Categoria: Anos 80

  • Sem fim

    Sem fim (Bez końca, Polônia, 1985), marca um momento decisivo na carreira de Krzysztof Kieślowski: o encontro com Krzysztof Piesiewicz, advogado que trabalhava como defensor público em Varsóvia. Após a implantação da Lei Marcial na Polônia, cujas consequências resultaram em assassinatos políticos, prisões, torturas, Piesiewicz trabalhou na defesa de alguns presos políticos. Quando conheceu Kieslowski, ele teve a ideia de adaptar para o cinema um desses julgamentos. 

    “No entanto, Kieslowski já estava muito amargurado com as suas recentes experiências na produção de documentários. Houve pelo menos dois filmes, ‘O ponto de vista de um porteiro noturno’ e ‘Estação’, de 1980, em que ele sentiu que talvez tivesse ultrapassado os limites. No primeiro caso, julgar o personagem principal com muita severidade e, assim, abri-lo ao escárnio público e, no segundo caso, algumas das filmagens que ele fez para o filme foram usadas pela milícia estatal para rastrear uma pessoa que eles estavam procurando. Então ele sentiu que estava envolvido e contribuiu involuntariamente para a pressão do Estado.” – Michal Oleszczuk.

    Esse sentimento fez com que Kieslowski recusasse trabalhar em um projeto que abordasse fatos reais. Os dois passaram a conversar longamente, iniciando uma amizade e parceria profissional, sobre os casos que Piesiewicz trabalhara. Resolveram, então, escrever um roteiro juntos, tendo como ponto de partida um advogado (assim como Piesiewicz) que começa o filme morto, observando sua esposa na cama e narrando para o espectador a história.

    Antek Zyro (Jerzy Radziwiłowicz) estava trabalhando no caso de um operário preso, acusado de incitar uma greve de trabalhadores. O subtexto indica uma possível filiação ao movimento Solidariedade, principal motivo para o governo comunista implantar a Lei Marcial. Urszula Zyro (Grażyna Szapołowska), esposa de Antek,  passa a ajudar a esposa do acusado, Joanna Stach (Maria Pakalnis) a conseguir um novo advogado e se envolve cada vez mais na trama que aponta para uma conspiração do governo, disposto a incriminar o réu sem fazer dele um mártir para o movimento. 

    O fantasma do advogado guia Urszula por meio de pistas, levando-a a descobrir questões obscuras sobre o processo. Piesiewicz e Kieslowski usam o subtexto para retratar o momento político conturbado da Polônia. A Lei Marcial é citada de passagem em apenas um momento do filme e não há qualquer alusão às atrocidades provocadas pelo governo ao exigir o cumprimento da lei. O movimento Solidariedade também é citado em uma conversa rápida, mas os poloneses entenderam as associações narrativas com a realidade. 

    A escolha em inserir na história “um fantasma” resultou em críticas severas ao filme, mas, segundo Michal Oleszczuk, dessa forma Kieslowski pode se desligar da realidade, inserindo um elemento ficcional considerado absurdo naquele momento de crueldade real. “O filme foi recebido de forma brutalmente negativa em sua abertura. Os críticos odiaram o filme, críticas cruéis, rejeições muito ácidas e bruscas por todos os lados políticos. Os principais críticos do regime opuseram-se violentamente até mesmo ao aspecto espiritual da história que era, de alguma forma, metafísica e vagamente cristã. A imprensa da oposição, ou pelo menos crítica, também se opôs violentamente à ideia de apresentar a lei marcial desta forma específica, sem se refeir à tortura ou aos tanques nas ruas.”

    A protagonista do filme também recebeu críticas contundentes. A estrela Grażyna Szapołowska interpreta uma bela viúva que se “esconde” em um apartamento confortável de classe média alta, decorado com aparatos ocidentais, sem se envolver com as questões políticas, quase uma alienada. Em uma conversa, Joanna a acusa de não estar preocupada com a realidade do país. Urszula responde: “Sim, é verdade.”

    Hoje, mesmo com todas as polêmicas levantadas quando do lançamento, Sem fim é considerado um filme referencial para entender o complexo momento da Polônia no início dos anos 80. A estrutura narrativa, basicamente a inserção do fantasma de Antek, influenciou outros filmes, como Sombras da vida (2017), de David Lowery, e o mega sucesso Ghost (1990). 

