Categoria: Nova Hollywood

  • Voar é com os pássaros

    Voar é com os pássaros (Brewster McCloud, EUA, 1970, de Robert Altman. 

    A abertura do filme já demonstra o tom hilário e nonsense que acompanha a narrativa. Uma cantora ensaia o hino nacional americano no estádio de Houston acompanhada dos créditos iniciais. Ela interrompe aos berros a orquestra e ordena que comecem tudo de novo. Os músicos a atendem e os créditos também começam novamente.  

    A narrativa, pautada por um ornitólogo que disserta sobre o comportamento dos pássaros em uma sala de aula, acompanha o jovem Brewster McCloud (Bud Cort) que constroi asas mecânicas para realizar o seu sonho: voar. Enquanto isso, uma série de assassinatos por estrangulamento acontece na cidade – as vítimas, segundos antes de serem assassinadas, recebem uma “cagada” de pássaro no rosto. 

    Robert Altman realizou Voar é com os pássaros logo depois de Mash (1970), seu mega sucesso. O filme foi mal recebido pela crítica e pelo público, mas se transformou em cult com o tempo. Os assassinatos são puro pretexto, assim como os investigadores, que não chegam a lugar nenhum, para uma série de cenas irreverentes. Atenção para os delírios eróticos de uma jovem debaixo de uma coberta e para o ato que Suzanne (Shelley Duval) pratica logo após vomitar. A essência da fase inicial da Nova Hollywood. 

  • O comboio do medo

    William Friedkin dedicou O comboio do medo (1977) a Henri George-Clouzot, realizador da primeira versão, O salário do medo (1953). Os dois filmes são adaptação do romance escrito por Georges Arnaud. 

    Na primeira parte de O comboio do medo, quatro situações acontecem em países diferentes. Nilo assassina friamente um homem em um hotel de Vera Cruz. Kassen participa de um atentado terrorista em Jerusalém. Victor se envolve em uma gigantesca fraude empresarial que resulta no suícidio de seu cunhado. Scanlon dirige um carro durante um assalto fracassado, que termina em um acidente, em Nova Jersey. 

    Na segunda parte do filme, os quatro estão foragidos em uma cidade da África, cuja região é controlada por exploradores americanos de petróleo. Quando um dos poços explode, os quatro são contratados para dirigir dois caminhões carregados de explosivos por uma estrada precária. Em troca de dinheiro para deixar o país, devem correr todos os riscos, a dinamite é necessária para apagar o incêndio do poço. 

    William Friedkin foi responsável por outros dois grandes filmes da década de 70, quando floresceu a chamada Nova Hollywood: Operação França (1971) e O exorcista (1973). A marca do diretor prevalece em O comboio do medo: thriller recheado de cenas de ação espetaculares, sem desprezar a construção de personagens complexos e envolventes

    As sequências dos dois caminhões na estrada são de tirar o fôlego, com destaque para a travessia de uma ponte durante uma tempestade – as madeiras e cordas podem se destruir a qualquer momento com o peso dos caminhões. Os quatro protagonistas arriscam as vidas quilômetro a quilômetro, atormentados por seus passados violentos, esperançosos de retomar a vida longe do inferno político e social onde se aprisionaram. 

    O comboio do medo (Sorcerer, EUA, 1977), de William Friedkin. Com Roy Schneider (Jackie Scanlon), Bruno Cremer (Victor Manzon), Francisco Rabal (Nilo), Amidou (Kassen).

  • Essa pequena é uma parada

    Em sua atuação como crítico, Peter Bogdanovich se consagrou com análises sobre o cinema clássico americano, com destaque para um livro e um documentário sobre seus autores favoritos: Orson Welles e John Ford. Essa pequena é uma parada (1977) é seu filme mais referencial desse cinema que o fascinava. A trama é uma mescla da comédia screwball que junta casais atrapalhados em situações nonsense com os thrillers policiais que resultam em perseguições de carros de tirar o fôlego. 

    O filme começa com um homem resgatando uma maleta xadrez com documentos secretos. Corta para o musicólogo Howard Bannister entrando em um táxi com uma maleta igual. Corta para Judy caminhando pelas ruas de São Francisco com aparentemente a mesma maleta. Corta para uma senhora entrando em um hotel com outra maleta xadrez. 

    Esses personagens, e mais uma série de coadjuvantes atrapalhados, se hospedam no mesmo hotel e no mesmo andar, provocando sequências cômicas de trocas das maletas.  Judy é a principal propulsora de todas as confusões, com suas atitudes irreverentes, debochadas, subversivas, enquanto inicia um romance com o apalermado Howard. 

