Categoria: Anos 70

  • Ano um

    O documentário Ano um (Ano uno, Cuba, 1971), de Sara Gómez, acompanha o trabalho das enfermeiras de campo que atendem as mães e seus bebês após a saída da maternidade Durante o primeiro ano da criança, as enfermeiras visitam as casas das mulheres, as reúnem em cinemas onde exibem filmes e materiais didáticos para orientá-las sobre os cuidados necessários nesse período: informações sobre o banho, vestimentas, hábitos de sono, alimentação, prevenção de doenças e vacinação. 

    Quebrando o estilo de outros documentários, em Ano um Sara Gomez não dá voz às pessoas comuns de Cuba, neste caso, as mães e seus familiares que enfrentam os percalços e conflitos inerentes ao cuidado dos bebês durante a primeira infância. O documentário assume o caráter institucional, com depoimentos de trabalhadores da área da saúde, médicos e enfermeiras. O filme foi realizado para educar as mães de acordo com orientações médicas, cumprindo com didatismo questões de saúde importantes para a revolução cubana. As imagens, acompanhadas por narrações informativas, reforçam o clima de bem-estar, saúde e carinho no cuidado com as mães e seus bebês. 

    A cineasta cubana realizou apenas um projeto de ficção durante a carreira: De certa maneira (1974), primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher cubana. Ela foi também a primeira mulher a dirigir o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica, instituição estatal destinada a incentivar o cinema nativo. 

    A filmografia de Sara Gómez é composta de diversos curtas documentais que transitam entre a realidade institucional, o cinema como forma de expandir os ideais e práticas nestes primeiros anos da revolução cubana, e a crítica social e política. Em quase todos os documentários, a diretora usou este campo institucional para provocar reflexões sobre os caminhos da revolução, principalmente ao assumir durante a narrativa os olhares sofridos e críticos de moradores, trabalhadores, indígenas, estudantes e demais integrantes das comunidades. 

    Sara Gómez faleceu em junho de 1974, com apenas 31 anos de idade (a causa foi uma parada respiratória), durante a realização do seu único longa-metragem. De certa maneira finalizado por outro mestre do cinema cubano: Tomás Gutiérrez Alea, com a colaboração de Julio García Espinosa.  

  • Nos Bateyes

    Nos Bateyes (Cuba, 1971), de Sara Gómez.

    Narração em off cita um livro da história de Cuba: “Um Batey é uma praça ou terreno central onde indo-cubanos jogavam batos ou beisebol.” Lettering: “Não. Isso não é um Batey.” Seguem-se imagens de trabalhadores cubanos nas ruas e plantações e a narração define a palavra a partir da Enciclopédia Larousse: “Batey. Palavra caribenha. Nos engenhos de açúcar, um grupo de máquinas usadas na colheita.” Lettering: “Não. Isso não é um Batey.”

    O documentário da prestigiada diretora Sara Gomez define o verdadeiro sentido da palavra para os trabalhadores cubanos: “Um Batey é um grupo de casas e de serviços comunais planejadas para trabalhadores de um engenho de açúcar ou uma colônia de engenho.”

    A partir deste conceito, a diretora abre a câmera para os moradores e trabalhadores destes povoados, resgatando a memória e a afetividade que se construíram em torno das usinas de cana-de-açúcar, essenciais para a economia cubana.

    As imagens e depoimentos de pessoas pobres, que durante décadas estiveram subjugadas ao sistema de exploração da economia da ilha, ressoam como um alerta para a revolução, pois a precariedade das estruturas físicas e do próprio modelo de subsistência ainda estão presentes. O olhar crítico de Sara Gomes, mesmo em mais um documentário político para o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica, percorre todo o documentário, com reflexões, inclusive, sobre o fazer cinematográfico:

    “Como realizadores, nós não partimos em busca de definições. Nós consideramos que a rotina desses homens, suas histórias e a cultura que criaram em relação a indústria do açúcar são mais importantes. Dada a extensão em que essas comunidades podem ser afetadas pela preparação de uma colheita grande e da instalação de maquinários novos, nos sentimos motivados a mergulhar na memória desses homens.”

