A trama apresenta sucessão de situações cômicas, bem ao estilo comédia de erros, envolvendo os fatos reais que antecederam e sucederam à morte do ditador russo. Personagens reais se envolvem em tramas ficcionais, principalmente quando entra em cena uma pianista que seria a responsável pelo envenenamento de Stalin. O filme é baseado em revista em quadrinhos francesa e foi proibido pouco antes da estreia na Rússia (as associações com o atual momento soviético, comandado pelo longevo poder de Vladimir Putin são visíveis). Steve Buscemi, no papel de Nikita Kruschev, é o grande nome da película, comandando as intrigas para assumir o comando do partido comunista após a morte de Stalin.
A morte de Stalin (The death of Stalin, Inglaterra, 2018), de Armando Iannucci. Com Steve Buscemi, Jeffrey Tambor, Jason Isaacs, Svetlana Stalina.
O grego Yorgos Lanthimos faz releitura de Ifigênia, tragédia de Eurípides, na qual Agamenon é obrigado a sacrificar um filho por ter matado um cervo sagrado. Steven Murphy é cirurgião cardiologista e tem estranha relação com o filho adolescente de um paciente. As poucos, o espectador desvenda o mistério por trás da relação que envolve cobrança e justiça por erros cometidos no passado.
Steven é casado com a também médica Anna; o casal tem dois filhos. Quando o amigo adolescente de Steven é inserido no seio familiar, a trama caminha para a previsível anunciação estampada no título do filme, com direito a final perturbador que exige controle de nervos do espectador.
Estranheza é o que se pode esperar de O sacrifício do cervo sagrado. Além da inserção de metáforas bíblicas na narrativa, os atores trabalham com a não-interpretação, agindo quase como autômatos entregues ao destino. Barry Keoghan, no papel do adolescente Martin, é a grande surpresa do filme.
O sacrifício do cervo sagrado (The killing of a sacred deer, Inglaterra, 2017), de Yorgos Lanthimos . Com Colin Farrell (Steven Murphy), Nicole Kidman (Anna Murphy), Barry Keoghan (Martin), Raffey Cassidy (Kim Murphy), Sunny Sujic (Bob Murphy), Alicia Silverstone (Mãe de Martin).
Pela segunda vez, Judi Dench interpreta a Rainha Victoria às voltas com amizades com seus ajudantes. Em Sua Majestade, Mrs Brown (1997) a trama versa sobre o relacionamento da rainha com o criado John Brown. Victoria e Abdul – O confidente da rainha coloca em cena o indiano Abdul Karim que chega à corte inglesa para presentear a rainha com artefatos da colônia no Jubileu dos 50 anos de reinado.
Abdul ganha as graças da rainha e se torna “munshi”, espécie de professor que abre a mente de Victoria para a cultura indiana e muçulmana. O preconceito é tema central da narrativa, pois os demais integrantes da corte e a própria família da rainha não aceitam a presença do indiano, passando inclusive a investigar sua vida. Judi Dench brilha como sempre, estrela que já marcou seu nome no hall das grandes atrizes de todos os tempos.
Victoria e Abdul – O confidente da rainha (Victoria and Abdul, Inglaterra, 2017), de Stephen Frears. Com Judi Dench, Ali Fazal, Eddie Izzard, Olivia Williams.
A adaptação literária para o cinema sempre suscita controvérsias, principalmente de livros de autores consagrados como Charles Dickens. O livro Oliver Twist foi publicado no formato de folhetins, episódios mensais em jornais, portanto, já com uma estrutura que se adequa ao cinema, com as viradas na narrativa.
Na adaptação feita em 1948, David Lean, junto com o roteirista Stanley Haynes, respeitou a essência da história. Uma jovem mulher dá à luz a um menino e morre em seguida. A criança ganha o nome de Oliver Twist e é criada em um reformatório, sofrendo com trabalhos forçados, alimentação precária e castigos físicos. Com nove anos, Oliver foge para Londres e cai nas mãos de Fagin, bandido que controla uma gangue de meninos que roubam nas ruas da cidade. A questão da pobreza, da marginalidade de adultos e crianças nas ruas, de um sistema religioso cruel e punitivo, são pontos evidentes de críticas na obra de Dickens.
David Lean sempre foi adepto do cinema clássico, buscou contar histórias bem estruturadas, respeitando os princípios da narrativa de gênero e privilegiando a força das imagens. Nesse sentido, vale a pena se debruçar sobre duas sequências que diferem do livro e tratam de aspectos simbólicos e do uso da linguagem audiovisual.
