Histórias americanas: comida, família e filosofia

Histórias americanas: comida, família e filosofia (Histoires d’Amérique: food, family and philosophy, França, 1989), de Chantal Akerman.

Uma jovem diante da câmera conta sua história, o relacionamento que construiu com “um homem tão lindo e afetuoso”. O homem morreu e a deixou com uma filha de 13 anos, a partir daí a narrativa muda para a frustração, solidão e depressão vivida pela viúva. O longo depoimento segue o estilo de um documentário tradicional, pessoas posando para câmera, discorrendo sobre suas relações com a comunidade judaica onde vivem, contando suas histórias. 

Após dois depoimentos, corta para um homem barbudo entrando em uma porta giratória, acompanhado com o olhar por outro homem na rua. Imediatamente, um homem sem barba sai pela porta giratória. O homem na rua pergunta:: “Senhor, me diga, antes que eu enlouqueça nesse país. Como conseguiu fazer a barba tão rápido?”. Corta para dois idosos, eles se cumprimentam e segue o diálogo: “Você conhece a vida. A vida é como a fonte.” “Porque?” “Está tudo bem. A vida não é como a fonte.”

Agora o estilo é um filme de ficção? onde os diálogos são construídos e interpretados, revelando comportamentos e falas surrealistas. A experiência de Chantal Akerman subverte princípios elementares da narrativa, tanto em termos documentais quanto ficcionais. 

O filme foi realizado em locações urbanas de Nova York, ambientado sempre em cenas noturnas. Diversos personagens entram e saem de cena até se reunirem em um jantar à noite: assistem, sentadaos nas mesas, encontros e diálogos que se sucedem – sim, como no teatro.

 A mãe de Chantal Akerman foi uma sobrevivente de Auschwitz. Histórias americanas: comida, família e filosofia é um estudo antropológico sobre imigrantes judeus, no caso nos EUA, que lutam para preservar a cultura, a memória, contando histórias, às vezes trágicas, outras vezes bem humoradas e fantasiosas. Vale lembrar a constatação de Isak Dinesen: “Ser uma pessoa é ter uma história para contar.”

Hotel das Acácias

Hotel das Acácias (Hôtel des Acacias, Bélgica/França, 1982), de Chantal Akerman e Michéle Blondeel. 

Marie desembarca do trem em Bruxelas. Entra no Hotel das Acácias, é atendida por Hans, o recepcionista, e pede um quarto para uma noite. É acompanhada ao quarto por Michel. Antes de entrar no quarto, eles conversam: “Está aqui de férias?” “Não. Não sei.” “Então é uma história de amor.” “Como sabe?” “Essas coisas acontecem. Eu a invejo. É tão bom estar amando. Amanhã achamos seu homem. Boa noite.” 

Pouco depois, Nathalie, vinda do interior, chega no Hotel e pede um quarto. Ela está à procura de emprego, assim que começar a trabalhar vai buscar seu noivo que ficou no vilarejo. No entanto, Hans se apaixona por ela. 

A introdução define o tema e narrativa do filme: jovens, hóspedes e funcionários do hotel, começam relações de amizade e paixão, às vezes até mesmo assumindo infidelidades consentidas. A narrativa transcorre inteiramente dentro do hotel, marcada por inserções musicais que pontuam o estado emocional dos personagens, como no baile organizado para comemorar o emprego de Nathalie. A solidão e desilusão amorosa marca todos os personagens. 

O média-metragem (40 minutos) de Chantal Akerman foi realizado contando com alunos de uma oficina de cinema de Bruxelas. O estilo musical está presente em momentos importantes da narrativa e, mesmo sem a música, é possível perceber movimentos rítmicos e coreógrafos do elenco nos ambientes do hotel. 

