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  • A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada

    A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada (L’Enfant aimé ou Je joue à étre une femme mariée, Bélgica, 1971), de Chantal Akerman. Com Claire Wauthion, Chantal Akerman, Daphné Merzer. 

    A jovem Claire está em frente ao espelho, apenas de calcinha. Ela se observa atentamente e conversa consigo mesma. “Estou pálida. Meu pescoço é muito longo. Não sou tão alta quanto pareço. Porque tenho braços longos. Pernas longas. E cabeça pequena…” A cena, realizada em plano-sequência, dura cerca de cinco minutos.

    O curta-metragem é o segundo filme de Chantal Akerman. Durante trinta minutos, a diretora documenta o cotidiano de Claire e Daphné, mãe e filha, em uma casa no campo, com fotografia em preto e branco. Chantal participa do filme, ouvindo os depoimentos de Claire sobre sexo, a maternidade, frustrações e desejos de uma jovem mãe. 

    Em depoimento para o livro Hommage à Chantal Akerman, de Jacqueline Aubenas, a diretora demonstra sua insatisfação com o filme: “É um filme que nunca me satisfez. Apliquei ideias muito abstratas sobre rejeitar a montagem como uma manipulação do espectador, sem levar em conta que optar pelo plano-sequência é muito bonito, mas é preciso preparar e cronometrar esse tipo de tomada meticulosamente. Deixei acontecer, mas não resultou em nada.”

  • A mudança

    A mudança (Le déménagement, França, 1993), de Chantal Akerman. 

    Um homem (Sami Fry) entra em um apartamento, observa o ambiente ainda com coisas para arrumar: “Nem mesmo uma alma, apenas eu. Com uma alma, as coisas nunca acabam bem.” Ele se senta em uma cadeira de frente para a janela, a câmera o enquadra a distância, e bate palma: “Há um eco. É o eco de uma alma desaparecida.”

    Durante todo o curta, Chantal Akerman filma o homem em interações leves com o apartamento. Ele passa grande parte do tempo em frente à janela, às vezes ele anda, medindo os passos para determinar a extensão de sua nova moradia. 

    Em um longo monólogo, o homem reflete sobre sua solidão, sobre seu passado, sobre o silêncio que o espera, demonstrando arrependimento por ter mudado. Em determinado momento, ele relembra um verão na sua antiga residência, quando se apaixonou por três jovens vizinhas, estudantes. “Verão de 1982. Eu estava bem na época. A janela estava aberta, havia uma brisa entrando. A risada de três garotas vinha da casa ao lado. Na manhã, o ar ainda era fresco. Nada. Sem cansaço, um desejo de acordar. Nada. Exceto um homem parado. As suas risadas me davam vida. Um banho frio, uma calça leve, folgada. Camisa aberta, pés descalços. E assim eu vivia.”

    A mudança é um filme sobre memórias, sobre o tempo que passa e deixa marcas e o desejo de repetir ou aproveitar melhor algumas coisas. Como a paixão por três jovens estudantes, em um momento em que você ouve a voz de seu próprio desejo: “Vou ver o mar amanhã.”

  • Retrato de uma mulher preguiçosa

    Retrato de uma mulher preguiçosa (Portrait of a lazy woman, França, 1986), de Chantal Akerman. 

    Chantal Akerman acorda em seu quarto bagunçado, olha para a câmera e diz: “Hoje é sábado e farei um filme sobre preguiça. Vou levantar em um minuto. Levante-se preguiçosa. Se arrume, tome um banho. Para fazer um filme você precisa levantar e se vestir.”

    No ambiente, Sonia Wieder-Atherton, companheira de Chantal, toca violoncelo. Durante cerca de sete minutos, a diretora perambula pelos cômodos em seus afazeres cotidianos do amanhecer, sempre se lembrando que precisa fazer um filme sobre a preguiça. 

    O curta de Chantal Akerman faz parte do projeto Sete mulheres, sete pecados (Seven women, seven sins, França, 1986), que reuniu diretoras na realização de curtas, cada uma tendo por base para a ideia um dos pecados capitais. Chantal Akerman trata a preguiça de forma metalinguística sobre o processo de fazer cinema, que exige força de vontade, disciplina, cumprimento de prazos rígidos e uma perseverança quase cruel em todas as etapas da realização. 

    As outras autoras envolvidas no projeto são: Ulrike Ottinger, Maxi Cohen, Helke Sander, Bette Gordon, Lawrence Gravou e Valie Export. 

  • Ela deve estar vendo coisas

    Ela deve estar vendo coisas (She must be seeing things, EUA, 1987), de Sheila McLaughlin. 