    O depoimento do poeta Pablo A. Fernandez, que quando criança morou em um Batey, revela o contraste realista das memórias: “O mundo da minha infância era um mundo amigável, um mundo de jardins, pátios e ruas cheias de árvores. Tudo isso era, para mim, a minha vizinhança. Para os adultos da minha família, era diferente. Era um lugar de exploração, trabalho duro. De salários pequenos e problemas proletários.”

    As lembranças orais de moradores e trabalhadores resgatam esse passado de exploração e luta pela sobrevivência. A montagem alterna entre os depoimentos e imagens do trabalho nos engenhos pós-revolução, com maquinários modernos e o processo braçal ainda sofrido. Esse estrutura narrativa provoca a reflexão sobre a dicotomia secular que determina a vida de quem mora na própria terra em que trabalha, sempre servindo aos interesses econômicos: a fraternidade, as memórias afetivas das famílias, das casas, das ruas, dos momentos singelos do cotidiano, estão sempre acompanhadas do cruel sofrimento físico e emocional  no labor do cotidiano. São os trabalhadores que mantiveram e mantêm o sistema econômico da ilha, seja no capitalismo ou no socialismo.  

  • O vencedor

    O vencedor (Breaking away, EUA, 1979), de Peter Yates.

    O cenário é a cidade de Bloomington, Indiana, famosa por suas pedreiras, onde trabalharam gerações de moradores. A cidade se transformou em reduto de estudantes, após a construção de uma grande universidade. 

    Os protagonistas são quatro jovens moradores: Dave, Mike, Cyril e Moocher. Irreverentes e despretensiosos, passam os dias flanando pela cidade e tomando sol em um lago formado em uma das pedreiras. 

    O vencedor é um dos marcantes filmes entre os anos 70 e 80 que retratam a frustração dos jovens das pequenas cidades do meio oeste americano. Mike tenta vencer a desilusão por não ter conseguido seguir no futebol americano. Moocher precisa trabalhar, mas abandona os empregos, enquanto é pressionado para casar pela sua namorada. O tímido e desajeitado Cyril não tem a menor ideia do que quer fazer, simplesmente segue seus amigos. E Dave, o ciclista que sonha em duelar contra uma famosa equipe italiana. 

    O embate social acontece nos conflitos que se criam entre os “caipiras” e os endinheirados jovens universitários. Dave, em busca de ascensão e reconhecimento, finge ser italiano, conversa em casa com seus pais em italiano, seduz uma universitária fingindo ser um estudante intercambista da Itália. O humor do filme está exatamente nesta farsa, as ações de Dave em casa e os diálogos entre ele e o pai rendem boas risadas. 

    O diretor Peter Yates inovou as cenas de perseguições de carro em Bullitt (1968). Em O vencedor, o diretor reafirma seu talento nessa área, filmando uma famosa sequência, no final do filme: a corrida de revezamento de bicicletas, opondo os quatro amigos, que correm com camisetas estampadas “caipiras”, e os universitários, que não aceitam sob nenhuma hipótese serem derrotados pelos locais. 

    Atenção para a cena final, após Dave conhecer e se apaixonar por uma estudante francesa. O encontro com seu pai na rua, saudado por um bonjour, é hilário. 

    Elenco: Dennis Christopher (Dave), Dennis Quaid (Mike), Daniel Stern (Cyril), Jackie Earle Haley (Moocher), Paul Dooley (pai de Dave), Barbara Barrie (mãe de Dave), Robyn Douglas (Katherine), Hart Bochner (Rod). 

  • O último golpe

    No início dos anos 70, o então roteirista Michael Cimino conseguiu fechar um acordo com Clint Eastwood para realizar seu primeiro filme como diretor: O último golpe (Thunderbolt and Lightfoot, EUA, 1974). Clint estava prestes a começar as filmagens de Magnum 44 (1973) e pediu a Michael Cimino para terminar o roteiro do filme (John Millus, roteirista original, não terminou o script). 

    “Fiquei nervoso, não sabia nada sobre esse gênero de filme. Joan Carelli, meu produtor de O portal do paraíso, me disse: ‘Michael, não se recusa o Clint, você precisa fazer. O que você fizer, ele vai gostar.’ Então me sentei e comecei com as poucas páginas que John havia feito. De alguma forma, consegui transformá-lo em um roteiro. E o Clint gostou.” 

