Autor: Robertson B. Mayrink

  • Sangue em Sonora

    Matteo chega em Ojo Prieto, cidade fronteiriça com o México, montado em um belo cavalo da raça appaloosa. Vai a igreja se confessar, pedindo perdão pelos inúmeros assassinatos que cometeu, a maioria durante a guerra. A bela mexicana Trini também está na igreja e, na saída, diz ao seu namorado Chuy Medina que foi assediada por Mateo. Ela usa o pretexto para fugir no cavalo de Matteo. 

    Esses encontros e provocações dentro e fora da igreja são o plot da narrativa, abrindo o conflito entre Matteo e o bandoleiro Chuy Medina, chefe de uma gangue em Sonora, no México. Sangue em Sonora se enquadra nos filmes de faroeste que provocaram revisões no gênero a partir do anos 50. Matteo quer se livrar de seu passado de marginal, jovem inconsequente que saiu pelo oeste em busca de fortuna. O appaloosa do título é seu trunfo para voltar para o seio da família que o criou e dar início a uma pacata vida de rancheiro. No entanto, ele deve partir novamente para acertar as contas com Medina, que se posiciona como espécie de justiceiro contra os americanos, a quem acusa de terem roubado tudo dos mexicanos. Marlon Brando, claro, por si só já vale o filme.   

    Sangue em Sonora (The appaloosa, EUA, 1966), de Sidney J.Furie. Com Marlon Brando (Mateo), John Saxon (Chuy Medina), Anjanette Comer (Trini).

  • Blácula – O vampiro negro

    O movimento blaxploitation do início dos anos 70 fez a releitura do clássico vampiro.1780, Transilvânia. Mamuwalde, príncipe africano, e sua esposa Luva são convidados do castelo do Conde Drácula. O príncipe pede o apoio do Conde para ajudar a extinguir o tráfico de escravos. Começa a discussão, Drácula destila rascismo, justificando a ascendência dos brancos europeus sobre os negros. Mamuwalde se revolta, após ser mordido e sofrer a mutação é enclausurado em um caixão e amaldiçoado. Sua esposa Luva é deixada presa ao lado do marido para definhar até morrer. 

    A trama segue os princípios básicos da narrativa de Bram Stoker. Nos anos 70 do século XX, casal de decoradores negros arremata o castelo e leva para Los Angeles artefatos da mansão, entre eles o caixão. Blacula renasce, começa a aterrorizar a cidade e encontra a encarnação de sua amada Luva. 

    Como boa parte das películas do importante movimento dos anos 70, os traços de filme B estão presentes em toda a trama. Outra marca do blaxploitation também está presente: números musicais em bares e boates, cantoras e grupos musicais interpretando belas canções afros. O ponto forte do filme é a história de amor entre Mamuwalde/Blacula e Luva. Luva se entrega ao seu destino e Mamuwalde protagoniza um emocionante sacríficio final. 

    Blácula – O vampiro negro (Blácula, EUA, 1972), de William Crain. Com William Marshall, Vonetta McGee, Denise Nicholas. 

  • Todas as canções de amor

    Maria Gadú assina a bela trilha sonora, grande trunfo do filme. Anna e Chico, recém-casados, se mudam para um apartamento. Anna descobre um som 3×1 guardado em um cômodo, junto com uma fita cassete escrita “Todas as canções de amor.” À medida que escuta as músicas, se interessa e passa a escrever a história de Clarisse, autora da seleção de músicas, presente para seu marido Daniel. 

    São duas histórias permeadas pelos conflitos de casais, narradas pelo ponto de vista feminino. Anna tenta entender o casamento, o amor, a fita de Clarisse a faz retomar o desejo pela literatura, pela escrita. Nos anos 90, Clarisse luta contra a desilusão do casamento, da relação a dois, sofrendo pela incompreensão de Daniel, músico que nunca tocou uma canção de amor para ela. A trilha sonora eclética traz, entre outras canções, Não aprendi a dizer adeus, Drão, Codinome Beija-Flor, I will survive, Chorando se foi. 

    Todas as canções de amor (Brasil, 2018), de Joana Mariani. Com Marina Ruy Barbosa (Anna), Bruno Gagliasso (Chico), Luíza Mariani (Clarisse), Júlio Andrade (Daniel). 

