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  • Easy riders, raging bulls

    Como a geração sexo, drogas e rock’n’roll salvou Hollywood (Easy riders, raging bulls: how the sex, drugs and rock n’ roll generation saved Hollywood, EUA, 2003), de Kenneth Bowser.

    O livro de Peter Biskind no qual se baseia o documentário é visto sob dois aspectos. Primeiro, é considerado um dos livros mais relevantes sobre a Nova Hollywood, período compreendido entre 1967 e o final dos anos 70.  Segundo, foi criticado por membros importantes da comunidade cinematográfica devido ao apelo às histórias, ou “fofocas”, resumidas no título: sexo, drogas e rock n’rool. 

    O documentário mantém essa dualidade, destacando a importância do movimento para o cinema contemporâneo que impactou o mundo com obras como O poderoso chefãoO exorcistaA última sessão de cinemaTaxi driverChinatownM.A.S.H.A conversaçãoOperação FrançaApocalypse now, entre tantas outras. 

    A polêmica se manteve, principalmente com a recusa de Steven Spielberg e George Lucas em serem entrevistados para o documentário. Segundo o livro e o documentário, os dois mais renomados diretores do movimento foram responsáveis por promover o renascimento dos grandes estúdios e, consequentemente, do sistema de estúdios, após o lançamento de blockbusters como TubarãoContatos imediatos do terceiro grau e Star Wars. 

    Outros membros fundamentais do movimento, considerados os rebeldes – os movie brats, participam do documentário, com histórias, análises e importantes reflexões: Dennis Hopper, Peter Fonda, Paul Schrader, Richard Dreyfuss, Cybill Shepherd, Martin Scorsese, além de críticos do cinema. A narração do filme é de William H. Macey.

  • O ano do dragão

    O ano do dragão (Year of the dragon, EUA, 1985), de Michael Cimino.

    O filme abre com o assassinato e funeral do líder da máfia chinesa no bairro de Chinatown. A violência se intensifica no bairro nova yorkina e o Capitão Stanley White (Mickey Rourke) é designado para comandar a polícia na região. Ele vai se confrontar com um intrincado esquema que envolve a tríade chinesa, comandada pelo jovem, violento e ambicioso Joey Tai (John Lone). 

    O ano do dragão contou com uma dupla de peso, afeita a polêmicas em seus filmes: Michael Cimino e Oliver Stone, autor do roteiro. Stanley White se mostra um policial que vive em dualidade: defende a legalidade, luta contra a corrupção dentro da corporação, é obcecado por extirpar a violência em Chinatown, mas não esconde seu racismo contra os chineses e nipônicos. 

    Com o casamento em crise, Stanley se envolve com a bela Tracy Tzu (Ariane), repórter de TV que cobre o violento dia-a-dia no bairro chinês. As cenas eróticas entre os dois fascinam o espectador, ainda num momento em que Mickey Rourke era o sedutor galã dos anos 80/90 no cinema. 

    No entanto, a marca da narrativa é a violência, perpetrada por e a mando de Joey Tai. Atenção para a sequência no deserto da Tailândia e o impiedoso ataque à casa do Capitão, quando ele está discutindo com sua esposa Connie (Caroline Kava).

    Elenco: Com Mickey Rourke (Stanley White), John Lone (Joey Tai), Ariane (Tracy Tzu), Caroline Kava (Connie White), Eddie Jones (William McKenna).

  • Maldição

    Acossado (1959), de Jean-Luc Godard traz uma inscrição inusitada na abertura: “Este filme é dedicado à Monogram Pictures”. O estúdio independente fez parte do chamado “corredor da pobreza” (poverty row), de Hollywood, junto com outras, como Producers Releasing Corporation e Republic Pictures, produtora de Maldição (House by the river, EUA, 1950), de Fritz Lang. 

    As empresas se especializaram na produção dos chamados Filmes B, feitos para completar as sessões duplas das salas de cinema. Eram filmes de baixíssimo orçamento, entre cinco e cinquenta mil dólares; rodados em tempo recorde – no máximo uma semana; feitos com reaproveitamento de cenários e sobras de rolos de filmes; com elencos compostos por atores amadores ou já na fase decadente, como Bela Lugosi. O Brasil se apropriou desta estratégia na famosa Boca do Lixo Paulista, onde foram produzidos filmes do Cinema Marginal e da Pornochanchada. 