    Tudo termina em uma espetacular e hilária sequência de perseguição de carros a uma bicicleta pelas ruas de São Francisco, bem ao estilo Bullit (1968), com Steve McQueen. Em seu início de carreira como diretor, o crítico Peter Bogdanovich coloca todo o seu conhecimento de cinema a serviço de uma direção primorosa e sensível, deixando seus atores tomarem contas das cenas meticulosamente roteirizadas e planejadas para criar uma das grandes comédias da Nova Hollywood. 

    Essa pequena é uma parada (What’s up, Doc?, EUA, 1977), de Peter Bogdanovich. Com Barbra Streisand (Judy), Ryan O’Neal (Howard Bannister), Madeline Kahn (Eunice Burns), Kenneth Mars (Hugh Simon), Austin Pendleton (Frederick Larrabee).

  • Corrida sem fim

    Monte Hellman era um promissor diretor da nascente Nova Hollywood quando realizou Corrida sem fim (1971), filme simbólico de uma geração  que adotou a rebeldia como estilo de vida. Dois jovens, o motorista e o mecânico, percorrem as estradas com um Chevy 55 turbinado, se envolvendo em disputas automobilísticas valendo dinheiro. Dão carona a uma garota também sem rumo. O caminho dos três se cruza nas estradas com o solitário G.T.O. que inventa histórias para seus caroneiros. O motorista e G.T.O. apostam seus próprios carros em uma longa corrida até Washington. 

    Como visto, os personagens não têm nome, são representados pelas suas próprias máquinas. As disputas automobilísticas não são o centro da trama, algumas nem mesmo são mostradas. O que interessa a Monte Hellman são os complexos personagens, silenciosos, cujos olhares e ouvidos se dedicam às estradas e aos carros, com a solidariedade entre os competidores se destacando nas corridas. Corrida sem fim, assim como seu famoso predecessor, Easy rider (1969), simboliza essa geração que encontrou nas máquinas um rebelde instrumento de liberdade. 

    Corrida sem fim (Two-Lane Blacktop, EUA, 1971), de Monte Hellman. Com James Taylor (O motorista), Warren Oates (G.T.O.), Laurie Bird (A garota), Dennis Wilson (O mecânico).  

  • Trágico aniversário

    São apenas cinco personagens em cena, reclusos dentro de um pequeno apartamento. O pianista Stanley mora na pensão do casal Petey e Meg. Não sai de casa e demonstra um comportamento imprevisível, irascível, sujeito a rompantes de violência verbal. A chegada de dois estranhos que se hospedam na pensão pode provocar o trágico aniversário do título. 

    O filme é baseado na peça homônima de Harold Pinter que colaborou no roteiro. Os dois estranhos chegam à cidade à procura de Stanley, que precisa ser eliminado. O motivo nunca é revelado, há apenas uma alusão ao IRA (Exército Republicano Irlandês). 

    A direção de William Friedkin utiliza do ambiente claustrofóbico, com ângulos e planos exagerados para aumentar gradativamente a tensão entre os personagens. Os diálogos beiram o surreal, elevando o clima de incompreensão da trama. O final é ainda mais enigmático. Destaque para a atuação de Robert Shaw. 

    Trágico aniversário (The birthday party, EUA, 1968), de William Friedkin. Com Robert Shaw (Stanley Webber), Dandy Nichols (Meg), Moultrie Kelsall (Petey), Patrick Magee (McCann), Sydney Tafler (Goldberg). 

  • Um golpe muito louco

    Um golpe muito louco reconstitui o célebre assalto realizado em 1950 à companhia Brink’s de Boston, considerado na época o maior roubo da história dos EUA. O ítalo-americano Tony Pino (Peter Falk) reúne uma trupe de assaltantes de pequeno porte, meio atabalhoados, para executar o assalto. William Friedkin fez uma rigorosa retratação de época, incluindo estudos minuciosos para reproduzir o local do crime. 

    O tom da película é o humor, conferindo aos bandidos uma aura de criminosos desastrados que cai no gosto do público. O destaque da película é o elenco, liderado pela interpretação primorosa de  Peter Falk. 

    Um golpe muito louco (The Brink’s job, EUA, 1978), de William Friedkin. Com Peter Falk, Peter Boyle, Warren Oates, Gena Rowlands, Allen Garfield, Paul Sorvino, Gerard Murphy, Kevin O’Connor.

  • Quando o strip-tease começou

    Quando o strip-tease começou (The night they raided Minsky’s, EUA, 1968), de William Friedkin.  

