Categoria: Anos 80

  • Dirigido por Andrei Tarkovski

    O documentário foi realizado durante as filmagens de O sacrifício (1986), na Suécia. É um retrato fascinante do processo de criação e realização de um dos diretores mais autorais, intimistas, do cinema. As cenas mostram Tarkovski envolvido em todas as etapas da produção: discutindo aspectos da direção de arte, do cenário, conversando com os atores, às vezes, simulando ele mesmo cenas para expressar seu desejo na interpretação. 

    As sequências das filmagens são intercaladas com depoimentos de Larissa Tarkovskaja, esposa do diretor, que lê trechos do diário do marido, de conversas do diretor em palestras que proferiu, de suas reflexões sobre o cinema e a vida, deixando claro que nos filmes do cineasta russo não existe separação entre a arte e sua vida.

    “Você pergunta que relacionamento ele tinha com a casa dele. A casa era muito importante para ele. E, como  pôde ver, ele colocou nossa casa em cada um de seus filmes. O interior, a sensação, a alma de nossa casa. Não exatamente como uma fotografia. Afinal de contas, isto é arte. Ele usou outras formas e outros personagens além de nós. Mesmo assim, sua vida e sua casa estão presentes em cada filme. Sentimos muita falta de nossa casa durante os cinco anos que ficamos no ocidente. Esta foi nossa primeira casa e ele a adorava e trabalhava muito bem lá. Ele costumava desenhar sempre a casa. Ele escreveu. Estou descansando aqui há três dias, mas sinto que recuperei um ano inteiro. Agora, posso trabalhar. Mas onde há trabalho a ser feito? Em ‘O sacrifício’ ele contou a história de como encontramos a casa. Foi exatamente como o homem contou ao seu filho que, na verdade, é nosso filho mais novo, Andryushka.” – Larissa Tarkovskaja

    Um dos grandes destaques do documentário é o conflito que aconteceu após as filmagens da sequência final, o incêndio da casa do protagonista. Preparativos meticulosos foram necessários, pois a casa/cenário foi realmente incendiada para ser gravada em um longo plano-sequência. No entanto, a câmera travou por alguns segundos durante a filmagem. Tarkovski não admitiu editar a sequência, ameaçando, inclusive, que o filme não seria lançado caso não fosse possível repetir a filmagem. A equipe conseguiu financiamento para reconstruir a casa e o diretor de fotografia Sven Nykvist resolveu usar duas câmeras, em dois trilhos, um mais elevado do que outro, como segurança. Tudo deu certo, as imagens mostram a equipe exultante e um Tarkovski pleno de emoções indefiníveis após a palavra “corta”.  

    O final, emocionante, mostra Tarkovski durante o processo de tratamento do câncer que o mataria, poucos meses após as conclusões de O sacrifício, já acamado, discutindo com a equipe aspectos de pós-produção do filme, como o tratamento de cor. Com certeza, Dirigido por Tarkovski é um dos melhores documentários sobre o cinema já realizados. 

    Dirigido por Andrei Tarkovski (Regi: Andrei Tarkovski, Suécia, 1988), de Michal Leszczylowski.

  • Pauline na praia

    Marion está em processo de separação. Ela viaja de férias para uma praia na Normandia, junto com a sobrinha Pauline, de 15 anos. A estada das duas é marcada por relacionamentos amorosos que se confundem: o surfista Pierre tem uma antiga paixão por Marion; Marion se envolve com Henri, um notório sedutor; Pauline começa um relacionamento com o jovem Sylvain, mas é assediada por Henri; Henri se envolve com a vendedora Rosette, que acaba complicando o namoro de Sylvain…

    Da série Comédias e provérbios (Quem muito fala, prejudica a si mesmo) essa espécie de ciranda de relacionamentos tem a marca de Éric Rohmer. As levezas dos belos corpos ao sol e dos romances nas camas são tratados de forma natural, mesmo quando entram em terrenos perigosos, como o fascínio que Pauline provoca nos homens mais velhos. O portão da casa de praia que se abre no início e se fecha no final demarca a natureza desses encontros, desses embates amorosos: coisas do verão. 

    Pauline na praia (Pauline à la plage, França, 1983), de Éric Rohmer. Com Amanda Langlet (Pauline), Arielle Dombasle (Marion), Pascal Greggory (Pierre), Féodor Atkine (Henri), Simon de La Brosse (Sylvain), Rosette (Louisette). 

  • As 4 aventuras de Reinette e Mirabelle

    Mirabelle está passeando no campo e conhece Reinette, moradora da região. As duas passam uma noite na casa de Mirabelle e resolvem alugar um apartamento juntas em Paris. As quatro aventuras do título são narradas em episódios. No primeiro, Reinette tenta mostrar a Mirabelle a encantadora hora azul, quando por alguns segundos na madrugada o silêncio toma conta da paisagem campestre. Os três outros episódios acontecem em Paris. 

