Categoria: Anos 50

  • Berenice

    Os primeiros curtas experimentais de Éric Rohmer destoam de sua carreira como longa-metragista, principalmente a partir das famosas séries Seis contos morais, Comédias e provérbios e Contos das quatro estações. Em Berenice, Rohmer se debruça sobre a narrativa de gênero, adaptando uma história de Edgar Allan Poe. 

    O protagonista (interpretado pelo próprio Rohmer) sente uma atração por sua prima Berenice, que se transforma em obsessão quando ele vê os dentes dela. A estética reflete influências claras do expressionismo alemão, demonstrando, neste momento, o trabalho do crítico da Cahiers Du Cinema que se inspira na história do cinema em sua passagem para a realização. A Cahiers Du Cinema está presente também na forma de colabores. O filme foi fotografado e editado por Jacques Rivette, com câmera 16mm, e integralmente rodado na casa de André Bazin.  

    Berenice (França, 1954), de Éric Rohmer. Com Éric Rohmer e Teresa Gratia.

  • Rashomon

    A obra-prima de Akira Kurosawa foi um dos filmes, na década de 50, que chamou a atenção do ocidente para o potente e criativo cinema japonês, composto ainda por dois outros grandes mestres: Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi. 

    A narrativa de Rashomon começa com três homens se escondendo de uma tempestade em um templo abandonado. Ao lado de uma fogueira, conversam e refletem sobre uma história aterradora que presenciaram como testemunhas em um julgamento. Em um dia quente e ensolarado no bosque, um crime é cometido. Um famoso bandoleiro fica obcecado pela beleza de uma jovem que passa na trilha, em cima do cavalo guiado pelo seu marido. O bandoleiro rende o casal, amarra o marido em uma árvore e, aos olhos dele, estupra a jovem (que pouco a pouco se entrega ao ato). O marido consegue se libertar e duela com o bandoleiro até a morte. 

    A estrutura da narrativa é inovadora, pois parte dos pontos de vista do crime durante o julgamento. A jovem, o bandoleiro, um lenhador que presenciou o crime e até mesmo a vítima (incorporada em uma médium) testemunham no julgamento. No entanto, cada depoimento apresenta um ponto de vista diferente. 

    “Contada a partir de pontos de vista conflitantes em forma de flashback, filmado com uma câmera fluida, em constante movimento, e fotografados sob uma abóbada de luz salpicada, Rashomon detalha perspectivas não-confiáveis. A sinceridade dos personagens na tela e a veracidade das ações relatadas mostram-se, portanto, enganosas. Fatos são colocados à prova e imediatamente questionados. Discrepâncias entre as histórias sobrepostas do marido, da esposa e do bandido tornam difícil um relato fiel.”

    Quando termina a tempestade e a narrativa do crime, um fato inesperado surge entre os três peregrinos. Ouve-se o choro de um bebê abandonado nas ruínas do templo. O lenhador acolhe a criança. Assim como em outro clássico, O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, na famosa sequência da escadaria, um bebê pode ser o símbolo da redenção, resgatando a bondade humana que existe em pessoas desoladas diante de tempos cruéis. 

    Rashomon ((Japão, 1950), de Akira Kurosawa. Com Toshiro MIfune, Machiko Kyo, Nasayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijuro Ueda. 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • O vagabundo

    Raghunath é um prestigiado juiz, casado com Leela. Certa noite, sua esposa é sequestrada pelo bandido Jagga que tem contas a acertar com o juiz. Raghunath o condenou à prisão sem provas, alegando que “filho de bandido será sempre bandido.” Quando descobre que Leela está grávida, o bandido a liberta após cinco dias de cativeiro. Ao saber da gravidez de sua esposa, a dúvida sobre a paternidade se instaura de forma destruidora na mente do juiz. 

    A trama expõe questões inerentes ao cruel sistema paternalista não só da Índia, mas da humanidade. O juiz nega a paternidade e seu filho se transforma no Vagabundo do título, cumprindo o destino determinado pelo próprio pai (a vingança de Jagga). Esteticamente, o filme traz a marca do cinema de qualidade desenvolvido em Bollywood, com cenários perfeitos, o melodrama e o musical pontuando a narrativa – gêneros preciosos ao cinema indiano, sequências glamourosas e extravagantes (os sonhos de Raj). 