    Magnum 44 foi um sucesso de crítica e bilheteria, o filme mais lucrativo da série Dirty Harry. Todos sabem a importância da bilheteria em Hollywood, o sucesso do filme facilitou o processo de produção do filme de estreia como diretor de Michael Cimino. 

    Quando começou a escrever O último golpe, Cimino pensava em um filme de época, filmado na Irlanda, tendo como protagonista o Capitão Thunderbolt, figura histórica do país. Cimino foi dissuadido da ideia pelo seu agente, que o incentivou a fazer um filme contemporâneo. A história se transformou então na jornada de Thunderbolt (Clint Eastwood) e Lightfoot (Jeff Bridges), dois marginais de diferentes gerações que se encontram por acaso na estrada. 

    No início do filme, Lightfoot rouba o carro de uma concessionária e foge em alta velocidade pelas estradas. Thunderbolt está disfarçado de reverendo, fazendo seu sermão em uma pequena igreja, quando um homem entra e começa a disparar o rifle em sua direção. Na fuga, Thunderbolt cruza a estrada e é atropelado, sem danos graves, por Lightfoot. Esse encontro inesperado dá início a um road movie recheado de perseguições e tiroteios – na primeira parte do filme, a dupla é perseguida por mais dois estranhos. 

    A virada acontece quando os dois estão prestes a ser executados na margem de um rio pela dupla. O primeiro atirador da igreja e os dois estranhos do carro foram comparsas de Thunderbolt em um famoso assalto. Os milhões do assalto foram escondidos atrás do quadro negro de uma pequena escola e só o falso pastor sabe o endereço. 

    Quando todos descobrem que a escola não existe mais, deu lugar a um prédio moderno, resolvem repetir o assalto. A segunda parte se desenvolve no planejamento e execução do assalto, com cenas violentas e uma fuga com reviravoltas sangrentas.  

    Michael Cimino: “Na verdade, era a história de homens envelhecendo, que já passaram da flor da juventude. um pastor de uma pequena cidade. E junto dele, esse exuberante rapaz que adora a liberdade, com metade da sua idade. E sem limite algum. Ele restaura sua juventude. Os dois se tornam jovens. Eles se tornam amigos e passam a rir juntos. Sair com mulheres juntos e fazer tudo juntos. É a história da restauração, do vigor e juventude, beleza e transformação disso tudo por alguém que é mais jovem.”

    Cimino disse à Jeff Bridges, jovem ator em ascensão: “Você só tem uma tarefa no filme. Fazer o Clint rir. Nunca viram ele rir. Em todos os seus filmes, todos os faroestes e séries de televisão, ninguém nunca viu ele rir. Seu trabalho é fazê-lo rir. Nós dois começamos a rir em seguida. E conseguimos fazer o Clint rir.”

    Esse road-movie regado a violência e bom humor, vindo da interação entre os dois protagonistas, torna O último golpe um inusitado thriller, bem ao estilo do que já se praticava nos filmes dos jovens roteiristas e diretores da Nova Hollywood. Sobre o final inesperado, a sequência quase poética na estrada deserta, Thunderbolt e Lightfoot planejando a vida futura ao sabor do vento em um carro conversível com a capota abaixada, Cimino revela: 

    “A equipe adorava o personagem Lightfoot e vieram me procurar para dizer que fizeram uma votação e decidiram que não queriam que eu matasse Lightfoot. Eles achavam que o filme faria mais sucesso se ele não morresse. Não segui o conselho, mantive o roteiro.”

    Elenco: Clint Eastwood (Thunderbolt), Jeff Bridges (Lightfoot), George Kennedy (Red Leary), Geofrey Lewis (Goody), Catherine Bach (Melody). 

    Referência: O cinema da Nova Hollywood 4. Extras do DVD da Versátil Home Vídeo.

  • Uma mulher descasada

    Uma mulher descasada (An unmarried woman, EUA, 1978), de Paul Mazursky.