    Agatha (Sheila Dabney) é advogada e trabalha em uma instituição que cuida de causas humanitários. Sua namorada Jo (Lois Weaver) é diretora de cinema independente e está às voltas com a produção de um novo filme. O conflito entre as duas acontece quando Agatha descobre e começa a ler o diário de sua namorada, se deparando com relatos sexuais de Jo com outros homens. 

    A narrativa fragmentada é a marca do filme de Sheila McLaughlin. À medida que lê o diário, Agatha confunde texto e realidade, imaginando os ousados relatos que se transformam em cenas desconexas. O espectador se vê diante do dilema da jovem advogada: sua imaginação é a representação do desejo voyeurístico?; a diretora de cinema está mesmo a traindo? A busca obsessiva pela verdade empreendida por Agatha revela a complexidade das paixões, do ciúme, dos relacionamentos amorosos plenos de sexualidade. 

  • Comprometida

    Comprometida (Committed, EUA, 1984), de Sheila McLaughlin e Lynne Tillman, reconstitui, de forma íntima e sufocante, a trágica história de Frances Farmer, atriz de teatro e cinema. Ainda jovem, Frances Farmer se destacou no teatro de Nova York e passou a conciliar seu trabalho nos palcos com incursões pelo cinema hollywoodiano. No entanto, as atividades políticas de Farmer, ligadas ao partido comunista e engajada em causas sociais e trabalhistas, tiveram consequências: a própria mãe a internou em um hospital psiquiátrico, onde Farmer permaneceu por seis anos e passou por experimentos médicos, incluindo uma possível lobotomia cerebral.

    O filme de Sheila McLaughlin e Lynne Tillman acompanha os momentos anteriores a esses procedimentos. No hospital, Farmer é retratada como uma mulher lúcida, comprometida com suas atividades políticas e com sua carreira profissional.  Flashbacks abrem espaço para o problemático relacionamento de mãe e filha, que culminou na internação. 

    Comprometida é um forte manifesto contra a opressão pelas instâncias de poder, dominadas pelos homens. Francis Farmer demonstra claramente sua sanidade e lucidez, mesmo assim os médicos insistem em tratamentos ortodoxos, testando medicamentos e procedimentos para curar a “rebeldia” da atriz. Sob o pretexto de lutar contra o comunismo, políticos, médicos, produtores de cinema, representantes religiosos, interromperam carreiras, condenaram cidadãos e ceifaram vidas.   

    Elenco: Sheila McLaughlin (Frances Farmer), Victoria Boothby (Lillian Farmer), Lee Breuer (Clifford Odets), John Erdman (Dr. Taylor), Lucy Sanger (A enfermeira).

  • Inside out

    Inside out (EUA, 1978), de Sheila McLaughlin, é um dos experimentos mais radicais do cinema independente americano que ganhou força a partir dos anos 60. O curta-metragem não-narrativo se divide em três partes. 

    Na primeira, o close de uma jovem, em câmera fixa, passa por mutações estéticas demarcadas pela forte granulação da película. A segunda parte enquadra crianças desfocadas em um pátio em repetidos gestos durante uma brincadeira, também com forte expressividade pictórica, imagens quase indistinguíveis que passam por metamorfoses. Na última parte, a técnica de frisar a mesma imagem predomina: duas jovens estão em posição de iniciar possivelmente uma corrida, mas voltam sempre ao mesmo ponto, enquanto as cores em preto e branco se transformam em experimentos artísticos. 

    A diretora Sheila McLaughlin trabalha com a relação livre entre cinema, fotografia e artes plásticas, se apropriando das vanguardas estéticas para compor um painel intrincado e fascinante. O curta é representativo do movimento underground de Nova York – a desconstrução da identidade feminina é marcante não só na estética, mas também na montagem fragmentada. 

  • A autora de A loucura de Almayer

    A autora de A loucura de Almayer (Autour de La folie Almayer, França, 2022), de Sopheak Sao e Marwan Montel.

    No final, entre lettering com comentário da diretora Chantal Akerman sobre o processo de realização do filme: “O que acho chato no cinema é quando dizem: ‘Há um enquadramento, há uma cruz, fique na cruz e olhe naquela direção.’ Neste momento não estamos inventando mais nada, só estamos tentando ser bons artesãos. Nossa filmagem foi emocionante como um documentário, onde não sabíamos o que aconteceria. Não foi só aplicar algo, foi viver isso no próprio momento.”