    Polêmicas à parte, em um ponto todos concordam: Zbigniew Preisner criou para o filme uma música espetacular, com um tom de amargura, intensificado pelas melodias repetitivas que marcam momentos importantes da narrativa, como na bela e triste abertura em um cemitério iluminado pelas velas – a celebração do Dia dos Santos pelos poloneses. Poesia visual e sonora que anuncia um filme triste, tristeza que permeia os mortos e os vivos.

  • Histórias americanas: comida, família e filosofia

    Histórias americanas: comida, família e filosofia (Histoires d’Amérique: food, family and philosophy, França, 1989), de Chantal Akerman.

    Uma jovem diante da câmera conta sua história, o relacionamento que construiu com “um homem tão lindo e afetuoso”. O homem morreu e a deixou com uma filha de 13 anos, a partir daí a narrativa muda para a frustração, solidão e depressão vivida pela viúva. O longo depoimento segue o estilo de um documentário tradicional, pessoas posando para câmera, discorrendo sobre suas relações com a comunidade judaica onde vivem, contando suas histórias. 

    Após dois depoimentos, corta para um homem barbudo entrando em uma porta giratória, acompanhado com o olhar por outro homem na rua. Imediatamente, um homem sem barba sai pela porta giratória. O homem na rua pergunta:: “Senhor, me diga, antes que eu enlouqueça nesse país. Como conseguiu fazer a barba tão rápido?”. Corta para dois idosos, eles se cumprimentam e segue o diálogo: “Você conhece a vida. A vida é como a fonte.” “Porque?” “Está tudo bem. A vida não é como a fonte.”

    Agora o estilo é um filme de ficção? onde os diálogos são construídos e interpretados, revelando comportamentos e falas surrealistas. A experiência de Chantal Akerman subverte princípios elementares da narrativa, tanto em termos documentais quanto ficcionais. 

    O filme foi realizado em locações urbanas de Nova York, ambientado sempre em cenas noturnas. Diversos personagens entram e saem de cena até se reunirem em um jantar à noite: assistem, sentadaos nas mesas, encontros e diálogos que se sucedem – sim, como no teatro.

     A mãe de Chantal Akerman foi uma sobrevivente de Auschwitz. Histórias americanas: comida, família e filosofia é um estudo antropológico sobre imigrantes judeus, no caso nos EUA, que lutam para preservar a cultura, a memória, contando histórias, às vezes trágicas, outras vezes bem humoradas e fantasiosas. Vale lembrar a constatação de Isak Dinesen: “Ser uma pessoa é ter uma história para contar.”

  • Hotel das Acácias

    Hotel das Acácias (Hôtel des Acacias, Bélgica/França, 1982), de Chantal Akerman e Michéle Blondeel. 

    Marie desembarca do trem em Bruxelas. Entra no Hotel das Acácias, é atendida por Hans, o recepcionista, e pede um quarto para uma noite. É acompanhada ao quarto por Michel. Antes de entrar no quarto, eles conversam: “Está aqui de férias?” “Não. Não sei.” “Então é uma história de amor.” “Como sabe?” “Essas coisas acontecem. Eu a invejo. É tão bom estar amando. Amanhã achamos seu homem. Boa noite.” 

    Pouco depois, Nathalie, vinda do interior, chega no Hotel e pede um quarto. Ela está à procura de emprego, assim que começar a trabalhar vai buscar seu noivo que ficou no vilarejo. No entanto, Hans se apaixona por ela. 

    A introdução define o tema e narrativa do filme: jovens, hóspedes e funcionários do hotel, começam relações de amizade e paixão, às vezes até mesmo assumindo infidelidades consentidas. A narrativa transcorre inteiramente dentro do hotel, marcada por inserções musicais que pontuam o estado emocional dos personagens, como no baile organizado para comemorar o emprego de Nathalie. A solidão e desilusão amorosa marca todos os personagens. 

    O média-metragem (40 minutos) de Chantal Akerman foi realizado contando com alunos de uma oficina de cinema de Bruxelas. O estilo musical está presente em momentos importantes da narrativa e, mesmo sem a música, é possível perceber movimentos rítmicos e coreógrafos do elenco nos ambientes do hotel. 

    O tempo cronológico não é determinado, em alguns momentos é até mesmo subversivo. Durante o baile, o noivo do interior é avisado e, minutos depois, chega ao hotel. Nem mesmo os nomes dos personagens importam, são citados espaçadamente, dificultando a identificação. Resta ao espectador se entregar à busca pelo amor desses jovens, mesmo que fugaz. 

    Elenco: Philippe Bobsled, Catherine Carrera, Amid Chakir, Mario Gonzales, Katy Guisard, Michel Kartchevsky, Marie Signé Ledoux. 