    Reinette tem um confronto com um garçom de um mau humor hilário. As jovens amigas, em andanças por Paris, se deparam com um mendigo, uma pedinte de dinheiro na estação de metrô, e uma cleptomaníaca que rouba alimentos de um supermercado. Por fim, a história mais engraçada e cativante: Reinette, com a ajuda de Mirabelle, tenta vender um de seus quadros a um marchand, dono de uma pequena galeria de arte. 

    O humor dita o tom das narrativas nas quatro aventuras. Mirabelle e Reinette se cruzam com uma galeria de personagens bem ao estilo Rohmer, motivando reflexões e diálogos sobre esse fascinante cotidiano dos jovens. 

    As 4 aventuras de Reinette e Mirabelle (4 aventures de Reinette et Mirabelle, França, 1987), de Éric Rohmer. Com Joelle Miguel (Reinette), Jessica Forde (Mirabelle), Fabrice Luchini (Marchand).

  • Um casamento perfeito

    O provérbio que abre a narrativa é “Qual o espírito que não divaga? Quem não constrói castelos na Espanha?” Quem divaga sobre castelos na Espanha é Sabine, estudante de arte, que, logo no início, tem uma desilusão amorosa com seu amante, um pintor casado. Ela decide então se casar, mesmo sem um pretendente. Quando o advogado Edmond, charmoso e livre, entra em cena, Sabine tem certeza de ter encontrado seu noivo. 

    O centro da trama é Sabine, personagem que age motivada por seus desejos, mesmo sabendo da impossibilidade de realizá-los plenamente. A comédia dita o tom da narrativa, Sabine oscila entre atitudes ingênuas e impulsivas para conquistar Edmond e entre momentos de tristeza e depressão. É mais uma personagem da galeria de rostos fascinantes de Éric Rohmer, que vivem de encontros fortuitos na vida cotidiana das cidades, se deixando levar de forma despretensiosa, natural, pelos acasos. Em Um casamento perfeito esse acaso se manifesta de forma apaixonante na estrutura circular da narrativa: o início e o final com Sabine dentro de um trem. 

    Um casamento perfeito (Le beau mariage, França, 1982), de Éric Rohmer. Com Béatrice Romand (Sabine), André Dussollier (Edmond), Arielle Dombasle (Clarisse), Sophie Renoir (Lise), Féodor Atkine (Simon). 

  • Mirch Masala

    Na Índia colonial, o exército percorre os povoados cobrando impostos da população. O conflito se instaura em uma pequena aldeia quando o General exige que a bela Sonbai (seu marido está ausente, trabalhando em uma estrada de ferro) se entregue a ele. Além de recusar, ela esbofeteia o General e, em fuga, se refugia, junto com outras mulheres, em uma fábrica de pimenta.

    A narrativa de Ketan Mehta revela a face cruel de uma sociedade que se diz protetora dos valores da família. Os homens da aldeia se submetem às exigências do General e, quando confrontados moralmente (é seu dever proteger suas mulheres) abaixam a cabeça em sinal de subserviência e humilhação. A resistência se mostra no ato heróico do guardião da fábrica e na virada final, quando as mulheres se unem em um retumbante gesto de autodefesa e protesto. Um filme relevante, principalmente neste momento, quando os valores conservadores da sociedade patriarcal voltam novamente suas garras contra as mulheres. 

    Mirch Masala (Índia, 1986), de Ketan Mehta. Com Smita Patil (Sonbai), Naseeruddin Shah (Subeber), Om Puri (Abu Miya). 

  • A casa e o mundo

    Bimala segue os preceitos determinados pela rígida sociedade indiana. É casada com o rico Nikhil e vive reclusa na mansão, na ala destinada às mulheres. Seu marido tem ideias progressistas a respeito da emancipação das mulheres e a incentiva a deixar a reclusão e conhecer seu amigo Sandip, um líder nacionalista que luta conta a colonização britânica na Índia. 

    Bimala e Sandip desenvolvem, a princípio, uma relação comum a respeito das ideias nacionalistas. No entanto, essa relação caminha passo a passo para a atração física que ganha contornos irresistíveis e imprevisíveis, diante da conturbada situação política do país. 

    A narrativa do aclamado diretor Satyajit Ray tem como contexto a Índia do início do século XX, quando os movimentos nacionalistas ganharam força. Ao mesmo tempo, a trama aponta questões que repercutem ainda hoje, como a divisão de castas indianas, a situação da mulher, oprimida pela cruel dominação masculina. O final trágico deixa pouco espaço para a esperança. 

    A casa e o mundo (Ghare-Baire, Índia, 1984), de Satyajit Ray. Com Soumitra Chatterjee (Sandip), Victor Banerjee (Nikhl)), Swatilekha Sengupta (Bimala), Gopa Aich (A irmã). 

