A história do jovem Winston Churchill é narrada a partir das memórias do ex-primeiro ministro, já idoso. Simon Ward interpreta Churchill na juventude e narra a história, centrando as lembranças na difícil convivência com o pai, membro do parlamento inglês, e no fascínio pela mãe americana, de beleza sedutora na conservadora Inglaterra.
“Imagens históricas em filmes de arquivo e fotografias, semelhanças na aparência dos atores e reconstituição de época por meio de cenários e figurinos são alguns artifícios recorrentes adotados em títulos biográficos que buscam seduzir o público como base na crença na verossimilhança. A todos esses, ‘As Garras do Leão’ junta a narração em primeira pessoa, o que dá a impressão de que assistimos a um relato feito pelo próprio personagens, uma intimidade que nenhum historiador ou biógrafo conseguiria superar.” – Cássio Starling Carlos.
As garras do leão (Young Winston, EUA/Inglaterra, 1972), de Richard Attenborough. Com Simon Ward (Winston jovem/narrador), Robert Shaw (Lorde Randolph Churchill), Anne Bancroft (Lady Jennie Churchill), Anthony Hopkins (Lloyd George).
O filme é um esplendor fotográfico e estético. Com três horas de duração, a narrativa acompanha a ascensão e queda de Redmond Barry, jovem irlandês que se apaixona por sua prima. Após descobrir que ela vai se casar com um capitão do exército, Redmond duela com o capitão e é obrigado a fugir. É o ponto de partida para picarescas aventuras relacionadas ao exército que cruzam seu caminho. Quando consegue se livrar do jugo dos oficiais, Barry casa-se com Lady Lyndon, assumindo um título da nobreza.
A história é narrada em terceira pessoa, a lentidão das longas sequências tem um propósito: retratar a frugalidade da vida dos nobres ingleses que se envolvem em guerras inúteis e passam os dias em jogatinas, motivando intrigas e aproveitando a tediosa vida palaciana. A obra-prima do meticuloso diretor Stanley Kubrick deslumbra e encanta os olhos, um dos grande momentos da fotografia no cinema.
“Filmado por John Alcott usando apenas luz natural, quase sempre na ‘hora mágica’ – o momento do dia em que a luz possui uma nebulosidade perfeita -, e fazendo uso inovador da luz de velas para os interiores, as imagens de Barry Lyndon possuem grande beleza, mas sua perfeição é conjugada com a turbulência interior dos personagens aparentemente congelados. Kubrick é muitas vezes acusado de não expressar emoções, mas a sua contenção aqui é ainda mais tocante.”
Barry Lyndon (Inglaterra, 1975), de Stanley Kubrick. Com Ryan O’Neal (Barry Lyndon), Marisa Berenson (Lady Lyndon).
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008
Eva (Jeanne Moreau) está sentada em um café na Praça São Marcos. Seu belo rosto reflete em um espelho de mão. Tyvian (Stanley Baker) se aproxima, diz algo ao seu ouvido, mas é repelido. Ele se afasta, dizendo que vai esperá-la no bar. Corta para plano geral da praça ainda vazia nesta manhã de inverno. Corta para plano mais próximo, lenta panorâmica passeia pela praça, mostra o canal, as gôndolas ancoradas, a câmera continua em seu giro, agora na avenida que margeia o canal, a ponte de um dos pequenos canais ao fundo, até terminar na escultura encravada em um dos prédios. Entra locução em off: “E ao oriente do Jardim do Éden colocou querubins com uma espada de chamas que revolvia para guardar o caminho da árvore da vida”.
É das belas imagens do filme Eva (Inglaterra, 1962), de Joseph Losey. Veneza é protagonista, representa a dualidade que parece dominar a cidade: amor e tragédia. Há outras cenas: a imponente e misteriosa casa de Tyvian que é invadida por Eva em uma noite de tempestade; o majestoso hotel com janelas abertas para o grande canal, em cujos quartos se consumem amores e riquezas; jovens escritores e cineastas esquiando no mar com a cidade ao fundo; Eva sozinha na Praça de São Marcos, o cortejo de gôndolas sob a chuva no grande canal; Sergio e Tyvian em pé nos barcos se encarando e encarando o destino de Francesa (Virna Lisi). Em algumas cenas, Billie Holiday com sua voz lânguida anuncia a tristeza para quem ama em Veneza.
Tyvian é escritor de sucesso e tem seu livro adaptado para o cinema pelo produtor Sergio Blanco. Os dois amam a bela Francesca. Em uma misteriosa noite de tempestade, Tyvian conhece Eva, prostituta de luxo de Roma que passa finais de semana em Veneza com ricos comerciantes. É a história comum no cinema de homens ricos e bem-sucedidos que se entregam à paixão e devassidão por uma mulher fatal. É a essência de Veneza.
