O musical de Black Edwards gira em torno do envolvimento de Lili e Larrabee, com toques de comédia, romance, cenas de batalhas aéreas, tudo pontuado por belas canções, a maioria na inesquecível voz de Julie Andrews. O roteiro não apresenta novidades ao gênero, melhor mesmo é se entregar às canções e ao belo final, quando Lili repete o número de abertura. Impossível não se emocionar ao ouvir a música, cuja belíssima letra simboliza os obscuros tempos de guerra:
Penso sempre que este mundo velho e triste Está assobiando na escuridão Como uma criança que sai tarde da escola E bravamente atravessa o parque ao voltar para casa Para criar coragem e manter a noite à distância Sem saber exatamente o caminho a tomar Cantando para afugentar as sombras
Penso sempre que o meu pobre coração Desistiu de vez até que eu vejo um novo rosto Ou vislumbro uma nova vizinhança Então, me leve para casa meu amor Diga que os sonhos se realizam de fato Assobiando, assobiando, aqui no escuro com você.
Lili – Minha adorável espiã (Darling Lili, EUA, 1970), de Black Edwards. Com Julie Andrews, Rock Hudson, Jeremy Kemp
Segunda guerra mundial. Em pequena cidade do interior da França ocupada, Marie cuida de seus dois filhos pequenos enquanto seu marido está em combate. Ela é bem sucedida ao ajudar sua vizinha a fazer um aborto. Quando seu marido é dispensado devido a ferimentos, Marie tem que se virar para sustentar a família e passa a ganhar dinheiro com abortos e com aluguel de um quarto para a amiga prostituta receber seus clientes.
Isabelle Huppert foi premiada em festivais pelo desempenho como a jovem impetuosa e inconsequente que tenta não apenas sobreviver, mas ascender socialmente durante a guerra com atividades clandestinas. Não se vê como delinquente, é apenas seu modo de ganhar a vida e ajudar as mulheres. Em contrapartida, seu marido fecha os olhos para tudo, aceitando sem questionar o dinheiro de Marie. A crueldade e hipocrisia da guerra afloram no final, quando os homens decidem que Marie deve ser punida exemplarmente, enquanto eles mesmos enviam e executam crianças judias nos campos de concentração.
Um assunto de mulheres(Une affaire de femmes, França, 1988), de Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert (Marie Latour), François Cluzet (Paul), Nils Tavernier (Lucien), Marie Brunel (Ginette).
Grupo de criminosos, todos condenados à morte ou prisão perpétua, aceita participar de exploração espacial. O destino da nave é encontrar um buraco negro nos confins da galáxia. O filme é contado sob o ponto de vista de Monte (Robert Pattinson) que no início da trama está sozinho na nave com uma bebê. Narrativa em flash back elucida o destino dos outros tripulantes.
O olhar da diretora Claire Denis se volta para os instintos que dominam homens e mulheres enclausurados, cujo passado violento aflora e precisa ser controlado através do uso de drogas. Os tripulantes são manipulados pela inescrupulosa médica Dibbs (Juliette Binoche), cujo crime que cometeu, segundo ela mesma, é o único digno do nome. O final enigmático faz referência clara ao maior filme de ficção científica de todos os tempos: 2001 – Uma odisséia no espaço.
High life – Uma nova vida (High life, EUA, 2018), de Claire Denis. Com Robert Pattinson, Juliette Binoche, André Benjamin. Mia Goth, Agata Buzek.
Billi (Awkwafina) está conversando com sua avó Nai Nai (Zhao Shuzhen) ao telefone. Ela mora em Nova York, a avó em Pequim, as duas têm uma íntima relação apesar da distância. Nessa ligação, Billie ouve sons estranhos, pois Nai Nai está em uma clínica esperando resultados de seu exame. O diagnóstico é câncer terminal no pulmão.
A partir da notícia, que só Nai Nai não fica sabendo, a família se reúne uma última vez em Pequim para a despedida. O medo de todos é a jovem impetuosa Billi, que não consegue esconder suas emoções, revelar à avó o motivo da reunião.
O tom de comédia da narrativa discute temas importantes relacionados à família que se distancia. Billie mora com os pais em Nova York, tenta sem sucesso uma bolsa de estudos na Universidade. Ainda dependente dos pais, Billi se sente cobrada e sem rumo em um país estranho que roubou sua identidade: ela nem mesmo domina mais a língua chinesa. Seus tios e primo moram no Japão, também em busca de alternativas. O choque das culturas assimiladas é marca forte da narrativa, quando a família se reúne em volta da carinhosa e independente Nai Nai não sabem mais como lidar com a partida iminente. No final do filme, impossível não se entregar às imagens da China cosmopolita, moderna, vista pelos olhos de Billi de dentro do carro ao som da belíssima trilha sonora.
