Tenet

Agente da CIA, cujo nome não é pronunciado durante o filme, é recrutado para impedir que Andrei Sator (Kenneth Branagh) consiga ativar um complexo mecanismo que pode resultar na destruição da terra. Christopher Nolan volta aos intrincados enigmas do universo que tanto o fascinam. Andrei Sator consegue transitar entre o presente e o futuro, ativando o tempo reverso e assim antecipa acontecimentos. 

O filme é recheado de ações que confundem o espectador, colocando personagens em tempos repetidos, porém invertidos. Os destaques ficam por conta das batalhas, principalmente as ambientadas no aeroporto, na estrada e no final espetacular, sequência que coloca combatentes lado a lado no tempo progressivo e reverso. 

Tenet (EUA, 2020), de Christopher Nolan. Com John David Washington, Kenneth Branag, Robert Pattinson, Emma Thomas. 

Kin

Em uma de suas andanças por prédios abandonados em busca de cobre para vender no mercado negro, o adolescente Eli (Myles Truitt) encontra, ao lado de dois corpos, uma arma futurista. Ele consegue acioná-la com o toque das mãos e guarda a arma como uma espécie de brinquedo. Eli é filho adotivo do rigoroso Hal (Dennis Quaid), as coisas mudam quando seu irmão Jimmy (Jack Reynor) sai da prisão. Após um assalto mal-sucedido, Jimmy leva Eli em uma viagem pelos Estados Unidos, fugindo da gangue a quem deve dinheiro.

A película representa bem a mistura de gêneros cinematográficos, marca do cinema contemporâneo. Drama social que apresenta conflitos entre pais e filhos; a gangue liderada por Taylor (James Franco), essa cruel sociedade marginal; road-movie que se transforma em caça aos fugitivos, envolvendo a gangue, o FBI e dois misteriosos motoqueiros que tentam recuperar a arma e dão o tom de ficção científica à trama. 

O ponto alto do filme é a violenta batalha final na delegacia de polícia, com direito a uma reviravolta que aponta claramente a continuação da trama. 

Kin (EUA, 2018), de Jonathan Baker. Com Myles Truitt (Eli), Jack Reynor (Jimmy), Dennis Quaid (Hal), Zoe Kravitz, James Franco . 

Across the universe

Assistir a um filme baseado em canções dos Beatles já vale apenas pela música, qualquer que seja o filme, e nem precisa ser beatlemaníaco, basta se enlevar com  as belas canções compostas por Lennon e McCartney que insuflam gerações há décadas. Across the universe vai além com a narrativa que mistura romance, ativismo político, conflitos raciais, discussões de gênero, tudo pontuado por interpretações belíssimas de I want you handLet it beHey JudeStrawberry fields forever e muito mais. 

Jude é um jovem inglês, trabalhador de um estaleiro em Liverpool. Viaja aos EUA para conhecer o pai, que engravidou sua mãe durante a Segunda Grande Guerra. Na América, desenvolve forte amizade com o universitário Max, vai morar em um apartamento habitado por personagens da contracultura dos agitados anos 60: a jovem lésbica Prudence, a cantora de boates Sadie, o guitarrista negro Jo-Jo. Quando Jude conhece Lucy, irmã de Max, a paixão é arrebatadora e acompanha os clichês naturais do gênero: início de enternecer corações, com erotismo aflorando, conflitos pessoais que afastam os amantes até o apoteótico final, tudo com direito às inesquecíveis canções dos Beatles. Enfim, Across the universe vale a sessão fílmica, sonora, imagética, sensual…

Across the universe (EUA, 2007), de Julie Taymor. Com Ewan Rachel Wood (Lucy), Jim Sturgess (Jude), Joe Anderson (Max), Dana Fuchs (Sadie), Martin|Luther McCoy (Jo-Jo), T.V. Carpio (Prudence). 

O supersticioso

O filme abre com o Dr. Ulrich Metz informando que vai estender suas experiências psiquiátricas, usando um humano pela primeira vez como cobaia. O escolhido é o jovem Daniel Brown, cuja mente é dominada pelas mais impressionantes superstições que orientam seu dia-a-dia. A ideia do cruel psiquiatra é levar Brown ao suicidio. Esse é o ponto polêmico e contestável da obra de Victor Fleming (E o vento levou e O mágico de Oz): colocar o suicídio no gênero comédia quase ao estilo pastelão, Daniel Brown protagoniza série de esquetes à medida que é manipulado pelo médico. 