  • Tenho fome, tenho frio

    Tenho fome, tenho frio (J’ai faim, j’ai froid, França, 1984), de Chantal Akerman.

    Duas jovens interpretadas por Maria de Medeiros e Pascale Salkin, chegam a Paris, fugindo de suas casas, na cidade de Bruxelas. A narrativa acompanha as jovens durante duas noites e um dia, em busca de um lugar para dormir e uma forma de ganhar dinheiro para comer. 

    O curta de cerca de dez minutos de duração, fotografado em preto e branco, integra o projeto Paris vu par… 20 ans après (1984), filme que reúne seis curtas de diferentes diretores: Philippe Garrel, Jean-Daniel Pollet, Frédéric Mitterrand, Bernard Dubois e Chantal Akerman. O projeto é uma releitura do filme produzido nos anos 60, Paris vu par… de 1965, dirigido por jovens da nouvelle vague francesa. 

    As meninas, perambulando pelos subúrbios de Paris, reclamando o tempo todo: “Tenho fome, tenho frio.”, com gestos e diálogos repetitivos. Na jornada, entram em um bar e começam a cantar, na esperança de ganhar dinheiro. Um grupo de homens as acolhem na mesa e oferecem comida e bebida à vontade a elas. A noite termina no apartamento de um deles, que aproveita o momento para transar com a que sente frio. Na manhã seguinte, as duas estão novamente nas ruas de Paris, final em aberto que derruba a ilusão romântica que consagrou a cidade luz.

  • Três estrofes em nome de Sacher

    Três estrofes em nome de Sacher (Trois strophes sur le nom de Sacher, França, 1989), de Chantal Akerman. 

    O cenário é minimalista, como em grande parte dos filmes de Chantal Akerman. Um sofá com uma manta desarrumada em cima, uma pequena escrivaninha no lado oposto, uma cadeira, cortinas vermelhas deixando ver no centro uma parede com duas janelas lado a lado. Sonia Wieder-Atherton entra em cena, senta-se na cadeira com seu violoncelo e começa a tocar a primeira estrofe de Sacher. 

    Durante o curta, a consagrada violoncelista, companheira de Chantal Akerman, toca Trois strophes sur le nom de Sacher, composições de Henri Dutilleux criadas em homenagem à Paul Sacher, regente e mecenas das artes. A interpretação visual da música conta com dois personagens que aparecem, sempre filmados de longe, nas janelas ao fundo do cenário, como se estivessem no cotidiano de suas casas, tomando café da manhã, passando roupas, observando a vida pela janela.

    O curta foi realizado para ser exibido na televisão francesa. A direção de fotografia e a direção de arte deslumbram o espectador que se deixa levar de forma institiva para a bela performance musical de Sonia Wieder-Atherton.  

  • Retrato de uma mulher preguiçosa

    Retrato de uma mulher preguiçosa (Portrait of a lazy woman, França, 1986), de Chantal Akerman. 

    Chantal Akerman acorda em seu quarto bagunçado, olha para a câmera e diz: “Hoje é sábado e farei um filme sobre preguiça. Vou levantar em um minuto. Levante-se preguiçosa. Se arrume, tome um banho. Para fazer um filme você precisa levantar e se vestir.”

    No ambiente, Sonia Wieder-Atherton, companheira de Chantal, toca violoncelo. Durante cerca de sete minutos, a diretora perambula pelos cômodos em seus afazeres cotidianos do amanhecer, sempre se lembrando que precisa fazer um filme sobre a preguiça. 

    O curta de Chantal Akerman faz parte do projeto Sete mulheres, sete pecados (Seven women, seven sins, França, 1986), que reuniu diretoras na realização de curtas, cada uma tendo por base para a ideia um dos pecados capitais. Chantal Akerman trata a preguiça de forma metalinguística sobre o processo de fazer cinema, que exige força de vontade, disciplina, cumprimento de prazos rígidos e uma perseverança quase cruel em todas as etapas da realização. 

    As outras autoras envolvidas no projeto são: Ulrike Ottinger, Maxi Cohen, Helke Sander, Bette Gordon, Lawrence Gravou e Valie Export. 

  • Ela deve estar vendo coisas

    Ela deve estar vendo coisas (She must be seeing things, EUA, 1987), de Sheila McLaughlin. 

    Agatha (Sheila Dabney) é advogada e trabalha em uma instituição que cuida de causas humanitários. Sua namorada Jo (Lois Weaver) é diretora de cinema independente e está às voltas com a produção de um novo filme. O conflito entre as duas acontece quando Agatha descobre e começa a ler o diário de sua namorada, se deparando com relatos sexuais de Jo com outros homens. 

