São Bernardo

É nítida a influência de Robert Bresson e Yasujiro Ozu em São Bernardo (1971). De Ozu, a apropriação dos longos planos estáticos, distantes dos personagens. Diálogos inteiros são filmados em plano geral, a câmera não se aproxima dos atores, não permite ao espectador contemplar as emoções dos personagens. Tudo fica por conta da força das palavras. Quando a câmera se aproxima, Leon Hirszman se deixa influenciar por Robert Bresson: os atores interpretam de forma naturalista, frios e também distantes. Madalena (Isabel Ribeiro) não deixa transparecer nas faces ou nos olhos a sua lenta degradação psicológica. Paulo Honório (Othon Bastos) se permite a explosões refletidas nos gestos e transtornos do rosto, mas quase sempre a câmera o foca em um longo monólogo interior, as faces e o olhar sem expressão.

A intenção de Leon Hirszman, um dos maiores diretores ligado ao cinema novo, é valorizar o belo texto de Graciliano Ramos. A história de Paulo Honório, pobre trabalhador de Alagoas que se torna o poderoso proprietário da fazenda São Bernardo às custas de exploração e crimes, reflete a realidade da luta pelo poder no sertão nordestino. Hirszman, ao optar pela montagem seca, traduz o verdadeiro objetivo do romance: expressar o interior de Paulo Honório, o homem que luta com obstinação por riqueza e poder, mas não consegue vencer os demônios de sua alma.

São Bernardo (Brasil, 1971), de Leon Hirszman. Com Othon Bastos, Isabel Ribeiro.

Cassi Jones, o magnífico sedutor

Luis Sergio Person é responsável por dois grandes filmes do cinema novo: São Paulo Sociedade Anônima (1965) e O caso dos Irmãos Naves (1967). Nos anos 70, sem condições de filmar por falta de incentivo, fato comum na história do cinema brasileiro, que despreza seus grandes diretores, Person trabalhou com publicidade e voltou à tela grande com um filme relacionado à pornochanchada.

Cassi Jones, o magnífico sedutor (1972) traz Paulo José em grande interpretação no papel do conquistador incorrigível, capaz das maiores trapalhadas para levar as mulheres para a cama. Tudo muda quando Cassi Jones conhece e se apaixona por Clara, jovem reprimida pelos valores da classe média puritana.

Person faz uma sátira ao próprio cinema, citando vários gêneros: o cinema noir dos gângsteres, o filme policial, os musicais, a comédia pastelão, as fitas de aventuras despretensiosas, sequências homenageiam o estilo de filmagem do cinema mudo e, claro, o cinema erótico. Person não dispensa o nu das belas atrizes, marca registrada da pornochanchada.

No trecho abaixo, Fernão Ramos reflete sobre esta fase rica em produções e participação de público do cinema brasileiro, abordando o olhar enviesado da crítica e da intelectualidade sobre os filmes deste movimento.

“A comédia erótica sempre estabeleceu relações cheias de atritos no interior do campo cultural da década de 1970. Criticada pelos cinemanovistas, repreendida pela censura e por políticos moralistas, vista com reservas pelos órgãos estatais (pois conseguia a almejada conquista do mercado, mas com modos mal-educados para o gosto oficial), foi uma presença incômoda naqueles tempos de repressão e indefinições. Em consequência, pouco se refletiu e debateu sobre o indesejado estranho que invadia o cinema. Todas as atenções permaneciam voltadas para os remanescentes dos movimentos culturais legitimados como Cinema Novo e, em menor grau, o Cinema Marginal.”

Cassi Jones, o magnífico sedutor (Brasil, 1972), de Luis Sergio Person. Com Paulo José (Cassi Jones), Sandra Bréa (Clara).

Referência: História do cinema brasileiro. Fernão Ramos  (org.). São Paulo: Círculo do Livro, 1987

Cinco vezes favela

Cinco vezes favela (Brasil, 1962) é dos mais importantes filmes do Cinema Novo. O título se refere à reunião de cinco curtas, cuja temática comum é o cotidiano dos moradores da periferia do Rio de Janeiro. Um favelado, de Marcos Farias; Zé da Cachorra, de Miguel Borges; Escola de Samba Alegria de Viver, de Cacá Diegues; Pedreira de São Diogo, de Leon Hirszman; Couro de Gato, de Joaquim Pedro de Andrade.

Os filmes exploram as injustiças sociais, bem ao feitio dos jovens realizadores cinemanovistas, empenhados em evidenciar a cruel realidade dos moradores da periferia. São obras deficientes em termos técnicos, representam a experimentação de diretores iniciantes que contavam com equipamentos precários. A exceção fica por conta de Couro de Gato, cujo diretor, Joaquim Pedro de Andrade, mesmo nos primeiros filmes já se destacava em termos técnico-narrativos.

