O círculo

O círculo (Irã, 2000), de Jafar Panahi. 

O filme começa em uma maternidade, durante o nascimento de uma menina. A mãe da parturiente é informada e demonstra receio ao saber o sexo do neto: “Os sogros vão ficar furiosos e querer a separação. Queriam um menino, minha pobre filha.” Sem coragem de contar à família, a avó desce as escadas do hospital, encontra sua outra filha e pede que ela comunique os tios. A jovem sai do hospital, aborda três jovens mulheres em uma cabine telefônica e sai de cena. 

O foco agora são as três mulheres: Arezzo, Maedeh e Nargess acabaram de sair da prisão e tentam conseguir algum dinheiro para seguir seus caminhos. Arezzo e Maede desaparecem na confusão das ruas e a câmera passa a acompanhar a jornada de Nargess, cujo desejo é ir para uma cidade do interior: ela acredita que lá é o paraíso. 

A estrutura narrativa de O círculo segue a tendência inaugurada por Luis Buñuel em O fantasma da liberdade (1974): quando a protagonista se cruza na rua com outra personagem, a história muda de protagonista, assim o espectador acompanha, em um único dia, os conflitos dessas mulheres, em uma cadeia de acontecimentos circulares que determinam o tema do filme: a opressão que as mulheres sofrem diante do sistema patriarcal imposto pelo regime iraniano. 

Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, O círculo é um dos filmes mais críticos de Jafar Panahi, a narrativa centrada nas mulheres levanta questões que são banidas de discussão na sociedade iraniana: a prisão de mulheres baseadas simplesmente em questões morais; o aborto; o poder indiscriminado do patriarcado que pode deserdar uma jovem apenas porque não concebeu um filho do sexo masculino; a prostituição. 

Filme após filme, Jafar Panahi se debruça sobre essas perigosas temáticas, o que valeu ao diretor a condenação política a seis anos de prisão e a proibição de filmar durante vinte anos. 

Elenco: Maryam Palvin Almani, Nargess Mamizadeh, Elham Saboktakin, Monir Arab, Maedeh Tahmasebi.

Fora do jogo

Fora do jogo (Offside, Irã, 2006), de Jafar Panahi. 

Uma jovem está vestida como um garoto, dentro de um ônibus lotado de torcedores masculinos. O destino é o estádio Azadi, em Teerã, onde será disputado o jogo entre Irã x Bahrein, valendo a classificação para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Para o Irã se classificar, basta o empate. 

Dentro do ônibus, todos reconhecem que ela é uma mulher, mas não se importam. No entanto, na entrada do estádio, ela é reconhecida e presa pelos seguranças: mulheres são proibidas de frequentar estádios de futebol no Irã. A jovem é encaminhada para o andar superior, onde fica sob vigília dos guardas em um cercado de grades. Outras cinco meninas, todas disfarçadas de homens, chegam e também ficam enclausuradas. 

Jafar Panahi segue, na temática de seus filmes, com críticas severas às leis islâmicas vigentes no país. As meninas são apaixonadas por futebol, entendem do esporte e desejam torcer para a classificação do Irã. O estilo do filme se aproxima do documentário: narrativa linear, filmagens externas, dentro de ônibus, nas ruas, no estádio (o jogo é real), atores e atrizes amadores.

O embate entre as meninas e os jovens guardas que as vigiam é recheado de humor e tentativas mútuas de compreensão: os guardas seguem ordens, se dependesse deles, elas estariam dentro do estádio; as meninas entendem e até mesmo se enternecem com essa situação. 

O final (improvisado, pois dependia do resultado do jogo) quando as meninas estão dentro de um micro-ônibus, junto com os guardas e um garoto também preso, em direção à delegacia é tocante, sensível. Torcedores invadem as ruas comemorando a classificação do Irã e, em uma rua completamente tomada, o ônibus é parado e todos descem.  Nesse momento, as meninas se misturam à multidão, não para fugir, apenas para comemorar, junto com os guardas e os demais torcedores. É o olhar esperançoso de Panahi pela igualdade de direitos.  

Ao leste com Sonia Wieder-Atherton

Ao leste com Sonia Wieder-Atherton (À I’est avec Sonia Wieder-Atherton, França, 2009), de Chantal Akerman. 

