Warren Quimby é um pacato funcionário de farmácia. Admirado pelos seus colegas de trabalho, trata com gentileza todos os clientes e, após o final do expediente, ruma tranquilamente para sua casa, onde espera encontrar Claire (Audrey Totter), sua esposa. Desde o início o espectador sabe que é um casamento praticamente de fachada por parte de Claire que trata o marido com indiferença e agressividade, enquanto se diverte à noite com outros homens.
O casamento termina quando Claire resolve assumir seu amante. Acontece então uma radical mudança de personagem: Warren se disfarça fisicamente e planeja assassinar seu oponente.
A femme fatale vivida por Audrey Totter é o grande destaque da trama. Após o assassinato, ele tenta virar o jogo e voltar para o marido, mas agora é ela quem enfrenta uma oponente: Mary (Cyd Charisse), jovem que se apaixona por Warren e é correspondida. No entanto, a polícia agora está no encalço do farmacêutico, sob acusação de um assassinato que ele planejou mas não cometeu. Ótimo noir de John Berry, responsável por um clássico do gênero: Por amor também se mata (1951).
Almas perversas (Scarlet street, EUA, 1945), de Fritz Lang.
Christopher Cross (Edward G. Robinson) é um homem passivo, dominado pela forte personalidade de sua esposa, uma viúva que ainda mantém, quase como uma ameaça, o retrato de seu primeiro marido na sala de estar. É um casamento de conveniência, cabendo a Chris abaixar a cabeça e seguir em frente com suas frustrações. Tudo muda quando ele conhece Kitty (Joan Bennet), uma prostituta, a tradicional e irresistível femme fatalle dos fimes noir.
Almas perversas é um remake de A cadela (1931), de Jean Renoir. A temática dos dois filmes é a mesma: a opressão que o sistema capitalista, burguês, impõe a seus servos, que caminham resignados enquanto sonham com uma vida diferente, talvez pela arte, talvez vivendo uma paixão. Chris é pintor em suas horas livres, mas não faz nada para seguir nessa carreira, deixa até mesmo roubarem a autoria de seus quadros. Tem admiração por seu chefe, que tem uma amante muito mais nova. Kitty entra em sua vida e a transformação do protagonista é impactante: ele pratica um assassinato e não se importa em ver um inocente pagar pelo seu crime.
“A mudança no local em que se passam os dois filmes serve como parâmetro para a mudança de gênero deles. Em Paris, desejo é poesia; em Nova Iorque, é dinheiro. Chris Cross desliga-se da esposa, é demitido do trabalho, assassina uma mulher, incrimina um homem, transforma-se em um mendigo, mas, ao contrário de Simon, não alcança liberdade alguma. Lang vai, assim, além de Renoir. Os atos do protagonista agora não são contrários ao mundo onde vive, mas impulsionados por ele, pois esse mundo é regido pelo desejo, e desejo, repito, é capital. Desde o início, esta relação fica clara. Na primeira vez em que aparecem juntos, um longo plano mostra Chris, sentado, de costas, enquanto seu chefe, em pé, de frente para a tela, discursa. Pouco depois, Chris comenta que gostaria de ter alguma amante jovem e bonita apaixonada por ele, como tem seu chefe, e como nunca, em sua vida, teve. Quando se apaixona por Kitty, o desejo que sente é apenas fruto daquilo que gostaria de ser: seu chefe, portanto. Mas Lang não deixa dúvidas; a paixão custa caro, em qualquer sentido, e não é qualquer um que tem o direito de desejar. Se para o patrão a questão moral não se coloca (e seria um tanto hipócrita pensar que Chris tem mau destino porque “peca”, quando o chefe também o faz, e mais naturalmente) é porque ele tem dinheiro e poder para comprá-la, como afirma a cena em que assegura a liberdade de seu funcionário subornando os guardas com uma caixa de charutos cubanos.” – Leonardo Levis – Contracampo
Cinzas que queimam (On dangerous ground, EUA, 1951), de Nicholas Ray, começa como um tradicional filme noir. Jim Wilson (Robert Ryan) é um policial solitário e amargurado. Trafega por becos e bares marginais da noite à caça de seus bandidos, despreza as mulheres, seus amigos são os policiais que o acompanham jornada noite à dentro. Seu jeito taciturno sugere uma obsessão em resolver os casos a que é designado usando de brutalidade e violência.
