Eu sou Ingrid Bergman

Eu sou Ingrid Bergman (Jag är Ingrid, Suécia, 2015), de Stig Bjorkman, merece lugar de honra nos documentários sobre o star-system de Hollywood. A narrativa parte de cartas escritas por Ingrid Bergman e imagens caseiras que a atriz fazia, pois tinha sempre consigo uma câmera de cinema. Os depoimentos ficam por conta da filha Pia, do primeiro casamento, e de Roberto, Ingrid e Isabella Rossellini, filhos de Ingrid Bergman com Roberto Rossellini. Amigos da atriz também contam passagens íntimas da vida desta musa do cinema.

Os filhos não poupam a mãe, revelando com sinceridade a sensação de abandono que sentiram durante toda a vida, pois os compromissos de trabalho e a vida amorosa de Ingrid sempre a afastava. Pia é quem mais sofreu, pois quando Ingrid se mudou para a Itália para viver com o diretor Roberto Rossellini, ficou nos EUA morando com o pai.

Emocionantes, os relatos e as imagens revelam uma Ingrid determinada e, às vezes, frágil. A mulher que luta para continuar atuando, razão, segundo ela, de sua vida, enfrentando o preconceito da época e a mídia feroz, que não perdoava suas escolhas amorosas. Sobre o cinema, reservo um espaço neste post para um depoimento de Ingrid sobre o seu trabalho com Ingmar Bergman no filme Sonata de outono (1978). Duas lendas do cinema, atriz e diretor, em conflito e entendimento, buscando a essência da sétima arte.

“Quando minha filha toca piano, há um close em mim. A mãe observa a filha. A única coisa que eu tinha que fazer ela vê-la tocar. Depois de algumas tomadas Ingmar veio me dizer: ‘Sobre o que está pensando?’. Eu disse: ‘Estou pensando que a coitadinha da minha filha nunca soube tocar piano, não é mesmo? Escutei um pequeno erro. Mas tudo bem, ela está tocando. Ah, não está bom.’

“Ele disse: ‘Você está pensando errado. Ela não está nem ouvindo a filha tocar. Já sabe que a filha não é pianista. Ela só a observa e lembra de quando era menina,  correndo pelo gramado de sua mãe feliz. Esperando o abraço da filha.’ Ele me fez pensar de uma maneira totalmente diferente. Isso é o que um bom diretor sabe fazer. Ele dá a você um pensamento para que possa projetá-lo.”

Lumière! A aventura começa

Os irmãos Louis e Auguste Lumière passaram para a história como os inventores do cinema. Em 28 de dezembro de 1895, exibiram em uma sala de Paris dez filmes curtos. Os Irmãos já haviam inventado o cinematógrafo, dispositivo que fotografava e exibia filmes. 

A famosa exibição, com venda de ingressos, em espaço fechado, com cadeiras, tela e o consagrador facho de luz, inaugura também a sala de cinema como conhecemos. É nesta exibição que, conta a lenda, espectadores se assustaram e abandonaram o recinto em correria quando viram um trem chegando na estação (A chegada do trem na estação de Ciotat).

Jérôme Prieur, no documentário Roll on Cinema (França, 2011), acrescenta poesia a esta história: “Mas, em 1895, os Irmão Lumière roubam a cena, a ponto de todos esquecerem seus predecessores. Sem contar todos os nomes que eles ofuscaram (…). Todos jogados aos trilhos da história sob o trem do cinematógrafo Lumière. Chamar-se Lumière já é concorrência desleal.” 