    Em 1925, Rachel Schpitendavel (Britt Ekland), uma jovem criada em uma comunidade Amish, chega a Nova York, fugindo da dominação religiosa do pai.  O sonho de Rachel é ser dançarina de palco. Ela logo encontra a trupe que se apresenta no teatro burlesco dirigido por Minsky (Elliot Gould). A trupe oferece a Rachel uma apresentação especial à meia-noite, que, na verdade, seria uma farsa para burlar a vigilância repressiva das ligas de decência da cidade. Durante a apresentação, a jovem acaba inventando, por acaso, o strip-tease. 

    No início da carreira, William Friedkin assume o tom libertário, provocador e irreverente da Nova Hollywood. Quando o strip-tease começou é uma junção de esquetes cômicas nonsenses, números musicais fragmentados, fotografia que oscila entre o preto e branco e as cores exuberantes. O início do filme é uma bela homenagem ao cinema mudo.

  • Caçador de morte

    Caçador de morte é um dos influentes filmes de perseguição de carros que marcou o cinema dos anos 60/70, assim como Bullitt (1968) e Operação França (1971). Ryan O’Neal interpreta um exímio motorista, que aluga caro seu talento para assaltantes de bancos. Durante um assalto mal-sucedido, ele é visto pela personagem de Isabelle Adjani. O detetive (Bruce Dern) tenta convencê-la a depor e acusar o Driver, mas ela se recusa. 

    O filme foi um fracasso de público e crítica nos anos 70, mas acabou se transformando em cult, influenciando filmes modernos como Drive (2011) e em Ritmo de fuga (2017). A narrativa é marcada por um relacionamento intenso entre o casal de protagonistas e o tradicional jogo de gato e rato entre detetive e bandido. Claro, o destaque fica para as estonteantes perseguições de carro nas ruas da cidade. 

    Caçador de morte (The driver, EUA, 1978), de Walter Hill. Com Ryan O”Neal, Bruce Dern e Isabelle Adjani. 

  • Ânsia de amar

    Muitos filmes da Nova Hollywood (movimento que teve início em 1967 e se fortaleceu durante os anos 70) tocaram em temas espinhosos, considerados quase tabus pelo cinema. O diretor Mike Nichols praticamente deu o pontapé inicial no movimento e nesses temas polêmicos com A primeira noite de um homem (1967), história de um jovem de 21 anos que é seduzido pela esposa do sócio de seu pai, mulher de cerca de 40 anos.  

    O sexo também permeia a narrativa de Ânsia de amar. Jonathan e Sandy dividem o quarto na faculdade e passam parte da noite conversando sobre conquistas amorosas e sexuais. O machismo determina o tom das conversas. Quando os dois se apaixonam por Susan, a trama ganha ares de competição. 

    À medida que envelhecem, os amigos continuam trocando confidências, incluindo agora desilusões amorosas, frustrações, aquilo que poderia ter sido. O final é perturbador, reflete as consequências na vida dos dois, principalmente de Jonathan, que se entregou por inteiro à sua condição de conquistador, essa espécie deplorável de predador que insiste em se pavonear pelas noites sem respeito algum pelas mulheres, pela sociedade. 

    Ânsia de amar (Carnal knowledge, EUA, 1971), de Mike Nichols. Com Jack Nicholson (Jonathan), Arthur Garfunkel (Sandy), Candice Bergen (Susan), Ann-Margret (Bobbie). 

  • Alô, Dolly!

    Dolly Levi chega a Yonkers para arranjar o casamento do rico comerciante Horace Vandergelder. A ideia é casar Horace com Irene Molloy, dona de uma loja de chapéus em Nova York. O  que Horace não sabe é que a casamenteira tem outros planos e, durante um dia e uma noite em Nova York, série de encontros vai mudar os rumos do arranjo.

    Com direção de Gene Kelly, Alô, Dolly! é exuberante do início ao fim. Os figurinos, a direção de arte, as cores, tudo tem o tom extravagante, principalmente as sequências dentro do restaurante de luxo. Destaques para a coreografia dos garçons na dança que começa na cozinha e invade o salão; para a participação de Louis Armstrong na bela canção título; para Barbra Streisand com figurinos adoravelmente cafonas.

    Alô, Dolly! (Hello, Dolly!, EUA, 1969), de Gene Kelly. Com Barbra Streisand (Dolly Levi), Walter Matthau (Horace Vandergelder), Michael Crawford (Cornelius Hacki), Marianne McAndrew (Irene Molloy), Danny Lockin (Barnaby Tucker), E. J. Peaker (Minnie Fay), Joyce Ames (Ermengarde), Tommy Tune (Ambrose Kemper).