    No final dos anos 1940, Fritz Lang “caiu no corredor da pobreza”, assim como outros diretores, atores e atrizes – a grande Hollywood sempre despreza, em algum momento, os gênios que criaram e consolidaram o sistema de estúdios. O que esperar do mestre do expressionismo alemão e dos filmes noir rodando um filme nessas condições precárias de produção?

    Maldição narra a história de um escritor fracassado, Stephen Byrne, que assedia Emily, jovem empregada da casa em que mora, à beira do rio (atenção para uma cena de puro erotismo, pernas femininas descendo a escada da casa, repetida duas vezes). Rejeitado, o escritor mata Emily por meio de um estrangulamento acidental. Seu irmão John chega na casa logo após o assassinato e é convencido por Stephen a ocultarem o crime. Os dois colocam o corpo em um saco de lenha e jogam no rio, amarrado na âncora do barco. 

    Em menos de 85 minutos, Fritz Lang tece uma trama de ambição, suspense e intrincado jogo psicológico motivado pela culpa. Para completar, um triângulo amoroso: o honesto e bondoso John é apaixonado por Marjorie, a bela esposa do irmão. Tudo indica que Marjorie corresponde à paixão, que se intensifica à medida que Stephen usa do alarde midiático em torno do desaparecimento de Emily para ganhar notoriedade e vender seus livros. 

    O rio é um dos protagonistas da trama. Corpos putrefatos de animais mortos, lixo e, por fim, o saco de lenha com o corpo, passam boiando em frente às mansões burguesas. “Eu odeio esse rio.” – diz uma velha senhora, vizinha do escritor. 

    O grande embate do filme acontece entre Stephen e o rio. Stephen se sente assombrado pelas visões do corpo de Emily e passa a escrever uma espécie de livro-confissão sentado em uma mesa perto das águas. A sequência em que o escritor persegue de barco o saco de lenha boiando é um primor do cinema expressionista, noir e drama psicológico. É a resposta de Fritz Lang, exilado no “corredor da pobreza”, aos grandes estúdios de Hollywood. 

    Elenco: Louis Hayward (Stephen Byrne), Lee Bowman (John Byrne), Jane Wyatt (Marjorie Byrne), Dorothy Patrick (Emily Gaunt), Ann Shoemaker (Mrs. Ambrose), Jody Gilbert (Flora Bantam).

  • Talvez em Michigan

    Talvez em Michigan (Possibly in Michigan, EUA, 1983), de Cecelia Condit. 

    Sharon (Jill Sands) e Janice (Karen Skladany) se encontram na praça de alimentação de um shopping. Sharon está sendo seguida por Arthur,  um serial killer que usa máscaras bizarras de animais. Narração em off: “Sharon atraía homens violentos. Estranhamente ela tinha um jeito de fazer a violência parecer que era ideia deles. Sua amiga Janice era feita do mesmo molde. Elas até gostam do mesmo perfume. Arthur, que as vinha seguindo de perto, tinha uma disposição semelhante. Os três tinham duas coisas em comum: violência e perfume.”

    O consagrado curta de Cecelia Condit acompanha a jornada das duas amigas pelo shopping, pelas ruas, até chegarem em casa. Os diálogos são musicados, seguindo uma tendência da mescla dos gêneros terror e musical nesse período. 

    As canções adotam uma espécie de toada infantil, versando sobre o gosto das duas por perfumes e outras coisas do cotidiano. Porém, enveredam por histórias envolvendo violência e assassinatos, como a mãe de uma conhecida que colocou o poodle no microondas e depois comeu o cachorro. As imagens oscilam entre a estética luminosa dos shopping centers, alternando com inserções de frames macabros (a mulher comendo a pata do poodle).

    Arthur está sempre à espreita, mas, em uma virada narrativa, é atraído para a casa de Janice, assassinado, estripado e devorado pelas duas amigas. Talvez em Michigan se apropria dos contos “infantis” dos Irmãos Grimm, incluindo referências como o lobo, as jovens inocentes e o canibalismo. O confronto entre os três é marcado pela canção:

     “Bem, ele não é um animal comum. Ele tem a cabeça do tamanho de um lobo e a boca tão grande quanto a …”

     “Para te comer melhor, querida.”