A cineasta Chantal Akerman (1950/2015) e a violoncelista Sonia Wieder-Atherton (1961) mantiveram uma relação amorosa e profissional durante cerca de 30 anos. As duas se conheceram nos anos 80, em Paris. Sonia compôs músicas para vários filmes de Chantal; por sua vez, a diretora belga realizou três documentários sobre a vida e a música de sua esposa:  Três estrofes em nome de Sacher (Trois strophes sur le nom de Sacher, França, 1989), Com Sonia Wieder-Atherton (França, 2003) e Ao leste com Sonia Wieder-Atherton (À I’est avec Sonia Wieder-Atherton, França, 2009).

O projeto deste último nasceu a partir do documentário D’est (1993) realizado por Chantal Akerman em 1993, que retrata cidades, paisagens e pessoas do leste europeu após a queda do muro de Berlim. Sonia criou um concerto a partir do documentário, as músicas dialogam com as imagens. 

Ao leste com Sonia Wieder-Atherton registra os concertos apresentados na Europa Ocidental, Oriental e na Rússia. Durante a performance, imagens de D’est são exibidas numa tela ao fundo.

“Há muito tempo eu queria reunir trabalhos da Europa Oriental e Central, também conhecida como Mitteleuropa. Essas duas Europas, com fronteiras mutáveis e culturas diferentes, mas imbuídas uma na outra. Talvez lá, do que em outros lugares, as línguas, os sotaques, carregam um si a história do povo. O mesmo vale para a música. Mas também há a Rússia. Para mim, a Rússia é uma história de transmissão. A música diz o que é impossível de descrever. Resistência, portanto. Uma para quebrar a língua e outra para contar o proibido. Um lugar no mundo para o qual eu volto incansavelmente. Voltei a ouvir obras que conhecia e amava. E descobri outras. Obras escritas para voz, coração, violino, violoncelo, orquestra ou até mesmo piano.” – narração de Sonia-Wieder Atherton, sobreposta a imagens da preparação do primeiro concerto, abre o documentário.

Com Sonia Wieder-Atherton

Com Sonia Wieder-Atherton (França, 2003), de Chantal Akerman. 

O documentário abre com a violoncelista Sonia Wieder-Atherton ocupando sua cadeira em um palco, preparando-se para um concerto. Voz em off de Chantal Akerman: “Diz-se de Sonia Wieder-Atherton que ela escolheu o violoncelo porque queria tocar um instrumento de cordas cujo som poderia fazer durar o tempo que quisesse. Isso é verdade.”

Na primeira parte do documentário, Chantal deixa a violoncelista à vontade, diante da câmera parada, em um cenário escuro, para conversar sobre o começo de sua carreira, sua formação e aprimoramento, suas referências, em “uma mistura de lembranças e coisas que me contaram depois.”

Sônia nasceu em São Francisco e começou a tocar piano. Mudou-se com os pais para Nova York, onde descobriu o xilofone, sem abandonar o piano. Em 1968, após se mudar para a França, estudou violão por alguns anos. Até que descobriu o violoncelo para “fazer o som durar o tempo que eu quisesse.”

Na segunda parte, Sonia Wieder-Atherton interpreta, em fascinantes e sedutoras performances, peças curtas de Schubert, Brahms, Berio, Bach. Acompanhada ao piano por Imogen Cooper, Sonia demonstra sua visceral entrega física, psicológica e emocional ao instrumento.

“Diz-se também que muitas escalas parecem estreitas demais quando ela aparece. Isso é verdade. E que ela nos agarra, nos leva com ela, tão longe e tão fortemente em áreas desconhecidas, às vezes escura, às vezes clara, velha ou nova, em um mistura de prazer e tensão.” –  Chantal Akerman

Ouro carmim

Ouro carmim (Talaye sorgh, Irã, 2003), de Jafar Panahi. Com Hossain Emadeddin (Hussein), Kamyar Sheisi (Ali), Azita Rayeji (A noiva), Sharam Vaziri (O joalheiro). 

