O espelho

O espelho (Ayneh, Irã, 1997), de Jafar Panahi. 

Na segunda metade do filme, a criança Mina está na parte da frente, próxima ao para-brisa do ônibus. Ela olha para a câmera, tira o gesso de seu braço e diz: “Não vou mais atuar.” Abre o plano e mostra a equipe de cinema atônita, incluindo o diretor Jafar Panahi. A menina desce do ônibus disposta a abandonar as filmagens. 

O espelho é uma fascinante experiência de Jafar Panahi pelo universo neorrealista, confirmando seu estilo de trabalhar entre a narrativa ficcional e o documentário. No início do filme, Mina sai da escola e não encontra sua mãe. Ela resolve então ir sozinha para casa e começa uma jornada pelas ruas movimentadas e caóticas de Teerã, a pé ou utilizando o transporte público. A câmera segue Mina pelas ruas em longos planos, se permitindo ao improviso necessário em filmagens externas. 

Na segunda parte, o já consagrado diretor iraniano faz uma escolha ousada: quando Mina abandona o ônibus, não tira o microfone. A equipe passa a filmar a tentativa real da menina de chegar em casa. 

A atuação, ou não atuação, da amadora atriz mirim Mina Mohammadkhani é fascinante, encantadora. Seu périplo pelas ruas de Teerã é um espelho da sociedade iraniana, demarcada pelo caos das ruas, a precariedade do transporte público, a luta dos cidadãos, incluindo trabalhadores, mães, idosos, crianças, para transitar e sobreviver em meio ao caos de Teerã. Cada um enfrenta sua lida diária, sem tempo para sequer ajudar uma criança a chegar em casa.

Sul

Sul (Sud, França, 1999), de Chantal Akerman. 

No dia 7 de julho de 1998, James Byrd Jr. morador da comunidade negra de Jaspen / Texas, caminhava pela estrada, de volta para casa, após um dia de trabalho. Três jovens brancos ofereceram carona a ele, mas o levaram para um local deserto onde o espancaram. Depois, amarraram Toe, como era conhecido pelos amigos, pelos tornozelos na traseira da picape. 

“Aparentemente, de acordo com o Xerife, os três homens pegaram o Sr. Byrd na Rodovia 96, ao norte. Pegaram ele, levaram a um local remoto, onde o tiraram da caminhonete, bateram nele e então o acorrentaram na parte de trás da caminhonete. Então eles arrastaram ele por cerca de três quilômetros pela estrada através da parte negra do condado. Eles o desacorrentaram em frente do cemitério negro. No processo, ao que parece, em algum ponto, ele acertou o tubo de drenagem que arrancou sua cabeça e seu braço direito do torso. E os pedaços de seu corpo foram encontrados espalhados pelos três quilômetros da estrada.” – relato de um dos depoentes.  

O documentário de Chantal Akerman entrevista pessoas da comunidade, a câmera fixa nos rostos doloridos ao contar esse e outros casos de assassinato que aconteceram por motivações raciais. Os três assassinos de James Byrd Jr. eram jovens supremacistas brancos. 

Entre os depoimentos, Chantal Akerman filma silenciosamente, em longos planos sequência, a cidade: os bairros, casas, estabelecimentos de comércio. Durante as trajetórias, separadas por região, vislumbra-se a separação entre brancos e negros, tantos em termos físicos quanto em termos econômicos. O bairro dos negros é uma sucessão de casas simples de madeira, gastas pelo tempo. 

O plano sequência final, também demarcado pelo silêncio, é de uma dor quase inacreditável: a câmera, da traseira do carro, direcionada para o chão, percorre todo o trajeto da estrada na qual James Byrd Jr. foi arrastado. São intermináveis três quilômetros, intermináveis.

O balão branco

O balão branco (Irã, 1995), de Jafar Panahi. 

Jafar Panahi começou a trabalhar como assistente de direção do mestre dos mestres iranianos Abbas Kiarostami. Em seu primeiro filme como diretor, contou com a colaboração de Kiarostami no roteiro. 

