Ao leste com Sonia Wieder-Atherton

Ao leste com Sonia Wieder-Atherton (À I’est avec Sonia Wieder-Atherton, França, 2009), de Chantal Akerman. 

A cineasta Chantal Akerman (1950/2015) e a violoncelista Sonia Wieder-Atherton (1961) mantiveram uma relação amorosa e profissional durante cerca de 30 anos. As duas se conheceram nos anos 80, em Paris. Sonia compôs músicas para vários filmes de Chantal; por sua vez, a diretora belga realizou três documentários sobre a vida e a música de sua esposa:  Três estrofes em nome de Sacher (Trois strophes sur le nom de Sacher, França, 1989), Com Sonia Wieder-Atherton (França, 2003) e Ao leste com Sonia Wieder-Atherton (À I’est avec Sonia Wieder-Atherton, França, 2009).

O projeto deste último nasceu a partir do documentário D’est (1993) realizado por Chantal Akerman em 1993, que retrata cidades, paisagens e pessoas do leste europeu após a queda do muro de Berlim. Sonia criou um concerto a partir do documentário, as músicas dialogam com as imagens. 

Ao leste com Sonia Wieder-Atherton registra os concertos apresentados na Europa Ocidental, Oriental e na Rússia. Durante a performance, imagens de D’est são exibidas numa tela ao fundo.

“Há muito tempo eu queria reunir trabalhos da Europa Oriental e Central, também conhecida como Mitteleuropa. Essas duas Europas, com fronteiras mutáveis e culturas diferentes, mas imbuídas uma na outra. Talvez lá, do que em outros lugares, as línguas, os sotaques, carregam um si a história do povo. O mesmo vale para a música. Mas também há a Rússia. Para mim, a Rússia é uma história de transmissão. A música diz o que é impossível de descrever. Resistência, portanto. Uma para quebrar a língua e outra para contar o proibido. Um lugar no mundo para o qual eu volto incansavelmente. Voltei a ouvir obras que conhecia e amava. E descobri outras. Obras escritas para voz, coração, violino, violoncelo, orquestra ou até mesmo piano.” – narração de Sonia-Wieder Atherton, sobreposta a imagens da preparação do primeiro concerto, abre o documentário.

Sul

Sul (Sud, França, 1999), de Chantal Akerman. 

No dia 7 de julho de 1998, James Byrd Jr. morador da comunidade negra de Jaspen / Texas, caminhava pela estrada, de volta para casa, após um dia de trabalho. Três jovens brancos ofereceram carona a ele, mas o levaram para um local deserto onde o espancaram. Depois, amarraram Toe, como era conhecido pelos amigos, pelos tornozelos na traseira da picape. 

“Aparentemente, de acordo com o Xerife, os três homens pegaram o Sr. Byrd na Rodovia 96, ao norte. Pegaram ele, levaram a um local remoto, onde o tiraram da caminhonete, bateram nele e então o acorrentaram na parte de trás da caminhonete. Então eles arrastaram ele por cerca de três quilômetros pela estrada através da parte negra do condado. Eles o desacorrentaram em frente do cemitério negro. No processo, ao que parece, em algum ponto, ele acertou o tubo de drenagem que arrancou sua cabeça e seu braço direito do torso. E os pedaços de seu corpo foram encontrados espalhados pelos três quilômetros da estrada.” – relato de um dos depoentes.  

O documentário de Chantal Akerman entrevista pessoas da comunidade, a câmera fixa nos rostos doloridos ao contar esse e outros casos de assassinato que aconteceram por motivações raciais. Os três assassinos de James Byrd Jr. eram jovens supremacistas brancos. 

Entre os depoimentos, Chantal Akerman filma silenciosamente, em longos planos sequência, a cidade: os bairros, casas, estabelecimentos de comércio. Durante as trajetórias, separadas por região, vislumbra-se a separação entre brancos e negros, tantos em termos físicos quanto em termos econômicos. O bairro dos negros é uma sucessão de casas simples de madeira, gastas pelo tempo. 

O plano sequência final, também demarcado pelo silêncio, é de uma dor quase inacreditável: a câmera, da traseira do carro, direcionada para o chão, percorre todo o trajeto da estrada na qual James Byrd Jr. foi arrastado. São intermináveis três quilômetros, intermináveis.