O tempo cronológico não é determinado, em alguns momentos é até mesmo subversivo. Durante o baile, o noivo do interior é avisado e, minutos depois, chega ao hotel. Nem mesmo os nomes dos personagens importam, são citados espaçadamente, dificultando a identificação. Resta ao espectador se entregar à busca pelo amor desses jovens, mesmo que fugaz. 

Elenco: Philippe Bobsled, Catherine Carrera, Amid Chakir, Mario Gonzales, Katy Guisard, Michel Kartchevsky, Marie Signé Ledoux. 

Tenho fome, tenho frio

Tenho fome, tenho frio (J’ai faim, j’ai froid, França, 1984), de Chantal Akerman.

Duas jovens interpretadas por Maria de Medeiros e Pascale Salkin, chegam a Paris, fugindo de suas casas, na cidade de Bruxelas. A narrativa acompanha as jovens durante duas noites e um dia, em busca de um lugar para dormir e uma forma de ganhar dinheiro para comer. 

O curta de cerca de dez minutos de duração, fotografado em preto e branco, integra o projeto Paris vu par… 20 ans après (1984), filme que reúne seis curtas de diferentes diretores: Philippe Garrel, Jean-Daniel Pollet, Frédéric Mitterrand, Bernard Dubois e Chantal Akerman. O projeto é uma releitura do filme produzido nos anos 60, Paris vu par… de 1965, dirigido por jovens da nouvelle vague francesa. 

As meninas, perambulando pelos subúrbios de Paris, reclamando o tempo todo: “Tenho fome, tenho frio.”, com gestos e diálogos repetitivos. Na jornada, entram em um bar e começam a cantar, na esperança de ganhar dinheiro. Um grupo de homens as acolhem na mesa e oferecem comida e bebida à vontade a elas. A noite termina no apartamento de um deles, que aproveita o momento para transar com a que sente frio. Na manhã seguinte, as duas estão novamente nas ruas de Paris, final em aberto que derruba a ilusão romântica que consagrou a cidade luz.

Três estrofes em nome de Sacher

Três estrofes em nome de Sacher (Trois strophes sur le nom de Sacher, França, 1989), de Chantal Akerman. 

O cenário é minimalista, como em grande parte dos filmes de Chantal Akerman. Um sofá com uma manta desarrumada em cima, uma pequena escrivaninha no lado oposto, uma cadeira, cortinas vermelhas deixando ver no centro uma parede com duas janelas lado a lado. Sonia Wieder-Atherton entra em cena, senta-se na cadeira com seu violoncelo e começa a tocar a primeira estrofe de Sacher. 

Durante o curta, a consagrada violoncelista, companheira de Chantal Akerman, toca Trois strophes sur le nom de Sacher, composições de Henri Dutilleux criadas em homenagem à Paul Sacher, regente e mecenas das artes. A interpretação visual da música conta com dois personagens que aparecem, sempre filmados de longe, nas janelas ao fundo do cenário, como se estivessem no cotidiano de suas casas, tomando café da manhã, passando roupas, observando a vida pela janela.

O curta foi realizado para ser exibido na televisão francesa. A direção de fotografia e a direção de arte deslumbram o espectador que se deixa levar de forma institiva para a bela performance musical de Sonia Wieder-Atherton.  

Retrato de uma mulher preguiçosa

Retrato de uma mulher preguiçosa (Portrait of a lazy woman, França, 1986), de Chantal Akerman. 

Chantal Akerman acorda em seu quarto bagunçado, olha para a câmera e diz: “Hoje é sábado e farei um filme sobre preguiça. Vou levantar em um minuto. Levante-se preguiçosa. Se arrume, tome um banho. Para fazer um filme você precisa levantar e se vestir.”

No ambiente, Sonia Wieder-Atherton, companheira de Chantal, toca violoncelo. Durante cerca de sete minutos, a diretora perambula pelos cômodos em seus afazeres cotidianos do amanhecer, sempre se lembrando que precisa fazer um filme sobre a preguiça. 