“COURO DE GATO (o terceiro curta-metragem  de Joaquim Pedro, que havia realizado O MESTRE DE APIPUCOS, 1959, e O POETA DO CASTELO, 1959) apresenta um nível de realização bastante superior aos outros episódios, embora também centrado na representação do universo burguês característico da época e na exploração de sentimentos fáceis no espectador.  PEDREIRA DE SÃO DIOGO (de Leon Hirszman) também é um filme bem realizado, marcado pelas preferências eisensteinianas do jovem cineclubista. Conta a luta dos operários de uma pedreira para impedir que uma explosão mais forte venha fazer despencar diversos barracos localizados na beira do barranco onde trabalhavam.”

REFERÊNCIA: História do cinema brasileiro. Fernão Ramos (organizador). São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

Cleópatra

A leitura do mito de Cleópatra por Júlio Bressane resulta em um filme radical, oscilando entre a expressão poética das palavras e a expressão mais poética ainda das imagens. O diretor respeita a história da mulher que seduziu Júlio César e Marco Antônio e prostrou a poderosa Roma a seus pés.  Respeita a trágica história de amor, respeita, em suma, a beleza da lenda.

Cabe ao olhar de Bressane a irreverência, contando com interpretação visceral de Alessandra Negrini. Às vezes, os atores despejam o belo texto (roteiro do próprio diretor e de sua mulher Rosa Dias), outras vezes a câmera fotografa (sob a bela luz de Walter Carvalho) o cenário e, principalmente, Cleópatra posando para as lentes. Nos dois sentidos, a poesia se impõe, cinema em seu estado belo, como na sequência final, quando a câmera se afasta lentamente do leito de morte da rainha.

Cleópatra (Brasil, 2008), de Júlio Bressane. Com Alessandra Negrini (Cleópatra), Miguel Falabella (Júlio César), Bruno Garcia (Marco Antônio).

Os inconfidentes

A partir dos anos 70, parte do cinema brasileiro foi gerido pela intervenção do Estado, seja através de financiamento, com a criação da Embrafilme, seja através da censura. Proliferam dois tipos de produção: a pornochanchada, cinema praticado com baixos recursos na Boca do Lixo paulista, e filmes com temáticas históricas.

Os inconfidentes se enquadra no segundo eixo, com um diferencial: é dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, dos principais articuladores do Cinema Novo, portanto, rebelde por natureza. Com roteiro do próprio diretor e de Eduardo Escorel, os diálogos foram criados a partir de material dos autos da devassa e versos de Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cecília Meireles. O filme é ousado na proposta ideológica e na concepção de linguagem cinematográfica.

A narrativa é centrada nos intelectuais que participaram da idealização do levante. É quase teatro filmado, com os atores declamando versos entre eles e, por vezes, se voltando para a câmera em conversa com o espectador. A montagem fragmentada, com idas e vindas temporais, demonstra a capacidade de Joaquim Pedro de Andrade em inovar, mesmo em um filme marcado pela narrativa histórica. Nas palavras de Fernão Ramos, discordar parece ser a marca dos integrantes do Cinema Novo que buscaram alternativas às propostas cinematográficas estipuladas pelos militares na ditadura.

“O diálogo dos cinemanovistas com estas proposições foi imediato. OS INCONFIDENTES (direção de Joaquim Pedro de Andrade, 1972), faz absoluta questão de discordar. Subversão temporal, diálogos literários retirados dos autos da devassa da Inconfidência e da poesia de Cecília Meireles estão presentes numa narrativa centrada não em Tiradentes mas nos intelectuais do movimento. Uma obra sofisticada, colocando em cena a discussão histórica, mas extrapolando para um questionamento do papel dos intelectuais e também da própria linguagem cinematográfica. O Cinema Novo respondia pesado ao oficialismo histórico do movimento, radicalizava e patinava junto ao público. OS INCONFIDENTES é um filme ousado e amargo, indicador de uma época difícil, em que mudanças eram inevitáveis, arrastando em sua esteira os que se opunham a uma incipiente, mas potencialmente forte, expansão cinematográfica. Estado e mercado pareciam prestes a emparedar a vitalidade cinema-novista.”

Referência: História do Cinema Brasileiro. Fernão Ramos (organizador). São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

Os inconfidentes (Brasil, 1972), de Joaquim Pedro de Andrade. Com José Wilker (Tiradentes), Luiz Linhares (Tomás Antônio Gonzaga), Paulo César Pereio (Bueno da Silveira, Fernando Torres (Cláudio Manoel da Costa), Carlos Kroeber (Alvarenga Peixoto), Nelson Dantas (Luís Vieira da Silva), Carlos Gregório (José Álvares Maciel), Fábio Sabag (Visconde de Barbacena), Wilson Grey (Joaquim Silvério dos Reis), Tereza Medina (Bárbara Heliodora).

Uma quase dupla

A investigadora Keyla chega à cidade de Joinlândia para elucidar crime que se anuncia como a primeira investida de um serial killer. Sua dupla de trabalho é Cláudio, morador da cidade. Enquanto os crimes acontecem, Keyla e Cláudio enveredam por trapalhadas típicas do gênero comédia de duplas de policiais. 

