Categoria: Anos 90

  • Festa de família

    O cenário é uma mansão no campo, propriedade de Helge, que organiza uma festa para celebrar seu 60° aniversário. Os principais convidados são os três filhos do casal: Christian, Michael e Helene. Completam a celebração, familiares vindos de todas as partes da Dinamarca. Durante um almoço na imensa mesa, repleta dos convidados, o filho mais velho faz uma revelação bombástica que vai abalar as relações familiares. 

    Festa de família é o primeiro filme lançado sob o manifesto Dogma 95, liderado pelos cineastas dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier. O movimento, uma espécie de repúdio à manipulação, favorecida pelas tecnologias digitais,  determinava práticas como: filmagens em locações,  câmeras na mão, som direto, não utilização de efeitos especiais, ausência de trilha sonora a não ser que fizesse parte do ambiente. 

    “Filmado com as menores e mais leves câmeras de vídeo então disponíveis, Festa de família é a crônica de batalhas familiares amargas e violentas que se desenrolam em uma casa de campo na qual o aniversário de 60 anos do patriarca está sendo comemorado pouco tempo após a irmã gêmea do filho mais velho ter cometido suicídio. As formas extremas de comportamento agressivo que emergem desde o início e o estilo dos cortes rápidos e crus de Vinterberg disfarçam o fato de que este filme é, na verdade, uma peça bem escrita, desempenhada e dirigida de psicodrama em vez do experimento revolucionário que dizia ser. Mas a incrível força dramática originária do desvelamento gradual de segredos de família eventual e justificadamente acaba nos envolvendo.”

    Festa de família (Dinamarca, 1998), de Thomas Vinterberg. Com Ulrich Thomsen, Henning Moritzen, Thomas Bo Larsen, Paprika Steen, Birthe Neumann.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • A estrada perdida

    A estrada perdida (Lost highway, EUA, 1997), de David Lynch, começa como um tradicional filme de suspense. Fred Madison (Bill Pullman é um saxofonista de jazz que vive em Los Angeles com sua esposa Renee (Patricia Arquette). O casal começa a receber fitas de vídeo com imagens do exterior e do interior da casa onde moram, uma demonstração clara de que estão sendo vigiados. A polícia é acionada, mas nada se descobre. Quando Fred imagina que sua esposa pode estar em um caso extraconjugal, relacionado às fitas, a narrativa envereda por um thriller violento e surrealista, bem ao estilo David Lynch, 

    A película pode ser dividida em duas histórias, ambas com as características do cinema noir, incluindo as femme fatalles, e trocas de idenditades surrealistas, algo como as narrativas distópicas cujos universos paralelos trocam de posições. 

    A frase de David Lynch “os sonhos não têm lógica, mas nós os entendemos” se adapta às complexas personalidade de Fred/Pete. Medos e desejos reprimidos, sonhos em múltiplas visualizações, mistérios insondáveis da natureza humana, a narrativa e a estética da trama desconexa exigem do espectador uma imersão sensorial em todos esses devaneios lynchianos. 

  • Ondas do destino

    Ondas do destino (Dinamarca, 1996), de Lars von Trier.

    Bess (Emily Watson) vive em uma pequena comunidade litorânea da Escócia, cuja sociedade segue preceitos religiosos rígidos e ortodoxos. Bess desperta de sua ingenuidade e inocência quando conhece Jan (Stellan Skarsgard), trabalhador de uma plataforma de petróleo no oceano. A paixão entre os dois encaminha um rápido casamento. No entanto, um acidente muda o destino dos protagonistas e Bess é motivada a uma espécie de jornada em busca de uma fé salvadora. 

    Ondas do destino faz parte do movimento Dogma 95, fundado por Lars von Trier e Peter Vinterberg. A abordagem realista é intensificada por um estilo visual quase documental, uso de câmera na mão e iluminação natural. A narrativa é dividida em sete capítulos, cada um introduzido por uma vinheta de canções dos anos 70. A relação entre Bess e Jan é o ponto forte da trama, movida a intensas relações sexuais, seja fisicamente ou completamente na imaginação. 

    Ondas do destino foi indicado a diversos prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Atriz para Emily Watson. É um filme perturbador, com uma virada de roteiro final que provoca as crenças religiosas. 

  • Os idiotas

    Os idiotas (Dinamarca, 1998), de Lars von Trier.

    Em 1995, os cineastas dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg criaram o Dogma 95 através de um manifesto. O movimento surgiu como uma represália às tecnologias digitais que já dominavam parte da cinematografia dominante. O manifesto defendia um cinema puro, sem interferências da pós-produção.

    As principais regras do Dogma 95: filmagens em locação, uso de som direto, câmera na mão, somente filmes coloridos, proibição de truques ópticos e filtros, nenhuma ação superficial (assassinatos e usos de armas), a narrativa deve se passar no tempo presente – sem saltos temporais ou espaciais, filmes de gênero não são aceitáveis, o diretor não pode ser creditado e o formato utilizado deve ser 35 mm. Os dois filmes mais famosos do movimento, que durou cerca de 10 anos, são Festa de Família (1998), de Thomas Vinterberg e Os idiotas (1998), de Lars von Trier. 