A narrativa de O balão branco transcorre no tempo cronológico de 85 minutos que antecede a chegada da celebração do ano novo iraniano. A menina Razieh está voltando para casa com sua mãe. Ela tenta convencer a mãe a lhe dar dinheiro para comprar um peixinho dourado, bem mais gordinho do que os que eles têm em casa.

Em casa, Razieh conta com a ajuda do irmão mais velho para vencer a resistência da mãe. Quando finalmente ganha uma nota de 500 tomans, Razieh sai feliz para comprar o peixinho, mas em uma série de contratempos no trajeto, perde o dinheiro e tem pouco tempo para recuperá-lo, antes da loja fechar. 

“A maior parte do filme é dedicada aos seus esforços para recuperar o dinheiro. O roteiro pode parecer fraquinho, mas o filme prende a atenção e é fascinante com personagens bem delineados e uma narrativa habilidosa. O empenho de Panahi para redefinir nossa noção de tempo durante o processo é notável. Aos poucos, somos seduzidos pela percepção que a menina tem sobre o transcorrer do tempo, evidenciada pelo desejo de ter o peixinho dourado e todos os obstáculos que ela enfrenta para adquiri-lo.” 

O balão branco venceu a Caméra d’Or do Festival de Cannes, consagrando, logo em sua estreia, Jafar Panahi como mais um mestre do cinema iraniano. Atenção para a sensível e delicada cena final, que justifica o título do filme. 

Elenco: Aida Mohammadkhani (Razieh), Mohsen Kafili (Ali), Fereshteh Sadre Orafaiy (a mãe). Mohammad Shahani (o soldado).

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

A mudança

A mudança (Le déménagement, França, 1993), de Chantal Akerman. 

Um homem (Sami Fry) entra em um apartamento, observa o ambiente ainda com coisas para arrumar: “Nem mesmo uma alma, apenas eu. Com uma alma, as coisas nunca acabam bem.” Ele se senta em uma cadeira de frente para a janela, a câmera o enquadra a distância, e bate palma: “Há um eco. É o eco de uma alma desaparecida.”

Durante todo o curta, Chantal Akerman filma o homem em interações leves com o apartamento. Ele passa grande parte do tempo em frente à janela, às vezes ele anda, medindo os passos para determinar a extensão de sua nova moradia. 

Em um longo monólogo, o homem reflete sobre sua solidão, sobre seu passado, sobre o silêncio que o espera, demonstrando arrependimento por ter mudado. Em determinado momento, ele relembra um verão na sua antiga residência, quando se apaixonou por três jovens vizinhas, estudantes. “Verão de 1982. Eu estava bem na época. A janela estava aberta, havia uma brisa entrando. A risada de três garotas vinha da casa ao lado. Na manhã, o ar ainda era fresco. Nada. Sem cansaço, um desejo de acordar. Nada. Exceto um homem parado. As suas risadas me davam vida. Um banho frio, uma calça leve, folgada. Camisa aberta, pés descalços. E assim eu vivia.”

A mudança é um filme sobre memórias, sobre o tempo que passa e deixa marcas e o desejo de repetir ou aproveitar melhor algumas coisas. Como a paixão por três jovens estudantes, em um momento em que você ouve a voz de seu próprio desejo: “Vou ver o mar amanhã.”

Homensa brancos estao enlouquecendo

Homens brancos estão enlouquecendo (White men are cracking up, Inglaterra, 1994), de Ngozi Onwurah. 

Mazie Blue (Theo Omambala) está em um quarto com um coronel do exército de 63 anos. Ela veste roupas sensuais e começa uma dança afro, à pedido do oficial – “Meu último pedido”. Depois da dança, Mazie pergunta: “Você está pronto?” “Sim. Eu estou.” 

Na manhã seguinte, o oficial é encontrado morto, claramente se suicidou. É mais um caso que assola a cidade: homens brancos estão cometendo suicídio. Somente o policial interpretado por Jon Finch acredita que as mortes são causadas pela mesma pessoa, “um anjo negro que não deixa rastros”. Ele passa a caçar Mazie Blue e o confronto entre os dois vai testar os limites dessa magia poderosa que opera por meio da sedução. 