A mesma cidade de Morte em Veneza (Itália, 1971), de Luchino Visconti, que começa com a imagem na penumbra de um barco a vapor, o músico Gustav triste e solitário lendo e cochilando na proa, com pesadas vestes de inverno. Ao longe, ele avista Veneza que aos poucos toma conta da cena e da sua vida. A mesma cidade de Inverno de Sangue em Veneza (ITA/ING, 1973), de Nicholas Roeg, que também apresenta uma bela cena de um cortejo fúnebre cortando o canal da cidade, o restaurador John (Donald Sutherland) em pé na ponta do barco, contemplando a majestosa cidade. A mesma cidade que fascina a todos que passeiam pelas vielas estreitas, pelos canais, inspirando desde a simples contemplação até a entrega total a esta Veneza triste e trágica do cinema.
É dos mais deslumbrantes musicais de todos os tempos. Victoria Page (Moira Shearer), jovem aspirante a bailarina, cai nas graças do empresário Boris Lermontov (Anton Walbrook). Após performance antológica de Victoria em um musical baseado na história de Hans Christian Andersen, Bóris decide transformá-la na maior bailarina de todos os tempos, mas ela deve abdicar de sua vida pessoal e se dedicar integralmente à arte.
Passo a passo, mestre e pupila desenvolvem relação de amor e ódio, encaminhando a narrativa para a tragédia anunciada pelo próprio balé que consagrou Victoria. Os números musicais são repletos de experimentações pictóricas, coreografia, direção de arte e interpretações solos e coletivas dos dançarinos em perfeição estética raras vezes vistas no gênero.
“A heroína é cercada por telas de fundo estranhas, dignas de contos de fadas, para o exuberante balé, porém, o desenhista de produção Hein Heckroth, o diretor de arte Arthur Lawson e o fotógrafo Jack Cardiff trabalham duro para tornar as cenas fora dos palcos aparentemente normais tão ricas e exóticas quanto os momentos de destaque no teatro. (…). Contando com cores brilhantes maravilhosas, uma seleção de músicas clássicas que fogem ao clichê e um viés sinistro que captura perfeitamente a ambiguidade do tradicional, ao contrário dos contos de fadas da Disney, esta é uma obra-prima exuberante.”
Os sapatinhos vermelhos (The red shoes, Inglaterra, 1948), de Michael Power e Emeric Pressburger. Com Anton Walbrook, Marius Goring, Moira Shearer, Robert Helpmann.
Fonte: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
No final de O Leão no inverno (The lion in winter, Inglaterra, 1968), a rainha Eleanor (Katharine Hepburn) se entrega ao desespero, dizendo “Quero morrer, quero morrer”. O rei Henry (Peter O’Toole) a consola: “Você vai morrer algum dia, sabia disso? Espere mais um pouco e acontecerá”. Ela sorri.
Pouco depois, ao se despedirem, Henry grita para Eleanor que se afasta em um barco, “Sabe, espero nunca morrermos.” “Eu também”. Henry então grita, expressão de espanto, “Acha que isso é possível?” e começa a gargalhar, abre os braços e ri sem parar. Eleanor também ri abertamente no barco, um dos braços estendidos.
O leão no inverno segue a tradição cinematográfica da Inglaterra de adaptar grandes textos teatrais da língua inglesa. O filme se passa quase inteiramente no interior do castelo, gira em torno dos conflitos para a sucessão do rei Henry que deve escolher entre seus três filhos. Escolha que leva a degradação e disputas fratricidas.
É um filme lento como muitos filmes que seguem a estrutura teatral. Sua força está no texto e nas interpretações de dois atores consagrados que incorporam essa iminente aproximação da morte. O embate entre Katharine Hepburn e Peter O’Toole remete ao desperdício da vida e à falta de esperanças.
O filme, dirigido por Anthony Harvey, foi indicado a sete oscars e ganhou três, incluindo a terceira estatueta de melhor atriz para Hepburn (ela ainda ganharia mais uma, até hoje a recordista nesta categoria). É um filme que se deve assistir duas, três vezes, prestando atenção nas frases, anotando, se deixando levar pela desilusão serena destes dois grandes personagens (atores) “Nós dois estamos vivos. E pelo que eu entendo, isto é esperança.” – diz Henry olhando para o vazio.