  • Cujo

    No início dos anos 80, estudei no Estadual Central. Acabada as aulas, descia a pé, só ou em turma, pela Rua São Paulo em direção ao centro. Cerca de dois quarteirões abaixo do colégio, uma bela casa, típica do bairro de classe média alta, deixava a vista adentrar pela grade, se deparar com o jardim e dois grandes cachorros São Bernardo, lindos, imponentes. Os cães andavam do característico jeito desengonçado até a cerca, metiam os focinhos pela grade a espera de carinho. Impossível não estender a mão, se abaixar e morrer de vontade de rolar na grama com dois gigantes tão carinhosos, infantis. 

    Quando Cujo (EUA, 1983), de Lewis Teague estreou nos cinemas mais ou menos na mesma época, o terror tomou conta de mim. Não necessariamente pelo filme em si, produção de baixo orçamento, o típico terror B que imperava na época. Durante dias não consegui me desvencilhar da premissa: o horror, movido por razões incompreensíveis, como vírus que se apossam do corpo após uma mordida de morcego,  pode irromper dos seres mais dóceis. Um cão São Bernardo. 

    Baseado na obra de Stephen King, livro lançado em 1981 como Cão RaivosoCujo centra a narrativa em um casal em crise. Donna Trenton (Dee Wallace) e Daniel Hugh Kelly (Vic Trenton) têm um filho, Tad (Danny Pintauro). Donna tem um caso com um belo morador da pequena cidade litorânea onde vivem e o casamento caminha para a separação. 

    No entanto, Cujo é o protagonista. No início do filme, o cão corre meio como brincadeira atrás do coelho no bosque. Passa por gramados, arbustos, riacho e enfia a grande cabeça na toca do coelho. Os latidos de Cujo despertam a ira de morcegos no teto, pois o que era aparentemente uma toca de coelho é, na verdade, refúgio destes aterradores seres noturnos. Após a mordida, a narrativa acompanha uma das grandes transformações de personagem. 

    O animal começa a lutar consigo mesmo, alternando entre a tradicional docilidade e atitudes raivosas que selam seu destino. Em alguns momentos, o cão se afasta de pessoas com quem convive, como se em fuga do instinto desconhecido que começa a tomar conta. Aos poucos, as alternativas estéticas e de linguagem do fascinante cinema B ajudam o espectador a se defrontar como emoções que variam do puro medo ao repúdio (como eu) por colocarem o São Bernardo nesta situação. 

    “A fotografia de Jan de Bont, a montagem de Neil Travis e a trilha sonora de Charles Bernstein são alguns dos elementos que transformam a obra em uma experiência fascinante e também angustiante. O confinamento de Donna e Tad num carro faz do ambiente claustrofóbico uma ameaça tão grande quanto o animal que os cerca. Destaque ainda para os departamentos de arte e maquiagem, principalmente na abordagem do cachorro. Eles conseguiram transformar um belo animal em algo realmente horripilante. Para isso, não se preocuparam com excessos. É gore, é para ser grotesco. E é por isso que funciona de forma tão eficiente.” – Lucas Salgado. 

    Ainda hoje, ao rever o filme, não consigo me assustar com a impressionante sequência do carro parado em frente à velha e suja oficina, o cão tentando matar mãe e filho enclausurados. Só consigo pensar que um São Bernardo não merece se transformar naquela grotesca encarnação do mal. 

    Referência: Stephen KingO medo é seu melhor companheiro. Breno Gomes e Rita Ribeiro (org.).  Catálogo da mostra patrocinada e exibida no Centro Cultural Banco do Brasil. 

  • Natalie Wood – Aquilo que persiste

    Em 1981, a atriz Natalie Wood morreu afogada próximo a Ilha Catalina, costa da Califórnia. Estavam com ela no barco seu marido, o ator Robert Wagner, o também ator Christopher Walken e o cuidador do barco. 

    A primeira parte do documentário, feito por Natasha Gregson Wagner, filha da atriz, relembra a trajetória de Natalie Wood, com destaque para o primeiro casamento com o ator Robert Wagner. Os dois se separaram poucos anos depois e na década de 70 reataram o matrimônio. Os relatos, que incluem depoimentos de amigos como Robert Redford e Mia Farrow, de familiares, de integrantes do sistema hollywoodiano apresentam uma Natalie Wood dedicada à carreira desde os cinco anos de idade. Trechos de entrevistas da própria atriz ajudam a entender os conflitos entre os lados profissional e pessoal de Natalie Wood.

