
“Há em Cuba outra ilha com gente nascida do sol. Na outra ilha, feita de mármore e areia, onde a bandeira nasce da nova juventude. Terra do homem que ainda virá no próximo século. Terra do amanhecer que vem para apagar a noite de ontem. Esta terra! Há em Cuba outra ilha com gente nascida do sol que não passa dos 20 anos, que não teme a vida.”
A bela música de Tomás González e Remberto Egues, pontuando imagens de jovens trabalhadores na lavoura, abre o documentário Na outra ilha (En la otra isla, Cuba, 1968), de Sara Gómez. Entra cena em plano americano de Maria, 17 anos: “Estou na Ilha da Juventude. Me encontro na Fazenda da Juventude. Eu acordo às 5h30, parto para o campo às 6h30. Eu trabalho meio período. Me sinto muito feliz nesta fazenda.”
O governo revolucionário cubano escolheu a Ilha da Juventude (antiga Ilha de Pisla) para implantar uma comunidade agrícola formada por jovens que dividiam seu tempo entre o trabalho, os estudos e a pesquisa. Os jovens que chegaram à ilha eram voluntários ou vindos de outras colônias. O projeto serviu também para abrigar jovens que estavam em processo de reabilitação, como retratado em Uma ilha para Miguel, outro documentário de Sara Gómez rodado na Ilha da Juventude.
A diretora não evita o tom de divulgação dos ideais da Revolução Cubana, preconizado em muitos documentários promovidos pelo Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos. No entanto, preservando seu estilo autoral, Sara Gómez dá voz aos trabalhadores e trabalhadoras que podem, inclusive, tecer críticas ao modelo, como no depoimento de Fajardo, professor de teatro.
Lettering: “Um desabafo de Fajardo. Espero que seja do agrado do público.” O desabafo do professor passa pela falta de estrutura para o ensino e a prática: “Eu fui ao campo, cortei uns pinhos, fiz o palco. Eu não tinha transporte, peguei um veículo. Alguns amigos enxergam isso como roubo. Mas eu não acho, é algo que eu fazia para a organização. Eu encontrei problemas nessa ilha, em que a cultura não é a base fundamental, a base é a palavra trabalho. Eu preciso acender essa faísca elétrica e criar cultura em uma dessas fazendas.”
A diretora é parte decisiva do documentário. Sara Gómez aparece em momentos importantes, não entrevistando, conversando com os jovens, tentando deixá-los à vontade para depoimentos e, em alguns casos, revelações. Em uma conversa com Rafael, um jovem tenor, a câmera está focada nos dois quando o diálogo caminha para uma denúncia:
“Eu comecei no Grupo Lírico em outubro de 1964. Estávamos apresentando a ópera Rita, de Donizetti, eu estava interpretando um camponês. Depois fizemos La Verbena de La Paloma, em que eu interpretei o protagonista. Apresentamos a peça durante uns seis meses. Foi aí que os problemas começaram. Algumas mulheres do grupo não queriam trabalhar comigo. Elas se sentiam mal até de contracenar comigo na peça.”
“Então elas tinham problemas com você, por que você vinha da Escola de Artes?” – indaga Sara.
“Não. Eu acho que foi mais um problema de raça, algo assim. O problema fundamental foi que… Escute Sara, só para esclarecer, eu era o único cara negro no grupo, certo? Parece que era por causa da minha pele, elas pensavam quase como se fosse uma monstruosidade para uma mulher branca trabalhar com um homem negro, ou fazer as cenas de amor.”
Deixando os depoentes livres nos diálogos e monólogos para a câmera, a revolucionária Sara Gomes transcende o aspecto de propaganda do documentário. Cada jovem deixa, às vezes claramente, como o tenor, outras vezes no subtexto, os problemas ainda cruciais nesses primeiros anos da revolução cubana: questões raciais; contradições impostas pela posição na sociedade – jovens marginalizados foram enviados, muitos contra a vontade, para a ilha; as escolhas ideológicas, ou a não-possibilidade dessas escolhas; questões de identidade e liberdade sexual – a estrutura da sociedade machista ainda predominando.
A trilogia documental de Sara Gómez sobre a Ilha da Juventude é composta por Na outra ilha (1968), Uma ilha para Miguel (1968) e Ilha do Tesouro (1969).