    A narrativa surreal, macabra, bizarra e claramente trash subverte o gênero slasher que dominou o cinema dos anos 70/80. A ousadia estética e sonora de Cecelia Condit, cujos trabalhos sempre visaram o circuito alternativo da videoarte, é um manifesto contra a violência masculina.

  • Debaixo da pele

    Debaixo da pele (Beneath the skin, EUA, 1981), de Cecelia Condit.

    No final dos anos 70, Cecelia Condit namorava Ira Samuel Einhorn quando a imprensa começou a divulgar uma descoberta macabra: a polícia encontrou no apartamento de Einhorn, na Pensilvânia, o corpo putrefato de Holly Maddux, sua ex-namorada, dada como desaparecida há dezoitos meses. O corpo estava dentro de um baú, escondido no closet do apartamento.

    Einhorn foi preso, pagou a fiança e fugiu para a Europa. Dezoito anos depois, ele foi extraditado, julgado nos EUA e condenado à prisão perpétua. O Assassino do Unicórnio, como ficou conhecido, morreu na prisão em 2020. 

    Em 1981, Cecelia Condit contou essa história, de um ponto de vista pessoal, em seu primeiro curta-metragem. O estilo experimental prevalece em Debaixo da pele: narração feminina em off narra os acontecimentos, sobreposta a imagens montadas no formato colagem de fotografias e trechos rápidos de vídeos. Cenas focam a beleza onírica da atriz Jill Sands, sempre deitada, com luzes refletindo em seu rosto, em seu corpo; imagens sobrepostas em fusões, como em aparições fantasmagóricas. Essas cenas são intercaladas com imagens de corpos em decomposição e caveiras, no mesmo estilo estético. 

    É uma história real de terror, dessas que nos acostumamos a ver apenas em filmes, mas que transformou os dias da jovem videoartista, que frequentava o apartamento do namorado junto com um corpo em decomposição no armário, em pesadelos macabros. “A coisa mais estranha é que eu nunca vi o corpo. Nunca vi os registros odontológicos. Nunca vi nada, só li no jornal. Amigos meus viram as notícias, mas nunca foi real. Era apenas uma história bizarra que de alguma maneira aconteceu na minha vida, mas nunca foi real.” – narração do curta-metragem. 

  • High school

    O documentário High School (EUA, 1968) traz a marca contundente do cinema direto preconizado por Frederick Wiseman. O diretor filmou durante cinco semanas o cotidiano de estudantes, professores e funcionários da Northeast High School, escola de classe média alta na Filadélfia. O documentário não trabalha com entrevistas, não usa trilha sonora, não sobrepõe voz over às imagens. 

    A câmera acompanha aulas, debates, atividades esportivas, conflitos entre membros da academia, revelando uma proposta didática que busca moldar alunos e alunas ao status quo vigente na sociedade americana. Em uma palestra polêmica, um profissional ensina os jovens homens da escola a evitarem a gravidez durante as relações sexuais, proferindo comentários e piadas sexistas, misóginas. Enquanto isso, as jovens mulheres participam de encontros para aprender e aprimorar seus talentos em atividades domésticas. 

    A liberdade de Wiseman para filmar gerou sequências impactantes. Um aluno é repreendido pela professora, por se envolver em um pequeno incidente com livros na sala de aula, e enviado para a “Sala de Advertência.” O aluno procura o inspetor para reclamar da injustiça cometida e os dois começam a discutir o caso. 

    “Eles me mandaram ao Sr. Walsh. Tentei explicar a ele, mas ele também gritou comigo. Não acho que devo aceitar ninguém gritando comigo por nada.” 

    “Você tem razão, mas agora é hora de assumir outra postura”. 

    “Sim senhor.” 

    “Aceite a advertência e depois volte e diga: cumpri a advertência. Estamos tentando provar algo. Queremos provar que você é homem e sabe acatar ordens. Queremos provar que sabe acatar ordens.” 

