Nouvelle vague

Nouvelle vague (França, 2025), de Richard Linklater.

 Imagine esses diretores convivendo e realizando seus projetos ao mesmo tempo, às vezes, de forma colaborativa: Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Claude Chabrol, Eric Rohmer. São os jovens turcos da Cahiers Du Cinema que revolucionaram o cinema dos anos 60. 

Ao redor deles, também trabalhando e se influenciando mutuamente, outros grandes da história: Alain Resnais, Jean-Pierre Melville, Suzanne Schiffman, Agnès Varda, Robert Bresson, Jean Cocteau, Roberto Rossellini, Jean Renoir. Todos esses realizadores são citados e participam do filme Nouvelle vague.  

A narrativa reproduz o processo e as filmagens de Acossado (1959), primeiro filme de Jean-Luc Godard. O diretor Richard Linklater apresenta um Godard a princípio inseguro, em dúvida sobre seu talento. Godard foi o último dos jovens críticos da Cahiers a realizar seu primeiro longa-metragem.

Quando começam as filmagens, Godard revela seu estilo libertário, rebelde, arredio às regras cinematográficas. O diário de filmagens acompanha os vinte dias da realização de Acossado. O diretor de fotografia Raoul Coutard sempre com a câmera na mão. Travellings improvisados em carrinhos e cadeira de rodas. Jean-Seberg cada vez mais irritada com o improviso diário – Godard escrevia o roteiro nos cafés de Paris, pouco antes do início das filmagens. E, se não estivesse inspirado no dia, cancelava os trabalhos e mandava todo mundo para casa. Jean-Paul Belmondo descontraído, se divertindo com tudo.O produtor George de Beauregard às turras com Godard, ameaçando cancelar o filme ou não pagar os profissionais caso a situação de cancelamento – ou filmar apenas duas horas por dia, permanecesse. 

Nouvelle vague é uma grande e bela homenagem ao cinema, trazendo não só o processo técnico e artístico da produção de Acossado, mas abrindo espaço para as reflexões de Godard sobre o cinema e sobre a arte. Ao redor dele, cineastas que mudaram a história do cinema mundial e, ainda por cima, sediados na Cidade Luz: “Paris era, e ainda é, o laboratório do cinema europeu. Nenhuma outra cidade possui uma cultura cinematográfica tão grande.” – Carl Dreyer 

Elenco: Guillaume Marbeck (Jean-Luc Godard), Zoey Deutch (Jean Seberg), Aubry Dullin (Jean-Paul Belmondo), Adrien Rouyard (François Truffaut), Antoine Besson (Claude Chabrol), Jodie Ruth Forrest (Suzanne Schiffman), Bruno Dreyfurst (George de Beauregard).

Fausto

Fausto (Alemanha, 1926) é o último filme de F. W. Murnau na Alemanha. Logo depois, ele partiu para os Estados Unidos onde realizou apenas dois filmes (o diretor faleceu em um acidente de carro em 1931, aos 43 anos): Aurora (1930), considerado por muitos críticos e teóricos o melhor filme realizado na era muda, e Tabu (1931). 

Fausto é baseado na lenda alemã eternizada no teatro por Goethe. No início do filme, um anjo e Mephisto (Emil Jannings) fazem uma aposta: se o demônio conseguir seduzir o alquimista Fausto (Gosta Ekman), a terra ficará sob o domínio do mal. 

A primeira parte da película é um deslumbre estético, marcada pelas principais características do expressionismo alemão. A sequência na encruzilhada à noite, quando Fausto invoca o demônio, é uma combinação de fotografia estilizada entre o escuro da noite aterrorizante e o branco pontuando aparições, rostos e sentimentos, com efeitos visuais inovadores para a época. O gigantesco Mephisto observando a cidade assolada pela peste é uma das imagens marcantes da história do cinema. Após o pacto com o demônio, Fausto ganha de volta a juventude e se entrega a dias de vício e prazer.  

A segunda parte do filme segue a paixão entre Fausto e a jovem Gretchen (Camilla Horn). O melodrama toma conta da narrativa, com o trágico final previsível. O embate na cena final entre o anjo e Mephisto destoa dos princípios expressionistas, pois apresenta uma mensagem de fé e otimismo. O cinema expressionista sempre foi o reduto do pessimismo, com finais em aberto que deixam o espectador a refletir sobre a sociedade da época, dominada pelo mal que, no caso da Alemanha, representa um vislumbre do nazismo.