    A segunda parte é dramática, pois reconstitui os incidentes que culminaram na trágica morte por afogamento. O destaque é a longa entrevista concedida por Robert Wagner à Natasha Gregson Wagner, relatando passo a passo os dias anteriores e a noite do “acidente”. O propósito da entrevistadora é claro: dirimir todas as dúvidas a respeito da morte da mãe, tentando inocentar Robert Wagner das suspeitas. O caso foi reaberto em 2011, a pedido da irmã da atriz, que sempre suspeitou de assassinato, afirmando que Natalie Wood foi asfixiada e depois jogada na água. Robert Wagner nega essa versão e Christopher Walken sempre se recusa a tocar no assunto. 

    Tudo indica que é um caso sem solução, portanto, o melhor de Natalie Woode – Aquilo que persiste, são as cenas de trechos de filmes nos quais a atriz trabalhou, principalmente O milagre da Rua 34Juventude transviadaClamor do sexo e West side story. Cenas dos filmes e depoimentos de profissionais mostram a história de uma das atrizes mais belas, talentosas e polêmicas de Hollywood que lutou contra o sistema de estúdios, se rendeu à álcool e remédios, se envolveu em inúmeros casos amorosos que alimentaram os tablóides de fofocas e sucumbiu em uma noite chuvosa, misteriosa, envolta em segredos que ninguém ousa revelar. 

    Natalie Wood – Aquilo que persiste (Natalie Wood: what remains behind, EUA, 2020), de Laurent Bouzereaut.

  • O discreto charme da burguesia

    A fase final da carreira de Luis Buñuel apresenta três obras-primas que funcionam como trilogía: Via láctea (1969), O discreto charme da burguesia (1972) e O fantasma da liberdade (1974). 

    A comédia O discreto charme da burguesia traz a marca surrealista de Buñuel em uma trama aparentemente banal: três casais de amigos burgueses tentam jantar juntos por vários dias, mas são interrompidos por acontecimentos inusitados. Estão sentados à mesa quando chega um pelotão do exército, entra na casa e anuncia que estão em treinamento na região. Vão a conhecido restaurante e antes de serem servidos, descobrem que o dono do estabelecimento está sendo velado na sala ao lado. Estão em casa de um dos anfitriões e, pouco antes do jantar, descobrem que o casal proprietário fugiu, repentinamente, todos fogem com temor que a polícia está para chegar. Em meio aos jantares, situações absurdas acontecem, mistura de sonho e realidade dos personagens. 

    “A estrutura narrativa é minuciosamente construída por interrupções: do ato de comer, do ato amoroso e do ato da fala. As personagens encontram-se tão impedidas em suas ações quanto as de O anjo exterminador, com a diferença de que não se encontram confinadas em um único espaço. O discreto charme da burguesia prenuncia a frustração causada em O fantasma da liberdade, em que a câmara passeia de um núcleo dramático para outro, abandonando-o antes de sua conclusão. Ao final da narrativa de O discreto charme, não se sabe a partir de que momento Acosta começou a sonhar – tanto pode ter sido durante toda a narrativa quanto apenas na sequência final. O imbricamento entre sonho e realidade é levado ao ponto de não se poder diferenciá-los.” – Erika Savernini. 

    O discreto charme da burguesia (Le charme discret de la bourgeoisi, França/Itália/Espanha, 1972), de Luis Buñuel. Com Fernando Rey, Paul Frankeur, Delphine Seyrig, Bulle Ogier, Stéphane Audran, Jean-Pierre Cassel, Julien Bertheau, Milena Vukotic, Michel Piccoli. 

    Referência: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004

  • Paixão

    Não existe trama definida em Paixão, de Godard. O filme é sucessão de cenas replicando imagens famosas de diversos pintores, incluindo Goya, Rembrandt, Delacroix, Ingres e El Greco. O cineasta polonês Jerzy está na Suiça tentando rodar seu filme no melhor estúdio do país. Ele está hospedado no hotel de Hanna, mas se envolve com outra bela mulher: Isabelle, jovem operária que acabara de ser demitida da fábrica onde trabalha pelo marido de Hanna. 

    Poderia ser apenas mais uma história de triângulo amoroso, mas as lentes de Godard transformam a película em experimento estético, transitando entre o cinema e as artes plásticas. Em meio às belas imagens, verdadeiros quadros fixos, o crítico Godard tece comentários sobre o fazer cinematográfico, cada vez mais dominado pelo dinheiro; o desmonte da luta dos trabalhadores simbolizada na Polônia dos anos 80; a luta de classes que coloca operários ao bel prazer de seus patrões. É o cinema de Godard: imageticamente político. 