    A narrativa fragmentada é a marca do filme de Sheila McLaughlin. À medida que lê o diário, Agatha confunde texto e realidade, imaginando os ousados relatos que se transformam em cenas desconexas. O espectador se vê diante do dilema da jovem advogada: sua imaginação é a representação do desejo voyeurístico?; a diretora de cinema está mesmo a traindo? A busca obsessiva pela verdade empreendida por Agatha revela a complexidade das paixões, do ciúme, dos relacionamentos amorosos plenos de sexualidade. 

  • Comprometida

    Comprometida (Committed, EUA, 1984), de Sheila McLaughlin e Lynne Tillman, reconstitui, de forma íntima e sufocante, a trágica história de Frances Farmer, atriz de teatro e cinema. Ainda jovem, Frances Farmer se destacou no teatro de Nova York e passou a conciliar seu trabalho nos palcos com incursões pelo cinema hollywoodiano. No entanto, as atividades políticas de Farmer, ligadas ao partido comunista e engajada em causas sociais e trabalhistas, tiveram consequências: a própria mãe a internou em um hospital psiquiátrico, onde Farmer permaneceu por seis anos e passou por experimentos médicos, incluindo uma possível lobotomia cerebral.

    O filme de Sheila McLaughlin e Lynne Tillman acompanha os momentos anteriores a esses procedimentos. No hospital, Farmer é retratada como uma mulher lúcida, comprometida com suas atividades políticas e com sua carreira profissional.  Flashbacks abrem espaço para o problemático relacionamento de mãe e filha, que culminou na internação. 

    Comprometida é um forte manifesto contra a opressão pelas instâncias de poder, dominadas pelos homens. Francis Farmer demonstra claramente sua sanidade e lucidez, mesmo assim os médicos insistem em tratamentos ortodoxos, testando medicamentos e procedimentos para curar a “rebeldia” da atriz. Sob o pretexto de lutar contra o comunismo, políticos, médicos, produtores de cinema, representantes religiosos, interromperam carreiras, condenaram cidadãos e ceifaram vidas.   

    Elenco: Sheila McLaughlin (Frances Farmer), Victoria Boothby (Lillian Farmer), Lee Breuer (Clifford Odets), John Erdman (Dr. Taylor), Lucy Sanger (A enfermeira).

  • Os frutos da paixão

    Os frutos da paixão (Les fruits de la passion, Japão, 1981), de Shuji Terayama, marca o extravagante e agressivo cinema erótico japonês dos anos 70/80, cujo grande precursor é O império dos sentidos (1976). O cenário é a caótica região de bordéis da Xangai da década de 20, reduto de prostitutas, marginais e homens endinheirados em busca de prazer sem limites. 

    O nobre inglês Sir Stephen (Klaus Kinski) chega a um bordel com sua amante, a jovem conhecida como O (Isabelle Illiers) – é uma alusão à clássica História de O. A jovem deve ser iniciada na “arte” da sedução e do prazer, se submetendo a práticas de dominação e submissão, incluindo relações sadomasoquistas. 

    Cenas que beiram o sexo explícito permeiam a trama, marcada por uma fotografia abrasiva e figurinos extravagantens, evidenciando o clima sexual e político (grupos terroristas lutam pela libertação) perto da explosão. O filme, que sofreu com a censura durante muitos anos, é mais uma obra desafiadora,  provocativa, perturbadora em termos temáticos, narrativos e estéticos.   

  • A caminho da loucura

    A caminho da loucura (Heller wahn, Alemanha, 1983), de Margarethe von Trotta.

    Olga (Hanna Schygulla) é uma professora universitária de bem com a vida, vive sua liberdade, incluindo um relacionamento amoroso tranquilo, sem as amarras das convenções ou sociais. Ruth (Angela Winkler), ao contrário, vive em conflito interno, sofrendo com um marido possessivo. Ela tenta vencer a depressão se dedicando à pintura, sempre solitária. O relacionamento entre as duas começa quando, numa casa de campo, Olga impede Ruth de cometer suicídio. 

    A diretora e atriz Margarethe von Trotta, uma das expoentes do novo cinema alemão, trata com delicadeza e sensibilidade, bem ao estilo de seu olhar feminino e feminista, a intensa relação entre Olga e Ruth. É um filme sobre amizade, sobre mulheres que lutam para se libertar das convenções impostas, sobre a depressão e possibilidades de fuga.