
No final dos anos 60, os famosos críticos da Cahiers du Cinema se aventuraram pela realização cinematográfica. Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer e Jacques Rivette começaram com curtas-metragens. Claude Chabrol foi mais ousado, usou o dinheiro da herança que sua esposa recebeu e pulou o estágio do curta, realizando de cara dois longas num espaço de dois anos: Nas garras do vício (Le beau Serge, França, 1958) e Os primos (1959).
Nas garras do vício, portanto, é o ponto de partida da nouvelle vague francesa – La pointe courte (1955), de Agnès Varda, é citado por críticos como precursor do movimento. No filme de Chabrol, François (Jean-Claude Brialy) retorna a sua cidade natal para passar o inverno – ele está convalescendo de tuberculose. O encontro com Serge, seu amigo de infância, deflagra o conflito da narrativa.
Serge se tornou alcoólatra depois do falecimento do seu filho deficiente logo após o parto. Ele vive de trabalhos esporádicos, renega a esposa e credita a tragédia à situação paupérrima que vivem os moradores da cidade.
François se aproxima da família, tenta ajudar o amigo e se envolve sexualmente com Marie (Bernadette Lafont), cunhada de Serge, considerada uma jovem promíscua da região – Serge e Marie foram amantes. O relacionamento entre os amigos revela traumas do passado que repercutem em uma relação marcada por crises de consciência, inveja e violência.
“Nas Garras do Vício e Os Primos foram produzidos e roteirizados por Chabrol. O primeiro foi filmado em Sardent, vilarejo de Creuse, onde passou parte de sua juventude. É, entre seus filmes, o que tem raízes autobiográficas mais claras. Seu tom é realista, e até mesmo documental, visto que moradores da pequena vila participaram das filmagens. Diferentemente dos burgueses servidos com mesa farta presentes em seus filmes posteriores, os personagens de Sardent vivem sob duras condições de vida. A terra pouco produz, o inverno é rigoroso, faltam empregos, há tédio e desesperança. Dessa natureza árida, brota o mais humano dos dramas dirigidos por Chabrol.” – Carlo Oliveira
Yvonne (Michèle Meritz), esposa de Serge, é a personagem que funciona como um alento de esperança em meio à decadência física e psicológica de sua família, incluindo o pai, a irmã e Serge. No início ela repudia a amizade de François, mas depois entende que os dois amigos estão em busca de se ajudarem mutuamente. O final, durante o sofrido trabalho de parto de Yvonne, simboliza o renascimento dos jovens e da amizade.
Referência; Novos cinemas do mundo. Filmes essenciais. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Video, 2023.
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