    “Sr. Allen, isso vai contra os meus princípios. É preciso defendê-los.” 

    “Sim. Mas não acho que se trata de seus princípios. Acho que agora é uma questão de provar que você é um homem. A questão aqui é como seguimos regras e regulamentos. Não se briga com um professor.” 

    “Devo provar que sou um homem e é isso que vou fazer ao agir, na minha opinião, de forma correta.”

    O inspetor insiste que o aluno aceite a advertência e a discussão se encerra com a frase do aluno: “Eu aceito. Mas sob protesto.”

    Outro momento provocativo acontece no final, quando a diretora lê com orgulho, para uma plateia de estudantes, a carta de Bob Walters, aluno que vai servir ao país na Guerra do Vietnã. 

    “Cara Dra. Haller, tenho apenas algumas horas antes de partir. Rezo para conseguir voltar. Mas agora tudo está nas mãos de Deus. Tenho tentado ser um mentor no Vietnã, mas é muito difícil. Rezo sinceramente para que os jovens de suas aulas de culinária aproveitem bem essa chance de aprender. Obrigado, Dra. Haller, por ajudar esses homens a se tornarem bons cozinheiros. Minha família não me compreende. Não entendem porque faço o que faço. Dizem que sou louco por fazer esse trabalho. Assim dizem: ‘Você não valoriza a vida? Você está louco?’ Minha resposta é sim. Eu valorizo todas as vidas do Vietnã do Sul e do mundo livre para que eles e todos nós possamos viver em paz. Estou errado Dra. Haller? Se der o melhor o tempo todo e acreditar no que faço, acreditar que o que faço é certo, isso é tudo que posso fazer. Não se preocupem comigo. Sou apenas um corpo fazendo meu trabalho. Para encerrar, agradeço a todos por tudo que fizeram por mim.”

    A professora termina de ler a carta e comenta: “Quando se recebe uma carta como esta, para mim isso significa que fazemos muito bem nosso trabalho aqui na Escola Northeast. Acho que irão concordar comigo.”

    O documentário foi alvo de protestos da comunidade acadêmica da escola e de membros da comunidade, principalmente pais de alunos e alunas. Não devem ter gostado da verdade escancarada por Frederick Wiseman, revelando um método de ensino que molda alunos e alunas de acordo com os valores sociais e morais preconizados por uma elite conservadora. Sistema educacional que forma estudantes para acatar ordens ou morrer na Guerra do Vietnã.

  • Law and order

    Law and order (EUA, 1969), de Frederick Wiseman. 

    O filme abre com uma sucessão de fotografias, rostos de homens,  disparadas por um projetor de slides. Corta para plano fechado em um homem branco que responde a acusações de ter espancado e agredido sexualmente um garoto. Corta para outra cena da delegacia: um homem com a camisa aberta, cigarro nos lábios, denuncia uma tentativa de estupro praticada contra uma garota de nove anos. “Se vocês não me ajudarem, vou cuidar dele sozinho.”

    Em seu terceiro documentário, Frederick Wiseman acompanha o cotidiano de policiais de Kansas City durante suas atividades. O estilo de cinema direto predomina: não há narração em off, depoimentos de participantes e nem música incidental. A câmera apenas acompanha as incursões da polícia, os diálogos, as prisões, revelando homens brancos que, em alguns momentos, abusam de sua autoridade, em outros praticam ações comunitárias, como o resgate de uma criança perdida. 

    Os travellings pelas ruas da cidade evidenciam a pobreza e a injustiça social. O confronto entre a polícia e supostos marginais provoca reações brutais, principalmente dos policiais diante de pessoas negras.

    Atenção para o contraponto perto do final do filme. Dois jovens negros são abordados em um estabelecimento comercial, suspeitos de assalto, sendo que um deles é frequentador habitual do recinto e entrou para comprar mercadorias, Mesmo assim é algemado, colocado contra a parede e revistado agressivamente. Tudo sob o olhar indiferente do funcionário do estabelecimento, que nada diz aos policiais em defesa do jovem negro. 