    A sequência de abertura do filme reflete um estilo que marcou os cineastas da Nova Hollywood, nos anos 70: o fascínio pelas ruas de Nova York, retratada em imagens quase documentais; algo parecido com o que os jovens da Nouvelle Vague fizeram com Paris.

    Erica (Jill Clayburgh) e seu marido Martin (Michael Murphy) estão correndo no calçadão às margens do Rio Hudson. Martin pisa em cocô de cachorro e, entre discussões e risadas, revelam-se um casal típico de classe média, tentando fazer da banalidade do cotidiano (incluindo o sexo) ainda algo prazeroso e divertido. 

    Tudo muda quando mais tarde, Martin confessa, aos prantos, em outra cena de rua, que está apaixonado por uma mulher mais jovem. O filme assume definitivamente o ponto de vista de Erica, tentando se recuperar e refazer sua vida após a separação. Entre sessões de terapia, Erica sai com as três amigas, todas de meia-idade, segue seu trabalho como assistente em uma galeria de arte, divide suas noites com a filha adolescente, até que, finalmente, se permite a fazer sexo com outros homens. 

    É nesse momento que ela conhece e se apaixona por Saul (Alan Bates), pintor modernista que corresponde à sua paixão. Os dois passam a desfrutar de momentos intensos de sexo, se descobrindo, Erica se libertando cada vez mais e mais das amarras adquiridas pelo casamento. 

    “Através das elipses, Mazursky trabalha com o processo de mudança gradual na vida de Erica, de modo que somos levados a imaginar o que ocorreu entre uma cena e outra – por exemplo, quando ela decide voltar a namorar, ou quando o marido sai de casa, momentos que são omitidos. E é interessante como, apesar da sensação constante de que estamos partilhando de seu cotidiano por vezes pacato, a personagem de Jill Clayburgh sofre uma transformação radical. Esta mudança não ocorre de uma cena para outra, mas está em pequenos momentos singelos que demonstram uma evolução da personagem. Chama atenção a cena em que Erica e sua filha estão ao redor do piano cantando desastradamente Maybe I’m Amazed, de Paul McCartney, talvez o momento mais belo do filme. Mesmo sem diálogos, ele expressa um enorme estado de graça e de união entre duas gerações de mulheres, com concepções muito diferentes da vida e do amor, mas que dividem alguns dos mesmos problemas históricos.” – Luca Scupino

    A cena final coloca Nova York novamente como protagonista da história. Erika ganha um enorme quadro de presente de Saul, mas tem que levá-lo a pé para casa. Entre pessoas, carros, prédios, cartazes, o lixo espalhado pelas calçadas, Erika segue sua vida, agora independente. Luca Scupino: “A genialidade de Mazursky está, portanto, em como ele retrata sua personagem frente ao mundo. Parece que, conforme Erica se liberta do casamento e de seu passado, ela vai conhecendo a própria cidade, descobrindo a si mesma a partir do ambiente em que vive, das contradições que co-habitam na cidade de Nova York, ao mesmo tempo moderna e tradicional. O filme é sempre sobre Erica e o mundo: mesmo em seu apartamento, a grande janela permite enquadrá-la em uma vista panorâmica da cidade.”


    Referência: O cinema da Nova Hollywood. Pérolas da coleção. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Vídeo, 2023

  • O caçador de dotes

    O caçador de dotes (A new leaf, EUA, 1971), de Elaine May. 

    A atriz, roteirista e diretora Elaine May foi uma das únicas mulheres a participar do movimento Nova Hollywood, nos anos 70. Importante ressaltar que, historicamente, a indústria de cinema dos Estados Unidos, foi dominada por diretores. Durante a era de ouro de Hollywood, entre o surgimento do cinema sonoro e os anos 50, somente duas mulheres dirigiram filmes: Dorothy Arzner e Ida Lupino. 

    Durante a Nova Hollywood, diretores como Scorsese, Coppola, Spielberg, Brian De Palma, Michael Cimino, William Friedkin, lançavam filmes anos após ano. No entanto, Elaine May dirigiu apenas quatro filmes, comprovando a segregação sexista de Hollywood. 