Histórias americanas: comida, família e filosofia

Histórias americanas: comida, família e filosofia (Histoires d’Amérique: food, family and philosophy, França, 1989), de Chantal Akerman.

Uma jovem diante da câmera conta sua história, o relacionamento que construiu com “um homem tão lindo e afetuoso”. O homem morreu e a deixou com uma filha de 13 anos, a partir daí a narrativa muda para a frustração, solidão e depressão vivida pela viúva. O longo depoimento segue o estilo de um documentário tradicional, pessoas posando para câmera, discorrendo sobre suas relações com a comunidade judaica onde vivem, contando suas histórias. 

Após dois depoimentos, corta para um homem barbudo entrando em uma porta giratória, acompanhado com o olhar por outro homem na rua. Imediatamente, um homem sem barba sai pela porta giratória. O homem na rua pergunta:: “Senhor, me diga, antes que eu enlouqueça nesse país. Como conseguiu fazer a barba tão rápido?”. Corta para dois idosos, eles se cumprimentam e segue o diálogo: “Você conhece a vida. A vida é como a fonte.” “Porque?” “Está tudo bem. A vida não é como a fonte.”

Agora o estilo é um filme de ficção? onde os diálogos são construídos e interpretados, revelando comportamentos e falas surrealistas. A experiência de Chantal Akerman subverte princípios elementares da narrativa, tanto em termos documentais quanto ficcionais. 

O filme foi realizado em locações urbanas de Nova York, ambientado sempre em cenas noturnas. Diversos personagens entram e saem de cena até se reunirem em um jantar à noite: assistem, sentadaos nas mesas, encontros e diálogos que se sucedem – sim, como no teatro.

 A mãe de Chantal Akerman foi uma sobrevivente de Auschwitz. Histórias americanas: comida, família e filosofia é um estudo antropológico sobre imigrantes judeus, no caso nos EUA, que lutam para preservar a cultura, a memória, contando histórias, às vezes trágicas, outras vezes bem humoradas e fantasiosas. Vale lembrar a constatação de Isak Dinesen: “Ser uma pessoa é ter uma história para contar.”

Com Sonia Wieder-Atherton

Com Sonia Wieder-Atherton (França, 2003), de Chantal Akerman. 

O documentário abre com a violoncelista Sonia Wieder-Atherton ocupando sua cadeira em um palco, preparando-se para um concerto. Voz em off de Chantal Akerman: “Diz-se de Sonia Wieder-Atherton que ela escolheu o violoncelo porque queria tocar um instrumento de cordas cujo som poderia fazer durar o tempo que quisesse. Isso é verdade.”

Na primeira parte do documentário, Chantal deixa a violoncelista à vontade, diante da câmera parada, em um cenário escuro, para conversar sobre o começo de sua carreira, sua formação e aprimoramento, suas referências, em “uma mistura de lembranças e coisas que me contaram depois.”

Sônia nasceu em São Francisco e começou a tocar piano. Mudou-se com os pais para Nova York, onde descobriu o xilofone, sem abandonar o piano. Em 1968, após se mudar para a França, estudou violão por alguns anos. Até que descobriu o violoncelo para “fazer o som durar o tempo que eu quisesse.”

Na segunda parte, Sonia Wieder-Atherton interpreta, em fascinantes e sedutoras performances, peças curtas de Schubert, Brahms, Berio, Bach. Acompanhada ao piano por Imogen Cooper, Sonia demonstra sua visceral entrega física, psicológica e emocional ao instrumento.

“Diz-se também que muitas escalas parecem estreitas demais quando ela aparece. Isso é verdade. E que ela nos agarra, nos leva com ela, tão longe e tão fortemente em áreas desconhecidas, às vezes escura, às vezes clara, velha ou nova, em um mistura de prazer e tensão.” –  Chantal Akerman

Três estrofes em nome de Sacher

Três estrofes em nome de Sacher (Trois strophes sur le nom de Sacher, França, 1989), de Chantal Akerman. 

O cenário é minimalista, como em grande parte dos filmes de Chantal Akerman. Um sofá com uma manta desarrumada em cima, uma pequena escrivaninha no lado oposto, uma cadeira, cortinas vermelhas deixando ver no centro uma parede com duas janelas lado a lado. Sonia Wieder-Atherton entra em cena, senta-se na cadeira com seu violoncelo e começa a tocar a primeira estrofe de Sacher. 