A virada do roteiro e do estilo do filme acontece quando o chefe de polícia o adverte por mais uma noite de violência e o encarrega de investigar o assassinato de uma jovem em uma região rural. É como se o filme saísse da noite e entrasse na claridade da neve e do gelo. Durante a investigação, Wilson encontra Mary Malden (Ida Lupino), irmã do assassino. Ela é cega e tenta proteger o irmão a todo custo e vai motivar a transformação do policial.
“‘Enxergar’ é o conceito chave em Cinzas que Queimam, pois é a partir do encontro com a cega Mary Malden (a espetacular Ida Lupino), em uma das maiores atuações femininas da história), irmã do assassino, que Wilson muda para sempre. Voltando à questão da ‘readaptação’, é curioso como até o próprio “gênero” do filme parece se alterar, saindo do noir urbano para uma mistura entre realismo poético francês à Renoir e um melodrama. Se o detetive rejeitava a aproximação com as outras mulheres da cidade e consegue se abrir para Mary é justamente porque ela carrega a pureza que as outras não tinham. Em um movimento que lembra muito o encontro de Frankenstein com a cega em A noiva de Frankenstein (1935), o fato dela não enxergar sua aparência exterior, mas sentir quem ele é, deixa aquele personagem vulnerável.” – Michel Gutwilen (Plano Crítico)
São apenas cinco personagens em cena, reclusos dentro de um pequeno apartamento. O pianista Stanley mora na pensão do casal Petey e Meg. Não sai de casa e demonstra um comportamento imprevisível, irascível, sujeito a rompantes de violência verbal. A chegada de dois estranhos que se hospedam na pensão pode provocar o trágico aniversário do título.
O filme é baseado na peça homônima de Harold Pinter que colaborou no roteiro. Os dois estranhos chegam à cidade à procura de Stanley, que precisa ser eliminado. O motivo nunca é revelado, há apenas uma alusão ao IRA (Exército Republicano Irlandês).
A direção de William Friedkin utiliza do ambiente claustrofóbico, com ângulos e planos exagerados para aumentar gradativamente a tensão entre os personagens. Os diálogos beiram o surreal, elevando o clima de incompreensão da trama. O final é ainda mais enigmático. Destaque para a atuação de Robert Shaw.
Trágico aniversário (The birthday party, EUA, 1968), de William Friedkin. Com Robert Shaw (Stanley Webber), Dandy Nichols (Meg), Moultrie Kelsall (Petey), Patrick Magee (McCann), Sydney Tafler (Goldberg).
Jogando as fichas fora (Blue chips, EUA, 1994), de William Friedkin.
Peter Belli (Nick Nolte) é treinador de um time de basquete universitário. Após uma série de derrotas, sua carreira entra em declínio e ele revê alguns de seus princípios de ética e honestidade para conseguir um elenco mais talentoso.
Jogando as fichas fora trata de forma ousada das artimanhas efetuadas por grupos para burlar as regras do esporte e lucrar no mercado de apostas (tema sempre atual). O elenco é composto por figuras reais do basquete, incluindo Shaquille O’Neal, o célebre treinador Bobby Knight e comentaristas esportivos. As cenas dos jogos são emocionantes, um admirável trabalho da equipe de cinegrafistas e da direção de fotografia.
Uma curiosidade: a sequência final termina em uma “enterrada” fantástica de Shaquille O’Neal. O cinematógrafo Tom Priestley Jr. conta que Bobby Knight fez de tudo para que seus jogadores impedissem essa jogada, pois não aceitava perder um jogo nem mesmo em uma trama cinematográfica.
Um golpe muito louco reconstitui o célebre assalto realizado em 1950 à companhia Brink’s de Boston, considerado na época o maior roubo da história dos EUA. O ítalo-americano Tony Pino (Peter Falk) reúne uma trupe de assaltantes de pequeno porte, meio atabalhoados, para executar o assalto. William Friedkin fez uma rigorosa retratação de época, incluindo estudos minuciosos para reproduzir o local do crime.
O tom da película é o humor, conferindo aos bandidos uma aura de criminosos desastrados que cai no gosto do público. O destaque da película é o elenco, liderado pela interpretação primorosa de Peter Falk.
