Mulheres: uma outra história

A década de 80 foi marcada pela efervescência política no Brasil. Milhares e milhares de brasileiros saíram às ruas exigindo eleições diretas para a presidência da república. No entanto, o regime militar negou o apelo popular e manteve o colégio eleitoral no congresso que, em 1984, elegeu Tancredo Neves como presidente – Tancredo morreu antes da posse e José Sarney foi o primeiro presidente civil após a redemocratização do país. 

O caos econômico se instaurou, a inflação disparou, o debate político se voltou para a Assembléia Nacional Constituinte de 1988. O documentário Mulheres: uma outra história (Brasil, 1988), de Eunice Gutman, cobre esse intenso debate, abrindo espaço e voz para as mulheres que lutaram pela conquista de mais direitos na nova constituição. 

A diretora acompanha diversas manifestações femininas nas ruas, mulheres comuns e políticas em ascensão conversam direto com a câmera, expondo as injustiças que precisam ser corrigidas. “A mulher brasileira hoje é uma força social, agora é preciso que essa força social se transforme em força política. É por isso que nós estamos mergulhando nesse universo político.”

A ousadia do cinema de Eunice Gutman se mostra em imagens potentes das mulheres nas ruas, como a de uma manifestante que desabafa para a câmera enquanto amamenta seu filho: “Eu acho importantíssimo que a mulher na rua comece a mostrar que corpo inteiro tem força e a gente não pode mais se olhar como se fosse uma fotografia 3 x 4. É importante que a gente faça uma política onde a gente é vida, onde a gente coloca a nossa cara. Isso aqui é a nossa cara, é a cara do verde, é a cara da mídia que não tem dinheiro, mas que tem ideias e tem amor.” O depoimento da mulher termina com um close do bebê colado em seu seio. 

Cenas alternadas mostram, além das manifestações de ruas, imagens de Brasília, do interior do Congresso Nacional se preparando para a Constituinte. Vinte e seis mulheres estavam entre os congressistas, constituindo a quarta bancada. 

A atriz Bete Mendes, uma das deputadas federais, reforça a importância da união das mulheres, independente de filiações partidárias: “Existe uma luta suprapartidária que nos une e nos identifica, eu tenho certeza que nós somos um bloco, agiremos como bloco e não tenho dúvidas que o debate partidário não vai minar a nossa força que é significativa. Somos 26, como nunca se viu na história política brasileira, 26 mulheres numa constituição.”

O filme traz participações decisivas, com depoimentos contundentes de Carmen Portinho, Benedita da Silva, Jandira Feghali, Beth Mendes e diversas anônimas que tomaram as ruas em luta pela igualdade de direitos. Eunice Gutman reafirma a força de seu cinema feminista em um momento que o cinema, assim como a sociedade, ainda estavam nas mãos dos homens.

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