Em Lumière! A aventura começa (Lumière! L’Aventure commence, França, 2016) Thierry Frémaux, diretor do Festival de Cannes, apresenta um lado não-reconhecido pela maioria dos historiadores sobre o trabalho dos Irmãos Lumière: o desenvolvimento da linguagem cinematográfica. O documentário, editado e comentado por Frémaux, reúne 108 filmes (Louis e Auguste rodaram cerca de 1.500 filmes com 50 segundos de duração), revelando que passo a passo os cinegrafistas inovaram, buscando ângulos, planos e movimentos de câmera, desenvolvendo a narrativa do cinema. Um filme registra imagens em travelling nos canais de Veneza; outros mostram planos detalhes de objetos, closes nos rostos de personagens. A saída dos Operários trabalha com profundidade de campo, uma carruagem surge do fundo e trafega atrás dos trabalhadores. Os curtas, restaurados, demonstram o cuidado dos cinegrafistas, dos Irmãos Lumière, com a composição, com a estética, ou seja, o cinema nasce como técnica e como narrativa com a força que o consagrou: a beleza das imagens.

O outro lado do vento

O filme abre com imagens do acidente de um carro, provocando a morte do diretor de cinema J. J. Hannaford (John Huston). Narrativa em flashback  reconstitui o último dia da vida deste renomado realizador que enfrenta problemas para concluir seu filme.

O outro lado do vento seria o último filme de Orson Welles, que faleceu em 1985 sem conseguir montá-lo. Foram cerca de 10 anos de filmagens, entre idas e vindas – sequências de cenas foram gravadas anos depois das primeiras tomadas. A finalização, patrocinada pela Netflix, é primorosa, fazendo jus à genialidade de Orson Welles.

As imagens envolvendo Hannaford e seu séquito, incluindo participações especiais de atores e diretores em uma festa, se alternam entre o preto e branco e cores deslumbrantes, com os ângulos de câmera inusitados de Orson Welles. No entanto, o primor estético está no filme dentro do filme. A história paralela centra no caminhar silencioso de dois belos jovens. A personagem de Oja Kodar seduz frame a frame o jovem e, a partir de determinado momento, caminha nua pelo filme. Para completar a beleza fotográfica, os jovens protagonizam uma das cenas de sexo mais eróticas da história do cinema, no banco de trás do Mustang que corta a noite chuvosa.  

O outro lado do vento (Other side of the wind, EUA, 2018), de Orson Welles. Com John Huston, Peter Bogdanovich, Oja Kodar, Susan Strasberg, Robert Randon.  

Operação skyfall

Em uma cena do filme Hitchcock (EUA, 2012), o produtor informa ao famoso diretor que estão querendo contratá-lo para dirigir Cassino Royale, baseado em livro de Ian Fleming. Hitchcock responde que já dirigiu um filme assim, se referindo a Intriga Internacional (1959).

Com Intriga internacional, Hitchcock praticamente lançou o estilo de filmes modernos de ação, influência direta para a série 007. Ainda no recente filme sobre o mestre do suspense, Hitchcock se depara com críticas considerando exagerado o final de Intriga internacional. Locações em várias cidades, um protagonista charmoso, perseguições mirabolantes e ações exageradas estão no filme de Hitchcock assim como em toda película de James Bond.

Operação skyfall (Skyfall, EUA, 2012), de Sam Mendes. segue a risca os clichês que fazem de James Bond um dos personagens mais cultuados do cinema. Mas há um aspecto que me incomoda desde Cassino Royale (2006): a seriedade carrancuda que Daniel Craig impôs ao personagem. A crítica saúda este estilo como a humanização de Bond. O agente agora está entregue à fragilidade diante de questões contemporâneas como terrorismo e tortura. Ele sofre física e psicologicamente como qualquer um de nós. Gosto mais do James Bond de Sean Connery e Roger Moore: irreverente, despretensioso, irresistivelmente charmoso, irretocável e não ligando a mínima para sofrimento ou a possibilidade da morte.

Parte desta crítica também elegeu Skyfall como o melhor filme de toda a série, exagero. O filme tem uma sequência final das mais belas, estética fascinante das terras geladas da Escócia combinada com ação envolvente. Mas de resto, é normal e despretensioso como qualquer outro Bond, com o agravante de uma solução comum de roteiro: o bandido que se deixa prender para entrar no QG do inimigo e depois empreender fuga espetacular.