Um golpe muito louco (The Brink’s job, EUA, 1978), de William Friedkin. Com Peter Falk, Peter Boyle, Warren Oates, Gena Rowlands, Allen Garfield, Paul Sorvino, Gerard Murphy, Kevin O’Connor.
Quando o strip-tease começou (The night they raided Minsky’s, EUA, 1968), de William Friedkin.
Em 1925, Rachel Schpitendavel (Britt Ekland), uma jovem criada em uma comunidade Amish, chega a Nova York, fugindo da dominação religiosa do pai. O sonho de Rachel é ser dançarina de palco. Ela logo encontra a trupe que se apresenta no teatro burlesco dirigido por Minsky (Elliot Gould). A trupe oferece a Rachel uma apresentação especial à meia-noite, que, na verdade, seria uma farsa para burlar a vigilância repressiva das ligas de decência da cidade. Durante a apresentação, a jovem acaba inventando, por acaso, o strip-tease.
No início da carreira, William Friedkin assume o tom libertário, provocador e irreverente da Nova Hollywood. Quando o strip-tease começou é uma junção de esquetes cômicas nonsenses, números musicais fragmentados, fotografia que oscila entre o preto e branco e as cores exuberantes. O início do filme é uma bela homenagem ao cinema mudo.
O sol brilha na imensidão (The sun shines bright, EUA, 1953), de John Ford.
O Juiz Priest (Charles Winninger) apareceu pela primeira vez no filme Judge Priest (1934), do próprio John Ford. O sol brilha na imensidão é uma espécie de continuação, fato raro no cinema clássico americano do período.
William Priest segue demonstrando sua dignidade, senso de justiça e humanismo. Ele é juiz de uma pequena cidade do Kentucky, sul dos Estados Unidos, região demarcada pelo racismo que atinge níveis de violência extrema. O Juiz Priest agora tem em mãos dois casos que evidenciam o preconceito da sociedade sulista. Uma prostituta retorna à cidade e é rejeitada por todos; após a sua morte, ela não pode nem mesmo ter um enterro digno. Um jovem negro é acusado injustamente de um crime e está prestes a ser linchado pela população.
Priest está disputando a reeleição para o cargo e sua corajosa atitude na defesa dos dois casos faz com que ele se indisponha com os eleitores. John Ford carrega sua narrativa com o idealismo e humanismo do Juiz, simbolizado em uma sequência emocionante: mesmo arriscando perder a eleição, Priest organiza e segue à frente do enterro da prostituta, encarando com altivez a sociedade.
Um crime por dia (Gideon’s day, EUA, 1958), é um raro filme policial de John Ford. A trama, adaptada do romance homônimo de John Creasey, acompanha um dia na vida do policial George Gideon (Jack Hawkin. O inspetor tenta desvendar com agilidade casos que incluem o roubo de uma joalheria, um assassinato e até mesmo corrupção interne em seu departamento de polícia. Enquanto isso lida com questões familiares.
Inteiramente filmado em Londres, Um crime por dia é uma trama policial leve, sem grandes reviravoltas. Ford explora o lado humano do policial, sem enveredar por aspectos dramáticos, ao contrário, tratando tudo com bom humor, principalmente na relação amorosa na qual a sua filha se envolve durante esse atribulado dia. São 24 horas na vida do inspetor que, claro, podemos também classificar de uma pessoa comum, trabalhadora e apegada à família.
Peregrinação (Pilgrimage, EUA, 1933), de John Ford. Com Henrietta Crosman (Henrietta Crosman), Marion Nixon (Mary Saunders), Heather Angel (Suzanne), Norman Foster (Jim Jessop).
A viúva Hannah Jessop é uma mãe opressora e autoritária com Jim seu único filho. Ela não aceita o namoro do filho com Mary, uma jovem de classe social mais baixa e, para impedir o casamento, alista Jim para lutar na Primeira Guerra Mundial.
Esse filme menos conhecido do aclamado diretor John Ford é um relato sensível sobre a perda, luto e sentimento de culpa. Quando recebe a notícia da morte de seu filho nos campos de batalha, Hannah Jessop empreende uma jornada de redenção. A peregrinação do título acontece quando ela aceita participar de um programa do governo americano que leva as mães para a Europa para visitar os túmulos dos filhos mortos durante o conflito.
O destaque do filme é a atuação de Henrietta Crosman. A atriz contribui de forma decisiva neste melodrama, um gênero que John Ford investiu pouco em sua longa carreira.