    O diretor dinamarquês concebeu Os idiotas como parte da trilogia Golden Heart, composta também por Ondas do destino (1996) e Dançando no escuro (2000).  A trama é banal e provocativa: um grupo de jovens adultos formam uma comunidade que se dedica a uma prática chamada de “espalhamento”. Os jovens fingem ser deficientes mentais e provocam ações em lugares públicos que chegam ao limite da repulsa. O objetivo é desafiar as normas sociais, impondo a liberdade pessoal.  

    O filme foi recebido cercado de polêmicas que variavam entre os elogios pelas inovações técnicas narrativas e as críticas pelo uso apelativo de situações constrangedoras. Atenção para a sequência na casa de Karen (Bodil Jørgensen), durante um almoço em família, quando ela é desafiada a se portar como uma demente.

  • Europa

    O americano Leopold Kessler chega a Frankfurt logo após o término de Segunda Guerra para trabalhar como condutor de uma grande empresa ferroviária. A Zentropa está nos planos dos americanos para reconstruírem o sistema de transporte alemão. No entanto, os trens são atacados por um grupo de nazistas, conhecidos como Lobisomens. 

    Europa fecha a trilogia de Lars von Trier de tramas ambientadas no continente, os outros são Elemento de um crime (1984) e Epidemia (1987). Kessler é um jovem idealista que sonha em ajudar na reconstrução da Alemanha. Ele se envolve com a bela e sedutora Katharina, filha do dono da Zentropa, que o envolve num perigoso jogo entre os americanos e os simpatizantes nazistas. 

    A enigmática narração em off guia Kessler e, consequentemente, o espectador na trama. A narração é quase um transe hipnótico, misteriosa e envolvente.  A claustrofobia das cenas noturnas durante as viagens dos trens remetem a uma Europa sem rumo, reforçada pela exuberante fotografia em preto e branco, que em alguns momentos se mescla com cores (atenção para a montagem da sequência do casamento) claramente com referências do cinema noir. O filme conquistou três prêmios no Festival de Cannes, incluindo o Prêmio do Júri, e colocou Lars von Trier no foco internacional. 

    Europa (Dinamarca, 1991), de Lars von Trier. Com Jean-Marc Barr (Leopold Kessler), Barbara Sukowa (Katharina Hartmann), Udo Kier (Lawrence Hartmann), Jorgen Reenberg (Marx Hartmann).

  • Madadayo

    O último filme de Kurosawa pode ser visto como um olhar do diretor sobre a finitude de sua própria vida. Hyakken Uchida (Tatsuo Matsumura) é um professor que se aposenta no início da década de 40 para se dedicar à literatura. Ele aluga uma bela casa que logo é bombardeada, durante a segunda guerra mundial. Sem recursos, se muda para um casebre de um único ambiente, onde passa a viver com sua mulher. Seus ex-alunos o visitam com frequência, reverenciam o professor com paixão e entusiasmo. Anualmente, os ex-alunos promovem encontros, primeiro na casa do professor, depois em salões de festas, regados a bebidas, cantoria e dança. 

    Madadayo é um grito entoado pelo professor em cada encontro, cujo significado remete a “ainda não”, um manifesto contra a morte que se aproxima ano a ano. O filme entrelaça um tom de comédia e dramaticidade. O final sensível e terno, resgata a palavra Madadayo da infância do professor, quando a vida no Japão era um idílio de brincadeiras infantis, o contraste cruel com a velhice vivida durante e no pós-guerra. 

    Madadayo (Japão, 1993), de Akira Kurosawa. Com Tatsuo Matsumura, Hisashi Igawa, George Tokoro, Masayuki Yui. 

  • Rapsódia em agosto

    Rapsódia em agosto (Hachigatsu no rapusodi, Japão, 1991), de Akira Kurosawa.

    No seu penúltimo filme, Kurosawa (com 81 anos) volta seu olhar para o passado atormentado do Japão contemporâneo. Em uma simples e bela casa nas montanhas, próxima a Nagasaki, a idosa Kane (Sachiko Murase) recebe seus quatro netos adolescentes para passarem juntos as férias de verão. Ela conta histórias para os netos sobre seus irmãos, sempre pontuadas por passagens assombrosas, sobre seu marido, sobre ela mesma, histórias com um ponto em comum: a explosão da bomba atômica em Nagasaki, que ela presenciou, no dia 9 de agosto de 1945.  

    Os netos visitam os monumentos erguidos em lembrança à tragédia, vão à escola onde o avô deles morreu vítima da explosão, remoem sentimentos contraditórios sobre os EUA, mas são apaziguados pela avó que diz: “a culpa é da guerra.” 

