
Isto não é um filme (Irã, 2011), de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahasebi.
Jafar Panahi está tomando um chá na cozinha de sua casa. Olha para a câmera, manuseada por Mojtaba Mirtahasebii. Segue o diálogo entre os dois: “Por isso pedi que viesse para me ajudar, neste local, para conseguir contar o roteiro. Com a câmera me acompanhando, em vez de ficar num triplê, consigo contar o roteiro com mais facilidade.” “Então você vai contar o seu último roteiro que não foi realizado?” “Sim, mas não aqui. Se eu sentar aqui e ler, vai entediar a todos. Mas se formos para aquela área lá, podemos criar as condições para explicar mais facilmente. Ótimo. Então vamos para o outro lado. Muito bem, corta.” “Você não está dirigindo. É uma infração. Só vai ler o roteiro.” “Então não sou mais diretor. A propósito, atuar e ler o roteiro vão ser considerados infrações? Até agora consta: proibição de 20 anos de fazer filmes, proibição de 20 anos de escrever roteiros, de deixar o país, de dar entrevistas. Atuar e ler roteiros não foram mencionados. Graças a Deus!”
Driblando as imposições impostas pelo regime iraniano, Jafar Panahi filmou um dia de sua vida em casa, cumprindo a prisão domiciliar. O amigo e documentarista Mojtaba Mirtahasebi cuidou da câmera, deixando Jafar à vontade em suas reflexões sobre as condições do país, a sociedade e, principalmente, sobre o processo de fazer cinema.
No final, Jafar parece não resistir e, quando se despede do amigo na porta, pega a câmera e passa a filmar o jovem zelador do prédio, que para de andar em andar recolhendo o lixo. Agora é o zelador quem reflete sobre seu dia, sua profissão, seus sonhos estudantis.
Jafar Panahi contou com amigos para contrabandear o filme para o Festival de Cannes de Cinema. Isto não é um filme conquistou o prêmio Carrosse d’Or no festival, se consagrando como uma das mais importantes obras que usa da metalinguagem para refletir sobre a arte e o artista, sobre fazer cinema.