Hotel das Acácias

Hotel das Acácias (Hôtel des Acacias, Bélgica/França, 1982), de Chantal Akerman e Michéle Blondeel. 

Marie desembarca do trem em Bruxelas. Entra no Hotel das Acácias, é atendida por Hans, o recepcionista, e pede um quarto para uma noite. É acompanhada ao quarto por Michel. Antes de entrar no quarto, eles conversam: “Está aqui de férias?” “Não. Não sei.” “Então é uma história de amor.” “Como sabe?” “Essas coisas acontecem. Eu a invejo. É tão bom estar amando. Amanhã achamos seu homem. Boa noite.” 

Pouco depois, Nathalie, vinda do interior, chega no Hotel e pede um quarto. Ela está à procura de emprego, assim que começar a trabalhar vai buscar seu noivo que ficou no vilarejo. No entanto, Hans se apaixona por ela. 

A introdução define o tema e narrativa do filme: jovens, hóspedes e funcionários do hotel, começam relações de amizade e paixão, às vezes até mesmo assumindo infidelidades consentidas. A narrativa transcorre inteiramente dentro do hotel, marcada por inserções musicais que pontuam o estado emocional dos personagens, como no baile organizado para comemorar o emprego de Nathalie. A solidão e desilusão amorosa marca todos os personagens. 

O média-metragem (40 minutos) de Chantal Akerman foi realizado contando com alunos de uma oficina de cinema de Bruxelas. O estilo musical está presente em momentos importantes da narrativa e, mesmo sem a música, é possível perceber movimentos rítmicos e coreógrafos do elenco nos ambientes do hotel. 

O tempo cronológico não é determinado, em alguns momentos é até mesmo subversivo. Durante o baile, o noivo do interior é avisado e, minutos depois, chega ao hotel. Nem mesmo os nomes dos personagens importam, são citados espaçadamente, dificultando a identificação. Resta ao espectador se entregar à busca pelo amor desses jovens, mesmo que fugaz. 

Elenco: Philippe Bobsled, Catherine Carrera, Amid Chakir, Mario Gonzales, Katy Guisard, Michel Kartchevsky, Marie Signé Ledoux. 

Tenho fome, tenho frio

Tenho fome, tenho frio (J’ai faim, j’ai froid, França, 1984), de Chantal Akerman.

Duas jovens interpretadas por Maria de Medeiros e Pascale Salkin, chegam a Paris, fugindo de suas casas, na cidade de Bruxelas. A narrativa acompanha as jovens durante duas noites e um dia, em busca de um lugar para dormir e uma forma de ganhar dinheiro para comer. 

O curta de cerca de dez minutos de duração, fotografado em preto e branco, integra o projeto Paris vu par… 20 ans après (1984), filme que reúne seis curtas de diferentes diretores: Philippe Garrel, Jean-Daniel Pollet, Frédéric Mitterrand, Bernard Dubois e Chantal Akerman. O projeto é uma releitura do filme produzido nos anos 60, Paris vu par… de 1965, dirigido por jovens da nouvelle vague francesa. 

As meninas, perambulando pelos subúrbios de Paris, reclamando o tempo todo: “Tenho fome, tenho frio.”, com gestos e diálogos repetitivos. Na jornada, entram em um bar e começam a cantar, na esperança de ganhar dinheiro. Um grupo de homens as acolhem na mesa e oferecem comida e bebida à vontade a elas. A noite termina no apartamento de um deles, que aproveita o momento para transar com a que sente frio. Na manhã seguinte, as duas estão novamente nas ruas de Paris, final em aberto que derruba a ilusão romântica que consagrou a cidade luz.

Com Sonia Wieder-Atherton

Com Sonia Wieder-Atherton (França, 2003), de Chantal Akerman. 

O documentário abre com a violoncelista Sonia Wieder-Atherton ocupando sua cadeira em um palco, preparando-se para um concerto. Voz em off de Chantal Akerman: “Diz-se de Sonia Wieder-Atherton que ela escolheu o violoncelo porque queria tocar um instrumento de cordas cujo som poderia fazer durar o tempo que quisesse. Isso é verdade.”

Na primeira parte do documentário, Chantal deixa a violoncelista à vontade, diante da câmera parada, em um cenário escuro, para conversar sobre o começo de sua carreira, sua formação e aprimoramento, suas referências, em “uma mistura de lembranças e coisas que me contaram depois.”

Sônia nasceu em São Francisco e começou a tocar piano. Mudou-se com os pais para Nova York, onde descobriu o xilofone, sem abandonar o piano. Em 1968, após se mudar para a França, estudou violão por alguns anos. Até que descobriu o violoncelo para “fazer o som durar o tempo que eu quisesse.”

Na segunda parte, Sonia Wieder-Atherton interpreta, em fascinantes e sedutoras performances, peças curtas de Schubert, Brahms, Berio, Bach. Acompanhada ao piano por Imogen Cooper, Sonia demonstra sua visceral entrega física, psicológica e emocional ao instrumento.