    “Em comparação com seus pares masculinos, que têm seus filmes vastamente estudados até hoje, a filmografia de May ainda é um tesouro escondido na década de 1970. A cineasta tão aventureira e inovadora como qualquer de seus contemporâneos subverteu a comédia romântica com O caçador de dotes (1971) e Corações em alta (1972). Também flertou com o tema do anti-herói, frequente no movimento, sob uma perspectiva da fragilidade da masculinidade e dos laços de amizade em Mikey & Nicky (1976). Embora May tenha continuado a escrever e a atuar nas décadas seguintes, a maneira pela qual esta brilhante diretora foi deixada de lado pela indústria é sintomática. Elaine May foi uma artista independente que foi intransigente em busca de sua visão única, e seu corpo de trabalho, embora pequeno, é verdadeiramente extraordinário.” – Juliana Costa

    O caçador de dotes, seu primeiro filme acompanha o improvável relacionamento entre Henry Graham (Walter Matthau) e Henrietta Lowell (Elaine May). Henry é um playboy e bon vivant que, logo no início do filme, descobre que torrou toda a sua fortuna. A única saída para recuperar seu estilo de vida e saldar as dívidas é se casar com uma mulher rica. A escolhida é Henrietta, botânica e professora universitária, herdeira de uma fortuna. Ela é incrivelmente aparvalhada, incapaz de se comportar “adequadamente” na alta sociedade e administrar com competência seus bens. Depois do casamento, Henry imagina várias formas de matar a esposa. 

    O Caçador de dotes é uma comédia com ares de modernidade, mas que conserva também um tom mais clássico, evidenciado principalmente no personagem de Walter Matthau, um homem que, segundo seu mordomo, mantém vivas tradições que já estavam mortas antes dele nascer. (…). Mesmo assombrado com a falta de jeito e traquejo social de Henrietta e mantendo a intenção de matá-la, Henry passa aos poucos a se enternecer e a amparar Henrietta em suas dificuldades. E, ela, apesar de ter herdado muita riqueza de seu pai, leciona, publica artigos e se dedica muito a seu trabalho. Seu desejo é encontrar e classificar uma nova espécie de samambaia, que seria nomeada com seu sobrenome. Henry brinca que assim ela conquistaria a imortalidade.” – Carla Oliveira.

    Durante as filmagens, Elaine May excedeu o cronograma e o orçamento. A edição final entregue a Paramount tinha três horas de duração. O estúdio exigiu que a diretora cortasse para 102 minutos. Depois da mudança, Elaine May não só renegou o filme, mas processou o estúdio, começando sua carreira de diretora já em conflito com a indústria. Passou a ter dificuldades em realizar novos projetos, mas lutou para manter sua independência criativa. Muitos outros homens da Nova Hollywood fizeram o mesmo e continuaram em intensa atividade. O caçador de dotes foi um sucesso de crítica e público, mas, na visão dos executivos de Hollywood, uma mulher não pode confrontar o sistema. 

    Referências: 

    O cinema da Nova Hollywood. Realizadores essenciais. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Video, 2024.

    O cinema da Nova Hollywood. Pérolas da coleção. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Video, 2023.

  • A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada

    A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada (L’Enfant aimé ou Je joue à étre une femme mariée, Bélgica, 1971), de Chantal Akerman. Com Claire Wauthion, Chantal Akerman, Daphné Merzer. 

    A jovem Claire está em frente ao espelho, apenas de calcinha. Ela se observa atentamente e conversa consigo mesma. “Estou pálida. Meu pescoço é muito longo. Não sou tão alta quanto pareço. Porque tenho braços longos. Pernas longas. E cabeça pequena…” A cena, realizada em plano-sequência, dura cerca de cinco minutos.

    O curta-metragem é o segundo filme de Chantal Akerman. Durante trinta minutos, a diretora documenta o cotidiano de Claire e Daphné, mãe e filha, em uma casa no campo, com fotografia em preto e branco. Chantal participa do filme, ouvindo os depoimentos de Claire sobre sexo, a maternidade, frustrações e desejos de uma jovem mãe. 