    Corta para discurso do republicano Richard Nixon, em campanha, que defende, inflamado, uma renovação geral para extinguir a criminalidade no país: “Digo que, quando o crime cresce nove vezes mais que a população, digo a vocês, meus amigos, quando vemos nos EUA que 43% dos americanos disseram numa pesquisa que têm medo de andar nas ruas à noite, então, meus amigos, não é hora de continuar no mesmo, não é hora dos mesmos homens, é hora de uma faxina geral e nova liderança, de cima a baixo para restabelecer respeito à lei e à ordem neste país.”

  • O vencedor

    O vencedor (Breaking away, EUA, 1979), de Peter Yates.

    O cenário é a cidade de Bloomington, Indiana, famosa por suas pedreiras, onde trabalharam gerações de moradores. A cidade se transformou em reduto de estudantes, após a construção de uma grande universidade. 

    Os protagonistas são quatro jovens moradores: Dave, Mike, Cyril e Moocher. Irreverentes e despretensiosos, passam os dias flanando pela cidade e tomando sol em um lago formado em uma das pedreiras. 

    O vencedor é um dos marcantes filmes entre os anos 70 e 80 que retratam a frustração dos jovens das pequenas cidades do meio oeste americano. Mike tenta vencer a desilusão por não ter conseguido seguir no futebol americano. Moocher precisa trabalhar, mas abandona os empregos, enquanto é pressionado para casar pela sua namorada. O tímido e desajeitado Cyril não tem a menor ideia do que quer fazer, simplesmente segue seus amigos. E Dave, o ciclista que sonha em duelar contra uma famosa equipe italiana. 

    O embate social acontece nos conflitos que se criam entre os “caipiras” e os endinheirados jovens universitários. Dave, em busca de ascensão e reconhecimento, finge ser italiano, conversa em casa com seus pais em italiano, seduz uma universitária fingindo ser um estudante intercambista da Itália. O humor do filme está exatamente nesta farsa, as ações de Dave em casa e os diálogos entre ele e o pai rendem boas risadas. 

    O diretor Peter Yates inovou as cenas de perseguições de carro em Bullitt (1968). Em O vencedor, o diretor reafirma seu talento nessa área, filmando uma famosa sequência, no final do filme: a corrida de revezamento de bicicletas, opondo os quatro amigos, que correm com camisetas estampadas “caipiras”, e os universitários, que não aceitam sob nenhuma hipótese serem derrotados pelos locais. 

    Atenção para a cena final, após Dave conhecer e se apaixonar por uma estudante francesa. O encontro com seu pai na rua, saudado por um bonjour, é hilário. 

    Elenco: Dennis Christopher (Dave), Dennis Quaid (Mike), Daniel Stern (Cyril), Jackie Earle Haley (Moocher), Paul Dooley (pai de Dave), Barbara Barrie (mãe de Dave), Robyn Douglas (Katherine), Hart Bochner (Rod). 

  • O último golpe

    No início dos anos 70, o então roteirista Michael Cimino conseguiu fechar um acordo com Clint Eastwood para realizar seu primeiro filme como diretor: O último golpe (Thunderbolt and Lightfoot, EUA, 1974). Clint estava prestes a começar as filmagens de Magnum 44 (1973) e pediu a Michael Cimino para terminar o roteiro do filme (John Millus, roteirista original, não terminou o script). 

    “Fiquei nervoso, não sabia nada sobre esse gênero de filme. Joan Carelli, meu produtor de O portal do paraíso, me disse: ‘Michael, não se recusa o Clint, você precisa fazer. O que você fizer, ele vai gostar.’ Então me sentei e comecei com as poucas páginas que John havia feito. De alguma forma, consegui transformá-lo em um roteiro. E o Clint gostou.” 

    Magnum 44 foi um sucesso de crítica e bilheteria, o filme mais lucrativo da série Dirty Harry. Todos sabem a importância da bilheteria em Hollywood, o sucesso do filme facilitou o processo de produção do filme de estreia como diretor de Michael Cimino. 

    Quando começou a escrever O último golpe, Cimino pensava em um filme de época, filmado na Irlanda, tendo como protagonista o Capitão Thunderbolt, figura histórica do país. Cimino foi dissuadido da ideia pelo seu agente, que o incentivou a fazer um filme contemporâneo. A história se transformou então na jornada de Thunderbolt (Clint Eastwood) e Lightfoot (Jeff Bridges), dois marginais de diferentes gerações que se encontram por acaso na estrada. 

