Categoria: Anos 50

  • O bígamo

    O filme abre com o casal Harry Graham e Eve em uma entrevista para adoção de uma criança. Estão na faixa dos quarenta anos, são profissionais de sucesso e a adoção é o sonho da esposa. Harry reluta, mostra-se apreensivo, reticente, Edmund Gwenn, o entrevistador remarca a entrevista e, perspicaz como um detetive, passa a investigar Harry. A descoberta não tarda a acontecer. Harry viaja muito a trabalho e, certo dia, ao abrir a porta de sua outra residência, se depara com Edmund. O som de uma criança recém nascida ressoa ao fundo e Phyllis entra em cena. 

    O título já revela ao espectador o tema da trama, portanto, não é surpresa a descoberta. A partir desse momento, O bígamo se transforma em um profundo estudo de personagens. Em flash back, Harry conta como conheceu Phyllis e a engravidou. Narrativa paralela revela o crescente distanciamento que vive com a esposa original, motivado, em grande parte, pelos anos de casamento, pela dedicação à vida profissional, a rotina e o tempo que transformam inúmeros casais em apenas amigos. 

    O trunfo do filme é a dissecação dolorosa das escolhas de Harry, sua paixão por Phyllis, seu respeito pelo longo casamento, um remorso lento e diário que corrói sua integridade. Ida Lupino não escolhe julgar Harry, nem suas esposas, coloca em pauta a complexidade da alma humana, os erros inerentes à condição de existir, de se entregar a momentos ternos como a troca de um olhar em um parque. Espero que, nem mesmo o espectador, se sinta capaz de julgar nem um dos personagens. 

    O bígamo (The bigamist, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Joan Fontaine (Eva Graham), Ida Lupino (Phyllis Martin), Edmond O’Brien (Harry Graham), Edmund Gwenn (Sr. Jordan). 

  • Johnny Gunman

    Muito anos de O poderoso chefão (1972), Johnny Gunman traz a história de dois gângsteres que disputam o controle da máfia em Nova York. Vicious Allie e Johnny Gunman são amigos desde a infância. Ambos trabalham para o chefão Loy Caddy, que é preso por sonegação de impostos. Os dois amigos começam então uma disputa pelo controle exclusivo da máfia, ao invés de dividirem territórios. 

    A narrativa se passa ao longo de uma noite e traz os elementos característicos dos filmes noir: ambientação noturna nas ruas e em bares e apartamentos; diálogos rápidos e cortantes;  a femme fatale que instiga seu amante ao confronto; o belíssimo contraste de sombras e luzes e, claro, a violência latente em pontos certeiros da trama. Um filme de baixo orçamento, bem ao estilo dos filmes B americanos que foram consagrados pelas críticos da Cahiers do Cinema e se transformaram em cults. 

    Johnny Gunman (EUA, 1957), de Art Ford. Com Martin E. Brooks (Johnny G.), Johnny Seven (Allie), Carrie Radisson (Mimi), Nick Rossi (Lou Caddy). 

  • A rena branca

    O belo terror de Erik Blomberg é inspirado nas crenças do povo sámi, seminômades que vagem pelas terras geladas da Lapônia. A jovem Pirita se casa completamente apaixonada pelo caçador Aslak. Ela fica a maior parte do tempo sozinha, a solidão combinada com saudade leva Pirita a um xamã, ermitão que vive no topo da geleira. 

    A jovem, sedenta de amor e sexo, toma uma poção que a torna desejável por todos. Mas saciar o desejo, desperta o terror da rena branca. 

    É um conto sobre a necessidade de sobrevivência na paisagem desolada, fria, que só agrava a solidão e desperta o desejo de amor e afeto nas pessoas. Pirita se entrega de alma e corpo que se transmuda à luta por seus desejos, cujo destino estava traçado pela gélida canção. 

    Menininha, criança da Lapônia / Nascida na neve / Passou a infância /Com os sapatos recheados de palha / Como uma rena / Por ser criança não sabia / Nem quando se casaria /Nem que ela nasceu bruxa / Com o demônio em sua barriga / Ela ofereceu ao deus de pedra / E à Madder-Akka / Uma rena branca / Caminhou nas colinas como uma rena / Na hora marcada / A lança atravessou a rena branca / Então a menina lapona dormiu / A neve fria como cobertor / Uma pilha de neve como travesseiro

    A rena branca (Valkoinen peura, Finlândia, 1952), de Erik Blomberg. Com Mirjami Kuosmanen (Pirita), Kalervo Nissilä (Aslak), Åke Lindman (Metsänhoitaja).

  • Vício maldito

    A partir dos anos 50, o cinema passou a tratar com seriedade o vício em drogas e álcool, mesmo em filme de gênero. Lucky é uma bela jovem, frequentadora de boates e cabarés noturnos. Para manter seu vício em drogas, ela se envolve com um mafioso que é assassinado logo no início da trama.

