu Morais, Lilian Regina, Luci Pereira, Ernani Sanches.
Verão 2000 (Été 2000, Canadá, 2023), de Virginie Nolin e Laurence Olivier.
Durante um final de semana no verão de 2000, a adolescente Raphaella tem que cuidar da filha do namorado de sua mãe, Sarah, de 9 anos. Raphaella pratica skate com um grupo de amigos, incluindo Sam, com quem mantém um relacionamento amoroso. Poderia ser um final de semana de verão como tantos adolescentes anseiam, longe dos pais, com o tempo só para eles. Mas as coisas se complicam quando uma suspeita recai sobre o irmão mais novo de Sam.
O ponto de vista da narrativa é o de Sarah, que passa o tempo com uma câmera de vídeo. O olhar doce e infantil de Sarah passa por uma descoberta. A dupla de diretores trata deste momento difícil que envolve questões de relacionamento e consentimento com sensibilidade, sem deixar de alertar para as consequências.
Elenco: Jeana Arseneau, Millie-Jeanne Drouin, William St-Louis, Dylan Walsh.