Durante o curta, a consagrada violoncelista, companheira de Chantal Akerman, toca Trois strophes sur le nom de Sacher, composições de Henri Dutilleux criadas em homenagem à Paul Sacher, regente e mecenas das artes. A interpretação visual da música conta com dois personagens que aparecem, sempre filmados de longe, nas janelas ao fundo do cenário, como se estivessem no cotidiano de suas casas, tomando café da manhã, passando roupas, observando a vida pela janela.

O curta foi realizado para ser exibido na televisão francesa. A direção de fotografia e a direção de arte deslumbram o espectador que se deixa levar de forma institiva para a bela performance musical de Sonia Wieder-Atherton.  

A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada

A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada (L’Enfant aimé ou Je joue à étre une femme mariée, Bélgica, 1971), de Chantal Akerman. Com Claire Wauthion, Chantal Akerman, Daphné Merzer. 

A jovem Claire está em frente ao espelho, apenas de calcinha. Ela se observa atentamente e conversa consigo mesma. “Estou pálida. Meu pescoço é muito longo. Não sou tão alta quanto pareço. Porque tenho braços longos. Pernas longas. E cabeça pequena…” A cena, realizada em plano-sequência, dura cerca de cinco minutos.

O curta-metragem é o segundo filme de Chantal Akerman. Durante trinta minutos, a diretora documenta o cotidiano de Claire e Daphné, mãe e filha, em uma casa no campo, com fotografia em preto e branco. Chantal participa do filme, ouvindo os depoimentos de Claire sobre sexo, a maternidade, frustrações e desejos de uma jovem mãe. 

Em depoimento para o livro Hommage à Chantal Akerman, de Jacqueline Aubenas, a diretora demonstra sua insatisfação com o filme: “É um filme que nunca me satisfez. Apliquei ideias muito abstratas sobre rejeitar a montagem como uma manipulação do espectador, sem levar em conta que optar pelo plano-sequência é muito bonito, mas é preciso preparar e cronometrar esse tipo de tomada meticulosamente. Deixei acontecer, mas não resultou em nada.”

Retrato de uma mulher preguiçosa

Retrato de uma mulher preguiçosa (Portrait of a lazy woman, França, 1986), de Chantal Akerman. 

Chantal Akerman acorda em seu quarto bagunçado, olha para a câmera e diz: “Hoje é sábado e farei um filme sobre preguiça. Vou levantar em um minuto. Levante-se preguiçosa. Se arrume, tome um banho. Para fazer um filme você precisa levantar e se vestir.”

No ambiente, Sonia Wieder-Atherton, companheira de Chantal, toca violoncelo. Durante cerca de sete minutos, a diretora perambula pelos cômodos em seus afazeres cotidianos do amanhecer, sempre se lembrando que precisa fazer um filme sobre a preguiça. 

O curta de Chantal Akerman faz parte do projeto Sete mulheres, sete pecados (Seven women, seven sins, França, 1986), que reuniu diretoras na realização de curtas, cada uma tendo por base para a ideia um dos pecados capitais. Chantal Akerman trata a preguiça de forma metalinguística sobre o processo de fazer cinema, que exige força de vontade, disciplina, cumprimento de prazos rígidos e uma perseverança quase cruel em todas as etapas da realização. 

As outras autoras envolvidas no projeto são: Ulrike Ottinger, Maxi Cohen, Helke Sander, Bette Gordon, Lawrence Gravou e Valie Export. 

Pompeia: sob as nuvens

Pompeia: sob as nuvens (Pompei: sotto le nuvole, Itália, 2025), de Gianfranco Rosi, venceu o Prêmio Especial do Júri do Festival Internacional de Cinema de Veneza. O documentário é um primor estético, fotografado em preto e branco, com cenas urbanas de Nápoles, do Monte Vesúvio, dos destroços de Pompeia. 

A narrativa acompanha o cotidiano de moradores da cidade que vivem sob a imponente ameaça do Vesúvio. Um procurador da justiça empreende uma caça aos ladrões de túmulos. Um professor ajuda jovens em suas lições de casa. Dois arqueólogos catalogam objetos milenares achados nas escavações. Dois marinheiros, ancorados no porto, esperam o desembarque de milhões de toneladas de grãos para voltarem para Odessa, na Ucrânia, outra cidade sob ameaça constante. Na central telefônica, bombeiros atendem chamadas que vão desde o desespero diante de um tremor de terra, uma mulher que está sendo agredida pelo marido, até um senhor que liga rotineiramente para saber as horas. 