    O policial Vallois é encarregado de investigar o assassinato e acaba seduzido por Lucy. O relacionamento dos dois leva a uma intrincada rede de tráfico de drogas, colocando em cena uma misteriosa farmacêutica. 

    Vício maldito respeita os cânones do cinema noir, incluindo a femme fatalle, ambientações em bares noturnos, cenas em ruas e becos escuros, diálogos diretos e ambivalentes. Difícil não se entregar à cada aparição de Lucy em cena: fascinante, sedutora, sexy, e outros adjetivos mais. 

    Vício maldito (Le désordre et la nuit, França, 1958), de Gilles Grangier. Com Jean Gabin (Vallois), Danielle Darrieux (Thérèse), Nadja Tiller (Lucky), Paul Frankeur (Chaville), Hazel Scott (Valentine), Robert Manuel (Blasco), Robert Berri (Marquis). 

  • Grisbi, ouro maldito

    Esse filme noir francês é reverenciado por vários cineastas modernos, como Martin Scorsese. Como nos bons filmes do gênero, a trama é composta por personagens marginais, que vivem e frequentam as boates, becos e antros do crime de uma grande cidade. 

    Max acabara de realizar um grande roubo, pacotes de ouro em barra, e planeja se aposentar. No entanto, Ritton, seu grande amigo e parceiro no roubo, revela o acontecido à sua namorada Josy, uma jovem dançarina de cabarés. Josy está apaixonada por Angelo, outro gangster da cidade, e repassa a informação a ele. O que se segue é um conflito sanguinário pela disputa da mercadoria entre Max, Angelo e seus comparsas. 

    O filme tem uma grande sequência de ação, à noite, em uma estrada, quando Max vai trocar as barras de ouro com Ângelo, que sequestrara Ritton. Explosões e rajadas de metralhadora enchem a tela noturna, marca do cinema noir. No entanto, a narrativa é centrada nos conflitos pessoais entre os protagonistas, principalmente entre os amigos Max e Ritton. É um filme sobre a amizade, sobre o envelhecimento, sobre sentimentos nobres que se sobressaem à crueldade dos bandidos, sobre a ambição e a cobiça. 

    Grisbi, ouro maldito (Touchez pas au grisbi, França, 1954), de Jacques Becker. Com Jean Gabin (Max), René Dary (Riton), Lino Ventura (Angelo), Jeanne Moreau (Josy), Angelo Dessy (Bastien), Michel Jourdan (Marco).

  • Contos de Hoffmann

    A ópera em technicolor de Powell e Pressburger é um deleite para o olhar e para os ouvidos. Em um bar, o poeta E. T. A. Hoffmann relembra e conta para seus amigos as três mulheres que fizeram parte de seus intensos relacionamentos amorosos. 

    Olivia é uma boneca mecânica, controlada por seu pai e um inescrupuloso construtor de brinquedos. Giuletta é uma cortesã veneziana, sedutora, espécie de femme fatale que seduz e manipula seus amantes. Antonia é uma aspirante a cantora, filha de um compositor famoso, ela tem sérios problemas de saúde e depende de um médico que a usa para experimentações.

    O prólogo e as três histórias são narradas inteiramente pelas músicas, com a fotografia e direção de arte características do technicolor: cores resplandecentes, exuberantes, de contrastes agressivos. Os cenários são de encher os olhos do espectador, representando simbolicamente as naturezas de cada uma dos amores de Hoffmann. Cinema, teatro, ópera, dança e música, Contos de Hoffmann é um filme que penetra em todos os sentidos. 

    Contos de Hoffmann (The tales of Hoffmann, Inglaterra, 1951), de Michael Powell e Emeric Pressburger. Com Moira Shearer, Robert Rounseville, Ludmilla Tcherina, Ann Ayars, Pamela Brown. 

  • Ascensor para o cadafalso

    Aos 20 anos de idade, Louis Malle abandonou a universidade de cinema para trabalhar com Jacques Cousteau. Os dois dirigiram o documentário O mundo do silêncio (1956), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Após, Louis Malle decidiu realizar seu primeiro longa de ficção, escolhendo um romance policial – segundo Louis Malle, precisava começar a carreira com um filme mais comercial. 

    A narrativa de Ascensor para o cadafalso transcorre quase inteiramente durante uma noite. Florence Carala combina com seu amante, Julien Tavernieu, o assassinato de seu marido, Simon Carala, um rico traficante de armas. Após o assassinato, uma série de coincidências encaminha o destino dos dois amantes para um final trágico: Julien fica preso no elevador do prédio onde cometeu o assassinato, um casal de jovens delinquentes rouba o carro de Julien e matam um casal de turistas alemãos. Enquanto isso, Florence caminha pela noite de Paris à procura de seu amante. 