    O vagabundo (Awaara, Índia, 1951), de Raj Kapoor. Com Raj Kapoor (Raj), Nargis (Rita), Prithviraj Kapoor (Juiz Raghunath), K. N. Singh (Jagga), Leela Chitnis (Leela)

  • Lola Montès

    O ator James Mason escreveu um poema alegórico para Max Ophuls que reflete muito do estilo do diretor alemão: “Acho que sei porque os produtores tendem a fazê-lo chorar. Inevitavelmente, eles exigem um arranjo parado e uma forma que não exija trilhos. Isso é uma agonia para o pobre Max, que separado de seu carrinho envolve-se na mais profunda melancolia. Uma vez, quando levaram sua grua embora, pensei que ele nunca mais sorriria.” 

    Max Ophuls se consagrou pela elegância não só dos movimentos de câmera, mas também dos enquadramentos, pela sensibilidade inigualável de fotografar seus atores em momentos sutilmente glamourosos. Lola Montès é o último e único filme colorido do diretor. A escolha da cinebiografia livre da famosa cortesã que seduziu importantes figuras da aristocracia europeia, como o compositor Franz Liszt e o rei da Bavária, se mostrou perfeita para um verdadeiro espetáculo em cores. A narrativa mistura a extravagância circense, quando Lola se vê desprovida de recursos e passa a trabalhar como atração de circo, com a elegância das cortes europeias, quando ela encantava e seduzia integrantes da aristocracia. 

    “O filme de Ophuls não é uma cinebiografia convencional. Em vez disso, ele elabora uma luxuosa extravagância barroca, parte circo, parte cortejo, repleto de flashbacks, e faz sua câmera notoriamente móvel passar pelas complexas decorações. No papel-título, Martine Carol oferece uma interpretação taciturna e emocionalmente chapada. No entanto, apesar de todas as suas limitações, Carol se encaixa no conceito de Ophuls. Como sempre, seu interesse está no abismo entre o ideal do amor e sua realidade falha e desencantada. Sua Lola é apenas uma tábula rasa passiva em que os homens projetam suas fantasias. Seu destino final como uma atração de circo que vende beijos por um dólar reduz sua profissão à sua lógica mais brutal. Lola Montès, um film maudit clássico, foi retalhado pelos seus distribuidores e, durante muito tempo, esteve disponível apenas em uma versão truncada, porém um cópia recém-restaurada nos permite apreciar o canto de cisne de Ophuls em todo o seu pungente esplendor.”

    Sobre seu notório fascínio pela câmera móvel, Max Ophuls declarou: “Muitas vezes me criticam por movimentar demais a câmera. Eu faço isso simplesmente para acompanhar o ritmo da cena. Não planejo nada. Espero para ver como a cena vai se desenrolar e mantenho o foco nos atores. Em inglês, filme é chamado de movie, que vem de movimento. Sou impulsionado pelo movimento do filme e capturo as emoções. Digamos que estou filmando uma cena que considero triste. Se eu fosse um maestro conduziria a música a um passo lento, triste. Da mesma forma, deixo o movimento de câmera lento e triste.”

    Lola Montès (França, 1955), de Max Ophuls. Com Martine Carol, Peter Ustinov, Anton Walbrook, Oscar Werner.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • La Pointe Courte

    O primeiro filme de Agnès Varda poderia ser considerado também o primeiro filme da nouvelle-vague francesa, pois apresenta os princípios estéticos e narrativos que marcaram o movimento a partir de 1959: atores não-profissionais; gravações em locações; cortes e movimentos de câmera que destoavam do cinema dominante, dito de qualidade; temas do cotidiano das comunidades. 

    São apenas dois atores profissionais em cena. Philippe Noiret e Silvia Monforte. Eles interpretam um casal de namorados que visita a Pointe-Courte, pequena vila de pescadores no sul da França. Enquanto caminham pela vila, o casal discute a relação e outros temas inerentes à juventude, pessoas enamoradas que se confrontam com incertezas. Narrativas paralelas mostram o cotidiano dos moradores, simples e pobres pescadores que se dividem entre a labuta pela sobrevivência e os prazeres singelos dos dias que passam ao sabor do sol, do vento, do mar. 

    A locação escolhida por Agnès Varda faz parte de suas memórias de infância, uma das praias que a cineasta frequentou e que revisita, em forma de reflexões, no belo documentário As praias de Agnès (2008). 