A diretora Ngozi Onwurah compõe um filme esteticamente também sedutor, com fotografia que reflete as influências do neo-noir. Os figurinos, adereços e direção de arte remetem à cultura africana, intensificando o clima de encantamento e desejo. A narrativa surrealista, associada à essa estética onírica e simbólica, ficou conhecida como afro-surrealista. 

Negócios à parte

Negócios à parte (Rien ne va plus, França, 1997), de Claude Chabrol.

Claude Chabrol se destacou entre os famosos cineastas da nouvelle vague, e também críticos da Cahiers Du Cinema, pela sua incursão aos filmes de gênero. Negócios à parte é seu filme de número 50, uma carreira longa e produtiva, com a marca do diretor: homenagens a outros realizadores, gêneros que se implicam, abordagens críticas da burguesia francesa, personagens ambíguos. 

A trama acompanha as peripécias do casal de vigaristas Victor (Michel Serrault) e Betty (Isabelle Huppert) – não fica claro durante a narrativa se são amantes, apenas amigos de bandidagem ou pai e filha. Os dois vivem de aplicar pequenos golpes em hóspedes de hotéis de luxo, sempre se precavendo para não provocar qualquer tipo de violência. O turning point acontece quando Betty se envolve com Maurice (François Cluzet), tesoureiro de uma empresa multinacional, que planeja fugir com cinco milhões de francos suíços que estão sob seus cuidados. 

A partir daí, a trama é uma sucessão de estratagemas bem ao estilo policial farsesco: troca de maletas em um trem; Betty tentando enganar a todos para ficar com o dinheiro; Victor idem; entrada em cena de uma dupla de atrapalhados assassinos profissionais; reunião em uma casa luxuosa onde tudo pode acontecer, incluindo assassinatos escabrosos. 

Não é o melhor filme de Claude Chabrol, mas é sempre o Chabrol irônico, divertido, contando com grandes estrelas no elenco: Isabelle Huppert, praticamente dona da narrativa.

Morango e chocolate

Morango e chocolate (Fresa y chocolate, Cuba, 1993), de Tomás Gutiérrez Alea, conquistou o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim e é o único filme cubano indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A narrativa acompanha a relação que se cria entre David (Vladmir Cruz), estudante de ciências políticas, e Diego (Jorge Perugorría), artista homossexual. Enquanto David é militante comunista, defensor da revolução, Diego tem ressalvas sobre os princípios adotados pelo regime, principalmente em questões relacionadas à censura cultural e às perseguições que sofre por sua identidade sexual. 

O diretor Tomás Gutiérrez Alea, cuja obra mais aclamada mundialmente é Memórias do desenvolvimento (1968), continua com seu olhar crítico sobre as consequências da revolução comunista em Cuba, principalmente, em termos econômicos, sociais e culturais.

Os debates entre David e Diego representam os olhares distintos sobre o regime. Ambos defendem a justiça social, porém discordam sobre os métodos adotados. O preconceito social também é tema relevante da trama. 

A princípio, David renega Diego, “um maricón”, mas se deixa envolver cada vez mais pela sensibilidade, delicadeza e inteligência do jovem artista. O gesto final entre os dois é de enternecer até o mais empedernido dos espectadores. 

Elenco: Jorge Perugorria (Diego), Vladimir Cruz (David), Mirta Ibarra (Nancy), Francisco Gattorno (Miguel). Marilyn Solaya (Vivian). 

Cinzas do passado redux

Cinzas do passado redux (Dung che sai duk, Hong Kong, 2008), de Wong Kar Wai. 

O filme abre com a câmera percorrendo em travelling um deserto amarelo exuberante. Voz do narrador do filme: “É um ano de eclipse total, a seca assola a terra. Seca significa problemas. Problemas significam bons negócios. Eu sou da Montanha do Camelo Branco. Me chamo Feng. Sou especialista em resolver problemas.” 