O diretor Gianfranco Rosi trabalha com a câmera como observadora, acompanhando as pessoas neste cotidiano ameaçador, sem interferir com perguntas ou entrevistas. Em um determinado momento, o procurador, visitando um imenso salão cujos afrescos e ornamentos foram roubados, desabafa: “Imagine a beleza do lugar. Repleto de cor, equivalente às vilas mais famosas de Pompeia. Imagine essas paredes com afrescos, cheias de cores, figuras, que resistiram por 2.000 anos, sobrevivendo à erupção do Vesúvio, a inúmeros terremotos, à passagem do tempo. E bastou que algumas pessoas sem escrúpulos e sem respeito pela história viessem aqui e levassem tudo. E, ao fazer isso, apagaram nossa memória para sempre.”

Quartos vazios

“Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu” (Chico Buarque) é um dos versos mais dolorosos da música brasileira, principalmente na voz de Zizi Possi.  Quartos vazios (All the empty rooms, EUA, 2025), de Joshua Seftel é a representação real deste sofrimento. 

O jornalista Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp registram imagens e depoimentos nas casas cujos pais perderam filhos – crianças e adolescentes, em tiroteios nas escolas. O foco das câmeras são os quartos que permanecem intactos e/ou intocáveis das vítimas, um deles até com a roupa suja da criança para que os pais possam preservar o cheiro do filho. 

Durante muitos anos, Seteve Hartman cobriu os atentados como repórter nas escolas. Seu principal objetivo era levar alento aos familiares e demais estudantes, tentando estimular as pessoas a seguirem em frente. “Por anos, eu escrevia matérias no fim de cada semana de tiroteio escolar. Às vezes, era sobre um herói, sobre o país se unindo. O que quer que fosse, elas procuravam alguma mensagem positiva. ‘Ela estava em uma reunião, ouviu tiros e correu para ajudar. Fazendo dela uma heroína para muitos de nós.’ Eu já tinha feito tantos destes relatos, que parecia que eu estava me repetindo. Aliás, eu usava as mesmas frases nas reportagens. E percebi que os americanos estavam superando cada tiroteio escolar cada vez mais rápido. Pensei: Preciso fazer algo diferente.”

A frustração do jornalista com seu próprio trabalho foi a base para o filme que ganhou o Oscar de Melhor Documentário em Curta-metragem (2026). E uma de suas reflexões consolidou de vez o projeto: “Sinto que a mídia tem um pouco de culpa por tudo isso.

A autora de A loucura de Almayer

A autora de A loucura de Almayer (Autour de La folie Almayer, França, 2022), de Sopheak Sao e Marwan Montel.

No final, entre lettering com comentário da diretora Chantal Akerman sobre o processo de realização do filme: “O que acho chato no cinema é quando dizem: ‘Há um enquadramento, há uma cruz, fique na cruz e olhe naquela direção.’ Neste momento não estamos inventando mais nada, só estamos tentando ser bons artesãos. Nossa filmagem foi emocionante como um documentário, onde não sabíamos o que aconteceria. Não foi só aplicar algo, foi viver isso no próprio momento.”

Sopheak Sao acompanhou e registrou as filmagens de A loucura de Almayer, realizadas no Camboja, em 2010. O material só foi editado em 2021, por Marwan Montel, resgatando imagens e conversas sobre o processo de criação e produção de Chantal Akerman. 

“Nossa filmagem foi emocionante como um documentário” resume as desgastantes e difíceis filmagens na selva, em um rio caudaloso, a equipe às voltas com as intempéries, o calor extremo. O improviso, além de ser marca da diretora belga, aconteceu também por estas questões externas, a equipe sempre às voltas com locações mutáveis, em situações quase impossíveis de montar equipamentos como planejado. 

Em meio à tensão de tudo isso, o documentário retrata a sensibilidade e paixão pelo cinema de Chantal Akerman em busca da qualidade narrativa e estética. O trabalho de Sopheak Sao e Marwan Montel é muito mais do que um making off, é verdadeiramente um filme sobre cinema, sobre uma das mais talentosas diretoras de todos os tempos.