    Louis Malle faz uma releitura do cinema noir americano, antecipando ainda, de certa forma, a nouvelle vague francesa. Todos os personagens são marginais, movidos por instintos e desejos, sem se preocupar com as consequências de seus atos. Florence é o pivô da trama, como sempre, no filme noir, uma mulher provocadora. No entanto, Florence carrega uma profunda angústia e tristeza. Sua jornada pelas ruas, iluminada pelas luzes naturais da cidade, deixando-se molhar pela chuva, entrando em bares e delegacias de polícia é o grande destaque do filme.

    Louis Malle permitiu a Miles Davis improvisar a trilha sonora do filme. No estúdio de gravação, o músico assistia à sequência de Florence caminhando pela noite enquanto compunha e executava ao mesmo tempo, com seu trompete, a inesquecível trilha de Ascensor para o cadafalso.  

    Ascensor para o cadafalso (Ascenseur pour l’échafaud, França, 1958), de Louis Malle. Com Jeanne Moreau (Florence), Maurice Ronet (Julien Tarvenieu), Georges Poujouly (Louis).

  • O signo do leão

    O primeiro longa-metragem dirigido por Eric Rohmer apresenta uma das marcas de seu estilo: personagens que se movem incessantemente pelas ruas das cidades, principalmente Paris. 

    Pierre acorda, atende o telefone e descobre que herdou um bom dinheiro da sua tia, que acabara de falecer. Liga para os amigos, pede dinheiro emprestado e dá uma grande festa em seu apartamento. Dias depois, descobre que a tia, na verdade o deserdara. Sem emprego, endividado, abandonado pelos amigos a quem sempre recorreu, Pierre vaga de hotel em hotel, sem bagagem, pois precisa abandonar os quartos sempre que cobrado. Quando não consegue mais hospedagem, empreende uma caminhada durante dias pelas ruas de Paris até cair na completa mendicância. 

    A narrativa é marcada pela bela fotografia em preto e branco; pelos longos silêncios de Pierre enquanto caminha; pela futilidade da boemia das noites parisienses; pela frustração de artistas como o próprio Pierre, um músico, e por outro sem-teto (Jean Le Poulain), um ator que encena trechos caricatos pelas ruas em troca de moedas. 

    O final, quase milagroso, aponta a redenção de Pierre, mas deixa no ar o grande vazio destes personagens que vivem à margem em cidades como Paris, aparentemente bela e glamourosa. 

    O signo do leão (Le signe du lion, França, 1959), de Éric Rohmer. Com Jess Hahn (Pierre Wesselrin), Van Doude (Jean-François Santeuil), Michèle Girardon (Dominique),  

  • La sonate à Kreutzer

    A narração em primeira pessoa encaminha essa história de possível adultério, ciúme, obsessão e crime. A jovem esposa do arquiteto Poznyecev passa seus dias ensaiando a Sonata a Kreutzer, acompanhada de um também jovem violinista. A desconfiança se instaura na mente do arquiteto que passo a passo fica cada vez mais dominado pelo ciúme. Ele finge uma viagem a trabalho e volta repentinamente para casa, flagrando o casal de músicos deitados no sofá. 

    Jean-Luc Godard, que atua como coadjuvante, é o produtor do curta. Claude Chabrol e François Truffaut também aparecem em pontas. O projeto colaborativo dos jovens críticos de cinema tem uma atração à parte: Poznyecev vai encontrar seu amigo crítico (Godard) no trabalho, cujo cenário é nada mais nada menos que a própria Cahiers Du Cinema.  

    La sonate à Kreutzer (França, 1956), de Éric Rohmer. Com Éric Rohmer (Poznyecev), Françoise Martinelli (a esposa). Jean-Claude Brialy (Trukhacevskij).

  • Véronique et son cancre

    O curta de Éric Rohmer, com dois personagens em cena, filmado inteiramente dentro de um apartamento (residência de Claude Chabrol), mistura humor, ironia e crítica social. Véronique, uma jovem tutora, tenta ensinar matemática e francês a uma criança. No entanto, o estudante refuta com análises lógicas, mesmo que baseadas em seu raciocínio infantil, as questões apresentadas pela tutora. 

    O destaque da trama são as investidas da criança contra a tutora e, naturalmente, contro os procedimentos de ensino. Tudo que a criança quer é despachar a professora e voltar para suas brincadeiras no chão da sala. Ficar livre daquilo é também a sensação expressa pela professora que, vez por outra, tira os sapatos e esfrega com impaciência (e talvez com leve erotismo) os pés. .

    Véronique et son cancre (França, 1958), de Éric Rohmer. Com Nicole Berger (Véronique) e Alain Delrieu (estudante).