Quatro assaltantes, liderados por Harry (Liam Neeson), executam assalto, são perseguidos pela polícia e executados durante tiroteio em uma garagem. O dinheiro era destinado a um político que lidera a máfia em Chicago. O político ameaça Verônica (Viola Davis), mulher de Harry, caso não consiga reaver o dinheiro. Verônica reúne as outras viúvas do assalto fracassado para arquitetar um novo golpe e devolver o dinheiro.
O filme é adaptado de série inglesa dos anos 80. A ação dá o tom da narrativa, com fortes papéis femininos e virada de roteiro que revela intrincados jogos de poder nos processos eleitorais. Viola Davis domina a película, marcada pela crítica social e política.
As viúvas (Widows, Inglaterra, 2018), de Steve McQueen. Com Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Colin Farrell, Liam Neeson.
Keira Knightley encarna a escritora Colette que revolucionou a literatura erótica no final do século XX a partir da publicação do livro Claudine na escola. No entanto, o livro é assinado pelo marido, Willy, famoso editor da época. Com o sucesso do livro, Willy força Colette a escrever série baseada nas aventuras sexuais de Claudine. O estilo de vida do casal combina com as narrativas, os dois enveredam por jogos sexuais com diversos parceiros.
O filme aborda um problema comum nas conservadores sociedades da época: mulheres que abdicam da autoria de obras artísticas para viverem à sombra dos maridos. A libertação de Colette acontece enquanto ela se reconhece nas aventuras amorosas até que se apaixona por uma jovem que assume identidade masculina na aristocrática elite francesa.
Colette (Inglaterra, 2018), de Wash Westmoreland. Com Keira Knightley, Dominic West, Eleanor Tomlinson, Denise Gouch.
No começo do filme, Miss Shepherd está dirigindo van pela estrada e bate em algo. Sangue no vidro trincado sugere atropelamento. A motorista foge e é perseguida por um policial. Corta para muitos anos depois, Miss Shepherd é uma velha moradora das ruas de Londres, dorme em sua van estacionada em bairro de classe média. O vidro trincado lembra do passado.
A narrativa é contada pelo ponto de vista de Alan Bennett, escritor que se vê envolvido pela senhora da van: ela mora em frente a sua casa, com o tempo, estaciona dentro da garagem. Bennet conta a história interagindo com seu duplo escritor, interessante analogia do olhar do homem comum e do olhar do artista que vê o mundo com criatividade e imaginação.
O filme é baseado em fatos reais. O dramaturgo Alan Bennett conviveu com Miss Shepherd durante 15 anos no bairro londrino de Camden Town. A história virou peça teatral de sucesso e foi adaptada para o cinema pelo próprio autor.
A senhora da van (The lady of the van, Inglaterra, 2015 ), de Nicholas Hytner. Com Maggie Smith (Miss Shepherd), Alex Jennings (Alan Bennett), Deborah Findlay (Pauline
Cidade litorânea da Inglaterra, final da década de 50. A recém viúva Florence Green chega à cidade, se encanta e acalenta sonho que luta para realizar: abrir uma livraria na velha casa que alugou. A empreitada encontra resistência em Violet Gamart, representante da conservadora sociedade local.
A livraria é dos filmes que coloca cena a cena o amor pela literatura. Florence troca correspondências sobre livros com o recluso Edmund Brundish e passa a enviar para ele edições novas. A pequena Christine acompanha tudo com o olhar infantil, ajudando Florence na livraria. O final, triste mas esperançoso, revela como os livros podem modificar a vida das pessoas.
A livraria (The bookshop, Inglaterra, 2018), de Isabel Coixet. Com Emily Mortmer (Florence Green), Bill Nighy (Edmund Brundish), Patricia Clarkson (Violet Gamart).
Juliet Ashton (Lily James) recebe carta de fazendeiro da pequena ilha de Guernsey, situada no Canal da Mancha. Ele pede dicas de leitura para trocar com os membros do grupo de leitores do qual participa, intitulado A sociedade literária e a torta de casca de batata. Em crise criativa, a jovem escritora parte para a ilha intrigada com o grupo com nome inusitado, buscando material para um novo livro.
O amor pela literatura é o tema de mais um belo filme de Mike Newell (Quatro casamentos e um funeral). O grupo de leitura foi criado durante a ocupação nazista como forma de resistir aos tempos sombrios. Os integrantes escondem um segredo do passado que Lily tenta desvendar. A deslumbrante paisagem da ilha, a singela amizade dos componentes do grupo, o amor que começa a florir – Lily está no meio de tudo isto com o olhar de escritora. Filme para amantes dos livros.
A sociedade literária e a torta de casca de batata (The guernsey literary and potato peel pie society, Inglaterra, 2018), de Mike Newell. Com Lily James, Michiel Huisman, Tom Courtenay, Katherine Parkison, Matthew Goode.