15H17 – Trem para Paris

O diretor Clint Eastwood fecha espécie de trilogia baseada em atos heroicos perpetrados por soldados e pessoas comuns, incluindo Sniper Americano e Sully: o herói do Hudson. A história na qual se baseia 15H17 – Trem para Paris aconteceu em 2015, quando um marroquino aterrorizou os passageiros de trem que ia de Amsterdã para Paris. Três amigos americanos à bordo impediram a tragédia e foram saudados como heróis por autoridades e pela população. 

Clint Eastwood escalou os próprios salvadores para interpretarem seus papéis no filme. A primeira parte da trama narra a relação de amizade entre os três no colégio, depois os caminhos separados que seguiram até o encontro em uma viagem pela Europa. Nesse ponto, embarcam no trem e protagonizam o combate contra o terrorista. O mérito do filme está em colocar atores não profissionais vivendo suas próprias odisseias, sem a exigência de interpretação. É quase uma reconstituição registrada pelas câmeras, sem grandes sequências de ação, pois dentro do trem quase tudo foi movido pelo acaso. Não é o melhor de Clint Eastwood, mas o diretor continua com seu olhar clássico para o cinema.  

15H17 – Trem para Paris (The 15:17 to Paris, EUA, 2018), de Clint Eastwood. Com Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Spencer Stone. 

Operação Red Sparrow

A narrativa segue os clichês do gênero: Dominika (Jennifer Lawrence), bailarina promissora, é recrutada por serviço secreto russo para se tornar agente especial, na verdade assassina profissional bem ao estilo Nikita. Em uma missão, Dominika conhece Nathaniel Nash (Joel Edgerton),  agente da CIA. Os dois assumem relação movida a paixão, riscos, revelações e traições. Em meio aos clichês e sequências de assassinatos violentos, sobra a sensualidade de Jennifer Lawrence, em ousadas cenas de sexo e nudez. O final do filme reserva virada surpreendente. 

Operação Red Sparrow (Red Sparrow, EUA, 2018), de Francis Lawrence. Com Jennifer Lawrence, Joel Edgerton, Charlotte Rampling, Matthias Schoenaerts. 

Atômica

Charlize Theron é o destaque da trama, protagonizando cenas de pancadaria nas quais bate e apanha à vontade (ela mesma gravou as cenas) e desfilando erotismo, com direito a ousada cena de sexo com Sofia Boutella. 

Lorraine Broughton (Charlize Theron) é agente do MI6. Ela é enviada sob disfarce para Berlim para investigar o assassinato de um oficial e resgatar lista de agentes duplos. O ano é 1989, às vésperas da queda do muro de Berlim. Como toda boa trama de espionagem, a narrativa é carregada de ação, surpresas, traições, assassinatos inesperados, enfim, tudo a que o espectador almeja ao sentar na cadeira diante deste gênero. Atômica está um passo acima devido, claro, à atriz que já conquistou seu Oscar e lugar no olhar dos cinéfilos. 

Atômica (Atomic blonde, EUA, 2017), de David Leitch. Com Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman, Eddie Marsan, Sofia Boutella. 

Tomb Raider: a origem

Alicia Vikander é das grandes atrizes do cinema contemporâneo, oscilando entre produções independentes e de entretenimento puro. Caso de Tomb Raider: a origem, baseado no reboot do jogo, lançado em 2013. 

Lara Croft sofre com o desaparecimento do pai, renega a fortuna da família e vive seu cotidiano de labuta com problemas pessoais, financeiros. Quando descobre um mapa escondido na mansão da família, parte para uma misteriosa ilha, tentando resolver o mistério do desaparecimento do pai. A jovem inexperiente se defronta com exploradores cruéis, seres míticos, armadilhas mortais em um templo milenar. 

O roteiro é previsível, assim como as cenas de ação. Resta Alicia Vikander em ótima performance como heroína sem superpoderes, movida por dilemas humanos, descobrindo seu destino como Lara Croft. 