    “As ruas da Pointe Courte, por onde eu adorava andar. Fotografava muito e fui descobrindo este bairro. Ouvia histórias de uns e outros, sobretudo as dos mais velhos. Queria usá-las para fazer algo, um filme. Parecia preparar um documentário, mas parte do filme era sobre um casal. A Silvia Monfort e o Philippe Noiret, que estreou neste filme, participaram generosamente nesta experiência cinematográfica. Tinha pensado numa certa estrutura, um projeto de dois filmes misturados por capítulos alternados, como num romance de Faulkner que me impressionou, Palmeiras Bravas. Iria, portanto, alternar as sequências dos pescadores com as do casal. Duas narrativas, cujo único ponto em comum era o local: Pointe Courte. Ela descobriu onde ele nasceu. Ele mostrou-lhe as casas, as ruelas.” – Agnès Varda. 

    La Pointe-Courte (França, 1954), de Agnès Varda. Com  Philippe Noiret (Lui), Silvia Monforte (Elle). 

  • Trono manchado de sangue

    O filme é a mais impressionante, tenebrosa e assustadora adaptação da célebre peça Macbeth. Nem mesmo Shakespeare imaginava que seria possível traduzir em imagens a soturna incursão pelos meandros das almas e mentes atormentadas pela cobiça do casal de protagonistas da peça. 

    Akira Kurosawa adaptou a peça para o Japão feudal, um período marcado por batalhas sangrentas entres clãs arraigados às tradições. O General Washizu, destemido guerreiro samurai, é assombrado pela profecia de uma bruxa em uma floresta labiríntica ao voltar de batalha. A concretização da profecia é estimulada pela sua diabólica esposa, Lady Asaji (Isuzu Yamada): Washizu deve assassinar o seu comandante militar e se apoderar da liderança do reino.

    “O maravilhoso Mifune – um dos protagonistas favoritos de Kurosawa em uma parceria longeva (mais de 16 filmes) tão notável quanto a de Martin Scorsese com Robert De Niro – aprofundou sua reputação como ilustre astro internacional japonês com sua atuação. A sequência de sua morte, encenada de forma brilhante, na qual ele é cravado por uma saraivada de flechas, é uma das grandes imagens icônicas do cinema mundial. Elementos do teatro Nô, da tradicional arte de batalha japonesa, de realismo histórico e da reflexão contemporânea sobre a natureza do bem e do mal são fundidos aqui em um mundo opressivo e envolto em neblina, repleto de presságios sinistros e mágicos, com suas florestas e castelos (o castelo foi construído em locações nas alturas do monte Fuji, com a ajuda de um batalhão do Corpo de Fuzileiros navais dos EStados Unidos baseado nas proximidades.)”

    Trono manchado de sangue (Kumonosu-Jô, Japão, 1957), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Isuzu Yamada, Takashi Shimura, Akira Kubo, Minoru Chiaki. 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Ao longo da costa

    Ainda no início da carreira como cineasta, Agnès Varda realizou este curta documental para o Escritório Francês do Turismo. A câmera passeia de forma descontraída pelas praias, ruas e monumentos da Riviera Francesa. No início a diretora avisa, vamos deixar o burro e a vaca de lado, alusão aos animais dos simples moradores da costa azul, pois o tema do documentário são os turistas que chegam aos milhares no verão europeu. 

    Mesmo sendo uma encomenda oficial, o olhar crítico da diretora se traduz em um texto às vezes irônico e imagens simbólicas da imersão turística nas praias ensolaradas, apinhadas de turistas com seus corpos vermelhos expostos ao sol inclemente. 

    Ao longo da costa (Du Côté de la Côte, França, 1958), de Agnès Varda.

  • Noite e neblina

    O filme, de apenas trinta minutos de duração, é um dos mais poderosos alertas sobre os horrores praticados pelos nazistas nos campos de concentração. No começo, câmera enquadra em campo geral um verdejante campo, desce em panorâmica até uma cerca de arame farpado. O pujante texto de Jean Cayrol alerta: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma pradaria com corvos a voar, colheitas e queimadas, mesmo uma estrada por onde passam carros, camponeses, casais, mesmo uma aldeia pacata com feirinhas e campanários, tudo pode nos conduzir a um campo de concentração.” 

    A introdução anuncia a principal tônica do documentário: o extermínio praticado pelos nazistas nos campos de concentração aconteceu perto da vida comum nestas cidades que abrigaram os campos, mesmo assim, ninguém viu, ninguém sabia, ninguém foi responsável. A parte documental da película é aterradora. Alain Resnais usou imagens de arquivo de institutos ligados à memória da guerra da Polônia, Holanda, Bélgica e dos museus dos campos de Auschwitz e de Maidanek. 