A sequência de abertura é assustadora. Hussein, um entregador de pizzas, está praticando um assalto em uma joalheira. A câmera foca a porta do estabelecimento de dentro para fora e grande parte da violência acontece fora de quadro. Hussein força o dono da joalheria a abrir o cofre com a arma na mão, enquanto do lado de fora pessoas passam, até que uma cliente entra na loja, vê a situação e foge. Enquanto o conflito entre assaltante e vítima fica cada vez mais violento, pessoas se aglomeram na rua e, aos gritos, tentam evitar o destino trágico que se anuncia. 

A combinação de autorias em Ouro carmim é poderosa: roteiro de Abbas Kiarostami, direção de Jafar Panahi, maiores expoentes do cinema iraniano, colecionadores de prêmios internacionais. A partir do gesto final no assalto, flashback acompanha o dia-a-dia de Hussein nas entregas que faz, principalmente em bairros nobres da cidade. 

Hussein sofre com problemas psíquicos e a tensão evolui à medida que se depara com a divisão de classes no Irã, agravada pelo violento regime que perpetua a injustiça. Outra sequência tão assustadora quanto a primeira, apesar de não-violenta, é quando Hussein entrega pizza em um suntuoso apartamento  e é convidado pelo morador a desfrutar dos luxos que o ambiente oferece, incluindo uma piscina térmica.

A erva do rato

A erva do rato (Brasil, 2008), de Júlio Bressane e Rosa Dias. 

São apenas dois personagens em cena durante todo o filme, enclausurados em uma casa perto do mar. Os dois, seus nomes nunca são revelados, se conhecem em um cemitério e o jovem, num rompante, diz que vai cuidar da jovem durante toda a vida.

Em casa, ele lê histórias que ela nota rapidamente. Mais tarde, começam um jogo erótico de fotografias: ele a fotogrando primeiro vestida, depois nua, em poses sensuais, incluindo foco explicíto em suas partes íntimas. Quando um rato começa a destruir as fotografias, a narrativa ganha ainda mais um tom sombrio, deprimente, com leituras simbólicas e metafóricas.


Júlio Bressane, pai do cinema marginal ao lado de Rogério Sganzerla, adaptou de forma livre dois textos de Machado de Assis: Um esqueleto e A causa secreta. Selton Mello e Alessandra Negrini praticam um verdadeiro tour de force de interpretação minimalista, com diálogos frios, mas repletos de insinuações, gestos que denotam uma distância respeitosa, mas plenos de erotismo. Pode-se dizer o mesmo do rato, que transita entre os dois despertando fúria e entrega ao destino – anunciando a erva do rato.

Quando o tempo cair

Quando o tempo cair (Brasil 2006), de Selton Mello.

Em seu primeiro filme como diretor, um drama melancólico realizado em 16mm, Selton Mello fez uma aposta ousada: escalou como protagonista Jorge Loredo, mais conhecido pelo eterno Zé Bonitinho.

Loredo interpreta Ivan, um homem idoso, já aposentado, que mora em um pequeno apartamento junto com o filho e o neto. O filho está desempregado e sofre com a depressão, motivo que leva Ivan a procurar emprego para o sustento da família.

O curta-metragem aborda questões importantes e crueis da sociedade brasileira como o etarismo no mercado de trabalho e a depressão entre os jovens. Ivan enfrenta isso com resignação e otimismo, como quem sabe que não tem o que fazer diante dos problemas que o acometem, mas não perde a esperança e o olhar carinhoso para a vida, como na cena final, contemplando sua família na praça.

Cinzas do passado redux

Cinzas do passado redux (Dung che sai duk, Hong Kong, 2008), de Wong Kar Wai. 

O filme abre com a câmera percorrendo em travelling um deserto amarelo exuberante. Voz do narrador do filme: “É um ano de eclipse total, a seca assola a terra. Seca significa problemas. Problemas significam bons negócios. Eu sou da Montanha do Camelo Branco. Me chamo Feng. Sou especialista em resolver problemas.” 

Ou-yang Feng (Leslie Cheung) foi um famoso espadachim, esses artistas das artes marciais que se consagraram no cinema oriental desde Os sete samurais (1954), de Akira Kurosawa. Feng se exila na montanha após ser abandonado pelo seu grande amor. A especialidade em “resolver problemas” a que Feng se refere é intermediar a contratação de assassinos de aluguel. “Matar em si, não é um problema. Tenho um amigo que conhece certas artes marciais. Ele está um pouco sem sorte ultimamente. Por uma pequena taxa ele ficará feliz em livrá-lo dessa pessoa.” Diz Feng a um interlocutor.