Os encontros e desencontros típicos do gênero levam Daniel Brown e sua pretendente, também supersticiosa, ao apoteótico clímax durante o rompimento de uma represa, ousada representação realista da tragédia que representa o estilo de produção do sistema de estúdios de Hollywood já no cinema mudo. 

O supersticioso (When the clouds roll by, EUA, 1919), de Victor Fleming. Com Douglas Fairbanks, Albert Macquarrie, Kathleen Clifford.

Ameaça profunda

A premissa do filme fascina e aterroriza: o desconhecido que habita as profundezas do mar pode despertar pela cobiça dos homens. Empresa constrói uma torre de acesso a onze mil metros de profundidade, com fins aparentemente de pesquisas. Logo nas primeiros momentos da narrativa, a estação não aguenta a pressão e tem 70% de suas instalações destruídas. Grupo de seis sobreviventes tem que descer até o mais fundo do mar em busca de cápsulas de ejeção para a superfície. 

Kristen Stewart é a estrela do filme. Nora, sua personagem, guia o grupo ao lado do capitão da estação. Seus cabelos curtos e descoloridos, seu físico esguio, sua personalidade frágil e ao mesmo tempo destemida, representa o estranho que tenta se adaptar a ambientes hostis, onde a luta pela sobrevivência é a única alternativa. 

Ameaça profunda (Underwater, EUA, 2019), de William Ewbank. Com Krister Stewart, T. J. Miller, Jessica Henwick, Vicente Casel.

Judy: muito além do arco-íris

Judy: muito além do arco-íris se concentra nos meses em que a cantora se apresentou em Londres, pouco antes de morrer. Sem casa para morar, é despejada inclusive de quartos de hotel por falta de pagamento. Ela perde a guarda de seus dois filhos pequenos para o ex-marido e aceita fazer a turnê musical por Londres para tentar se recuperar financeiramente.

A narrativa alterna entre os problemas de Judy em Londres, suas apresentações oscilam entre o sucesso e o completo fiasco em algumas noites, quando se apresenta alcoolizada e agressiva, e seu passado como atriz. São esses flashbacks que trazem à tona a crueldade do sistema de estúdios, cujos produtores exploraram o talento infantil de Judy à custa da saúde da atriz, impondo à ela jornadas excessivas de trabalho, impedindo que exercesse atividades inerentes à infância/adolescência, como ir à escola, sair com amigos, ter relacionamentos não-autorizados pelo estúdio.

Assim como outras importantes componentes do star-system da era de ouro de Hollywood, Judy Garland pagou caro por estar sob controle de homens cuja crueldade parecia não ter limites, tudo em função do negócio chamado cinema. Cada aparição de Louis B. Mayer, todo poderoso da MGM, revela que por trás das telas o mundo mágico de Hollywood era construído através de atitudes desumanas, que destruíam as estrelas que povoavam o imaginário dos espectadores. 

Judy: muito além do arco-íris (Judy, EUA, 2019), de Robert Gould. Com Renée Zellweger (Judy Garland), Jessie Buckley (Rosalyn Wilder), Finn Wittrock (Mickey Deane), Rufus Swell (Sid Luft), Michael Gambon (Bernard Delfont).

Você nunca esteve realmente aqui

O filme traz mais um personagem que vez por outra domina narrativas: assassino de aluguel atormentado pelo passado, no caso de Joe, ex-combatente imerso nas memórias cruéis da guerra. No entanto, Joe aluga seus implacáveis tiros por causa nobre: resgatar menores das mãos de pedófilos, executando-os. 

A trama se complica quando Joe se vê envolvido numa intrincada rede de pedofília envolvendo políticos americanos. Ao resgatar a criança Nina dessa rede, a violência explode em sequências sanguinárias e dolorosas.