    “A negação é a mola propulsora de Noite e Neblina. Resnais inclui imagens de arquivo dos mortos sendo jogados aos montes em covas coletivas, cadáveres pendurados em cercas de arame farpado, rostos emagrecidos congelados de medo, corpos nus esqueléticos sendo enfileirados para sofrerem humilhações e trens e caminhões transportando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. Ele documenta as câmaras de gás e crematórios, assim como as tentativas grotescas dos nazistas de encontrar utilidade para os objetos pessoais descartados, ossos, pele e corpos de suas vítimas.”

    NN – Nacht und nebel (Noite e neblina) eram duas letras usadas para marcar os uniformes azuis listrados dos judeus nos campos de concentração. Quando tiravam as roupas, eram encaminhados para as câmaras de gás. Como denuncia o quase impossível de assistir documentário de Resnais, um elaborado e complexo sistema de extermínio em massa foi construído e posto em prática aos olhos do mundo, que nada viram. 

    Noite e neblina (Nuit et brouillard, França, 1956), de Alain Resnais.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008

  • O sádico selvagem

    Prepare-se para uma das sequências mais aterrorizantes do gênero noir. Depois de enganar mãe e filha em um parque aquático, Dancer (Eli Wallach) e seu comparsa as acompanham até em casa. Os dois estão incumbidos por um cartel de traficantes de drogas de resgatar um pacote de cocaína que foi plantado em uma boneca, transportada inadvertidamente pela criança para São Francisco. Dancer brinca com a criança, com um ar amável, enternecedor, no entanto, o espectador já sabe que ele é um frio assassino. Quando descobre que a criança usou a cocaína como maquiagem para a boneca, Dancer começa a pôr calmamente o silenciador no revólver, sinal de que vai matar a criança e a mãe. 

    O filme, dirigido por Don Siegel, tem uma espetacular sequência de perseguição de carro nesta cidade que parece ter sido construída especialmente para diretores e técnicos do cinema desfilaram seu talento em sequências de ações envolvendo automóveis pela ladeiras – veja Bullit (1968) e O corpo que cai (1958). A narrativa acompanha os dois bandidos durante um dia, buscando pacotes de cocaína implantados em bagagens de moradores da cidade. 

    Eli Wallach domina o filme com uma interpretação que revela todas as nuances de uma mente doentia que habita um psicopata assassino. Ele está conversando amigavelmente com suas vítimas, um segundo depois… bem, a mais pura essência do terror. 

    O sádico selvagem (The lineup, EUA, 1958), de Don Siegel. Com Eli Wallach, Robert Keith, Richard Jaeckel.

  • Moulin Rouge

    Paris, 1890. O Cabaré Moulin Rouge agita as noites da cidade luz, repleto de homens e mulheres fascinados pelos espetáculos de danças eróticas, principalmente o can-can. O pintor Henri Toulouse-Lautrec é habitual frequentador, assiste a tudo sentado, enquanto esboça desenhos das dançarinas e dançarinos, bem como de frequentadores. 

    Certa noite, quando sai do Cabaré, Toulouse ajuda a prostituto Marie-Charlet a se livrar da polícia e a abriga em sua casa. Ele se apaixona pela jovem, os dois desenvolvem um relacionamento marcado por conflitos e desilusões. 

    A filmografia do célebre pintor tem por base a deformidade que o atingiu nas pernas, depois de uma queda na infância. A trama de John Huston acompanha seus primeiros experimentos como pintor da vida boêmia de Paris, retratando basicamente pessoas que frequentavam a noite. Abre espaço também para a revolução que propagou na divulgação publicitária, através dos famosos cartazes promocionais que pintou para o Moulin Rouge. Usando a técnica da litogravura, os cartazes eram espalhados por Paris.

    De saúde frágil desde a infância, acometido por uma doença rara, ele cresceu apenas das pernas para cima (tinha cerca de 1,50), a narrativa passa pela tristeza que acometia o artista, incapaz de se relacionar amorosamente com as mulheres. A busca incessante pela arte, a entrega à boemia e ao álcool de forma quase suicida, marcam a trama. Uma bela e sensível homenagem ao artista. 

    Moulin Rouge (Inglaterra, 1952), de John Huston. Com José Ferrer (Toulouse-Lautrec/Conde de Toulouse-Lautrec), Zsa Zsa Gabor (Jane Avril), Suzanne Flon (Myriamme Hyam), Colette Marchand (Marie Charlet), Christopher Lee (Georges Seurat), Georges Lannes (Sargento Patou).