“Diz-se também que muitas escalas parecem estreitas demais quando ela aparece. Isso é verdade. E que ela nos agarra, nos leva com ela, tão longe e tão fortemente em áreas desconhecidas, às vezes escura, às vezes clara, velha ou nova, em um mistura de prazer e tensão.” –  Chantal Akerman

Três estrofes em nome de Sacher

Três estrofes em nome de Sacher (Trois strophes sur le nom de Sacher, França, 1989), de Chantal Akerman. 

O cenário é minimalista, como em grande parte dos filmes de Chantal Akerman. Um sofá com uma manta desarrumada em cima, uma pequena escrivaninha no lado oposto, uma cadeira, cortinas vermelhas deixando ver no centro uma parede com duas janelas lado a lado. Sonia Wieder-Atherton entra em cena, senta-se na cadeira com seu violoncelo e começa a tocar a primeira estrofe de Sacher. 

Durante o curta, a consagrada violoncelista, companheira de Chantal Akerman, toca Trois strophes sur le nom de Sacher, composições de Henri Dutilleux criadas em homenagem à Paul Sacher, regente e mecenas das artes. A interpretação visual da música conta com dois personagens que aparecem, sempre filmados de longe, nas janelas ao fundo do cenário, como se estivessem no cotidiano de suas casas, tomando café da manhã, passando roupas, observando a vida pela janela.

O curta foi realizado para ser exibido na televisão francesa. A direção de fotografia e a direção de arte deslumbram o espectador que se deixa levar de forma institiva para a bela performance musical de Sonia Wieder-Atherton.  

A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada

A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada (L’Enfant aimé ou Je joue à étre une femme mariée, Bélgica, 1971), de Chantal Akerman. Com Claire Wauthion, Chantal Akerman, Daphné Merzer. 

A jovem Claire está em frente ao espelho, apenas de calcinha. Ela se observa atentamente e conversa consigo mesma. “Estou pálida. Meu pescoço é muito longo. Não sou tão alta quanto pareço. Porque tenho braços longos. Pernas longas. E cabeça pequena…” A cena, realizada em plano-sequência, dura cerca de cinco minutos.

O curta-metragem é o segundo filme de Chantal Akerman. Durante trinta minutos, a diretora documenta o cotidiano de Claire e Daphné, mãe e filha, em uma casa no campo, com fotografia em preto e branco. Chantal participa do filme, ouvindo os depoimentos de Claire sobre sexo, a maternidade, frustrações e desejos de uma jovem mãe. 

Em depoimento para o livro Hommage à Chantal Akerman, de Jacqueline Aubenas, a diretora demonstra sua insatisfação com o filme: “É um filme que nunca me satisfez. Apliquei ideias muito abstratas sobre rejeitar a montagem como uma manipulação do espectador, sem levar em conta que optar pelo plano-sequência é muito bonito, mas é preciso preparar e cronometrar esse tipo de tomada meticulosamente. Deixei acontecer, mas não resultou em nada.”

A mudança

A mudança (Le déménagement, França, 1993), de Chantal Akerman. 

Um homem (Sami Fry) entra em um apartamento, observa o ambiente ainda com coisas para arrumar: “Nem mesmo uma alma, apenas eu. Com uma alma, as coisas nunca acabam bem.” Ele se senta em uma cadeira de frente para a janela, a câmera o enquadra a distância, e bate palma: “Há um eco. É o eco de uma alma desaparecida.”

Durante todo o curta, Chantal Akerman filma o homem em interações leves com o apartamento. Ele passa grande parte do tempo em frente à janela, às vezes ele anda, medindo os passos para determinar a extensão de sua nova moradia. 

Em um longo monólogo, o homem reflete sobre sua solidão, sobre seu passado, sobre o silêncio que o espera, demonstrando arrependimento por ter mudado. Em determinado momento, ele relembra um verão na sua antiga residência, quando se apaixonou por três jovens vizinhas, estudantes. “Verão de 1982. Eu estava bem na época. A janela estava aberta, havia uma brisa entrando. A risada de três garotas vinha da casa ao lado. Na manhã, o ar ainda era fresco. Nada. Sem cansaço, um desejo de acordar. Nada. Exceto um homem parado. As suas risadas me davam vida. Um banho frio, uma calça leve, folgada. Camisa aberta, pés descalços. E assim eu vivia.”

A mudança é um filme sobre memórias, sobre o tempo que passa e deixa marcas e o desejo de repetir ou aproveitar melhor algumas coisas. Como a paixão por três jovens estudantes, em um momento em que você ouve a voz de seu próprio desejo: “Vou ver o mar amanhã.”

Inside out

Inside out (EUA, 1978), de Sheila McLaughlin, é um dos experimentos mais radicais do cinema independente americano que ganhou força a partir dos anos 60. O curta-metragem não-narrativo se divide em três partes. 