    Sopheak Sao acompanhou e registrou as filmagens de A loucura de Almayer, realizadas no Camboja, em 2010. O material só foi editado em 2021, por Marwan Montel, resgatando imagens e conversas sobre o processo de criação e produção de Chantal Akerman. 

    “Nossa filmagem foi emocionante como um documentário” resume as desgastantes e difíceis filmagens na selva, em um rio caudaloso, a equipe às voltas com as intempéries, o calor extremo. O improviso, além de ser marca da diretora belga, aconteceu também por estas questões externas, a equipe sempre às voltas com locações mutáveis, em situações quase impossíveis de montar equipamentos como planejado. 

    Em meio à tensão de tudo isso, o documentário retrata a sensibilidade e paixão pelo cinema de Chantal Akerman em busca da qualidade narrativa e estética. O trabalho de Sopheak Sao e Marwan Montel é muito mais do que um making off, é verdadeiramente um filme sobre cinema, sobre uma das mais talentosas diretoras de todos os tempos.  

  • Homensa brancos estao enlouquecendo

    Homens brancos estão enlouquecendo (White men are cracking up, Inglaterra, 1994), de Ngozi Onwurah. 

    Mazie Blue (Theo Omambala) está em um quarto com um coronel do exército de 63 anos. Ela veste roupas sensuais e começa uma dança afro, à pedido do oficial – “Meu último pedido”. Depois da dança, Mazie pergunta: “Você está pronto?” “Sim. Eu estou.” 

    Na manhã seguinte, o oficial é encontrado morto, claramente se suicidou. É mais um caso que assola a cidade: homens brancos estão cometendo suicídio. Somente o policial interpretado por Jon Finch acredita que as mortes são causadas pela mesma pessoa, “um anjo negro que não deixa rastros”. Ele passa a caçar Mazie Blue e o confronto entre os dois vai testar os limites dessa magia poderosa que opera por meio da sedução. 

    A diretora Ngozi Onwurah compõe um filme esteticamente também sedutor, com fotografia que reflete as influências do neo-noir. Os figurinos, adereços e direção de arte remetem à cultura africana, intensificando o clima de encantamento e desejo. A narrativa surrealista, associada à essa estética onírica e simbólica, ficou conhecida como afro-surrealista. 

  • Poder local, poder popular

    Poder local, poder popular (Cuba, 1970), de Sara Gómez.

    A frase “As massas têm a palavra” abre e guia a estrutura narrativa do documentário. A diretora Sara Gómez registra a eleição do “prefeito” de uma comunidade, cuja principal atividade é relacionada ao processo de produção da cana de açúcar, localizada na Isla de Pinos. 

    O documentário trabalha com comentários e afirmações dos trabalhadores, respeitando o estilo coloquial e, às vezes, irreverente da população local. Letterings em negrito, destacam frases e palavras como “Poder Local”,  “Apoio”, “Erros”, “Poder popular”.

    Apesar do documentário, como todos os outros da diretora, ser financiado e produzido pelo Instituto Cubano Del Arte e Industria Cinematográficos, órgão ligado ao governo revolucionário, Sara Gómez destaca, na voz dos trabalhadores, pontos polêmicos, como a escassez de alimentos. “Aqui no engenho de açúcar, o fornecimento está bem bagunçado. Quando tem bebidas, não tem gelo, e quando tem gelo, não tem bebida. Quando tem manteiga, não tem pão e quando tem pão não tem manteiga.”

  • Machorka-Muff

    Machorka-Muff (Alemanha, 1963), de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub

    O  curta-metragem abre com a voz interior de Machorka (Heiner Braun), antigo coronel nazista. Corta para o sonho do coronel visualizando estátuas cobertas por lençois brancos. Os lençois caem e revelam Machorka, com seu uniforme militar, nos três pedestais. Deslumbrado, o coronel vê seu nome gravado no pedestal: Erick von Machorka-Muff. 

    O filme satírico dos franceses Jean-Marie Straub e Danièle Huillet é considerado uma das grandes influências para os jovens cineastas que criaram o novo cinema alemão. O coronel, apesar dos crimes praticados a serviço do regime nazista, vai ser condecorado e assumirá um cargo importante no novo exército alemão, cujo principal objetivo é presarvar as memórias do exército. 

    Durante um encontro com um aliado, Machorka é convidado para uma visita. A voz interior do coronel representa a ousadia do filme na crítica aos militares e a própria burguesia que fechou os olhos para o horror perpetrado pelo regime. “Prometi visitá-lo, talvez resultasse em uma pequena aventura com sua esposa. Às vezes fico com um apetite para o erotismo bruto das classes mais baixas.”