    No início do filme, Lightfoot rouba o carro de uma concessionária e foge em alta velocidade pelas estradas. Thunderbolt está disfarçado de reverendo, fazendo seu sermão em uma pequena igreja, quando um homem entra e começa a disparar o rifle em sua direção. Na fuga, Thunderbolt cruza a estrada e é atropelado, sem danos graves, por Lightfoot. Esse encontro inesperado dá início a um road movie recheado de perseguições e tiroteios – na primeira parte do filme, a dupla é perseguida por mais dois estranhos. 

    A virada acontece quando os dois estão prestes a ser executados na margem de um rio pela dupla. O primeiro atirador da igreja e os dois estranhos do carro foram comparsas de Thunderbolt em um famoso assalto. Os milhões do assalto foram escondidos atrás do quadro negro de uma pequena escola e só o falso pastor sabe o endereço. 

    Quando todos descobrem que a escola não existe mais, deu lugar a um prédio moderno, resolvem repetir o assalto. A segunda parte se desenvolve no planejamento e execução do assalto, com cenas violentas e uma fuga com reviravoltas sangrentas.  

    Michael Cimino: “Na verdade, era a história de homens envelhecendo, que já passaram da flor da juventude. um pastor de uma pequena cidade. E junto dele, esse exuberante rapaz que adora a liberdade, com metade da sua idade. E sem limite algum. Ele restaura sua juventude. Os dois se tornam jovens. Eles se tornam amigos e passam a rir juntos. Sair com mulheres juntos e fazer tudo juntos. É a história da restauração, do vigor e juventude, beleza e transformação disso tudo por alguém que é mais jovem.”

    Cimino disse à Jeff Bridges, jovem ator em ascensão: “Você só tem uma tarefa no filme. Fazer o Clint rir. Nunca viram ele rir. Em todos os seus filmes, todos os faroestes e séries de televisão, ninguém nunca viu ele rir. Seu trabalho é fazê-lo rir. Nós dois começamos a rir em seguida. E conseguimos fazer o Clint rir.”

    Esse road-movie regado a violência e bom humor, vindo da interação entre os dois protagonistas, torna O último golpe um inusitado thriller, bem ao estilo do que já se praticava nos filmes dos jovens roteiristas e diretores da Nova Hollywood. Sobre o final inesperado, a sequência quase poética na estrada deserta, Thunderbolt e Lightfoot planejando a vida futura ao sabor do vento em um carro conversível com a capota abaixada, Cimino revela: 

    “A equipe adorava o personagem Lightfoot e vieram me procurar para dizer que fizeram uma votação e decidiram que não queriam que eu matasse Lightfoot. Eles achavam que o filme faria mais sucesso se ele não morresse. Não segui o conselho, mantive o roteiro.”

    Elenco: Clint Eastwood (Thunderbolt), Jeff Bridges (Lightfoot), George Kennedy (Red Leary), Geofrey Lewis (Goody), Catherine Bach (Melody). 

    Referência: O cinema da Nova Hollywood 4. Extras do DVD da Versátil Home Vídeo.

  • O mensageiro do diabo

    O mensageiro do diabo (The night of the hunter, EUA, 1955), de Charles Laughton. 

    As crianças John Harper e Pearl Harper estão no quarto à noite, iluminadas apenas pela luz que entra pela janela e deixa suas marcas na parede. Pearl pede ao irmão que conte uma história. John começa a contar a história de um rei enquanto olha para a parede, as sombras da janela e de folhas da árvore demarcando a fotografia expressionista. De repente, a sombra de um homem com chapéu compõe as imagens da janela que jogam suas sombras dentro do quarto. 

    John chega até a janela e vê Harry Powell (Robert Mitchum) parado perto da cerca da rua, embaixo de um poste de luz. Harry caminha lentamente e sai de cena. John se deita ao lado de Pearl e diz: “Não se preocupe, é apenas um homem.”