O curta de Chantal Akerman faz parte do projeto Sete mulheres, sete pecados (Seven women, seven sins, França, 1986), que reuniu diretoras na realização de curtas, cada uma tendo por base para a ideia um dos pecados capitais. Chantal Akerman trata a preguiça de forma metalinguística sobre o processo de fazer cinema, que exige força de vontade, disciplina, cumprimento de prazos rígidos e uma perseverança quase cruel em todas as etapas da realização. 

As outras autoras envolvidas no projeto são: Ulrike Ottinger, Maxi Cohen, Helke Sander, Bette Gordon, Lawrence Gravou e Valie Export. 

Ela deve estar vendo coisas

Ela deve estar vendo coisas (She must be seeing things, EUA, 1987), de Sheila McLaughlin. 

Agatha (Sheila Dabney) é advogada e trabalha em uma instituição que cuida de causas humanitários. Sua namorada Jo (Lois Weaver) é diretora de cinema independente e está às voltas com a produção de um novo filme. O conflito entre as duas acontece quando Agatha descobre e começa a ler o diário de sua namorada, se deparando com relatos sexuais de Jo com outros homens. 

A narrativa fragmentada é a marca do filme de Sheila McLaughlin. À medida que lê o diário, Agatha confunde texto e realidade, imaginando os ousados relatos que se transformam em cenas desconexas. O espectador se vê diante do dilema da jovem advogada: sua imaginação é a representação do desejo voyeurístico?; a diretora de cinema está mesmo a traindo? A busca obsessiva pela verdade empreendida por Agatha revela a complexidade das paixões, do ciúme, dos relacionamentos amorosos plenos de sexualidade. 

Comprometida

Comprometida (Committed, EUA, 1984), de Sheila McLaughlin e Lynne Tillman, reconstitui, de forma íntima e sufocante, a trágica história de Frances Farmer, atriz de teatro e cinema. Ainda jovem, Frances Farmer se destacou no teatro de Nova York e passou a conciliar seu trabalho nos palcos com incursões pelo cinema hollywoodiano. No entanto, as atividades políticas de Farmer, ligadas ao partido comunista e engajada em causas sociais e trabalhistas, tiveram consequências: a própria mãe a internou em um hospital psiquiátrico, onde Farmer permaneceu por seis anos e passou por experimentos médicos, incluindo uma possível lobotomia cerebral.

O filme de Sheila McLaughlin e Lynne Tillman acompanha os momentos anteriores a esses procedimentos. No hospital, Farmer é retratada como uma mulher lúcida, comprometida com suas atividades políticas e com sua carreira profissional.  Flashbacks abrem espaço para o problemático relacionamento de mãe e filha, que culminou na internação. 

Comprometida é um forte manifesto contra a opressão pelas instâncias de poder, dominadas pelos homens. Francis Farmer demonstra claramente sua sanidade e lucidez, mesmo assim os médicos insistem em tratamentos ortodoxos, testando medicamentos e procedimentos para curar a “rebeldia” da atriz. Sob o pretexto de lutar contra o comunismo, políticos, médicos, produtores de cinema, representantes religiosos, interromperam carreiras, condenaram cidadãos e ceifaram vidas.   

Elenco: Sheila McLaughlin (Frances Farmer), Victoria Boothby (Lillian Farmer), Lee Breuer (Clifford Odets), John Erdman (Dr. Taylor), Lucy Sanger (A enfermeira).

Os frutos da paixão

Os frutos da paixão (Les fruits de la passion, Japão, 1981), de Shuji Terayama, marca o extravagante e agressivo cinema erótico japonês dos anos 70/80, cujo grande precursor é O império dos sentidos (1976). O cenário é a caótica região de bordéis da Xangai da década de 20, reduto de prostitutas, marginais e homens endinheirados em busca de prazer sem limites. 