A despedida (The farewell, China, 2019), de Lulu Wang. Com Aukwafina, Zhao Shuzhen, Tzi Ma, Diana Lin, Hong Lu.
É o último filme do grande Fellini. Sua despedida do cinema segue as marcas que deixou em uma das mais brilhantes filmografias da história do cinema: sonho, fantasia, surrealismo, atmosfera circense, personagens que transitam pelo mundo como se navegassem por outras dimensões.
Ivo Salvini (Roberto Benigni) ouve vozes à noite, imaginando que um poço conversa com ele. Enquanto os outros personagens se entregam aos prazeres mundanos, como ver pela janela uma mulher se desnudando, Ivo vive entre o seu passado e as ilusões do presente, ou seja, no mundo da lua. Ele é guiado pela poesia, pelas imagens oníricas de um mundo que talvez só exista em sua mente e coração, se revela dessas pessoas únicas capazes de ouvir a voz da lua.
A voz da lua (La voce della luna, Itália, 1990), de Federico Fellini. Com Roberto Benigni, Paolo Villaggio, Nada Ottaviani. ,
O filme abre com Edu (Flávio Migliaccio) na praia, conversando com o espectador. O personagem divaga sobre a impossibilidade de amar, pois são muitas mulheres no mundo. O encontro de Edu com Paulo (Paulo José) em uma rua do Rio de Janeiro provoca virada na narrativa, pois os dois sentam-se em um bar e Paulo passa a contar sua história de paixão pela professora Maria Alice (Leila Diniz).
A ideia do diretor Domingos de Oliveira era fazer dois filmes, um centrado em Edu e outro em Paulo. Acabou optando apenas pelas desventuras de Paulo tentando conquistar Maria Alice e renegar todas as suas outras mulheres. O filme tem inclusive dois momentos iniciais de créditos, em uma ousada abertura apresentando os protagonistas (é clara a influência da nouvelle-vague francesa nas estratégias narrativas ao longo do percurso).
“O filme segue um estilo narrativo que o Cinema Novo também prezava, evitando o plano e contraplano em favor de planos mais longos e com espaço para o improviso. Mas Todas as mulheres do mundo era um contraponto solar e descontraído (e necessário) à sisudez do movimento liderado por Glauber Rocha, que não tinha praticamente nenhum espaço para o humor ou romance. Como era de se esperar, o filme foi atacado na época como ‘alienado’”. – Renato Félix.
Domingos de Oliveira idealizou o filme como uma declaração de amor à Leila Diniz (seu primeiro trabalho no cinema) com quem fora casado recentemente. Cada frame parece destinado a evidenciar a beleza da atriz e a beleza do amor. Deve-se considerar que o ponto de vista narrativo é masculino, portanto sujeito às inconsequências da época, colocando Paulo como o conquistador dominante, a quem as mulheres se entregam.
“A idealização faz certo sentido, tendo em vista que acompanhamos a história pelo que Paulo nos conta. Quando ele não se aguenta e comete a inconfidência de contar a Edu como é Maria Alice na cama, somos obrigados a acreditar nele. Em seu próprio ponto de vista de aspirante a escritor, é natural se retratar como um exímio frasista e a amada como musa – o que vale também para o diretor-roteirista.” – Renato Félix.
No final, Paulo se redime. Indagado por Edu sobre a impossibilidade de amar uma mulher, Paulo afirma sua entrega à Maria Alice e ao maravilhoso fruto desse amor: a família.
Todas as mulheres do mundo (Brasil, 1967), de Domingos de Oliveira. Com Leila Diniz, Paulo José, Joana Fomm, Ivan de Albuquerque, Irma Alvarez, Flávio Migliaccio.
Jeanne (Juliette Binoche), ensaísta e jornalista francesa, viaja a uma floresta do Japão. Seu objetivo é encontrar Vision, erva medicinal rara que floresce a cada 997 anos, espalhando esporos capazes de curar a angústia espiritual da humanidade. Durante a viagem, ela conhece Tomo (Masatoshi Nagase), solitário caçador que mora na floresta.
O filme é uma viagem imagética pela misteriosa floresta, a narrativa oscilando entre o presente e memórias dos personagens que caminham para o encontro com vision. Quando um terceiro e misterioso personagem entra em cena, Jeanne se entrega cada vez mais às memórias, à sua própria angústia. A direção de fotografia emoldura cada frame da bela floresta, como se fossem visões da beleza desse mundo místico, que exige de nós a contemplação e a entrega espiritual, sem buscar explicações.
Vision (Japão, 2019), de Naomi Kawase. Com Juliette Binoche, Masatoshi Nagase, Mirai Noriyama.
O primeiro verão acontece em 2016 (ano do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff), em pleno funcionamento da Operação Lava Jato. O cenário é uma luxuosa casa à beira-mar em Angra dos Reis. O empresário Edgar e sua mulher Marta recebem familiares e convidados para as festas de final de ano. Madalena, caseira do local, organiza tudo com dedicação e bom-humor.