Joaquin Phoenix ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes (também prêmio de melhor roteiro para Lynne Ramsay). Sua atuação visceral apresenta um personagem que caminha irreversivelmente para a tragédia pessoal, sufocado pela realidade, pelas memórias, pelo destino, como drogas que dominam seu corpo e sua mente. 

Você nunca esteve realmente aqui (You were never really here, EUA, 2017), de Lynne Ramsay. Com Joaquin Phoenix (Joe),  Ekaterina Samsonov (Nina), Alex Manette (Albert voto). 

Lili – Minha adorável espiã

O musical de Black Edwards gira em torno do envolvimento de Lili e Larrabee, com toques de comédia, romance, cenas de batalhas aéreas, tudo pontuado por belas canções, a maioria na inesquecível voz de Julie Andrews. O roteiro não apresenta novidades ao gênero, melhor mesmo é se entregar às canções e ao belo final, quando Lili repete o número de abertura. Impossível não se emocionar ao ouvir a música, cuja belíssima letra simboliza os obscuros tempos de guerra:

Penso sempre que este mundo velho e triste
Está assobiando na escuridão
Como uma criança que sai tarde da escola 
E bravamente atravessa o parque ao voltar para casa
Para criar coragem e manter a noite à distância
Sem saber exatamente o caminho a tomar
Cantando para afugentar as sombras

Penso sempre que o meu pobre coração 
Desistiu de vez até que eu vejo um novo rosto
Ou vislumbro uma nova vizinhança
Então, me leve para casa meu amor
Diga que os sonhos se realizam de fato
Assobiando, assobiando, aqui no escuro com você. 

Lili – Minha adorável espiã (Darling Lili, EUA, 1970), de Black Edwards. Com Julie Andrews, Rock Hudson, Jeremy Kemp

High life – Uma nova vida

Grupo de criminosos, todos condenados à morte ou prisão perpétua, aceita participar de exploração espacial. O destino da nave é encontrar um buraco negro nos confins da galáxia. O filme é contado sob o ponto de vista de Monte (Robert Pattinson) que no início da trama está sozinho na nave com uma bebê. Narrativa em flash back elucida o destino dos outros tripulantes. 

O olhar da diretora Claire Denis se volta para os instintos que dominam homens e mulheres enclausurados, cujo passado violento aflora e precisa ser controlado através do uso de drogas. Os tripulantes são manipulados pela inescrupulosa médica Dibbs (Juliette Binoche), cujo crime que cometeu, segundo ela mesma, é o único digno do nome. O final enigmático faz referência clara ao maior filme de ficção científica de todos os tempos: 2001 – Uma odisséia no espaço.  

High life – Uma nova vida (High life, EUA, 2018), de Claire Denis. Com Robert Pattinson, Juliette Binoche, André Benjamin. Mia Goth, Agata Buzek. 

Sangue em Sonora

Matteo chega em Ojo Prieto, cidade fronteiriça com o México, montado em um belo cavalo da raça appaloosa. Vai a igreja se confessar, pedindo perdão pelos inúmeros assassinatos que cometeu, a maioria durante a guerra. A bela mexicana Trini também está na igreja e, na saída, diz ao seu namorado Chuy Medina que foi assediada por Mateo. Ela usa o pretexto para fugir no cavalo de Matteo. 

Esses encontros e provocações dentro e fora da igreja são o plot da narrativa, abrindo o conflito entre Matteo e o bandoleiro Chuy Medina, chefe de uma gangue em Sonora, no México. Sangue em Sonora se enquadra nos filmes de faroeste que provocaram revisões no gênero a partir do anos 50. Matteo quer se livrar de seu passado de marginal, jovem inconsequente que saiu pelo oeste em busca de fortuna. O appaloosa do título é seu trunfo para voltar para o seio da família que o criou e dar início a uma pacata vida de rancheiro. No entanto, ele deve partir novamente para acertar as contas com Medina, que se posiciona como espécie de justiceiro contra os americanos, a quem acusa de terem roubado tudo dos mexicanos. Marlon Brando, claro, por si só já vale o filme.   

Sangue em Sonora (The appaloosa, EUA, 1966), de Sidney J.Furie. Com Marlon Brando (Mateo), John Saxon (Chuy Medina), Anjanette Comer (Trini).