Tag: Líbano

  • Todos nós pela pátria

    Todos nós pela pátria (Kulluna lil watan, 1979), de Maroun Bagdadi, começa com o cortejo fúnebre de um jovem assassinado em um conflito da Guerra Civil Libanesa. O cortejo é formado por soldados armados com poderosas armas militares, aldeões, mulheres que gritam frases de lamentos pela perda e berram por vingança. Montagem alternada contrapõe o cortejo com tanques de guerra transitando por uma estrada de terra. 

    A sequência termina com imagens do cemitério e do descampado ao lado, iniciando um clipe: pessoas andando por aldeias, lavradores nos campos, moradores em seus afazeres domésticos, ao som da canção.

    “Somos o povo do sul, percorremos as cidades narrando sua história sobre os vales e as águas mais puras. As ruínas de nossos filhos e suas armas que cobrem as encostas das montanhas. E tudo testemunhamos em silêncio. A cada aurora mais um fuzil tomba na montanha e tudo testemunhamos em silêncio. Mas o dia virá em que guiaremos as lâminas dos arados contra sua carne e seus corações corrompidos. Oh Ali! Oh Ali! Figura firme e imponente. Terra estéril que guarda trovões. Coração que desliza nas águas da pátria. As lágrimas das mães te levaram cedo demais ao seu fim prematuro. Oh Ali! Somos o povo do sul, meu coração é do sul e meu tambor é do sul. E um dia, como tu, estarei numa terra menos gloriosa. Meu amor há de me matar. Minha dor há de me matar. Oh Ali! Somos o povo do sul… “

    O documentário de Maroun Bagdadi retrata a crueldade da Guerra Civil Libanesa (1975/1990), com destaque para a cobertura da intervenção militar de Israel no sul do país. O título é uma referência ao verso que introduz o hino nacional do Líbano: “Todos nós pela pátria, pela glória e pela bandeira.” 

    A estrutura do filme segue o estilo documental, a câmera registrando imagens de pessoas afetadas diretamente pela guerra, de refugiados, de soldados em vigília, prontos para a luta. A montagem alterna imagens captadas com imagens de arquivo. 

    O filme termina com uma sucessão de cenas de crianças em plano fechado dizendo “Sou do sul.” Depois, em grupo, elas cantam o hino nacional do país. A cena foi improvisada pelo diretor, evidenciando o tom do cinema direto.

  • Beirute, oh Beirute

    Em abril de 1975, após um tiroteio perto de uma igreja cristã em Beirute, milicianos cristãos pararam um ônibus que transportava civis e combatentes palestinos. Vinte e sete passageiros foram assassinados, conflito conhecido como o Massacre do ônibus de Ain el-Rommanel. Os conflitos se espalharam pela capital, iniciando a Guerra Civil Libanesa que durou até 1989. 

    Beirute, oh Beirute (Beyrouth ya Beyrouth, Líbano, 1975), de Maroun Bagdadi, foi finalizado pouco antes desses conflitos. A narrativa acompanha jovens de diferentes origens sociais e religiosas, alguns ativistas dispostos a atos violentos, outros pessoas comuns que tentam entender a realidade social, política e religiosa que coloca o Líbano sempre à beira de massacres. 

    Kamal é um advogado idealista da classe média que tenta defender os direitos dos trabalhadores, enfrentando a corrupção do sistema judiciário. Yassine, jovem da zona rural, trabalha como servente em uma universidade e faz parte de um grupo que prega o combate. Hala, jovem estudante da burguesia,  luta por seus direitos dentro dessa sociedade dominada pelos preceitos patriarcais. O professor Emiel enfrenta a rebeldia estudantil dentro da universidade, mas se vê impotente diante dos conflitos que se alastram pelas ruas. 

    O diretor Maroun Bagdadi trabalha com um estilo documental, a câmera acompanhando a tensão entre os cidadãos nas ruas, a cidade se apresentando também como protagonista do filme. O final antecipa os violentos conflitos que se instauraram poucos dias depois e mergulharam o Líbano em uma ensandecida e sangrenta cruzada religiosa.