Gloria Grahame (1923/1981) foi das atrizes mais promissoras do cinema clássico americano. Trabalhou com grandes diretores como Frank Capra, Vincente Minnelli, Nicholas Ray (com quem foi casada). Em 1952, conquistou o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo filme Assim estava escrito, uma das melhores produções sobre o sistema de estúdio hollywoodiano. Logo depois, sua carreira entrou em declínio devido a escândalos relacionados a assédio sexual. A atriz foi casada quatro vezes, uma delas com seu ex-enteado, Anthony Ray, filho de Nicholas Ray. O diretor acusou Gloria de ter começado o relacionamento com Anthony quando ele tinha apenas 13 anos. Nos anos 70, a atriz trabalhou basicamente com teatro nos EUA e na Inglaterra.
Estrelas de cinema nunca morrem aborda os últimos três anos de vida de Gloria Grahame, quando ela conheceu e se apaixonou pelo jovem ator Peter Turner, de Liverpool. O filme, baseado no livro de Peter, retrata uma atriz vaidosa e obcecada por seu trabalho, o que poderia, inclusive, ter contribuído para sua morte aos 57 anos. Gloria foi diagnosticada com câncer, mas se recusou a fazer quimioterapia pois perderia seus cabelos, em consequência ela não conseguiria mais atuar.
O título original é bela homenagem à relação da cidade de Liverpool com o cinema, representada pela família de Peter Turner. O destaque da película é a abordagem da vida de uma estrela de Hollywood, sofrendo com as imposições dos estúdios mas lutando para se entregar às paixões fora das telas.
Estrelas de cinema nunca morrem (Film stars don’t die in Liverpool, EUA, 2017), de Paul McGuigan. Com Annette Bening (Gloria Grahame), Jamie Bell (Peter Turner), Julie Walter (Bella Turner).
Tramas ambientadas em mundo apocalíptico, no qual a humanidade foi praticamente dizimada, dominam a ficção científica do cinema contemporâneo. Basta dar uma passada pelo catálogo da Netflix para achar uma dúzia de filmes do tipo. A inovação em Um lugar silencioso está na escolha do plot que movimenta a narrativa: a terra foi invadida por seres que não enxergam, mas caçam suas vítimas, os humanos, através do apurado senso auditivo. Casal, interpretado por John Krasinski e Emily Blunt, vive com os dois filhos em cabana na floresta. Só podem se comunicar através de sinais, vivem no mundo silencioso. O problema é que a mulher está grávida, terá seu filho sem anestesia.
A primeira sequência do filme apresenta de forma perturbadora o que vem pela frente. A luta dos humanos contra o desconhecido, que pode surgir do nada ao menor ruído, rende ótimas cenas de suspense. Em sua estreia como diretor, o ator John Krasinski promete ser dos grandes nomes por trás da câmera.
Um lugar silencioso (A quiet place, EUA, 2018), de John Krasinski. Com Emily Blunt, Noah Jupe, Millicent Simmonds, Cade Woodward, Leon Russom, John Krasinski.
O pai adotivo de Lucy (Lilian Gish) pede a ela um sorriso. Lucy é incapaz de sorrir devido aos sofrimentos constantes por que passa, uma vida miserável, implacável, sentida nas frequentes surras que leva do pai, lutador de boxe que descarrega sua raiva e frustrações com chicotadas na filha. Temendo desapontar o pai e ganhar nova surra, Lucy coloca os dedos indicador e médio nos cantos dos lábios, como se fizesse o V, e estica a boca, simulando um sorriso que permanece alguns segundos em seu rosto.
Este gesto acabou se tornando a marca de Lírio partido (Broken blossoms, EUA, 1919) de D. W. Griffith. Lucy usa os dedos em V em outras cenas para abrir seu sorriso melancólico. A menina fora abandonada recém-nascida e adotada pelo Lutador. Violento, bêbado e descontrolado, ele usa a filha como saco de pancadas ao menor sinal de contrariedade. Lucy se arrasta pelas ruas de Londres até que conhece o Chinês, jovem que abandonou o oriente para difundir as ideias do Buda, mas rapidamente conheceu o mundo miserável e se entregou ao vício de narcóticos, enquanto busca sentido para a vida. Os dois se apaixonam e vivem um trágico romance.
Lírio partido é dos primeiros e mais contundentes melodramas do cinema. Lilian Gish conta que o famoso gesto dos lábios aconteceu por acaso. A atriz contraíra a gripe espanhola e ficara alguns dias sem filmar. Chegou ao set abatida. Griffith pediu a ela um sorriso. Sem motivos para isso, ela intuitivamente levou os dedos aos lábios, esticando-os. O diretor gostou e esse gesto se transformou no aspecto simbólico do sofrimento da jovem Lucy. Reflete também a sensibilidade de Griffith, seu domínio pioneiro da narrativa cinematográfica. A importância de Griffith consiste na capacidade de articular os planos e movimentos de câmera a favor da narrativa, criando suspense, motivando o espectador a antecipar e sofrer com a sequência das ações.
Em O nascimento de uma nação (1915), seu primeiro clássico, Griffith cria espetacular sequência final de suspense e angústia para o espectador ao contrapor planos da cabana sendo atacada com cavaleiros correndo para salvar os refugiados. À medida que os atacantes vencem a resistência dos sitiados, entrando na cabana, tentando derrubar a porta do quarto, entrando pelas janelas, o diretor corta estas cenas, alternando para o galope desenfreado dos salvadores, tornando os planos cada vez mais ágeis. A alternância das cenas retarda o tempo de tomada da cabana, criando a cada corte angústia e suspense no espectador.
Impossível desconsiderar nesta sequência, e neste filme, que os atacantes são um grupo de negros e os heróis são a ku klux Khan. Griffith despejou em O nascimento de uma nação sua verve racista. Você assiste ao filme com sentimentos contrastantes: admiração pelas inovações linguísticas e revolta pela abordagem abertamente racista.
Lírio partido tem outra sequência exemplar para entender a importância do cinema de Griffith: a luta de boxe entre o Lutador e o Tigre, perto do clímax do filme. Lucy, depois de sofrer mais uma surra do pai, foge pelas ruas de Londres e é resgatada pelo oriental que a coloca no andar de cima de sua loja. Aos poucos, Lucy se recupera, surge entre os dois um clima de romance. Um dos amigos do Lutador descobre e conta a ele que a menina está refugiada na casa do oriental. Revoltado, o pai diz que vai acertar as contas com os dois, mas antes tem que derrotar o Tigre em uma revanche de boxe.
É outro aspecto importante das inovações introduzidas por Griffith: através do fluxo narrativo da história, ele prepara o espectador para o clímax. A violência do confronto entre o Lutador e o Tigre, no ringue, se alterna com o idílio romântico entre Lucy e o Oriental. Troca de socos e agressões se contrapõem à troca de olhares, de gestos carinhosos. A alternância e o ritmo das cenas paralelas sugerem de forma dramática ao espectador o que está por vir: assim que a luta terminar, vai explodir a verdadeira violência. O espectador imagina que o resultado do confronto pode influenciar tragicamente no destino dos dois amantes, afinal, o Lutador já demonstrara do que é capaz em momentos de frustração, ódio e vingança.
Esta sequência exemplifica uma das características fundamentais do jogo narrativo cinematográfico, praticamente definido por Griffith: o espectador se sente impotente, preso à cadeira de cinema, angustiado, tenso, capaz de se projetar em um final trágico ou feliz, com sentimentos suscetíveis, abertos às maravilhosas surpresas que grandes filmes proporcionam.