A tecnologia cada vez mais avançada e as infinitas possibilidades de manipulação da imagem e dos efeitos fazem com que determinados filmes deste tempo se sobressaiam no quesito cenas espetaculares. A tendência é James Bond ficar mais e mais empolgante, mas isto não transforma os filmes recentes em melhores da série. O fato de um personagem mais humano muito menos, pois James Bond não é personagem comum.

Termino com a difícil lista dos meus filmes favoritos de 007, colocando, é claro, Intriga internacional de Hitchcock como hors concours.

007 contra a chantagem atômica (Thunderball, 1965) Terence Young

007 contra Goldfinger (Goldfinger, 1964) Guy Hamilton

007 contra o satânico Dr. No (Dr. No, 1962) Terence Young

007 o espião que me amava (The spy who loved me, 1977) Marvin Hamlisch

007 os diamantes são eternos (Diamonds are forever, 1971) Guy Hamilton

007 somente para seus olhos (For your eyes only, 1981) John Glenn

007 a serviço secreto de sua majestade (On her majesty’s  secret service, 1969) Peter Hunt

Vidro

O justiceiro David Dunn é preso e encaminhado a uma instituição psiquiátrica. No mesmo local, estão internados Vidro Elijah e Kevin, junto com suas 24 personalidades. O ousado roteiro de M. Night Shyamalan reúne os personagens de Corpo fechado e Fragmentado, cujos dons são estudados pela Doutora Ellie Staple. Cada um está enclausurado em um quarto com dispositivos que evitam o uso dos poderes. O problema é que Vidro tem um plano: colocar David e Kevin frente a frente em batalha épica.

M. Night Shyamalan encerra trilogia iniciada em 2000. James McAvoy continua com seu show particular na interpretação das diversas personalidades;  Bruce Willis interpreta um justiceiro contido e amargo; Samuel L. Jackson é o retrato da personalidade fechada em si mesma, pronta para explodir a qualquer momento. O universo dos quadrinhos é homenageado mais uma vez. 

Vidro (Glass, EUA, 2019), de M. Night Shyamalan. Com James McAvoy (Kevin), Bruce Willis (David Dunn), Samuel L. Jackson (Vidro Elijah)., Saraha Paulson (Ellie Staple).

A longa caminhada de Billy Lynn

Guerra do Iraque. O jovem soldado Billy Lynn tenta salvar o Sargento Dime de um ataque inimigo nas ruas da cidade, se confrontando sozinho com guerrilheiros iraquianos. O ato é registrado pelas câmeras de um fotógrafo, Billy Lynn é considerado herói e vira celebridade nos EUA. Para homenagear a equipe Bravo, regimento da qual o soldado faz parte, o presidente Bush organiza recepção durante um jogo de futebol americano.

A longa caminhada de Billy Lynn narra este único dia na vida dos soldados: primeiro o encontro de Billy com sua família, depois no estádio de futebol. Flashbacks reconstituem as memórias e sensações do soldado herói no Iraque.

O diretor taiwanês Ang Lee compõe uma peça crítica e melancólica dos jovens sem rumo após os ataques de 11 de setembro, praticamente forçados à guerra contra o terror (Billy Lynn é obrigado pelo pai a se alistar para fugir da acusação de delinquência juvenil). A câmera no rosto de Billy em vários momentos constrangedores das homenagens no estádio, depois entrando nas memórias da guerra do Iraque, alertam para este país centrado nas aparências, nos devaneios midiáticos. Aos soldados cabe apenas se amparar uns nos outros, como na simbólica sequência final dentro da gigantesca limusine.

A longa caminhada de Billy Lynn (Billy Lynn’s long halftime walk, EUA, 2016), de Ang Lee. Com Joe Alwyn (Billy Lynn), Kristen Stewart (Kathryn), Garret Hedlund (Dime), Vin Diesel (Shroom).

A cordilheira

Hotel na Cordilheira dos Andes, Chile, sedia a cúpula de presidentes dos países da América do Sul e da América Central. O objetivo é criar organização para exploração das reservas de petróleo na região. Oliveira Prete, presidente do Brasil, é o influente líder, pois o país concentra grande parte das reservas e detém a maior empresa petrolífera. 