    Esse homem se passa por reverendo para conquistar jovens mulheres, geralmente viúvas, para ficar com o dinheiro que herdaram. O fim das mulheres remete à clássica história do Barba Azul. Harry cumpriu pena com o pai das crianças e descobriu que, depois de roubar um banco, ele escondeu o dinheiro na propriedade. O plano de Harry agora é conquistar Willa Harper (Shelley Winters) e se apossar do dinheiro. Somente as crianças sabem onde o pai, que morreu na prisão, escondeu o fruto do assalto. 

    O mensageiro do diabo é o único filme dirigido pelo lendário ator Charles Laughton. Um clássico do cinema noir, com fortes referências expressionistas que tomam conta de toda a narrativa, resultado do trabalho primoroso do diretor de fotografia Stanley Cortez. 

    Harry conquista não só a mãe das crianças, mas toda a comunidade, que passa a adorar seu fervor religioso, seu carisma e simpatia. As cenas diurnas, passadas em comunhão entre os moradores à beira do rio, nas ruas da cidade, nos estabelecimentos comerciais, é tomada pela luz natural do dia, representando a harmonia, a amizade e o romance que se inicia. Ao escurecer, o terror expressionista se anuncia nas sombras e na transformação do pastor no verdadeiro demônio. 

    “Mitchum interpreta aqui um vilão comprometido com seu ofício, fazendo hora-extra como serial killer de mulheres liberadas, mas sexualmente obcecado pelo dinheiro, do qual acredita precisar para custear sua cruzada sangrenta. A fuga noturno rio abaixo, com sua fotografia monocromática expressionista, é uma sequência mágica, com closes de uma estranha fauna e flora pantanosa.”

    A segunda parte do filme, quando Harry mata a esposa e as crianças fogem descendo de barco o rio, transforma a película em um thriller, colocando duas ingênuas crianças na mira de um psicopata assassino. A entrada em cena de outra lenda do cinema, Lillian Gish, que interpreta Rachel Cooper, idosa que usa sua casa para abrigar crianças órfãs, provoca o embate entre o bem e o mal, Rachel x Harry, em ações repletas de tensão, com sugestões, inclusive, de pedofilia, ousadia de Charles Laugton para a época. 

    Outra cena ousada, que levantou polêmicas, aconteceu quando Harry está na plateia de um teatro, assistindo a uma performance erótica de uma dançarina. Ele tem no bolso dianteiro da calça a sua faca que dispara como um canivete. Em determinado momento do show, o mecanismo da faca aciona a lâmina. A imagem a seguir é a lâmina da faca que levantou e rasgou a calça de Harry, claramente simulando a ereção.  

    A cena mais impactante do filme é um exercício de terror gótico. Harry mata a mãe das crianças quando ela está deitada na cama, os braços cruzados como a esperar o ato final. Harry, em pé, olha para o teto com o braço disposto como em uma oração divina. Ele se debruça sobre a mulher e levanta novamente o braço, agora com a faca na mão. Corta para folhagens esvoaçando debaixo d ‘água, como se fossem longos cabelos. Em segundo plano, aparece o corpo de Rachel, os cabelos também esvoaçando, o volante do carro à frente. O gancho de uma linha de pesca se prende no retrovisor, a câmera sobe lentamente e mostra o reflexo de um barco na superfície do rio. 

    “Além de um bálsamo aos ouvidos, O mensageiro do Diabo é também um colírio para os olhos, pois apresenta o que talvez seja o melhor uso do preto e branco em alto contraste da história do cinema. Sua fotografia barroca, assinada por Stanley Cortez, que também colaborou com Orson Welles em Soberba (1942) explora no limite da perfeição as sombras e ângulos do expressionismo alemão, de onde o corpo lânguido de Robert Mitchum acaba por mimetizar movimentos afetados, assinalando a tendência ao fantástico em detrimento do realismo que marca toda a projeção. Cortez chegou a afirmar que Welles e Laughton foram os únicos diretores com quem colaborou que sabiam exatamente como utilizar a luz nas filmagens.” Vinicius Lins

    Elenco: Robert Mitchum (Harry Powell), Shelley Winters (Willa Harper). Lillian Gish (Rachel Cooper), James Gleason (Tio Birdie), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper). 

    Referências: 

    100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. 

    O mensageiro do diabo. Livreto do blu-ray da Versátil Home Vídeo.