  • O amigo da minha amiga

    O filme é uma espécie de ciranda amorosa. Dois casais de amigos moram e trabalham nos arredores de Paris. Lea e Fabien são namorados ocasionais, não se decidem pelo relacionamento. Alexandre é um jovem sedutor, desejado por diversas mulheres. Blanche está solteira e em conflito com sua dificuldade em manter namoros. Blanche se apaixona por Alexandre, que nutre desejos por Lea. À medida que conhece melhor Blanche, Fabien se encanta mais e mais pela garota. 

    O amigo de minha amiga é o último filme da série Comédias e Provérbios, de Éric Rohmer: “Os amigos dos meus amigos são meus amigos.” A narrativa segue os passos dos quatros jovens, com destaque para Blanche, e seus encontros e desencontros amorosos. Tudo com descontração e bom humor, refletindo as incertezas da juventude diante de seus relacionamentos. O final do filme é divertido e deixa no ar este gosto de quero mais do cinema de Eric Rohmer. 

    O amigo da minha amiga (L’Ami de mon amie, França, 1987), de Éric Rohmer. Com Emmanuelle Chaulet (Blanche), Sophie Renoir (Lea), Eric Viellard (Fabien), François-Eric Gendron (Alexandre). 

  • Noites de lua cheia

    O filme faz parte da série Comédias e Provérbios, de Éric Rohmer, começando, como sempre, com uma citação (neste caso, o provérbio foi inventado pelo próprio diretor): “Quem tem duas mulheres perde a alma, quem tem duas casas perde a cabeça.”

    A jovem Louise mora nos arredores de Paris com seu namorado, o tenista Remi. Trabalha em Paris, onde tem um apartamento que está alugado. Quando o inquilino deixa o imóvel, Louise decide decorá-lo e fazer dali sua segunda morada, onde decide passar alguns dias da semana sozinha.

    Louise representa a mulher que busca sua emancipação, desejosa de ter liberdade em seus relacionamentos. Ela ama Remi mas quer aproveitar suas noites em baladas, longe do namorado. Seu companheiro destes momentos é Octave, casado, mas que nutre uma paixão por Louise – que em diversos momentos se transforma em puro assédio. 

    Através de suas comédias e provérbios, Éric Rohmer traça um retrato descompromissado e descontraído da juventude. Em Noites de lua cheia, os personagens estão envoltos nos conflitos provocados pelos relacionamentos amorosos, por desejos de liberdade, de novas experiências. A infidelidade de Louise, de Remi, de Octave, despeja no espectador o frescor da juventude.

    Noites de lua cheia (Les nuits de la pleine lune, França, 1984), de Éric Rohmer. Com Pascale Ogier (Louise), Tchéky Karyo (Remi), Fabrice Luchini (Octave), Virginie Thévenet (Camille).

  • Mur murs

    A câmera de Agnés Varda, neste documentário em curta-metragem, percorre as ruas da grande Los Angeles, mostrando murais pintados por artistas anônimos. Os diversos temas traçam um retrato da cidade dos sonhos dos anos 80: violência de gangues, movimentos culturais das ruas, seitas religiosas, marginalizados… 

    Como é comum em seus documentários, a cineasta tece comentários sobre as imagens, provocando a reflexão sobre a arte desses artistas anônimos, muitos deles também marginalizados que encontram nas paredes e muros das grandes cidades a possibilidade de se expressar. Muros e murmúrios ecoa como um grito pela beleza e vivacidade das obras. 

    Mur murs (França, 1981), de Agnès Varda. 

  • Meu tio da América

    O filme começa com narração em off do professor Henri Laborit (personagem real), sobreposta a imagens estáticas de plantas, rios, árvores, detalhes de objetos em ambientes diversos. O professor discorre sobre o motivo da existência humana, apresentando suas teorias sobre o evolucionismo. A seguir, voz feminina apresenta, também sobre imagens estáticas, os personagens. Jean Le Gall, político e professor de história. Janine Garnier, aspirante a atriz  que se torna uma importante estilista. René Ragueneau, funcionário de carreira de uma indústria têxtil. Henri Laborit, médico, professor e pesquisador com importantes descobertas nas áreas anestésica e de reanimação. 

    O fio condutor da narrativa são as teorias do professor, entremeadas com as histórias dos outros três personagens que servem como espécie de cobaias e comprovações das teses apresentadas. Eles passam por conflitos que os colocam em posições desafiadoras no trabalho, no casamento, levando a escolhas entre a tranquila vida cotidiana e rupturas. A princípio isoladas, as histórias se cruzam. 

    O título se refere a uma metáfora, há um possível tio na América dos personagens que serve como exemplo de ressurgimento de sucesso no país onde todos os sonhos são possíveis. Com esta trama complexa, misto de documentário e ficção, Alain Resnais faz uma crítica cruel e, ao mesmo tempo, bem humorada da sociedade formada por pessoas que precisam manter suas posições seguras enquanto desejam com ardência outros caminhos. 

    Meu tio da América (Mon oncle D’Amérique, França, 1980), de Alain Resnais. Com Gérard Depardieu (René), Nicole Garcia (Janine), Roger Pierre (Jean), Nelly Borgeaud (Arlette).