A cordilheira concentra a narrativa na cúpula, com a trama centrada em Hernán Blanco, presidente da Argentina. Homem comum, alçado à presidência após governar pequena província do país, Blanco é o curinga das negociações que envolve o inescrupuloso presidente mexicano e os interesses dos americanos em controlar a exploração do petróleo em todas as Américas.

Um mistério do passado do presidente argentino pontua a narrativa quando entra em cena Marina, filha de Hernán Blanco. Os problemas psicológicos de Marina apontam para questões do passado que podem ou não ter acontecido. Na cúpula, a trama aponta para jogos de interesses, negociatas e interesses políticos determinados pelo poderio econômico.   

A cordilheira (La cordillera, Argentina, 2017), de Santiago Mitre. Com Ricardo Darín (Hernan Blanco), Dolores Fonzi (Marina), Oliveira Prete (Leonardo Franco), Erica Rivas (Luisa Cordero). 

A esposa

Filme abre com o casal Joan e Joe Castleman recebendo ligação informando que o escritor Joe receberá Prêmio Nobel de Literatura. A trama narras os conflitos do casal, envolvendo o filho também escritor, durante a viagem para receber o prêmio. 

Glenn Close foi indicada ao Oscar de melhor atriz e praticamente carrega o filme. A princípio, os conflitos indicam traumas em família: a infidelidade de Joe, a frustração do filho escritor que sente a sua literatura desprezada pelo pai, a necessidade de afirmação de Joan diante do sucesso do marido. A entrada em cena do jornalista disposto a escrever a biografia do escritor provoca a virada do roteiro, pois Joan pode esconder segredo relacionado a autoria dos textos literários de Joe. 

A esposa (The wife, EUA, 2017), de Bjorn Runge. Com Glenn Close (Joan Castleman), Jonathan Pryce (Joe Castleman), Christian Slater (Nathaniel Bone), Max Irons (David Castleman). . 

Todos já sabem

O diretor iraniano Asghar Farhadi (dos premiados A separação e O apartamento) reúne elenco de peso em Todos já sabem. A narrativa parte da chegada de Laura e seus dois filhos, vindos da Argentina, ao seu povoado natal na Espanha para as festividades do casamento de sua irmã.

O casamento reúne a grande família, amigos de infância, entre eles Paco, ex-namorado de Laura. É o típico filme de drama familiar movido a ressentimentos do passado, amores deixados para trás e segredos perturbadores. A virada da trama acontece na noite do casamento, forçando Laura e Paco a se defrontarem com o segredo que todos já sabem. O cinema de Asghar Farhadi aborda esses universos particulares carregados da complexidade humana; tramas concentradas em pequenos ambientes familiares que dialogam com a cultura de cada país. 

Todos já sabem (Todos lo saben, Espanha, 2018), de Asghar Farhadi. Com Javier Bardem (Paco), Penélope Cruz (Laura), Ricardo Darin (Alejandro), Eduard Fernández (Fernando).

Uma quase dupla

A investigadora Keyla chega à cidade de Joinlândia para elucidar crime que se anuncia como a primeira investida de um serial killer. Sua dupla de trabalho é Cláudio, morador da cidade. Enquanto os crimes acontecem, Keyla e Cláudio enveredam por trapalhadas típicas do gênero comédia de duplas de policiais. 

Tatá Werneck é a estrela do filme, proporcionando momentos engraçados bem ao seu estilo de disparar diálogos como metralhadora. Cauã Reymond faz o estilo policial galã, preocupado em tingir os cabelos e posando para o espelho. O roteiro não ajuda os atores, os clichês se sucedem crime a crime. Resta ao espectador se entregar ao carisma dos protagonistas. 

Uma quase dupla (Brasil, 2018), de Marcos Baldini. Com Tatá Werneck (Keyla), Cauã Reymond (Cláudio), Ary França (Moacyr), Alejandro Claveaux (Augusto).