    Kurosawa recebeu críticas à época do lançamento do filme em Cannes, principalmente nos EUA, motivadas pelo pedido de desculpas do americano Clark (Richard Gere) em visita à sua tia Kane em Nagasaki. A força do filme está na relação entre netos e avô, nas lembranças, na ternura que nasce mesmo após tragédias tão inacreditáveis na história da humanidade.

    O belo final, a corrida trôpega dos netos na chuva, perseguindo a avó que acredita estar revivendo o dia da bomba, filmada em câmera lenta na chuva, é quase um testamento do cinema contemplativo e reflexivo de Akira Kurosawa. 

  • Nível cinco

    A batalha de Okinawa foi uma das mais sangrentas do final da Segunda Guerra Mundial, agravada devido ao suícidio coletivo praticado por grande parte da população japonesa da ilha. Chris Marker se debruça sobre esse triste episódio em filme que transita entre o documentário, a ficção, a tecnologia interativa e os jogos de videogame.

    Laura (Catherine Belkhodja), programadora de computador, é contratada para construir um jogo de computador tendo como tema a Batalha de Okinawa. Enquanto ela desenvolve a narrativa, uma profusão de imagens, simulando realidades interativas, invadem a tela. As entrevistas que a programadora promove, entram como depoimentos, entre eles do diretor Nagisa Oshima. 

    Um momento de Nível Cinco é mais aterrador do que qualquer cena real da batalha: um padre, já idoso, narra como ele e o irmão mataram a própria mãe, atendendo aos pedidos dos militares japoneses: sacrificar as crianças e os mais velhos e depois cometer suícidio.

    Uma das teorias difundidas é que as bombas de Hiroshima e Nagasaki não teriam acontecido se os militares em Okinawa tivessem aceitado os termos de rendição impostos pelos americanos. O saldo final de mortos da batalha gira em torno de 350 mil pessoas (cerca de 130 mil civis). Até quando cineastas como Chris Marker vão precisar alertar a humanidade sobre a estupidez desumana das guerras?

    Nìvel cinco (Level five, França, 1997), de Chris Marker.

  • O estrangeiro

    O canto do cisne do aclamado diretor Satyajit Ray é um tratado filosófico e humanista sobre as relações familiares. O filme é adaptado de um conto escrito pelo próprio diretor. 

    Anita Bose é casada com Sudhindra, um próspero industrial indiano. O casal tem um filho adolescente, Satyaki. A trama abre com Anita lendo para seu marido e filho a carta que acabou de receber de seu tio Mitra, desaparecido há mais de vinte anos. O tio pede que a sobrinha o receba para uma visita de uma semana. No entanto, pairam dúvidas sobre a identidade deste tio desconhecido. 

    A narrativa é centrada neste núcleo de quatro personagens, tendo como cenário a casa da família Bose. Mitra se revela, pouco a pouco, um homem fascinante, de vasta cultura adquirida em suas viagens pelo mundo. O jovem Satyaki é o primeiro a acreditar que tem um tio-avô, não escondendo sua admiração pelo contador de histórias. Cabe a Mitra vencer, passo a passo, a resistência de sua sobrinha e, principalmente, do patriarca da família. 

    O grande trunfo da narrativa são os diálogos intimistas e filosóficos que se transformam, muitas vezes, em longos debates sobre religião e misticismo, sobre tribos indígenas, sobre a injusta sociedade de castas indianas. Mitra é um personagem cético em relação à humanidade. Ele busca sentido para a vida estudando as tribos primitivas de várias partes do mundo. O final é terno e encantador, aponta o desprendimento necessário para se entregar aos pequenos sentimentos entre família.   

    O estrangeiro (Agantuk, Índia, 1991), de Satyajit Ray. Com Utpal Dutt (Manomohan Mitra), Dipankar Dey (Sudhindra Bose), Mamata Shankar (Anita Bose), Bikram Bhattacharya (Satyaki Bose).

  • Mulheres diabólicas

    Um dos diretores da primeira geração da nouvelle-vague francesa, Claude Chabrol sempre foi o mais apegado ao filme de gênero. Mulheres diabólicas é um thriller psicológico, regado a altas doses de violência. Sophie trabalha como empregada doméstica para Catherine em uma casa campestre. Ela desenvolve uma estranha amizade com Jeanne, funcionária dos correios local. Quando as duas começam a frequentar a casa, promovendo ruidosos e inconvenientes encontros, Catherine demite a empregada. 

    Isabelle Huppert é o destaque da trama, sua personagem se revela cada vez mais e mais perigosa, a princípio com ideias subversivas, em uma espécie de ajuste de contas entre classes. O violento final, com as duas amigas de cartucheiras em punho, é de revirar os sentidos do espectador. 

    Mulheres diabólicas (La cérémonie, França, 1995), de Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert (Jeanne), Sandrine Bonnaire (Sophie) Jacqueline Bisset (Catherine), Jean-Pierre Cassel (Georges), Virginie Ledoyen (Melinda), Valentin Merlet (Gilles).