O gênero chinês wuxia ganha contornos estéticos fascinantes nas mãos e olhar de Wong Kar Wai. O ritmo lento, demarcado pela extravagante profusão de cores, closes em momentos tensos, personagens que parecem voar em câmera lenta nas cenas de luta – o estilo Wong Kar Wai. 

Cinzas do passado foi lançado em 1994 e passou por um longo processo de restauração, O filme original tinha cópias em versões diferentes, todas já em processo de deterioração. O próprio diretor coordenou a restauração que resultou na “versão definitiva”,  aprimorada em seus elementos estéticos, com alterações na estrutura narrativa, incluindo novas músicas. A narrativa, centrada nos sentimentos de frustração e melancolia dos protagonistas,  é entremeada por cenas artísticas de combates entre os guerreiros espadachins, inaugurando um estilo que se consagraria com filmes como O tigre e o dragão (2000), de Ang Lee, e a trilogia de Zhang Yimou: Herói (2002), O clã das adagas voadoras (2004) e A maldição da flor dourada (2006). 

O castelo animado

O castelo animado (Japão, 2004), Hayao Miyazaki. 

Sophie é uma menina que trabalha em uma chapelaria. A Bruxa das Terras Devastadas entra na loja e lança uma maldição sobre Sophie: no dia seguinte, ela acorda como uma senhora de 90 anos. Em sua jornada para tentar quebrar o feitiço, em meio a dois reinos em guerra, a velha Sophie descobre um mundo fantástico, cruzando com personagens surreais: o espantalho Cabeça de Nabo que a segue aos pulos; a assustadora feiticeira Suliman; o jovem Markl; o mago Howl, que se transforma, como uma espécie de O médico e o monstro; e  Calcifer, labaredas de fogo que move o grande trunfo da animação: O castelo animado. 

“O Castelo Animado é algo inacreditável, uma daquelas criações audiovisuais que eu poderia ficar observando os detalhes por horas e horas a fio sem me cansar. Misturando estruturas de castelo, casa, aparências de seres biológicos e mais uma infinidade de partes móveis em um simulacro steampunk que maravilhosamente colide e combina com os cenários citadinos no estilo europeu do começo do século XX, o grande artifício chamativo do longa é um delicioso e triunfal Frankenstein tecnomágico de se tirar o chapéu.” – Ritter Fan (Plano Crítico).

Miyasaki usou como base o livro de fantasia homônimo de Diana Wynne Jones para construir uma trama antibelicista, uma forma de protesto contra a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. O diretor esperava que o filme fosse mal recebido nos EUA, mas acabou sendo indicado ao Oscar de Melhor Animação.

Insônia

Insônia (Insomnia, EUA, 2002), de Christopher Nolan. 

Os detetivses Will Dormer (Al Pacino) e Hap Eckhart (Martin Donovan) chegam a uma cidade do Alaska para investigar o espancamento, seguido de assassinato, de uma jovem de 17 anos. São de Los Angeles e foram enviados para trabalhar no caso pois estão sob investigação da Corregedoria que pode resultar na destruição da reputação de Will. 

Os dois primeiros filmes de Christopher Nolan, Seguinte (1998) e Amnésia (2000), foram realizados de forma independente. Os filmes repercutiram na crítica e despertaram o interesse dos estúdios. Em seu terceiro filme, Nolan contou com um grande orçamento para filmar em locações no Alaska e reunir dois atores de peso nos papeis principais: Al Pacino e Robin Williams. 

Insônia é baseado no longa norueguês homônimo de 1997. A trama, com sequências de thriller dos gèneros suspense e policial, tem uma virada quando um tiroteio na neblina resulta em um assassinato acidental. É a entrada em cena do escritor Walter Finch (Robin Williams), assassino da adolescente. A partir daí, a trama envereda para um jogo entre policial e assassino, envolvendo chantagem, embates psicológicos e conflitos éticos.  

Passo a passo, a mente turva de Will, pois ele passa dias sem dormir na cidade que nunca anoitece (o sol da meia noite) o enredam em uma perigosa trama envolvendo consciência profissional e necessidade de preservar a sua reputação.