Os dois verões seguintes se passam no mesmo local, com reviravoltas que refletem a realidade brasileira da elite envolta em esquemas de corrupção e os trabalhadores da luxuosa mansão tentando sobreviver. Madalena é envolvida inconsequentemente pelas investigações da polícia, enquanto alimenta sonhos utópicos de simplesmente ter um quiosque de quitutes na beira da estrada.
Regina Casé, como sempre, conduz a narrativa com talento. Madalena busca alternativas para cuidar de todos os empregados da casa e de Seu Lira, pai de Otávio. Destaque para a revelação de Madalena em frente à câmara, expondo com profunda tristeza a realidade de cidades como Angra dos Reis, dividida em ilhas paradisíacas, mansões e iates luxuosas, e os morros que abrigam a pobreza, onde moradores saem de casa sem saber o que vão encontrar na volta.
Três verões (Brasil, 2019), de Sandra Kogut. Com Regina Casé (Madalena), Otávio Muller (Otávio), Gisele Fróes (Marta), Rogério Fróes (Seu Lira).
No início do filme, Fermin (Ricardo Darín) está com sua esposa e o amigo anarquista em frente à um galpão abandonado, localizado em pequena província de Buenos Aires. Fala sobre seu projeto: comprar o galpão e construir uma cooperativa que beneficie todos os moradores da cidade. Seu amigo pergunta se aquele é um bom momento, Firmin diz que é o melhor momento. Lettering indica: Argentina, 2001.
É o ano de uma das maiores crises financeiras da história da Argentina, quando o governo apelou para o confisco do dinheiros dos cidadãos. Firmin parte em uma jornada pela cidade, arrecadando dinheiro entre os moradores interessados que raspam suas economias para investir no projeto. A primeira reviravolta acontece quando tudo o dinheiro é depositado em uma conta bancária, na véspera do confisco.
Baseado no livro La noche de la usina, de Eduardo Sacheri, a trama provoca algumas reviravoltas, principalmente quando o grupo dos tontos descobre que foi ludibriado pelo gerente do banco e um inescrupuloso advogado. Buscando justiça, os tontos, liderados por Firmin, partem em uma série de atos para recuperar o dinheiro. Drama e humor mesclam a narrativa, pontuada pela crítica aos planos de governos (a exemplo do Brasil de Collor) que favoreceram a elite que, claro, são informadas antes das ações, e jogam as classes menos favorecidas no poço sem fundo. Ricardo Darín é a grande estrela do filme.
A odisseia dos tontos (La odisea de los giles, Argentina, 2019), de Sebastián Borensztein. Com Ricardo Darín, Luis Brandoni, Verónica Llinás,Andrés Parra, Carlos Belloso, Chino Darín, Daniel Aráoz.
Com sugestões autobiográficas, Salve-se quem puder apresenta Paul Godard, diretor de cinema às voltas com a realização de um filme e o relacionamento com sua namorada, Denise, que resolve se mudar para o campo. Entre os dois, surge a prostituta Isabelle, que teve Paul como antigo cliente. A narrativa é dividida em três partes, cada uma centrada em um personagem: O imaginário, O medo e O comércio.
O tom anárquico, criticamente sem escrúpulos sobre a sociedade, está presente em imagens perturbadoras. Em uma sequência, Isabelle atende a um empresário em seu escritório que a faz participar de orgia comandada por ele como quem dirige seus trabalhadores na linha de montagem. O cinema também não escapa ao olhar mordaz de Godard, a reflexão se interpõe durante a narrativa, abordando a indústria e os próprios caminhos do cineasta.
“Salve-se quem puder é um filme sobre escolhas, mas também sobre a dificuldade de ser livre por meio delas (‘Ninguém no mundo é independente. Apenas os bancos são independentes. Mas os bancos são assassinos’). É, ao mesmo tempo, um filme sobre o isolamento e sobre a necessidade do outro, num mundo tomado pela lógica absurda do capitalismo. À sua maneira contemplativa e quase naturalista, a fotografia de W. Lubtchansky e R. Berta constrói o retrato melancólico desse novo mundo. O espectador pode sentir assim a emoção contraditória desse pessimismo, dessa falta de perspectiva em torno das coisas, que reina à espera de que algo novo comece, ou de que um resto de beleza apareça.” – João Dumans
Salve-se quem puder (a vida) (Sauve qui peut (La vie), França, 1979), de Jean-Luc Godard. Com Jacques Dutronc (Paul Godard), Isabelle Huppert (Isabelle), Nathalie Baye (Denise Rimbaud).
Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo da mostra sobre Godard – Cine Humberto Mauro: Belo Horizonte, realizada em 2015/2016.