Tomb Raider: a origem (Tomb Raider, EUA, 2018), de Roar Uthaug. Com Alicia Vikander, Dominic West, Walton Goggins, Kristin Scott Thomas. 

Anon

Na primeira sequência, o detetive Sal Friedland anda pelas ruas de uma cidade futurista. O ponto de vista da câmera é subjetivo, o espectador acompanha o olhar do personagem cruzando com pessoas. A novidade é que o olho é literalmente a câmera: registra tudo em um chip implantado na mente. 

Anon parte de princípio fascinante: todas as pessoas têm câmeras implantadas, as imagens ficam gravadas, portanto, é simpls elucidar um assassinato, basta aos policiais acessar os registros da vítima e conferir se o criminoso foi visto. A virada acontece quando série de assassinatos acontece após um hacker conseguir inverter o ponto de vista no momento do crime, ou seja, a câmera registra pelo olhar do assassino. Anon, misteriosa mulher, cruza o caminho de Sal e coloca incertezas nos olhares de todos. 

O diretor Andrew Niccol é responsável por outras narrativas ambientadas em futuros distópicos: Gattaca – Experiência genética (1997) e O preço do amanhã (2011). Anon é o mais puro entretenimento neste universo, trazendo como adicional a marca do diretor: questões éticas, filosóficas, existenciais neste futuro não tão distante. 

Anon (EUA, 2018), de Andrew Niccol. Com Clive Owen, Amanda Seyfried, Colm Feore, Mark O’Brien. 

David Lynch: a vida de um artista

A ousadia conceitual e estilística de David Lynch despontou logo no primeiro filme, Eraserhead (1977). Seguiram-se obras impactantes, com a marca surreal, beirando o escatológico: O homem elefante (1980), Duna (1984), Veludo azul (1986), Coração selvagem (1990), Cidade dos sonhos (2001), a revolucionária série Twin peaks – os últimos dias de Laura Palmer (1992). 

O documentário David Lynch: a vida de um artista traça um retrato do lado menos conhecido do cineasta: suas incursões pela pintura. David Lynch conversa com a câmera em seu atelier nas colinas de Hollywood Hills, em Los Angeles, refletindo sobre seu processo criativo. Imagens de filmes caseiros reconstituem as origens de sua relação com a arte e depoimento instigante revela como as artes plásticas impulsionaram sua carreira de roteirista e diretor de cinema. Documentário imperdível para amantes do cinema, revelação das relações entre as pinceladas de Lynch e seu onírico mundo nas telas. 

David Lynch: a vida de um artista (David Lynch: the art life, EUA/Dinamarca, 2016), de Jon Nguyen.

Christopher Robin – Um reencontro inesquecível 

Voltar ao universo infantil, tema recorrente em produções contemporâneas, ganha conotações impactantes no mundo atual, dominado por adultos envoltos em dilemas existenciais, profissionais, adotando atitudes castradoras com os filhos, teimando em não deixá-los se entregar à fantasia. Christopher Robin – Um reencontro inesquecível, baseado na obra de A. A. Milne e E. H. Shepard, trata disso com melancolia e tristeza. 

O menino Christopher Robin brinca no Bosque dos cem acres com seus amigos de pelúcia (recriados digitalmente), entre eles Tigrão, Leitão, Bisonho e o comilão preguiçoso Ursinho Pooh. O lema é não fazer nada. O menino é enviado pelos pais para um internato. Corta para Christopher Robin na meia idade, envolto com crise profissional: a fábrica de malas onde trabalha precisa cortar custos, a saída imediata é demissão de funcionários. 

Christopher dedica todo seu tempo ao trabalho (deixou de lado há muito o lema e a lúdica infância ao lado de seus bichinhos), não tem tempo para a esposa e muito menos para a filha Madeline. Nesse turbilhão, o Ursinho Pooh aparece de novo em sua vida, arrastando Christopher para uma jornada em busca dos antigos amigos de pelúcia. 