    Paixão (Passion, França, 1982), de Jean-Luc Godard. Com Isabelle Huppert, Hanna Schygulla, Jerzy Radziwiłowicz, Michel Piccoli. 

  • Velvet buzzsaw

    Dan Gilroy imprimi olhar crítico e mordaz sobre o milionário mundo das artes, flertando com o gênero terror. Morf Vandewalt é crítico de artes requisitado, ou paparicado, pelas galerias para ajudar na elevação do preço das obras. Rhodora Haze é proprietária de galeria de sucesso, responsável por glorificar e lucrar com obras de artes contemporâneas. Josephina é assistente de Rhodora e, após achar centenas de peças no apartamento de seu vizinha que acaba de falecer, ascende de forma meteórica no circuito. 

    A premissa do filme é fascinante, pois as obras achadas escondem mistério sobrenatural que pode afetar quem tem contato com as peças. A sátira de Gilroy está na escolha do terror, pois o consumismo desenfreado e milionário, o lucro desmedido, a ambição, a crítica que eleva ou destrói, estão no cerne das tragédias que assolam as personagens. Destaque para a montagem alternada no final do filme, envolvendo os três protagonistas. 

    Velvet buzzsaw (EUA, 2019 ), de Dan Gilroy. Com Jake Gyllenhaal (Morf Vandewalt), Rene Russo (Rhodora Haze), Zawe Ashton (Josephina), Tom Sturridge (Jon Dondon), Toni Collette (Gretchen), Natalia Dyer (Coco), John Malkovich (Piers). 

  • Maria do Caritó

    Aos 50 anos, Maria do Caritó (Lilia Cabral) ainda é virgem, pois cumpre promessa feita pelo pai. Esteve perto da morte no parto, o pai orou para São Djalminha, prometendo que entregaria a filha casta ao santo. O clero e políticos da pequena cidade do sertão lucram com histórias difundidas pelos fiéis de que a virgem é milagreira. No entanto, Maria do Caritó também faz suas orações e simpatias, rezando por um marido antes de ser entregue ao claustro da igreja. 

    Baseado em peça de Newton Moreno, o filme foi realizado para Lília Cabral destilar seu talento cena a cena. Os diálogos bem-humorados encontram a mais legítima expressão da comédia na atriz, que encarna a mulher sedenta por prazer, queimando por dentro, enquanto desfila cética pelas ruas da cidade, recusando a santidade. A falsidade ideológica é o grande tema da película, retratando políticos, padres, moradores da cidade, o pai de Caritó, todos fingindo sem escrúpulos enquanto buscam o lucro através da lenda criada. O circo mambembe que chega na cidade vai ajudar a desmascarar, incluindo a própria Maria do Caritó que precisa se travestir de palhaça para se encontrar e provocar a reviravolta final. 

    Maria do Caritó (Brasil, 2019), de João Paulo Jabur. Com Lilia Cabral Gustavo Vaz, Juliana Carneiro da Cunha. 

  • Greta

    Marco Nanini é o grande destaque do filme, em papel ousado e fascinante. Ele é Pedro, enfermeiro de 70 anos que trabalha em hospital público. Certa noite, ele leva sua amiga transexual Daniela para o hospital, mas a falta de leitos impede a internação. Juan dá entrada no hospital com ferimentos após uma briga de bar que resultou na morte do oponente. Ele pede a Pedro que o tire do hospital, com medo de ser assassinado. Pedro atende ao pedido, conseguindo assim leito para Daniela, e abriga Juan em sua casa. 

    Parte do cinema recente brasileiro traz o mérito de mostrar sem pudor o submundo da sociedade. Em Greta, o diretor Armando Praça eleva o tom ao mostrar de forma às vezes explícita a rotina noturna dos hospitais públicos, dos bares impregnados de sexo, da miséria e tragédia que ronda personagens que transitam pela noite. O destaque da trama é a relação de Pedro e Juan, oscilando entre o perigo, o erotismo, a amizade e o amor. 

    Greta (Brasil, 2019), de Armando Praça. Com Marco Nanini (Pedro), Démick Lopes (Juan), Denise Weinberg (Daniela).