Categoria: Anos 80

  • Lola

    1957. A jovem e bela Lola é cantora e prostituta em um bordel. Seu amante e protetor é Schuckert, importante construtor da região da Baviera que consegue contratos corrompendo os principais políticos, incluindo o prefeito, frequentador assíduo do cabaré. Esse lucrativo esquema ameaça ser rompido com a chega do honesto Von Bohm para assumir o cargo de Secretário de Obras da cidade. 

    Fassbinder, como uma homenagem, faz a releitura do clássico O anjo azul (1930). Após ser ofendida em uma noite por Schuckert, Lola começa um jogo de sedução com Von Bohm, escondendo sua condição. O honesto cidadão se apaixona pela cantora e as reviravoltas da trama incluem a subversão de seus princípios morais e éticos.

    O tema do filme é a Alemanha do pós-guerra que busca se reerguer economicamente, tem que reconstruir suas cidades. O bordel é o símbolo político deste tempo, lugar onde todos se vendem, incluindo políticos, empresários, idealistas como o socialista Esslin e os íntegros como Von Bohm. 

    Lola (Alemanha, 1981), de Rainer Werner Fassbinder. Com Barbara Sukowa (Lola), Armin Mueller-Stahl (Von Bohm), Mario Adorf (Schuckert), Mathias Fuchs (Esslin).

  • Constans

    Após dar baixa em seu treinamento no exército, o jovem Witold consegue emprego como eletricista. No primeiro dia de trabalho, ele revela à Marius, seu chefe imediato, que tem pouca experiência na função. Marius responde que “basta ele ser honesto.” É o tema do mais famoso filme de Zanussi, ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Cannes. 

    A honestidade de Witold passa a ser confrontada por seus próprios colegas de trabalho, incluindo Marius, que exigem que o jovem faça pequenas negociações escusas no ambiente de trabalho, proporcionando lucro extra aos trabalhadores.

    Em outro ambiente, um hospital, Witold também se depara com a corrupção. Sua mãe é internada devido a um câncer terminal e conseguir vaga em um quarto, assim como medicamentos, depende de “contribuições” para os funcionários do hospital. 

    Constans é o retrato frio e cruel do fim do sonho comunista na Polônia. Em determinado momento, Marius pergunta a Witold: “Qual o seu preço?”, afirmando que mais dia menos dia o jovem idealista também será corrompido. Witold resiste, sua moral e ética prevalecem, talvez um ingênuo como Cândido, que infelizmente só existam na literatura e no cinema.  

    Constans (Polônia, 1980), de Krzysztof Zanussi. Com Tadeusz Bradecki (Witold), Zofia Mrozowska (Mãe de Witold), Małgorzata Zajączkowska (Grażyna), Witold Pyrkosz (Marius)

  • Kung-Fu Master!

    Agnès Varda envereda por um tema ousado, polêmico, diria até mesmo proibido. O amor de uma mulher de cerca de 40 anos por um adolescente. Durante uma festa em sua casa, promovida por sua filha Lucy, Mary-Jane fica encantada por Julien, colega de escola de Lucy. Ela decide que precisa vê-lo novamente e começa uma série de encontros com o garoto, a princípio, despretensiosos, mas que caminham cada vez mais e mais para a paixão mútua. A relação se concretiza durante uma viagem de férias em Londres, depois, Mary-Jane e Julius partem para uma estada em uma ilha na Inglaterra.

    Jane Birkin e Charlotte Gainsbourg, mãe e filha na vida real, transpõem essa condição para o filme. A relação entre as duas se anuncia cada vez mais conflituosa, à medida que o caso da mãe se revela. O garoto Julien é interpretado por Mathieu Demy, filho de Agnès Varda e Jacques Demy. 

    Apesar de controverso, Kung-Fu Master traz a sensibilidade característica da diretora francesa. Em um determinado momento, a mãe de Mary-Jane diz à filha que ela deve se entregar à paixão, apesar de tudo caminhar para a inevitável punição. 

    Kung-Fu Master! (Kung-Fu Master! Le petit amour, França, 1988), de Agnès Varda. Com Jane Birkin (Mary-Jane), Charlotte Gainsbourg (Lucy), Mathieu Demy (Julien), Lou Doillon (Lou).  

  • Merry-go-round

    O diretor Jacques Rivette se aventura por uma trama com ar de thriller policial. Elisabeth envia telegramas para o ex-namorado Ben, em Nova York, e para a irmã Léo em Roma. Os dois devem se juntar a ela em Paris para ajudá-la a vender as casas do pai, recém-falecido. No entanto, Elisabeth desaparece assim que Ben e Léo chegam em uma das casas. Os dois começam, então, uma estranha investigação sobre o paradeiro da jovem, passando por várias cidades e por outros relacionamentos também estranhos. 