Ou-yang Feng (Leslie Cheung) foi um famoso espadachim, esses artistas das artes marciais que se consagraram no cinema oriental desde Os sete samurais (1954), de Akira Kurosawa. Feng se exila na montanha após ser abandonado pelo seu grande amor. A especialidade em “resolver problemas” a que Feng se refere é intermediar a contratação de assassinos de aluguel. “Matar em si, não é um problema. Tenho um amigo que conhece certas artes marciais. Ele está um pouco sem sorte ultimamente. Por uma pequena taxa ele ficará feliz em livrá-lo dessa pessoa.” Diz Feng a um interlocutor.

O gênero chinês wuxia ganha contornos estéticos fascinantes nas mãos e olhar de Wong Kar Wai. O ritmo lento, demarcado pela extravagante profusão de cores, closes em momentos tensos, personagens que parecem voar em câmera lenta nas cenas de luta – o estilo Wong Kar Wai. 

Cinzas do passado foi lançado em 1994 e passou por um longo processo de restauração, O filme original tinha cópias em versões diferentes, todas já em processo de deterioração. O próprio diretor coordenou a restauração que resultou na “versão definitiva”,  aprimorada em seus elementos estéticos, com alterações na estrutura narrativa, incluindo novas músicas. A narrativa, centrada nos sentimentos de frustração e melancolia dos protagonistas,  é entremeada por cenas artísticas de combates entre os guerreiros espadachins, inaugurando um estilo que se consagraria com filmes como O tigre e o dragão (2000), de Ang Lee, e a trilogia de Zhang Yimou: Herói (2002), O clã das adagas voadoras (2004) e A maldição da flor dourada (2006). 

Diário para meu pai e minha mãe

Diário para meu pai e minha mãe (Napló apámnak, anyámnak, Hungria, 1990), de Márta Mészáros. 

A última parte da trilogia autobiográfica de Márta Mészáros centra a narrativa na fracassada Revolução Húngara de 1956, quando civis tentaram derrubar o governo apoiado por Stálin. Julie está em Moscou e tenta a tudo custo voltar para Budapeste, Magda está foragida e Janos participa ativamente das atividades revolucionárias. Quando consegue voltar para seu país, Julie, já uma diretora de cinema, documenta as conturbadas ruas de Budapeste e inicia um romance com outro diretor de cinema. 

O estilo da película contínua na mescla de ficção e documentário, com amplo espaço para a repressão oficial do governo. Outro ponto forte é a luta pela liberdade artística, o cinema verdade dos documentários de Julie e seu namorado se contrapondo às manipulações da mídia governista. O final do filme, após a prisão e julgamento de Janos, é de uma verdade dolorosa, revelando a crueldade dos porões das ditaduras. Ficção também é documentário. 

Elenco: Com Zsuzsa Czinkóczi (Juli), Jan Nowicki (Janos), Mari Torocsik (Vera), Ildiko Bánsági (Ildi), Anna Polony (Magda). 

Túmulo dos vagalumes

Túmulo dos vagalumes (Japão, 1988), de Isao Takahata, é um dos animes mais tristes do Studio Ghibli. O filme é adaptado do conto semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka, que perdeu sua irmã durante a Segunda Guerra Mundial. O diretor Takahata, co-fundador do estúdio, também sofreu com os horrores da guerra, sobrevivendo a um bombardeio durante a infância. 

Os irmãos Seita e Setsuko tentam sobreviver aos últimos meses da guerra, quando o Japão sofre bombardeios constantes. A mãe morre em um desses ataques, o pai está lutando na guerra e os irmãos se refugiam nos arredores da cidade de Kobe. Lutam contra o abandono, a falta de moradia, a fome e a ameaça constante da morte. A poesia visual marca a narrativa, com cenas noturnas iluminadas pelos vagalumes, quando fantasmas observam a tragédia que acompanha o cotidiano de Seita e Setsuko em sua jornada pela sobrevivência.

A temática que salta aos olhos é a negligência do governo e da própria sociedade, deixando as crianças abandonadas nas ruas, a ponto de roubar alimentos (e serem punidas). Túmulo dos vagalumes é de estraçalhar o coração.