O nobre inglês Sir Stephen (Klaus Kinski) chega a um bordel com sua amante, a jovem conhecida como O (Isabelle Illiers) – é uma alusão à clássica História de O. A jovem deve ser iniciada na “arte” da sedução e do prazer, se submetendo a práticas de dominação e submissão, incluindo relações sadomasoquistas. 

Cenas que beiram o sexo explícito permeiam a trama, marcada por uma fotografia abrasiva e figurinos extravagantens, evidenciando o clima sexual e político (grupos terroristas lutam pela libertação) perto da explosão. O filme, que sofreu com a censura durante muitos anos, é mais uma obra desafiadora,  provocativa, perturbadora em termos temáticos, narrativos e estéticos.   

A caminho da loucura

A caminho da loucura (Heller wahn, Alemanha, 1983), de Margarethe von Trotta.

Olga (Hanna Schygulla) é uma professora universitária de bem com a vida, vive sua liberdade, incluindo um relacionamento amoroso tranquilo, sem as amarras das convenções ou sociais. Ruth (Angela Winkler), ao contrário, vive em conflito interno, sofrendo com um marido possessivo. Ela tenta vencer a depressão se dedicando à pintura, sempre solitária. O relacionamento entre as duas começa quando, numa casa de campo, Olga impede Ruth de cometer suicídio. 

A diretora e atriz Margarethe von Trotta, uma das expoentes do novo cinema alemão, trata com delicadeza e sensibilidade, bem ao estilo de seu olhar feminino e feminista, a intensa relação entre Olga e Ruth. É um filme sobre amizade, sobre mulheres que lutam para se libertar das convenções impostas, sobre a depressão e possibilidades de fuga.

O estado das coisas

O estado das coisas (Der stand der dinge, Alemanha, 1982), de Wim Wenders. 

Wim Wenders dirigiu Hammett (1982), história ficcional baseada na vida do escritor Dashiell Hammett. O filme foi produzido por Francis Ford Coppola, que se desentendeu com o diretor alemão na fase de pós-produção. Coppola não ficou satisfeito com o primeiro corte e dirigiu a refilmagem de diversas cenas, reeditando o filme. 

Frustrado com a experiência em Hollywood, Wim Wenders realizou, no mesmo ano de Hammett, O estado das coisas. O filme é uma reflexão pessoal sobre o processo autoral de fazer cinema e as dificuldades impostas pela necessidade de financiamento. 

A equipe, liderada pelo diretor Friedrich Munro (Patrick Bauchau), está no litoral de Sintra, filmando uma história passada em um futuro distópico que dizimou grande parte da população. O título Os sobreviventes é uma metáfora do sacrifício a que os cineastas se impõem – em alguns momentos os membros da equipe são chamados de os sobreviventes. As filmagens são paralisadas pois Gordon, produtor americano da obra, está em Los Angeles e não envia mais o dinheiro necessário para comprar a película e pagar a equipe.

Durante a espera, os integrantes se isolam no hotel desativado e decrépito à beira-mar que é utilizado para locação de Os sobreviventes. Roteirista, atores e atrizes, equipe técnica, cada um à sua maneira tenta vencer o tédio da espera e lidar com suas frustrações no mundo do cinema. Fritz resolve ir para Los Angeles à procura do produtor e se depara com um esquema perigoso do quai participam importantes figuras de Hollywood. 

A estrutura narrativa de O estado das coisas é a forma de Wim Wenders refletir sobre a sua decepcionante ida para Hollywood e os conflitos permanentes entre o cinema autoral e comercial. O filme é também uma homenagem a esses realizadores sobreviventes: Roger Corman e Samuel Fuller atuam em participações especiais e o nome do diretor, Friedrich Munro, é uma referência ao grande  Friedrich Murnau.

Elenco: Allen Garfield (Gordon), Samuel Fuller (Joe), Isabelle Weingarten (Anna), Rebecca Pauly (Joan), Jeffrey Kine (Mark), Patrick Bauchau (Friedrich Munro).