    A aventura policial resvala para dramas emocionais, filmados em caráter quase experimental pelo diretor. Tudo se resolve de forma simplista, o que interessa à Rivette é acompanhar as relações que se criam ao longo da narrativa, também sem profundidade. Merry-go-round faz parte de um gênero de sucesso, principalmente a partir dos anos 70: o road-movie. No entanto, o filme foi um fracasso de público e crítica, tendo como único atrativo trazer nos papéis principais duas estrelas: Maria Schneider e Joe Dallesandro.

    Merry-go-round (França, 1981), de Jacques Rivette. Com Maria Schneider (Léo), Joe Dalessandro (Ben), Danièle Gégauff (Elisabeth), Sylvie Matton (Shirley). 

  • Documenteur

    Agnès Varda tece uma narrativa híbrida, entre o documentário e a ficção. Emile, jovem recém divorciada, vive com seu filho Martin, que tem cerca de 10 anos, em Los Angeles. Ela é imigrante e passa seus dias entre o trabalho como datilógrafa, os cuidados com o filho e andanças pela cidade. 

    A diretora francesa, única mulher integrante da prestigiada nouvelle-vague francesa, parece ter uma câmera acoplada ao seu corpo. Por onde passa, a diretora produz um filme. Documenteur foi realizada durante sua breve estadia em Los Angeles no início da década de 80. Documentário ou ficção, não importa. É o retrato de uma jovem mulher, Emile, em busca de se integrar a um país que finge abrir as portas para todos os sonhadores, sonhos que se desfazem na luta cotidiana. Atenção para a bela imagem de Emile sentada nua na cama. É uma pura imagem de Agnès Varda. 

    Documenteur (França, 1981), de Agnès Varda. Com Sabine Mamour (Emile Cooper) e Mathieu Demy (Martin Cooper).

  • De repente, num domingo

    De repente, num domingo é o 21° primeiro e último filme de François Truffaut. É uma adaptação do romance The long saturday night, de Charles Williams, autor com quem Truffaut flertava desde os anos 60. A ideia do diretor foi fazer um filme mais leve, despretensioso, um romance ambientado durante uma série de crimes que acontecem envolvendo o protagonista, Julien Vercel. Primeiro, ele é o principal suspeito de matar o amante de sua esposa, durante um dia de caça no lago. Depois, de assassinar a própria esposa, em sua casa. 

    A secretária de Julien, Bárbara, assume as investigações do crime, disposta a inocentar seu chefe, por quem nutre uma paixão secreta. A narrativa assume o tom dos filmes policiais noir, gênero que Truffaut já experimentara em quatro filmes: Atirem no pianista, A noiva estava de preto, A sereia do Mississipi e Uma jovem tão bela como eu. 

    A escolha pelo preto e branco partiu naturalmente, com Nestor Almendros assumindo a responsabilidade de recriar através da fotografia todo o ambiente dos bons filmes noir. Almendros se disse surpreendido ainda por um pedido de Truffaut: filmar rapidamente (em sete semanas) para que a obra ficasse parecida com um filme B. Outra escolha condizente com o gênero noir foi situar a narrativa quase toda à noite e com chuva. Vale destacar ainda uma das grandes marcas do cinema do diretor francês: a narrativa ser conduzida pela protagonista.  

    “Quando escrevo um roteiro, as coisas se encaixam assim. A ação pertence às mulheres. Pode ser errado, no absoluto, mas assim vejo as coisas.” – François Truffaut. 

    Sobre a leveza do filme, um policial sem grandes pretensões, até mesmo com incoerências nas soluções dos crimes, Truffaut escreveu: “É um filme para sábado à noite, concebido para entreter, sem segundas intenções.”

    De repente, num domingo (Vivement dimanche!, França, 1983), de François Truffaut. Com Jean-Louis Trintignant (Julien Vercel), Fanny Ardant (Barbara Becker).

  • Melô

    O casal Pierre e Romaine recebem Marcel, um famoso violinista, para jantar. Em certo momento, Marcel relembra uma triste história de amor de seu passado. Romaine ouve a narração fascinada. No dia seguinte, ela vai a casa de Marcel, os dois tocam juntos uma sonata – é o início de um relacionamento amoroso que mudará o destino, de forma trágica, dos três amigos. 

    Melô é uma adaptação fiel da peça de Henri Bernstein. Alain Resnais filma longos planos estáticos, centrados nos protagonistas, evita a interpretação naturalista e usa como elemento de transição as cortinas cerradas de um teatro. A experimentação de Resnais, teatro mais do que cinema, potencializa a força do texto, os belos diálogos e a música, elemento que direciona os rumos do trágico triângulo amoroso. 

    Melô (França, 1986), de Alain Resnais. Com Sabine Azéma (Romaine), Fanny Ardant (Christiane), Pierre Arditi (Pierre), André Dussollier (Marcel). 