O fascínio do filme está em remeter adultos a essa jornada em busca da infância, não para ser novamente criança, mas para entender como os princípios que regem o universo lúdico, fantasioso, mágico de meninos e meninas são importantes para relações pessoais melhores. Ninguém tem dúvidas de que o mundo viveria em paz e harmonia se todos o vissem com o olhar das crianças. 

Christopher Robin – Um reencontro inesquecível (Christopher Robin, EUA, 2018), de Marc Forster. Com Ewan McGregor (Christopher Robin), Hayley Atwell (Evelyn), Mark Gatts (Keith Winslow).

Hostis

A narrativa começa com clássica cena que representa a ideologia do gênero faroeste: família de rancheiros é massacrada por tribo indígena. Rosalie Quaid sobrevive após ver o marido e seus três filhos serem assassinados pelos índios. Corta para o Capitão Joseph Blocker assistindo com tranquilidade seus oficiais espancando alguns índios. Quando chega ao quartel, o Capitão recebe uma missão: levar o chefe Falcão Amarelo e sua família para reserva indígena. No caminho, Joseph encontra Rosalie. 

A jornada de militares, civis e índios pelo território selvagem representa os caminhos que a sociedade americana precisou empreender para sua formação. A jornada é marcada por confrontos violentos à mão armada, expondo a natureza preconceituosa, desumana e assassina dos caminhantes. Christian Bale compõe seu personagem com amargura, desilusão, depressão latente que se traduz em comportamentos ora carinhosos, ora violentos e assassinos. 

Hostis (Hostilis, EUA, 2017), de Scott Cooper. Com Christian Bale (Capitão Joseph Blocker), Rosamund Pike (Rosalie Quaid). Wes Studi (Chefe Falcão Amarelo), Jesse Plemons (Sargento Kidder).

Feito na América

Certas histórias reais são mais surpreendentes que o mais surpreendente roteiro. É o caso da vida de Barry Seal (Tom Cruise), piloto de avião comercial em crise financeira. Ele é recrutado pela CIA para registrar imagens aéreas da Colômbia, vira traficante de drogas a serviço do Cartel de Medellín, é convencido a fazer papel de agente duplo pelo DEA (departamento que combate o tráfico de drogas nos Estados Unidos). Para completar, o piloto se envolveu no escândalo Irã-Contras durante o governo Reagan: armas que seriam vendidas ao Irã foram desviadas para financiar o treinamento dos Contras, milícia que combatia o governo Sandinista na Nicarágua. 

O diretor Doug Liman conta esta complexa história com altas doses de aventura e ousadas sequências no avião pilotado por Barry Seal. Tom Cruise compõe um personagem que vive no limite, vai da crise financeira ao enriquecimento fácil, à falência e precisa lidar com ameaças vindas de todos os lados. O final deste personagem, claro, não poderia ser feliz. 

Feito na América (American made, EUA, 2017), de Doug Liman. Com Tom Cruise, Domhall Gleeson, Sarah Wright, Caleb Landry Jones. 

Depois daquela montanha

É a tradicional história de sobrevivência, da luta dos humanos contra a natureza incremente. A jornalista Alex e o cirurgião Ben se encontram no aeroporto e são surpreendidos com o cancelamento do voo. Eles precisam chegar ao destino com urgência: a jornalista porque está com casamento marcado e o médico para realizar uma cirurgia de emergência. Os dois decidem fretar um pequeno avião e a nevasca nas montanhas provoca a queda. Alex, Ben e um cachorro labrador sobrevivem, resta ao trio caminhar pela neve, enfrentando os perigos da natureza fria e selvagem. 

A trama segue os desafios da jornada e abre espaço para o crescente relacionamento amoroso dos protagonistas. A força do filme está no talento de Kate Winslet e Idris Elba, dois grandes atores que seguram a narrativa.

Depois daquela montanha (The mountain between, EUA, 2017), de Hany Abu-Assad. Com Kate Winslet (Alex), Idris Elba (Ben).