Tatá Werneck é a estrela do filme, proporcionando momentos engraçados bem ao seu estilo de disparar diálogos como metralhadora. Cauã Reymond faz o estilo policial galã, preocupado em tingir os cabelos e posando para o espelho. O roteiro não ajuda os atores, os clichês se sucedem crime a crime. Resta ao espectador se entregar ao carisma dos protagonistas. 

Uma quase dupla (Brasil, 2018), de Marcos Baldini. Com Tatá Werneck (Keyla), Cauã Reymond (Cláudio), Ary França (Moacyr), Alejandro Claveaux (Augusto).  

Torquato Neto – Todas as horas do fim 

Natural de Teresina/Piauí, Torquato Neto (1944/1972) foi dos mais ativos e precoces integrantes do grupo cultural que inovou a música, as letras e o cinema entre os anos 60 e início da década de 70. Poeta, letrista, ator, cineasta, cronista cultural, Torquato transitou pela arte com intensidade trágica. 

Os diretores do documentário se debruçam sobre a breve vida do artista (Torquato se matou aos 28 anos de idade) com sensibilidade. A narrativa usa poemas e textos do autor, lidos por Jesuíta Barbosa; fotografias de Torquato e cenas de suas participações em filmes de Ivan Cardoso; imagens de películas importantes do cinema novo e cinema marginal; depoimentos de artistas do calibre de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Augusto de Campos, Tom Zé, Jards Macalé, entre outros. Registros históricos apresentam Gal Costa e outros famosos interpretando belas canções compostas por Torquato Neto.  

Torquato Neto – Todas as horas do fim é poesia do início ao fim. Poesia nas letras das canções, nas cartas, nas fotos do belo Torquato, nas imagens dos filmes, nos textos. Documentário para ouvir, ver e rever. 

Torquato Neto – Todas as horas do fim (Brasil, 2018), de Eduardo Ades e Marcus Fernando.

Temporada

Uma das marcas da estética neorrealista é a câmera centrada no cotidiano de personagens em atitudes comuns do dia-a-dia. Algo como deixar o espectador contemplar o vagar do dia. Temporada parte deste princípio, seguindo a rotina de Juliana e seus colegas de trabalho na periferia de Contagem. Ela trabalha no combate a endemias, batendo à porta das casas para revirar entulhos à cata de pragas. As lentes acompanham a monotonia dos atos, em outros momentos centra o foco na tentativa de Juliana interagir e se divertir do jeito que é permitido nestes recantos da cidade. Nada de mais acontece na vida de Juliana: ela espera a chegada do marido, tenta novos relacionamentos e, no fim, pratica um ato transgressor. 

Temporada ganhou o Grande Prêmio do Festival de Brasília por conta de dois nomes promissores no cinema nacional: o diretor André Novais e a atriz Grace Passó.

Temporada (Brasil, 2018), de André Novais Oliveira. Com Grace Passó, Russo APR, Rejane Faria, Hélio Ricardo. 

O beijo no asfalto

O clássico texto de Nelson Rodrigues é conhecido: homem sofre acidente na rua e, pouco antes de morrer, pede um beijo na boca ao homem que tenta socorrê-lo. O pedido é atendido à vista de todos, inclusive um repórter que cobre casos policiais. Com ousadia, o ator Murilo Benício, em seu primeiro trabalho como diretor, transforma a peça em interação entre teatro e cinema, fotografada na bela estética noir, em preto e branco. 

Reunidos à mesa, no teatro, os atores ensaiam o texto, orientados pelo dramaturgo Amir Haddad. Montagem paralela intercala os diálogos com cenas do filme pronto. Lázaro Ramos, Débora Falabella e Stênio Garcia interpretam o trio de protagonistas. Otávio Muller é o jornalista inescrupuloso que manipula os fatos relacionados ao beijo para vender jornal. O beijo no asfalto é importante e atual em tempos das fake news. 

O beijo no asfalto (Brasil, 2017), de Murilo Benício. Com Fernanda Montenegro, Débora Falabella, Lázaro Ramos, Stênio Garcia, Otavio Muller, Augusto Madeira.

Cartas para um ladrão de livros

O documentário aborda a trajetória de Laéssio Rodrigues, ladrão de livros raros e gravuras valiosas do acervo de instituições públicas. A compulsão de Laéssio pela prática começa com a paixão por Carmem Miranda – para incrementar sua coleção de imagens, ele rouba fotos, artigos, revistas, tudo relacionado à cantora. Descobre a fragilidade das instituições com os acervos e passa a roubar livros raros, revendendo-os no mercado negro, acumulando dinheiro e bens materiais.

Os documentaristas partem de cartas trocadas com Laéssio na prisão. Grande parte da narração é feita pelo próprio ladrão de livros, entre os intervalos que sai do cárcere. O tom da narrativa é pessoal: Laércio reflete sobre seus atos, consequências e arrependimentos; as leituras das cartas revelam dúvidas dos diretores sobre o próprio documentário; depoimentos de arquivistas escancaram a revolta com o desaparecimentos de acervos valiosos. 

Cartas para um ladrão de livros (Brasil, 2018), de Carlos Juliano Barroso e Caio Cavechini.