Sam Lowry é um pacato funcionário do governo, em um país não identificado que afoga seus cidadãos em práticas burocráticas. A distinção de classes é a marca da sociedade, pessoas aliadas ao governo gozam de privilégios enquanto os trabalhadores sofrem com vigílias, perseguições, obrigados pela infindável máquina burocrática à uma vida automata.
A obra de Terry Gilliam foi filmada quase ao mesmo tempo de 1984, de Michael Radford. Os dois filmes buscaram inspiração no célebre livro de George Orwell. Em Brasil, o filme, o tom crítico e ácido de Terry Gilliam, ex-Monty Python, se transforma em uma trama opressora, marcada por estéticas expressionistas e surrealistas. O tedioso cotidiano de Sam é interrompido por devaneios, quando ele se transforma em um herói alado que tenta proteger a garota dos seus sonhos de monstros japoneses. A reviravolta acontece quando Sam conhece Gilly (Katherine Helmond), motorista de caminhão idêntica à jovem dos seus sonhos, possivelmente uma rebelde que luta contra o governo.
“Em Brazil, a televisão deixa de ser a origem de sua produção e assume um papel de símbolo de informação e alienação da grande massa acerca da ditadura. Com traços expressionistas, o filme cria contrastes entre luz e sombra que revelam o poder exercido por tal personagem, além de ter como maior referência estética uma versão atualizada do filme Metropolis (1927), de Fritz Lang. A sociedade representada é uma clara crítica ao governo de Margareth Tatcher, que ficou conhecida por seu pulso firme, conservadorismo e burocracia, não deixando de lado traçar manias da burguesia inglesa: a mãe de Sam, sendo seu principal símbolo, que faz procedimentos estéticos a todo momento para parecer nova e assim mascarar sua face real, mas continua com seus pensamentos retrógrados.” – Matheus Mendes Schlittler.
Brasil, o filme(Brazil, Inglaterra, 1985), de Terry Gilliam. Com Jonathan Pryce, Robert de Niro, Katherine Helmond, Ian Holm, Bob Hoskins.
Referência: O muro fílmico de Pink Floyd: The Wall. Matheus Mendes Schlittler. Dissertação, curso de Cinema e Audiovisual, PUC Minas, 2020.
O filme abre com avião sobrevoando a cidade. Narração em off informa que este avião foi responsável pela queda de um governo. Corta para sequência noturna em um porto. Homem é perseguido e abatido a tiros. É socorrido pelo contrabandista Guy Van Stratten e sua namorada e, antes de morrer, sussurra no ouvido da mulher o nome Gregory Arkadin. Esse enigmático personagem guia as ações de Guy a partir daí, pois encontrá-lo pode representar ascensão financeira e social.
Grilhões do passado é impressionante incursão pelos meandros da natureza humana. Quando Arkadin entra em cena, contrata Guy para investigar seu próprio passado. O espectador não sabe se tudo faz parte de um jogo ou se o milionário perdeu mesmo a memória. À medida que descobre a si mesmo, Arkadin se revela um perigoso assassino, eliminando quem conheceu seu passado. A investigação de Guy, portanto, é caminho para a morte. No entanto, ele não desiste e as coisas se complicam quando se apaixona pela filha de Arkadin.
Orson Welles, como sempre, domina a tela, com presença magnânima, onipotente, verdadeiro imã para os olhos do espectador. As sequências noturnas revelam a forte influência do expressionismo alemão no trabalho do diretor. O final do filme é tão misterioso quanto a própria biografia de Gregory Arkadin.
Grilhões do passado (Confidential report, Inglaterra, 1955 ), de Orson Welles. Com Orson Welles (Gregory Arkadin), Robert Arden (Guy van Stratten), Paola Mori (Raina Arkadin).
Antes de partir para os Estados Unidos, a convite do produtor David Selznick, Hitchcock filmou A estalagem maldita, a convite de Charles Laughton, ator e também produtor do filme. Segundo Hitchcock, foi uma experiência desastrosa.
O filme é adaptado do romance de Daphne du Maurier. A primeira sequência impressiona para os padrões da época: um navio enfrenta tempestade na costa da Cornualha e choca com os rochedos. O naufrágio é provocado por um bando de saqueadores que apaga o farol. Quando os tripulantes pulam no mar, já bem próximos à enseada, são assassinados pelos bandidos. A ordem é não deixar sobreviventes. Os saques são levados e escondidos na estalagem, cujo dono é o líder do bando.
“A Estalagem maldita era uma empreitada totalmente absurda. (…). No fim do século XVIII, uma jovem irlandesa, Mary (Maureen O’Hara) desembarca na Cornualha para encontrar sua tia Patience, cujo marido, Joss, tem uma estalagem no litoral. Passam-se horrores de todo tipo nessa famosa estalagem, que abriga saqueadores de destroços, gatunos que provocam naufrágios. Essas pessoas gozam de total impunidade e até são informadas regularmente das passagens de navios na região. Por que? Porque à frente de toda essa rapinagem está um homem respeitável que dá as cartas, e esse homem é ninguém menos do que o juiz de paz.” – Hitchcock.