    Em depoimento para o livro Hommage à Chantal Akerman, de Jacqueline Aubenas, a diretora demonstra sua insatisfação com o filme: “É um filme que nunca me satisfez. Apliquei ideias muito abstratas sobre rejeitar a montagem como uma manipulação do espectador, sem levar em conta que optar pelo plano-sequência é muito bonito, mas é preciso preparar e cronometrar esse tipo de tomada meticulosamente. Deixei acontecer, mas não resultou em nada.”

  • Inside out

    Inside out (EUA, 1978), de Sheila McLaughlin, é um dos experimentos mais radicais do cinema independente americano que ganhou força a partir dos anos 60. O curta-metragem não-narrativo se divide em três partes. 

    Na primeira, o close de uma jovem, em câmera fixa, passa por mutações estéticas demarcadas pela forte granulação da película. A segunda parte enquadra crianças desfocadas em um pátio em repetidos gestos durante uma brincadeira, também com forte expressividade pictórica, imagens quase indistinguíveis que passam por metamorfoses. Na última parte, a técnica de frisar a mesma imagem predomina: duas jovens estão em posição de iniciar possivelmente uma corrida, mas voltam sempre ao mesmo ponto, enquanto as cores em preto e branco se transformam em experimentos artísticos. 

    A diretora Sheila McLaughlin trabalha com a relação livre entre cinema, fotografia e artes plásticas, se apropriando das vanguardas estéticas para compor um painel intrincado e fascinante. O curta é representativo do movimento underground de Nova York – a desconstrução da identidade feminina é marcante não só na estética, mas também na montagem fragmentada. 

  • Alucarda: a filha das trevas

    Imagine a cena em um filme de hoje: duas jovens de 15 anos, internas em um convento, estão frente a frente, completamente nuas; lentamente seus rostos se aproximam e elas se beijam, um beijo longo e ardoroso.  Alucarda: a filha das trevas (Alucarda: the daughter of darkness, México, 1977), de Juan López Moctezuma, provocou polêmicas e repúdio não só por imagens como esta. Em um bosque, um grupo de homens e mulheres, em uma espécie de ritual satânico, praticam uma orgia. A estética da violência, comum no cinema dos anos 70, está em imagens de corpos mutilados, pessoas sendo queimadas, tentativas de exorcismo. 

    No início do filme, uma jovem dá à luz uma menina em um ambiente dominado por estátuas malignas. Ela morre e a menina é encaminhada ao convento. Quinze anos depois, Alucarda (Tina Romero) recebe uma nova companheira de quarto, Justine (Susana Kamini). Durante um passeio no bosque, as duas entram no local de nascimento de Alucarda. A partir daí, se tornam cada vez mais agressivas e violentas, demonstrando comportamentos típicos de quem está sob possessão demoníaca. 

    A estética, influenciada pelo expressionismo, associada a uma narrativa que assume o surrealismo, são os grandes destaques do filme. O diretor Juan López Moctezuma trabalha com cores agressivas, o vermelho se impondo de forma satânica sobre as vestimentas brancas das freiras. A ousadia da obra é expor a repressão e incriminação religiosa das freiras e do padre diante do despertar do desejo das jovens adolescentes – coisas de Satã.  

  • Poder local, poder popular

    Poder local, poder popular (Cuba, 1970), de Sara Gómez.

    A frase “As massas têm a palavra” abre e guia a estrutura narrativa do documentário. A diretora Sara Gómez registra a eleição do “prefeito” de uma comunidade, cuja principal atividade é relacionada ao processo de produção da cana de açúcar, localizada na Isla de Pinos. 

    O documentário trabalha com comentários e afirmações dos trabalhadores, respeitando o estilo coloquial e, às vezes, irreverente da população local. Letterings em negrito, destacam frases e palavras como “Poder Local”,  “Apoio”, “Erros”, “Poder popular”.

    Apesar do documentário, como todos os outros da diretora, ser financiado e produzido pelo Instituto Cubano Del Arte e Industria Cinematográficos, órgão ligado ao governo revolucionário, Sara Gómez destaca, na voz dos trabalhadores, pontos polêmicos, como a escassez de alimentos. “Aqui no engenho de açúcar, o fornecimento está bem bagunçado. Quando tem bebidas, não tem gelo, e quando tem gelo, não tem bebida. Quando tem manteiga, não tem pão e quando tem pão não tem manteiga.”