  • Você tem belas escadarias, sabia?

    Em apenas quatro minutos, Agnès Varda faz uma bela homenagem à história do cinema. O curta usa as escadas da Cinemateca Francesa que conduzem ao Museu do Cinema. A montagem alternada intercala pessoas descendo as escadas com cenas de diversas obras filmadas em escadas. É uma sucessão de imagens que remetem à história do cinema, filmes que marcaram gerações, o fascínio irrompe em cada take. 

    O curta-metragem celebrou os 50 anos da Cinemateca Francesa e, por coincidência, a escadaria tem exatamente 50 degraus. Agnès Varda recortou cenas dos seguintes filmes: Juve contre fantômas – Louis Feuillade, Pépé le moko – Julien Duvivier, O encouraçado Potemkin – Sergei Eisenstein, A imperatriz vermelha – Josef von Sternberg, Cidadão Kane – Orson Welles, Ran – Akira Kurosawa, Le coup du parapluie – Gérard Oury, O desprezo – Jean-Luc Godard, Modelos – Charles Vidor, A história de Adele H – François Truffaut. 

    Você tem belas escadarias, sabia? (T’as de beaux escaliers, tu sais, França, 1986), de Agnès Varda. 

  • Diva: paixão perigosa

    No início dos anos 80, jovens cineastas franceses realizaram alguns filmes que foram classificados, pejorativamente a princípio, como Cinéma du Look. A expressão foi cunhada pelo crítico Raphael Bassan, analisando que os filmes priorizavam o estilo em detrimento do conteúdo. Os principais expoentes dessa espécie de movimento transitório foram Jean-Jacques Beineix (Diva), Luc Besson (Metrô) e Leo Carax (Garoto conhece garota). 

    Diva é o primeiro filme a apresentar as principais características do movimento. A trama acompanha o carteiro Jules, fascinado pela cantora lírica Cynthia Hawkins. Ela se recusa a gravar discos, mas Jules faz uma gravação clandestina durante um show que circula em versões piratas. Um assassinato de uma garota de programa nas ruas de Paris coloca Jules em confronto direto com uma gangue de tráfico de mulheres chefiada pelo comissário de polícia (antes de morrer, a vítima esconde uma fita cassete com revelações na moto do jovem carteiro).

    O visual extravagante da película é responsável por ambientações deslumbrantes, como a garagem onde Jules mora e o reduto dos marginais Serge e Abba. A pop art está presente em grande parte da narrativa, acompanhando os personagens pelas ruas e metrôs da cidade. Preste atenção na ousada sequência de perseguição: um policial persegue Jules, primeiro pelas ruas da cidade, depois pelas estações do metrô, uma elaborada combinação de movimentos incluindo carro, moto e corridas a pé. Outro ponto de destaque da narrativa é a caricatural dupla de assassinos, sempre de óculos escuros e cigarros nas mãos, exalando um charme artificial. 

    Diva: paixão perigosa (Diva, França, 1981), de Jean-Jacques Beineix. Com Frédéric Andréi (Jules), Wihelmenia Fernandez (Cynthia Hawkins), Richard Bohringer (Serge), Thuy An Luu (Abba), Jacques Fabbri (Comissário Jean).

  • Bagdad Café

    A canção I’m calling you já vale o filme. Ela entra no espectador e fica, apenas fica. No entanto, o filme tem muito mais. É uma emocionante história de perda e renascimento pessoal, movida pela relações pessoais entre duas mulheres que começam com estranheza, beiram a agressividade, passam pela compreensão até se transformarem na mais sincera amizade. 

    A alemã Marianne está de férias com seu marido nos EUA. Eles se desentendem e ele a abandona em uma estrada deserta e árida. Ela caminha por um longo tempo até encontrar o Bagdad Café, restaurante e pousada de beira de estrada. É recebida pela proprietária Brenda, se hospeda e vai ficando por ali. 

    Os tipos que moram e trabalham no Bagdad Café compõem um painel de personagens excêntricos, exóticos, que passam os dias entre desentendimentos e reconciliações. A transformação de Marianne começa quando ela decide organizar o local, ajudando Brenda primeiro na limpeza, depois no atendimento aos clientes, oferecendo divertidas apresentações de mágica. O que fica, no final, além da música, é essa simplicidade da vida que pode e deve ser sentida dia-a-dia através das ternas relações entre as pessoas. 

    Bagdad Café (Out of Rosenheim, Alemanha, 1987), de Percy Adlon. Com Marianne Sagebrecht (Jasmin), CCH Pounder (Brenda), Jack Palance (Rudi Cox), Christine Kaufmann (Debby), Monica Calhoun (Phyllis), Darron Flagg (Salomo), George Aguilar (Cahuenga), G. Smokey Campbell (Sal).