Na primeira, o close de uma jovem, em câmera fixa, passa por mutações estéticas demarcadas pela forte granulação da película. A segunda parte enquadra crianças desfocadas em um pátio em repetidos gestos durante uma brincadeira, também com forte expressividade pictórica, imagens quase indistinguíveis que passam por metamorfoses. Na última parte, a técnica de frisar a mesma imagem predomina: duas jovens estão em posição de iniciar possivelmente uma corrida, mas voltam sempre ao mesmo ponto, enquanto as cores em preto e branco se transformam em experimentos artísticos. 

A diretora Sheila McLaughlin trabalha com a relação livre entre cinema, fotografia e artes plásticas, se apropriando das vanguardas estéticas para compor um painel intrincado e fascinante. O curta é representativo do movimento underground de Nova York – a desconstrução da identidade feminina é marcante não só na estética, mas também na montagem fragmentada. 

Quartos vazios

“Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu” (Chico Buarque) é um dos versos mais dolorosos da música brasileira, principalmente na voz de Zizi Possi.  Quartos vazios (All the empty rooms, EUA, 2025), de Joshua Seftel é a representação real deste sofrimento. 

O jornalista Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp registram imagens e depoimentos nas casas cujos pais perderam filhos – crianças e adolescentes, em tiroteios nas escolas. O foco das câmeras são os quartos que permanecem intactos e/ou intocáveis das vítimas, um deles até com a roupa suja da criança para que os pais possam preservar o cheiro do filho. 

Durante muitos anos, Seteve Hartman cobriu os atentados como repórter nas escolas. Seu principal objetivo era levar alento aos familiares e demais estudantes, tentando estimular as pessoas a seguirem em frente. “Por anos, eu escrevia matérias no fim de cada semana de tiroteio escolar. Às vezes, era sobre um herói, sobre o país se unindo. O que quer que fosse, elas procuravam alguma mensagem positiva. ‘Ela estava em uma reunião, ouviu tiros e correu para ajudar. Fazendo dela uma heroína para muitos de nós.’ Eu já tinha feito tantos destes relatos, que parecia que eu estava me repetindo. Aliás, eu usava as mesmas frases nas reportagens. E percebi que os americanos estavam superando cada tiroteio escolar cada vez mais rápido. Pensei: Preciso fazer algo diferente.”

A frustração do jornalista com seu próprio trabalho foi a base para o filme que ganhou o Oscar de Melhor Documentário em Curta-metragem (2026). E uma de suas reflexões consolidou de vez o projeto: “Sinto que a mídia tem um pouco de culpa por tudo isso.

Homensa brancos estao enlouquecendo

Homens brancos estão enlouquecendo (White men are cracking up, Inglaterra, 1994), de Ngozi Onwurah. 

Mazie Blue (Theo Omambala) está em um quarto com um coronel do exército de 63 anos. Ela veste roupas sensuais e começa uma dança afro, à pedido do oficial – “Meu último pedido”. Depois da dança, Mazie pergunta: “Você está pronto?” “Sim. Eu estou.” 

Na manhã seguinte, o oficial é encontrado morto, claramente se suicidou. É mais um caso que assola a cidade: homens brancos estão cometendo suicídio. Somente o policial interpretado por Jon Finch acredita que as mortes são causadas pela mesma pessoa, “um anjo negro que não deixa rastros”. Ele passa a caçar Mazie Blue e o confronto entre os dois vai testar os limites dessa magia poderosa que opera por meio da sedução. 

A diretora Ngozi Onwurah compõe um filme esteticamente também sedutor, com fotografia que reflete as influências do neo-noir. Os figurinos, adereços e direção de arte remetem à cultura africana, intensificando o clima de encantamento e desejo. A narrativa surrealista, associada à essa estética onírica e simbólica, ficou conhecida como afro-surrealista. 

Poder local, poder popular

Poder local, poder popular (Cuba, 1970), de Sara Gómez.

A frase “As massas têm a palavra” abre e guia a estrutura narrativa do documentário. A diretora Sara Gómez registra a eleição do “prefeito” de uma comunidade, cuja principal atividade é relacionada ao processo de produção da cana de açúcar, localizada na Isla de Pinos. 

O documentário trabalha com comentários e afirmações dos trabalhadores, respeitando o estilo coloquial e, às vezes, irreverente da população local. Letterings em negrito, destacam frases e palavras como “Poder Local”,  “Apoio”, “Erros”, “Poder popular”.

Apesar do documentário, como todos os outros da diretora, ser financiado e produzido pelo Instituto Cubano Del Arte e Industria Cinematográficos, órgão ligado ao governo revolucionário, Sara Gómez destaca, na voz dos trabalhadores, pontos polêmicos, como a escassez de alimentos. “Aqui no engenho de açúcar, o fornecimento está bem bagunçado. Quando tem bebidas, não tem gelo, e quando tem gelo, não tem bebida. Quando tem manteiga, não tem pão e quando tem pão não tem manteiga.”