O juiz é interpretado por Charles Laughton. Após ler as primeiras versões do roteiro, escritas por Clemence Dane e Sidney Gilliat, sempre acompanhados pelo olhar rigoroso de Hitchcock, Laughton resolveu ampliar seu papel e contratou J. B. Priesley para escrever diálogos adicionais. Além disso, o famoso ator inglês fez exigências ao também famoso diretor inglês, como só ser filmado em planos próximos porque ainda não tinha descoberto o jeito de andar pelo cenário. Dez dias depois, Laughton disse ter descoberto o jeito de andar: bamboleante e assobiando a valsinha alemã.
O resultado é uma interpretação caricata de Laughton, que pratica as mais espalhafatosas ações e diálogos a cada cena. Durante as conversas com Truffaut para o célebre livro Hitchcock / TruffautEntrevistas, o diretor classificou Charles Laughton de “engraçadinho simpático”, dizendo: “Ele não era um autêntico profissional de cinema.”
“Por isso é que esse filme era uma empreitada absurda; normalmente, o juiz de paz só devia aparecer no fim da aventura, pois, muito prudente, ele se mantinha afastado de tudo e não havia nenhuma razão para aparecer na estalagem. Portanto, era absurdo fazer esse filme com Charles Laughton no papel do juiz e, quando me dei conta disso, fiquei realmente desesperado. Finalmente, fiz o filme, que nunca me satisfez, apesar do sucesso comercial inesperado.”
Alfred Hitchcock terminou as filmagens, embarcou para os Estados Unidos para fazer Rebecca – A mulher inesquecível (1940). Deixou Charles Laughton e a Inglaterra para trás, dando início a uma das mais espetaculares carreiras cinematográficas em solo americano.
A estalagem maldita (Jamaica Inn, Inglaterra, 1939), de Alfred Hitchcock. Com Charles Laughton (Humphrey Pengallan), Maureen O’Hara (Mary), Leslie Banks (Joss Merlyn), Marie Ney (Patience), Emlyn Williams (Harry), Robert Newton (Jem Trehearne).Referência: Hitchcock/Truffaut: entrevistas, edição definitiva. François Truffaut e Helen Scott. São Paulo: Companhia das Letras, 2004
Uma de minhas leituras recentes mais tristes e perturbadoras foi O homem que amava os cachorros. O cubano Leonardo Padura usa da narrativa paralela para contar a história de Ramón Mercader e Leon Trotsky até colocar frente a frente, na Cidade do México, assassino e vítima.
Em O assassinato de Trotski (L’Assassinat de Trotsky, Itália, França, Reino Unido, 1972), o diretor Joseph Losey se concentra nos últimos dias deste encontro, preparando o espectador também em montagem paralela para o crime arquitetado e executado a mando do Governo de Stálin. Trotski (Richard Burton) vive enclausurado, junto com a mulher Natália, em uma fortaleza, protegido por correligionários armados. Franck Jackson/Mercader (Alain Delon) transita pela cidade junto com a amante Gita Samuels (Romy Schneider), buscando formas de se inserir na casa e na vida do famoso revolucionário soviético.
Solitário, quase esquecido, com tristeza contagiosa, Trotski passa os dias no jardim, refletindo, ditando para o gravador. Jackson se joga na conturbada vida urbana, em meio a manifestações políticas, o caos das ruas, assistindo a uma impressionante tourada, filmada com requintes de tortura e sadismo no momento da execução do touro, preparação para o ato final do espanhol Mercader. É o confronto também de dois grandes atores em momentos sublimes: Richard Burton e Alain Delon.
“Entre a vítima e o assassino se estabelece uma tripla relação: de oposição, por intermediários e de fascinação recíproca. A de oposição é resumida por Losey no contraste entre um personagem monolítico e um personagem instável. A composição de Richard Burton, pelo próprio fato de agregar elementos ‘estranhos’ ao ator (maquiagem, envelhecimento, mudança da voz), ainda que surpreenda, é equilibrada pela de Delon, que prolonga visivelmente os recursos de uma imagem juvenil. Aliás, a oposição é indicada por Losey desde a primeira aparição dos dois personagens: um diante do espelho, o outro diante de um gradil.” – Gérard Legrand.
Referência: O assassinato de Trotski: um filme inspirado na vida de Leon Trotski. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Euclides Santos Mendes. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016.